As esquerdas, na sua proverbial cegueira, fingem que não sabem, pretendem que não entendem, que não é bem assim; algumas direitas(*), nas suas tamanquinhas, e de chinelos, como é costume desviam-se do essencial, dão corda aos argumentos idiotas do adversário.
Seria talvez inteligente determinar, em concreto, aquilo que se está a passar: e isto é, em resumo, e mais concretamente não poderia ser, desde 11 de Setembro de 2001, nem mais nem menos do que a III Guerra Mundial. Após algumas escaramuças mais ou menos localizadas, depois da queda do muro de Berlim e da concomitante implosão do "socialismo real" soviético, o Islão declarou guerra ao Ocidente, de forma expressa e liminar, atacando primeiro o território dos Estados Unidos da América - provocando este ataque cerca de 3.000 vítimas e avultadíssimos prejuízos materiais - e seguidamente o dos mais directos aliados daqueles, com acções de cariz militar na Grã-Bretanha e em Espanha - que provocaram igualmente centenas de baixas civis e estragos em proporção; simultaneamente, as forças armadas islâmicas atacaram também outros alvos estratégicos, politicamente cirúrgicos, um pouco por todo o mundo e em especial em países maioritariamente muçulmanos, como a Indonésia e a Índia; numa terceira frente, por sinal a mais antiga e primordial, as forças armadas islamitas combatem as ocidentais no Iraque e na Palestina, tentando sistemática e fundamentalmente eliminar o Estado de Israel.
Como única super-potência mundial, os Estados Unidos da América representam o papel de testa-de-ferro neste conflito e portanto, também pelo facto de pela primeira vez na sua História terem sido atacados no próprio território, são o país que lidera as forças combatentes ocidentais e aquele que mais efectivos e meios bélicos disponibiliza; numa relação directa e equitativa, são igualmente os cidadãos americanos, militares e civis, quem mais sofre e quem mais morre por causa desta guerra. Os países aliados, em coligação militar (como no Iraque), no âmbito da ONU ou integrados em organizações internacionais de Defesa (como a Nato), participam na medida das suas possibilidades no esforço de guerra, como é o caso, entre outros, e além dos já referidos Grã-Bretanha, Israel e Espanha, de nações tão diversas como a Itália, a Polónia, o Cazaquistão, a Austrália, a Roménia, El Salvador, a Tailândia ou... Portugal.
Num contexto de crispação causada, entre outros factores, pela ameaça da agressão nuclear por parte do Irão, da Coreia do Norte e do Paquistão, o Ocidente depara ainda com uma quarta e uma quinta frentes de guerra, respectivamente a diplomática e a mediática, sendo que, de resto, estas se ligam umbilicalmente e de forma por vezes indestrinçável: os media tendem a condicionar a opinião pública e esta, por sua vez, exerce a sua magistratura de influência democrática sobre o Poder instituído, condicionando por conseguinte os jogos de poder consubstanciados nas diplomacias nacionais. E nestes dois vectores (media-opinião pública e diplomacia) reside o maior obstáculo à execução dos planos de defesa militar delineados para as outras três frentes de combate, as de verdadeiro cariz militar e aquelas para as quais deveriam ser canalizadas todas as energias e recursos disponíveis.
Quando se fala de opinião pública, falamos obviamente da ocidental, porque não consta que semelhante coisa exista sequer na maioria dos países muçulmanos ou nas ditaduras comunistas residuais; ora, é precisamente esta mesma opinião pública ocidental - funcionando como quinta coluna do fundamentalismo islâmico e dos seus aliados, os comunistas que não aceitam a derrota nem os factos - que se constitui como verdadeiro inimigo interno do Ocidente; é a opinião pública ocidental, por regra manobrada e intoxicada pelos paladinos das "amplas liberdades" e outros ressaibados da e com a História, que veicula teorias paralisantes e, de certa forma, niilistas, com o objectivo óbvio de minar o moral das tropas e dos seus comandantes; é a opinião pública ocidental, com as suas estranhas dúvidas existenciais e os seus pruridos morais, em última análise, a principal responsável pelo arrastar indefinido desta III Guerra Mundial em que vivemos.
A opinião pública é legítima e aceitável em tempo de paz, quando todas as instituições e mecanismos de auto-regulação social funcionam; em tempo de guerra, enquanto rebentam bombas e as pessoas morrem aos milhares, debilitadas as estruturas do Poder e, por consequência, fragilizados ou radicalmente postos em causa os direitos individuais - sobrepujados ou esmagados pela emergência do poder militar -, os tempos não estão agora para opiniões e considerandos mas para acções e vozes, sim, mas de comando.
O Ocidente está a ser militarmente atacado, simbolicamente desde o dia 11 de Setembro de 2001, de forma sistemática e à escala global. Portanto, numa acção de legítima defesa, o Ocidente defende-se militarmente onde, quando e como for necessário, e mesmo contra-atacando se isso for estrategicamente conveniente - pela simples razão de que o contra-ataque é uma das acções de defesa mais comuns, desde sempre.
Como é evidente, os actos de guerra entre Estados não se resumem a manobras puramente militares, implicando também outras forças e medidas, como espionagem e contra-informação, vigilância e policiamento, logística e aprovisionamento, transportes e abastecimentos, etc. No caso vertente, em especial, na sequência aliás daquilo que sucede desde a década de 60 do século passado, existe um factor novo que torna exponencialmente mais complexo o próprio curso da guerra: já não se trata propriamente de uma guerra convencional entre Estados, mas uma guerra não declarada entre um conjunto de Estados, legitimamente constituídos, e uma rede difusa de movimentos terroristas sem fronteiras definidas, sem identidade concreta e sem qualquer estrutura reconhecível; é uma guerra de tipo único na História, na qual um dos lados combate um inimigo vago, que está em todo o lado mas não se encontra em lado algum, que existe de facto mas que se não pode atacar directamente porque não possui alvos dos quais dependa. Em termos de pura teoria bélica, nesta acepção, a III Guerra Mundial não poderá nunca ser vencida militarmente por um dos lados, já que ambos são beligerantes mas apenas um deles tem forças armadas e é constituído por nações organizadas; ou seja, um lado apenas ataca e o outro apenas se pode defender desses ataques, visto não ter onde ou o que atacar, ao certo. A única hipótese de que os países ocidentais, no seu conjunto, possam ganhar a guerra, é que o tempo - e o desgaste provocado por este - se encarregue de, à semelhança do que sucedeu com o sistema socialista, esvaziar de sentido o fundamentalismo islâmico e acabar por vencer pela exaustão a vontade e a motivação dos povos por ele dominados.
Entretanto, as forças ocidentais limitam-se a defender como podem os seus territórios, os seus cidadãos e o seu modo de vida, daquele inimigo sem pátria nem bandeira. E é precisamente neste ponto que entronca a referida dificuldade acrescida, o inimigo interno, a tal quinta coluna de opinião que faz objectivamente o jogo e serve exclusivamente os interesses do terrorismo, do fundamentalismo islâmico e dos seus aliados esquerdistas: com as suas "opiniões" capciosas, tendenciosas e obtusas, os fazedores de opinião entretêm-se alegremente numa cruzada pseudo-moralista que lança a confusão, desmoraliza quem está no terreno a combater, desmobiliza o cidadão comum, fragiliza as estruturas de Poder, enfraquece, em suma, o esforço de guerra em todas as suas vertentes.
Elevar à condição de inefável santidade os actos de guerra do inimigo, descobrindo motivações altruístas e humanitárias em quem apenas mata e destrói indiscriminadamente, constituiria certamente matéria suficiente para que os autores de tal absurdo fossem acusados de alta traição e, como seria normal em tempo de guerra e sob lei marcial, condenados à morte. Perorar sobre a legitimidade de todo e qualquer acto de defesa dos países ocidentais, clamando pelos direitos humanos de quem manifesta apenas desprezo por qualquer espécie de direitos e que excluiu do próprio conceito de humanidade quem não for muçulmano, é uma forma de traição, pura e simples. Questionar sistematicamente os procedimentos policiais, as medidas de segurança impostas, as acções de retaliação pontual e mesmo toda e qualquer manobra militar convencional, equivale a oferecer ao inimigo a motivação básica para justificar aquilo que de outra forma seria injustificável, ou seja, a sua sede de violência, a sua sanha alucinada, o seu fundamentalismo primitivo e desumano. Toda e qualquer "opinião" que sirva os interesses do inimigo é, por definição, um acto de traição. Traição esta que é tolerada, paradoxalmente, e passando absolutamente impune, apenas nas sociedades ocidentais e democráticas, as únicas onde existem liberdades individuais; em qualquer país ditatorial, seja de que tipo for, estes profissionais da conversa fiada seriam imediata e sumariamente fuzilados. Como sabe perfeitamente mas finge que não sabe quem enaltece a superioridade moral daqueles mesmos que os liquidariam sem pestanejar, caso pudessem ou, na pior das hipóteses, assim que pudessem.
Não se trata aqui de branquear a violência gratuita, a tortura de seres humanos, a terraplanagem administrativa e política dos direitos humanos mais básicos; de resto, é tudo isso mesmo que acontece, na prática, e mesmo em tempos de paz, nos países de ditadura islâmica, por decalque daquilo que sucedia (e sucede ainda) nas ditaduras socialistas. A questão reside no facto de estarmos em estado de guerra e não em tempo de paz. Como qualquer guerra, também esta (e, por motivos acrescidos, principalmente esta) representa um cortejo de horrores inimagináveis. Cabe decidir se é possível, se alguma vez foi possível, fazer guerra sem horror; se é possível combater o terror sem o horror. Ou isso, ou persistir na recusa da evidência, na espiral de negação dos factos.
Ou continuar a dizer, a escrever e a "achar" que não, que não se passa nada, que não estamos em guerra, que será quando muito um mal-entendido aqui ou ali; que os culpados "disto tudo" são os americanos, ou os ricos, ou o petróleo, ou o Tio Patinhas; que devemos é estar muito quietinhos enquanto os bons dos terroristas exercitam as suas artes pirotécnicas e outros números em nossa própria casa; que é maravilhosa, espantosa, fabulosa, a cultura da Sharia, a tal das "amplas liberdades" para ser morto à paulada, à pedrada, por empalamento, na forca ou a tiro, à escolha do freguês; que os maus da fita são "eles", os capitalistas, ou seja, nós mesmos, e que os bons são "os outros", os tais, os da santa aliança terrorista, comunista e socialista, cujo obscurantismo fica bem colorir, cujo medievalismo será por força modernizado; que a revolução, seja ela qual for, deverá avançar a todo o vapor e ficará num brinco assim que os amanhãs desatarem a cantar de novo, mas agora com a banda sonora exclusiva dos minaretes.
Enquanto continuar a lúdica tergiversação sobre o que se está a passar, toda a esquerda e alguma direita em suas reflexões e grandiloquências estéreis, o inimigo agradece, aproveitando o embalo e o remanso das certezas absolutas para afiar mais uma vez as suas simbólicas cimitarras e limpar suas mais maneirinhas e concretas Kalashnikov.
(*) Por "algumas direitas", depois de descontar falcões liberais e nazis folclóricos, entenda-se o "tipo" JCN: direita beata, satisfeitinha da vida, anti-tabagista, adepta ferrenha do iogurte magro com cereais.