Certo
O Presidente da República é uma figura política meramente decorativa, certo?
Votar ou não votar nesta coisada presidencial é rigorosamente indiferente, certo?
Seja qual for o inquilino do palácio de Belém, com aluguer por quatro (ou cinco?) anos, é totalmente igual ao litro, certo?
Mas enfim, a coisa é séria. Parece que o Cavaco pretende candidatar-se à casa agora com escritos, lá em Belém. Ora, isto é grave. Tudo menos Cavaco. Seja o que for, mas Cavaco nunca. Snoopy à Presidência, digamos, ora aí está uma alternativa credível. Todos os portugueses devem estar conscientes do perigo que se avizinha: Cavaco Silva é um labrego execrável, um ser-humano sem maneiras, um burgesso, cretino, boçal, idiota, oco, mesmo para Presidente. Pouco recomendável, em suma, para representar o papel de figurante inerente à função. A única coisa para que serve um Presidente da República Portuguesa é para não parecer mal, é não dar bandeira, como dizem os brasileiros, é saber posar para a fotografia e comportar-se como um cavalheiro nas cerimónias e no salão.
Cavaco Silva é a alma gémea de Luís Pereira de Sousa, é Júlio Isidro na mais alta magistratura, é a Manuela Moura Guedes em figura pública ou, horror dos horrores, perdoe-se-me a deprimente comparação, Cavaco é um Gabriel Alves mediático. Iachh! Ptuimmm! Que nojo.
Imaginemos nosso primeiro senhor em pleno palácio de Buckingham, por exemplo. É fatal que isso aconteça a qualquer Presidente, mais tarde ou mais cedo lá terá de ir sorver o seu cházinho ao pé da Tia Isabel. Agora imagine-se que a coisa não é em privado, como de resto manda o protocolo, e temos, sei lá, banquete de Estado, com a Rainha brit e mais umas centenas de ilustres conviados. Cavaco ao lado de Mandela, por exemplo, com o Presidente do Uzbequistão à esquerda. Imaginemos a hora de ser servido o "consommé". Os sorvos presidenciais devem ser audíveis no extremo oposto da mesa real, ou, sem grande esforço, para além das vetustas paredes basálticas do honorável palácio. Os aristocráticos pavões e garças reais fugirão, pela certa, espavoridos, com o tremendo cagaçal que S. Exa. produz no acto da deglutição. Cavaco não come, alarva; Cavaco não bebe, emborca. Cavaco é um suíno de alta escola, treinado para refocilar na gamela, mestre na arte de enojar os circunstantes. Um reco bípede, circunstancial e confusamente candidato ao mais alto e irrelevante cargo da nação.
Não hás-de ter o meu voto, camaradinha, te garanto. Prefiro o Santana, de longe, prefiro a vacuidade elegante, prefiro até o Guterres, prefiro, é incomparavelmente melhor um Presidente cobarde do que um Presidente sem olhos e sem carácter e sem educação.
É natural, de resto, que a esmagadora maioria dos portugueses não se aperceba dos vexames que tal figura pode acarretar; essa maioria esmagadora come e fala da mesma forma, escarra com a mesma virilidade para o chão, arrota profundamente e alivia os intestinos com parcimónia, mastiga como um varrasco esfomeado, assoa-se ruidosamente e investiga o resultado no lenço, examina criteriosamente os vestígios no papel higiénico, atira as cascas de pevides para o chão e "sandes" meio comidas pela janela da viatura; Cavaco é o paradigma português da música aos berros, dos meus direitos exclusivos, do vira virou; é chunga, é pimba, é o Mánuéu dos brasileiros, padeiro e vigarista, burro como um cepo; Cavaco é a Maria de bigode que abre as pernas em plena rua para mijar no chão. Cavaco é o estigma nacional da mediocridade triunfante, da estupidez promovida, da ignorância como valor fundamental e razão única de vida.
Eis mais uma ilustração daquilo que é a chamada democracia: uma maioria de matarroanos vai eleger um dos seus para nos representar a todos. Portanto, o meu voto contra não vai servir de nada. Logo, esse malcriado vai passar quatro (ou cinco) anos a envergonhar-me. Coisa que o nosso actual, Sampaio, nunca fez. Honra lhe seja feita.
A mulher de George Bush pai, Barbara, labrega assumida, beijou a mão ao marido da Rainha de Inglaterra, pondo o joelho em terra. Isto teve mais consequências políticas do que a ofensiva do Tet, umas décadas antes.
Cavaco Silva há-de um dia alarvar umas fatias de bolo-rei, outra vez, e em público. Isso vai ser absolutamente demolidor para a auto-estima nacional. A Pátria está em perigo, por causa das migalhas espalhadas e dos roncos pelas narinas. Tomem nota.
