Odi profanum vulgus et arceo
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06/01/07

Consultório sentimental - XXIV

Parole

(...) é uma mulher que é capaz de dizer as coisas mais bonitas deste mundo, coisas que me deixavam esmagado e a pensar que sou o maior pirata que existe, porque às vezes a tratava mal e, se calhar, não lhe dava o devido valor. E depois é isto, ou seja, nada. Não resta absolutamente nada dessas belas, lindas, emocionantes, definitivas palavras. Definitivamente nada. Acho que as mulheres falam assim como quem espirra; é um impulso, uma simples força da natureza, uma compulsão. Não significa nada, em suma. Nada, e nunca. Isto confunde-me, sabe?(..)
João M., Porto



Pois sei. Olá se sei. O Grande Gajo Lá De Cima equipou as mulheres não apenas com sexo e restantes adereços característicos e diferenciadores mas também com um aparelho vocal - e principalmente uma língua, salvo seja - daqui até ao Brasil. Não falemos porém da personalidade falatória e conversadeira, porque isso é sabido e conhecido, e atenhamo-nos antes à particularidade mais aborrecida para nós homens, consistindo esta na capacidade inata que a fêmea possui para debitar grandiloquências sem qualquer significado e sem a mínima importância.

Qualquer patego sabe que a "sua" gaja lhe dirá, mais tarde ou mais cedo, tudo aquilo que ele, patego, mais quer ouvir. Não existe mulher alguma que nunca tenha dito - a umas não desprezíveis dezenas ou, quem sabe, em alguns casos , até a largas centenas de gajos - coisas tão belas como "tu és o meu homem", ou "sou tua, quero ser tua, toda tua", ou ainda, um verdadeiro clássico, "nunca houve outro homem para mim, tu és único"; isto como tema, ou dando-lhe outras voltas, ou seja, com as respectivas variações, por certo não seria difícil constituir um acervo de lamechices muito razoável, em dimensão e em alucinação. Qual é o homem que nunca ouviu, pelo menos uma vez na vida, juras descabeladas de "amor eterno"? Quantos de nós não se julgarão ainda os maiores lá do bairro e arredores, pois que por via da insistência, da persistência de quejandos laudatórios encómios femininos? Escutamos até à exaustão coisas tão extraordinárias, a respeito de nós mesmos, que difícil se torna, quando não impossível, para nós ficar indiferente e seguir adiante. Elas sabem perfeitamente, está-lhes na massa do sangue, puxar-nos o lustro ao ego. É com isso, de resto, que ganham direito a uma série de extras, como umas quantas horas suplementares de sexo desenfreado, até porque nada é mais excitante para um homem do que ser reconhecido como tal; e, para esse efeito, nada melhor, evidentemente, do que uma mulher.

Enfim, caro J.M., somos levados à certa que nem uns pategos. Bem, nem sempre, mas geralmente. Quando levamos com a dose de paleio, parole, parole, parole, somos todos verdadeiros parolos. Vamo-nos abaixo das canetas. Gaja que nos ponha nos píncaros, com seu refinadíssimo béu-béu, garante para si umas belas de umas pinocadas e para nós a mais do que adequada dose de anestesia mental; ou seja, o elogio feminino funciona em duas vertentes, a saber, o incremento libidinoso do macho, por um lado, e a constituição de uma reserva de bovinidade no mesmo, para o futuro, por outro.

Todas as belas e "únicas" palavras que determinada mulher diz a um homem determinado são, de resto, determinantes para a táctica de guerrilha feminina, servindo exclusivamente para uma finalidade meramente prática: a conservação do statu quo que, naquele exacto momento, mais lhe interessa. E todas essas belas e "únicas" palavras já foram, são ou serão repetidas até à exaustão com um número proporcional de novos ou velhos destinatários. O mesmo é dizer, nada do que deste jaez uma mulher possa articular, seja em que ocasião ou circunstância for, possui o mais ínfimo significado ou o mais pequeno valor intrínseco. É aquilo que no millieu da prostituição se designa por conversa: "de encher" ou "falta de ar" ou ainda "para jogar fora"; isto é, como dizem as putas em sua genial clarividência, o que uma mulher diz a um homem, no acto de conversação amorosa, no ambiente de alcova e em horas mais hormonais, vale tanto como uma sandes de merda sem pão.

Ao amigo João tais coisinhas ainda vão fazendo confusão porque o amigo João ainda deve ser muito novinho. Mas descanse, porque também muito gajo velho e relho se derrete com esse tipo de patacoadas; há gente para tudo, como sabemos, e o que não falta por aí é gajos que adoram que lhes enfiem caca pelas orelhas abaixo; desde que a sua gajinha lhes sussurre umas palavrinhas melosas, de vez em quando, até não se importam nada de a levar a "sair com os amigos"... dela. Ou seja, a lógica é mais ou menos esta, lá na cabecinha do corno-manso-que-adora-que-lhe-batam-coiros: pois sim, vai lá, diverte-te, manda lá uns pirafos por aí com um gajo qualquer, tudo bem, mas antes, ó coisinha, se fáxabôri, diz-me umas palavrinhas jeitosas, assim, sei lá, meiguinhas e tal.

Por exemplo e amostra: que se chegue à frente a primeira que nunca gabou o tamanho do mangalho de seu momentâneo companheiro de brincadeiras.

Então? Nada? Ninguém se chega à frente? Pois, bem me parecia.

É preciso ser completamente imbecil ou, na melhor das hipóteses, menor de catorze anos, para cair em semelhante número. Todas as mulheres, talvez em resultado da fascinação natural que o órgão sexual masculino origina em suas imaginações delirantes, embasbaca para os ditos e por sistema lhes gaba as qualidades. Isso não tem nada de mais e não vale, como o resto, porra nenhuma. É só naquele momento, dado o entusiasmo que as assalta e que as põe a arfar de emoção. E que nunca viram tal coisa, ou uma coisa assim, e tal, e tal, e também que, pois sim, não é que tenham grandes termos de comparação, mas enfim, lá que é grandalhão, enorme, oh, oh, pois é, ai é, é.

Tretas. Bull shit. Quinze dias depois, quando não quinze minutos depois, a deslumbrada garota estará dizendo rigorosamente a mesma coisa a outro caramelo qualquer. E quem diz mangalho, ou caralho, que é uma coisa por assim dizer palpável, quiçá mensurável, sopesável e avaliável, diz cabelo, ou olhos, ou ombros, ou bíceps, ou outra merda qualquer; ou diz também outro tipo de características já não tão palpáveis, como a personalidade ou a bravura, ou ainda não mensuráveis, como o sorriso ou a dentadura, para já não ir mais longe, àquilo que de todo não se pesa nem se avalia, seja a inteligência seja a cultura livresca. Tudo serve para dar graxa ao cágado, para fazer inchar o sapo, desde que os objectivos primordiais sejam alcançados exclusivamente naquele momento, naquele lugar e com aquela pessoa. Depois, logo se verá quando, onde e com quem o processo se repetirá.

O que é grave e se pode de facto tornar chato, é em calhando a gente escutar tais lamechices e alarvidades da boca de alguém de quem desgraçadamente se gosta. Aí é que é a foda total. Um perigo. Porque, evidentemente, não é lá por a gente gostar dessa pessoa que ela deixa de ser uma mulher como as demais. Falou, fodeu. Depende da experiência ou, melhor dizendo, das experiências que um tipo teve, e da forma como as ditas marcaram o dito. É que há coisas que não se esquecem e, por mais agarrado que um homem esteja, sempre e para sempre transportará consigo, por debaixo da carapaça, todo o seu passado, todas as outras, coisas ditas e mulheres que as disseram. Existe uma espécie de lei universal para a linguagem do amor: o que se diz único e belo é sempre trivial e comum, mas não para quem ouve. Daí, pelo peso da tradição e pela tonelagem do sentido, ser normal no casal a expressão "mas o que é que tu queres dizer com isso?"

Geralmente, um homem utiliza uma espécie de servo-croata para se expressar, enquanto a mulher lhe responde em Mandarim; ou vice-versa, claro. O problema reside nas expressões-chave, precisamente aquelas que o elemento feminino debita por sistema e por desfastio, enquanto que o masculino é muito mais reservado e parcimonioso. É normal que um homem reserve para determinada pessoa uma expressão, um nome, um substantivo por si mesmo inventado, e que nunca mais o utilize com outra mulher; é uma espécie de deferência, de homenagem, de presente secreto e não expresso; ora, tal coisa é praticamente impossível até para a compreensão do mais elaborado cérebro feminino. A mulher utiliza a expressão verbal, e nomeadamente nas suas formas mais carinhosas, exactamente como quem faz palavras-cruzadas: para que encaixem umas nas outras e sirvam para alcançar um resultado final. Enfim, não as medem. É meia-bola e força.

Claro que depois dá nisto. Temos aqui nosso amigo João pior do que estragado (o resto da mensagem demonstra isso, mas não é para aqui chamado), sem saber o que há-de fazer à porca da vida, e tudo por causa de umas simples palavrinhas. Revoltado e amargurado, nosso João. Sejamos compreensivos e complacentes, pois. Qualquer de nós ficaria igualmente fodido, fosse o caso connosco. Por aquela sucessão de pretéritos, apenas na parte transcrita da mensagem, é fácil entender o que se passou. A moça voou, não é, amigo João? E levou com ela as belas palavras que eram só suas e de mais ninguém. E agora já não são só suas, as belas palavras, e... o resto a gente imagina. Não valerá talvez a pena escarafunchar em demasia.

Pois é. Como dizia o outro, o ganzado, o amor é fodido. E o pior de tudo é que a gente fica sempre com aquela sensação de vazio absoluto, aquele sabor terrível na boca que nos deixa mudos. Desaprendemos de falar. Faltam-nos as palavras, as nossas, e não foi o gato que nos comeu a língua; foram elas, as palavras, que fugiram para parte incerta, escondidas no bico de uma avezinha de arribação.

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19/12/06

Consultório sentimental - XXIII

Tu, Carolina

A minha namorada, que se chama Carolina, está sempre a embirrar comigo, por tudo e por nada. Ao princípio eram só qualidades e agora só vê defeitos. Isto é normal? Para que diabo passa ela o tempo todo a chatear-me com merdinhas da treta? Será que ela já não gosta de mim?
José C. S., Leiria

Será, filho. Infelizmente, ou felizmente, quem sabe, será. Essa tal Carolina, desculpe lá a franqueza, ó José, acaba de lhe oferecer um belo de um par de patins. Nada mais natural. O mais provável é que já ande "metida" com outro gajo e agora, das duas uma, ou não sabe como o há-de empontar a si com souplesse ou o outro ainda não lhe dá garantias de cobrir a parada. Deve ser este o caso, moço, já que é o trivial do trivial; raramente uma mulher se preocupa com subtilezas, quando chega a hora de dar o pontapé da ordem; se calhar, é também o mais provável, a nova aquisição está comprometida, por assim dizer, isto é, ou é casado, ou tem namorada, ou não se decide a "assumir" a coisa com a Carolina, ou o caralho mais velho; há-de ser seguramente uma destas. É capaz de ser prudente deixar sempre uma hipótese em aberto para qualquer imponderável, ou, como se costuma dizer, vá lá a gente entender as mulheres, e daí aquela expressão lapidar, a do caralho mais velho, verdadeira porta aberta para qualquer outra possibilidade que não lembraria nem ao careca.

É que, diz-me a experiência de algumas décadas, aquelas que referi são as motivações mais costumeiras para casos semelhantes, mas existem algumas outras, espere aí, não nos precipitemos em juízos falaciosos. Há, de facto, mais umas quantas hipóteses a considerar. Convém não esquecer aquilo que o mulherio designa genericamente por "medo" ou, em alternativa, por "receio": em suma, quer isso dizer que não apenas mulher alguma larga um homem sem estar já devidamente equipada com outro, como, ainda por cima, só largará de vez o primeiro se o segundo for coisa "segura"; quando não, arrisca-se a foder-se em toda a linha e a ficar, supremo terror feminino, a chuchar no dedo por ambos os lados, salvo seja, isto é, a ficar sem um e sem o outro.

Quando uma mulher se "apaixona" e, por conseguinte, necessita de despachar o actual penduricalho, mais a pessoa anexa, existe um terror primordial que tudo condiciona: a primeira cambalhota e outros números circenses, com o novo partenaire, ou candidato a tal parceria. É que muitas coisas podem correr mal como o caralho, chefe, as possibilidades são imensas e a probabilidade é tão elevada que até chateia.

Vamos supor, e isso é muito mais comum do que geralmente se imagina, que o novo objecto da tal "paixão", em chegando a hora da verdade, aquilo por que a chavala tanto ansiava, acaba por se revelar um verdadeiro desastre: apaga-se-lhe o maçarico ou, pior ainda, apresenta um, aceso, sim, mas do tamanho de qualquer isqueiro Bic. Danou-se, pois. É certinho. Quando, por ocasiões da primeira pinocada, uma moçoila desprevenida e inocente depara com uma gaita que se não levanta nem por nada, de imediato valores mais altos se alevantam, é um Deus nos acuda, e pruridos morais e recriminações e cabeçadas na parede e "que estúpida que eu sou" e coisas assim. As situações em que acaba por não haver foda são, por definição, realmente fodidas. Se, porventura, aquilo levanta mas mais valia que estivesse quietinho, de tão mirrado que parece (e é), aí a coisa pode ficar feia, ou seja, não apenas a gaja fica fodidíssima por ver que já o não vai ser, como provavelmente desatará a rir, o que também é natural - são os nervos a dar de si, a tensão acumulada a desacumular-se rapidamente, enfim, uma merda. Poderá ser ainda que, não havendo reclamações no capítulo da rigidez, e também não no do tamanho, o problema resida no factor temporal, chamemos-lhe assim, isto é, se o gajo se vem em menos de um fósforo; tudo que seja inferior a cinco minutos, como já aqui antes foi devidamente esclarecido, é tecnicamente designado como ejaculação precoce, um engulho nada despiciendo para quem dele sofre: o portador da deficiência e, principalmente, a infeliz contemplada. E depois, ainda há um outro terror, um outro "medo" tipicamente feminino, que pode por vezes ser confundido com alguma espécie de rebate de consciência, consistindo este na possibilidade de afinal o caramelo se revelar um pouco rabeta; exacto; bicha, panasca, paneleiro, como se queira designar ou der mais jeito. Em sucedendo tal chatice, no caso muito provável de a moça não apreciar grandemente os maneirismos em geral e as paneleirices em particular, temos o caldo entornado de vez; como todos sabemos perfeitamente, o que mais há por aí é gente com sexualidades alternativas ou, de forma geral, não resolvidas, o que dá origem amiúde a confusões tremendas, para já não falar das consequências psicológicas (e outras) que podem resultar nas extremamente condicionadas cabecinhas das mulheres, das mais balzaquianas às mais escaganifobéticas.

Por fim ou, como se diz em Inglês, láste bat nóte de liste, há ainda a hipótese das hipóteses, o mesmo é dizer o terror dos terrores para as mulheres: que ao gajo ela não agrade. Isso é que é a foda da foda, caralhosmafodam se minto. Não deve haver no mundo uma única chavaleca tão segura de si que nunca tenha sido possuída por tão premente dúvida existencial, antes de ser propriamente possuída: "será que ele vai gostar?" Eis aquilo que supremamente as atormenta: a bem dizer, nós cá o que pretendemos é a pinocada em si, o resto que se foda; se a gaja é podre de boa, e gira, e tal, isso pois com certeza que ajuda, e muito, mas na hora de espetar a farpa - se a hora chega - o pessoal caga positivamente em detalhes; claro que pode suceder não agradar uma qualquer coisinha, um chulézito ou o hálito que fede, excessivo pivete a bacalhau ou odor corporal demasiadamente intenso, mas isso é cheiros; só chateiam depois, durante nem por isso. Mas, para uma mulher, não apenas a primeira pinocada terá de ser por força perfeita, fosse tal coisa possível, como o comensal eleito deverá não manifestar nunca seja que espécie for de desagrado; por exemplo, pode ser que certo chavalo (como é o meu caso, por acaso) não aprecie pêlos, pernas masculinas e sovacos farfalhudos; caso tal aborrecimento suceda, ou por esquecimento ou por falta de vaga na depilação, o mais normal será que o dito cujo se enoje a tal ponto que não consiga sequer - ó desgraça das desgraças, lá voltamos ao princípio - sequer pô-lo em pé. Enfim, há muita merda que pode desagradar, até o nariz (diziam os romanos, esses tontinhos, displiquit nasus tuus), e é isso mesmo que deixa permanente e obsessivamente as mulheres de pé atrás.

E é assim, por conseguinte, recapitulando: se ela hesita ainda, se ainda só vai na fase do implicanço, pode ser que o gajo seja casado, ou tenha namorada, ou seja paneleiro e não sabia, ou seja e sabia, ou seja ligeiramente impotente, ou tenha sido mal dotado pela natureza, ou que seja excessivamente apressadito; em qualquer destes casos, a coisa morre ali mesmo e não há azar; depois, mesmo se ultrapassadas a contento de ambas as partes todas estas barreiras, ainda sobram umas quantas, na perspectiva inversa, ou seja, é a gaja que tem mau hálito, ou cheira mal dos pés, ou é peluda com'ó caralho, ou sofre de flatulência (excessiva), ou tem o hábito de limpar o salão e meter os restos na boca, ou o caralho que o foda que seja e que possa chatear gravemente o moço; seja como for, também do outro lado as possibilidades para que a coisa dê o berro à nascença são enormes.

Mas não nos dispersemos excessivamente, caro J. Claro que tudo isto é possível, é mesmo muito provável, mas não custa nada o amigo - ou qualquer pessoa - armar-se em camelo e fingir que não percebe porra nenhuma daquilo que se está a passar. Vai ver que, dentro de uma semanita ou duas, o mais tardar, tem a "sua" Carolina de volta (esperemos que não recambiada ou devolvida na volta do correio), chorando baba e ranho no ombro do "seu querido Zé". Você até vai ficar comovido com tanta dedicação, afianço-lhe. Às tantas, dará por si a dizer, sem acreditar que é a sua própria boca a proferir tais coisas, que a compreende, que o tal fulano era um grandessíssimo malandro, um vigarista que só a queria comer e...

E aí ela interrompe-o, muito ofendida, e desata a defender o tal fulano, mas com jeitinho, que não é bem assim, que ele até não é vigarista, e que tem se ele a quisesse comer ("fazer amor comigo", dirá ela, em feminês), ora, isso não é natural?

Merdas destas, garanto-lhe, já ouvi eu próprio e assim, ó, à molhada. E de igual calibre e outras semelhantes já me foram contadas por diversas vezes e por diversos gajos tão idiotas, tão crédulos e tão patós como eu fui em tempos. É claro, não espere o amigo que alguma coisa do que a rapariga lhe contar, em tais transes, corresponda minimamente à verdade; mulher alguma admitirá jamais que se enganou de alguma forma; não, não se enganou, foi enganada, o que é bem diferente; e mesmo isso, não é bem, foi tudo mas é um sacana de um equívoco, um mal-entendidozito, porque, bem vistas as coisas, o homem dela é e sempre será aquele que está ali, naquele momento com ela, como em todas as horas, boas e más mas principalmente nas más. Após esta parte da rapsódia, o amigo não se surpreenda quando ela desatar a chorar convulsivamente; tente compreender, já que é tão companheiro, que as carolinas deste mundo choram (ou riem) por dá cá aquela palha, faz parte da encenação que sempre acompanha a mulher fatal, e também as não tão fatais como isso. Ora, desatando-se ela num pranto de partir o coração, e sendo o Zezinho bom rapaz, amigo dedicado e alminha sensível, certamente a tentará consolar, reconfortar, acarinhar, e tal, e tal, e tal; dir-lhe-á umas palavrinhas animadoras e revigorantes, passar-lhe-á romanticamente as mãos pelo cabelo, limpar-lhe-á talvez as lágrimas com o seu próprio lenço; e acabará fatalmente a oferecer-lhe aquilo que a si parecerá ser a maior, a mais fabulosa, a mais homérica pinocada da História. Reconciliados, amansada a fera do ciúme em si e aplacada a do tesão nela, vai ver como as coisas correm no melhor dos mundos.

Enfim, a ser este o caso, cumprindo-se em rigor o cálculo de probabilidades mais optimista, conte com uma seca prévia, coisa para longas e penosas horas, talvez uma noite inteira; mas depois virá a recompensa, que diabo, sempre é uma "vingancinha" nada desprezível, e sempre terá a "sua" namorada de volta, ao menos até ver, ou até à próxima "paixão" que a ela atacar as partes baixas ou que a si mesmo faça já não a poder ver.

Se, pelo contrário, nada disto suceder durante as próximas semanas, e se bem que este tipo de aborrecimentos tenha um prazo de validade bastante dilatado, se ela pura e simplesmente desaparecer da circulação e nunca mais lhe passar cartão, bem, então diga-lhe adeus e parta para outra, como dizem os brasileiros. Se isso realmente suceder, esperemos que não se ponha você com merdas. Gaja que se "apaixona", que se mete debaixo de outro gajo e este corresponde à "paixão", meu amigo, fodeu: você já era ou, melhor dizendo, nunca existiu. Quando muito, na sua qualidade de "ex" - o conjunto de letras mais fodido do mundo - e se porventura a miúda falar de si a alguém, será você o "erro", o "equívoco"; muita sorte se ela não lhe passar a si publicamente um atestado de incompetência, ou se, vá lá, não lhe der roda de paneleiro, cabrão, filho-da-puta, gatuno, chulo, etc. A imaginação da mulher que descarta é infinita... e muitíssimo criativa. Para esse tipo de merdas, diz-se, está-se a gente bem cagando, mas sempre lhe digo que se pode tornar extremamente desagradável o ambiente para o descartado; alguns amiguinhos seus vão deixar de o ser, sem você fazer a mais pequena ideia do motivo ou, pior ainda, fazendo essa pequena ideia e não podendo sequer reagir. Porque, desengane-se o J. se julga outra coisa, gajo que levou c'os pés leva também em cima, imediatamente, com tudo o que há de pior na natureza masculina: não apenas fica a falar sozinho, em sentido literal, como será altamente gozado pelas costas (ou em plenas trombas, por vezes), excluído das noitadas, das cartadas e dos copos, rapidamente se transformando numa espécie de pária lá do bairro, passando a carregar a cruz dos "tristes" - equivalente à condição de alienígena em qualquer grupo de primatas.

Caso se confirme realmente o pior dos cenários - o qual, na minha modesta opinião, é o melhor para si, mas já lá iremos - então não valerá sequer a pena ficar o amigo magicando no assunto. Que se foda, chefinho. Você não quer, de certeza absoluta, saber o que estarão nesse caso aqueles dois a fazer. Bom, não quer o amigo saber mas, como eu também sou muito seu amigo, quanto mais não seja por solidariedade existencial, vou dizer-lhe: tudo o que essa Carolina lhe disse a si, aquelas coisas maravilhosas e únicas, vai dizer ao outro exactamente da mesma forma; todas as meiguices e segredos que lhe soprava ao ouvido, durante aqueles momentos maravilhosos e inesquecíveis que passaram, vão passar para a orelhinha do outro, igualmente, sensualmente sussurradas, e será com ele que ela passará momentos não menos maravilhosos e inesquecíveis, depois de arquivar meticulosamente tudo o que fez consigo; uma história de meses ou anos de momentos sublimes, com aquela pessoa, resultarão fatalmente em sublimes momentos dessa mesma pessoa com outra pessoa; o ninho de amor, que ambos criaram com mimo e dedicação, será transladado para outro local, quem sabe com as mesmíssimas almofadas e os mesmos bibelots; ou então, esse ninho edílico não mudará de local mas simplesmente de inquilino; você, que era o máximo (e todos os outros umas bestas), passará a ser uma das bestas (e o outro o máximo dos máximos). Muito provavelmente, e não vale a pena abusar, a "sua" Carolina experimentará com o novo chavalo de cobrição tudo aquilo que dizia antes serem "porcarias". Enfim. O chamado Amor é, ao contrário do mais manhoso cartão-de-crédito, algo de impessoal e de absolutamente transmissível. Portanto, há que tirar os cavalinhos da chuva quanto antes, não vão eles apanhar alguma constipação, isto é, a gente (neste caso, você mesmo) ensandecer.

Mas não há-de ser nada, amigo Zé. Acredite no que lhe digo, que já cá ando há uns tempos valentes. Ela volta com o rabinho entre as pernas, esteja descansado. Ficou enrabichada lá pelo outro, pronto, e isso que tem? Você, como é, não se atira a tudo quanto é gaja, lá no seu serviço? E mesmo na rua, ou numa discoteca, ou assim, você é gajo para ficar indiferente a uma bela peidola, você resiste a um par de mamas espantoso, ou não fica cheio de entusiasmos com uma simples saia tipo colarinho? Ora, ora, deixe-se de merdas; claro que não fica indiferente, não resiste e entusiasma-se, respectiva e competentemente. Pois às mulheres outro tanto sucede, aí tem. Nada a assinalar. A diferença é que nós não precisamos nem de pretextos nem de explicações para dar uma fodinha numa gaja qualquer, mas elas acham que precisam; absolutamente; são milénios de informação genética, naquelas veias e em todos os interstícios dos seus delicados seres, compelindo-as a transformar qualquer corrimento no mais sublime sentimento, toda a atracção na mais pura, radical e definitiva paixão. É estúpido e irrelevante, bem sabemos, mas é assim e não há nada a fazer.

Repare que, mesmo correndo a coisa pelo melhor, ou aquilo que você neste momento pensará ser o melhor, é tudo uma questão de tempo até ao apodrecimento total. Porque o veneno da desconfiança já foi instilado, já está instalado, e isso é um processo irreversível. Mais tarde ou mais cedo, mesmo que haja uma reconciliação bacana, supimpa, mesmo que você lhe proporcione finalmente não sei quantos orgasmos por dia, e por mais apaixonada que ela então se revele, o facto é que nunca mais as coisas poderão voltar a ser como dantes. O veneno há-de insinuar-se fatalmente no seu espírito, espalhar-se por todas as suas veias, e músculos, por todas as células físicas do seu ser e por todas as partículas do seu espírito. E, um dia, qualquer dia, não restará nada senão matéria putrefacta, não apenas tecidos mas também memórias, ideias, sentimentos, tudo destruído, definitivamente inquinado, irremediavelmente destruído.

Por isto lhe dizia antes, meu amigo, que o melhor ainda seria deixá-la ir. Ela que se foda, amigo, e que lhe faça muito bom proveito. Bem sei que não me conhece de lado nenhum, a não ser daqui, mas deixe-me que lhe diga de coração aberto: puta que pariu a Carolina. Ouviu? Quem me avisa... e tal.

Olhe, faça o seguinte: faça um arrozinho. Vá para a cozinha e prepare um belo de um petisco. Eis a receita para os males de amor: uma receita de cozinha.

Arranje uma galinha do campo, bem gorda, e ponha-a a cozer numa panela de pressão, com sal marinho não tratado. Prepare um refogado bem puxado, em tacho de ferro fundido, com cebolas ácidas; acrescente alho cegado quando a cebola estiver acastanhada; meta-lhe pimento, tomate, salsa e coentros; quando estiver bem apurado, junte três ou quatro copos do melhor vinho branco que tiver; com a galinha bem cozida, trinche à mão e ponha no refogado, regando com a água da cozedura; tempere bem e forte, com flor de sal, pimenta branca e cominhos a gosto; deixe apurar em lume brando; por fim, junte duas mancheias de arroz, tape e espere que fique "al dente", com o cuidado de não deixar secar a arrozada; "malandrinho" sim, mas não muito. Sirva-se generosamente, acompanhando com Grandjó bem fresco, de preferência estupidamente gelado. Retire do congelador o Häagen-Dazs de chocolate belga, para sobremesa. E bom apetite.

Evidentemente, escusado será dizer, o arroz para esta receita apenas poderá ser carolino. Se não, fica uma tremenda bosta.

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23/11/06

Consultório sentimental - XXII


Pronto. Uma chatice a menos.
Nestas coisas do sexo, há que ter algum cuidado com a forma como se expõem os assuntos. É de toda a conveniência, para começar, evitar a utilização profícua ou exagerada de palavrões em geral e de calão em particular. Portanto, e como o assunto desta consulta é aquilo que vulgarmente se designa por "camisa-de-Vénus", utilizaremos doravante o termo técnico atinente, isto é, "preservativo", não vá a expressão portuguesmente consagrada ferir alguma natureza mais delicada; evitaremos também os termos correlacionados mais hipoteticamente chocantes, como "caralho", ou "cona", ou "foder", por exemplo; imbuídos da melhor boa-vontade e do espírito mais epistemológico possível, aplicaremos os equivalentes menos rudes ou atrevidos, como, respectivamente, "pichota", "pachacha" e "pinocada". Enfim, é sem compromisso, mas iremos tentar cumprir com o prometido.

Intróitada a problemática, passemos por conseguinte à propriamente dita.

O preservativo é um dispositivo anticoncepcional que existe, ao contrário daquilo que muita gente julga, desde há cerca de 3.000 anos. No entanto, foi apenas a partir do surgimento da "pílula" - no início dos anos 60 do século XX - que este artefacto perdeu importância enquanto contraceptivo, ganhando uma relevância acrescida, paradoxalmente (e progressivamente), como método preventivo de doenças sexualmente transmissíveis (DST). Poderemos mesmo afiançar que se trata, hoje por hoje, exceptuando, como é evidente, a falácia da abstinência, do meio mais eficaz para evitar a transmissão de infecções por via sexual. Por estranho que pareça, este verdadeiro salva-vidas sexual continua a merecer a atenção das grandes empresas farmacêuticas, a reboque e com o apoio dos governos nacionais e das instituições internacionais, não enquanto bem essencial mas como fonte de (chorudos) rendimentos, de lucros verdadeiramente obscenos; quando seria de esperar, nomeadamente após o aparecimento da Síndrome da Imunodeficiência Adquirida (SIDA), em 1983, que tal ferramenta se tornasse em verdadeiro bem essencial e, portanto, tendesse a tornar-se cada vez mais barato, o que aconteceu foi precisamente o contrário: os preservativos são não apenas caros como os métodos utilizados para a sua distribuição continuam absolutamente anacrónicos e praticamente imutáveis desde que saíram os primeiros pacotinhos das linhas de produção; as farmacêuticas dedicadas ao ramo, até porque os métodos de fabrico evoluíram entretanto e se tornaram muito mais eficazes, não demonstram quaisquer intenções, bem pelo contrário, de fazer descer os preços, ao menos de acordo com as mais elementares leis de mercado, da oferta e da procura; por outro lado, vão surgindo novos produtores, mas nem assim os preços baixam. Enfim, está mais do que visto, o negócio é apetecível e, como se verifica, ninguém está particularmente interessado na questão de saúde pública envolvida. Morrem pessoas aos milhões como consequência directa da não utilização do preservativo na relação sexual, todos os dias são infectados muitos milhares de seres humanos, mas tal "detalhe" parece não despertar a atenção de quem poderia e evidentemente deveria pôr cobro à situação. Entretanto, gastam-se fortunas em "estudos estatísticos" absolutamente estéreis, apenas para concluir aquilo que toda a gente já sabe: que a distribuição gratuita de preservativos poderia salvar milhões de vidas. Muitas mais, de qualquer forma, do que aquelas que teoricamente são resgatadas à fome, à sede ou à miséria absoluta, através de donativos ou de remessas maciças de alimentos. Seria muito mais eficaz enviar para as zonas mais deprimidas do mundo, em vez de sacos de farinha ou de leite-em-pó, simples pacotes com embalagens de preservativos; não apenas se estancaria a pandemia de SIDA - que alastra rapidamente por vastas áreas de África e da Ásia - como se reduziria drasticamente o número de nascimentos, minimizando assim, num prazo relativamente curto, a multiplicação das necessidades alimentares de uma população em crescimento exponencial. Como escreveu e demonstra Jean-Christophe Rufin, em As Causas Perdidas, o envio sistemático de milhões de toneladas de alimentos para as zonas de fome apenas adia o problema, a curto prazo, acabando por multiplicá-lo por três (ou por dez), na prática, no espaço de apenas uma geração (quinze anos).

Nas sociedades ocidentais, ditas evoluídas, ou industrializadas, o problema coloca-se de forma radicalmente diferente, se bem que existam também nestas enormes bolsas de subdesenvolvimento e carência generalizada, às quais os mesmos princípios seriam igualmente aplicáveis. Porém, e por regra, o preservativo constitui, nos países da Europa e do Novo Mundo, uma realidade bem diferente daquilo que diz respeito aos "restantes" dois terços de seres humanos. No nosso quotidiano comum, urbano e mais ou menos privilegiado, não apenas o sexo cumpre uma função diferente como são diferentes os meios e os métodos anticoncepcionais, bem como as medidas de prevenção das DST. E como é radicalmente diferente a forma como encaramos uma e outra das coisas. Para nós, o preservativo é, antes de mais, uma maçada, um mal - necessário, mas ainda assim um mal, algo que tem de ser porque tem de ser. E daí, nem sempre. Ou não continuasse a aumentar também, desastrosa e desastradamente, mesmo nos países mais evoluídos do mundo, o flagelo das doenças sexualmente transmissíveis, e nomeadamente a infecção por HIV. O burguês médio tem uma relação conflituosa com o preservativo, quando tem uma... relação, e isso afere-se perfeitamente pelos números, pela desgraça que por aí vai. Fosse ao menos aquilo mais barato e, principalmente, mais fácil de usar, e outro galo cantaria com toda a certeza.

Ora, surgiu muito recentemente, nos mais prestigiados órgãos de comunicação social, a notícia de uma invenção que se arrisca, sem qualquer exagero, a revolucionar o mundo moderno tal como o conhecemos: foi finalmente criado o preservativo instantâneo. Eis, em suma, o espantoso facto. Segundo assevera o inventor do novo embrulho peniano, Willem van Rensburg de sua graça, e embora ainda não tenhamos tido a oportunidade de experimentar pessoalmente coisa tão bem esgalhada, parece que aquilo se coloca em três segundos no máximo, três. A ser verdade, e a julgar pela demonstração em vídeo parece que é, estamos perante o artefacto mais espantoso alguma vez criado pelo génio humano.

Finalmente, poderemos nós outros estar em vias de deslargar a merda do preservativo convencional, essa pepineira desgraçada, responsável pela maior parte das faltas de tesão em que se atascam amiúde hordas imensas de gajos chateados, nas sociedades ocidentais. Convenhamos, se é que em algum espírito menos avisado ainda poderá restar alguma dúvida, que os Durex, ou Harmony, ou Control, ou quaisquer outras marcas mais manhosas, são a maior chatice que existe, insuportavelmente incómodos, chatos e trapalhões, verdadeiros convites ao desastre, ratoeiras inadmissíveis para a mais trivial pinocada; o preservativo convencional é uma sacanice institucionalizada, e ainda por cima altamente promovida, como se fosse alguma coisa de jeito.

Pois não temos nós sido sistematicamente bombardeados com publicidade gabando os extraordinários méritos de tão grandessíssima cagada? Não nos pintam repetidamente, em quadros edílicos e cheios de gajas podres de boas, que a camisinha é facílima de colocar? Mas não, não é, nem pouco mais ou menos. É mesmo muitíssimo complicado enfiar aquela merda na gaita: primeiro, e para começar, as putas das embalagens parecem pacotinhos de açúcar, mas são blindadas, a gente quer rasgar e não rasgam, por vezes nem à dentada; está um gajo no melhor dos acontecimentos, a verga túrgida perfurando a atmosfera envolvente, prenhe de sangue e fremente de entusiasmo, e eis senão quando lá vem a chavala com a treta do costume (ah, olha, põe a camisinha, pões), foda-se, há que ir buscar, andar à procura em gavetas e em bolsos secretos, mas onde caralho é que eu pus aquela merda, e depois quando finalmente se encontra a puta da camisa ainda é preciso lutar bravamente com o invólucro, o caralho do invólucro de uma ganda puta que os há-de parir, que esta merda não abre nem por nada, chega-me daí essa tesoura, foda-se, não lhe dês c'os dentes, mulher, que rasgas isso, foda-se, passou-me a tesão, foda-se, foda-se, foda-se. Quantas vezes não sucederam já situações do género ao mais comum dos mortais? E não esquecer que, após a tremenda luta para tirar aquela porcaria da embalagem, segue-se outra tarefa tão ou ainda mais chata, enfiar aquela merda como deve ser na já desoladíssima pichota: de novo uma carga de foda-se entre dentes, que ou desenrola mal, ou desenrola ao contrário, ou pura e simplesmente não desenrola; e ele são caralhadas de toda a ordem e feitio até que, finalmente, ora prontos, está feito, vamos a isto, mas onde é que a gente ia mesmo, ah, sim, pois, tu estavas assim, e eu aqui, ó; mas, ai, entretanto a tusa foi-se, ausentou-se para parte incerta, e isso ainda não é o pior, à moça sucedeu entretanto outro tanto, as mulheres são assim mesmo, interrompeu, fodeu, estaca zero, é preciso começar tudo de novo, mas desta vez à pressão, haja ainda ou já não haja vontade.

Enfim, e por isso uma profissional leva tão caro a pinocada sem, preservativo é mesmo a maior chatice que existe. Claro que a publicidade, e mesmo a institucional, paga pelos nossos impostos, tenta impingir uma imagem completamente contrária, aquilo é só facilidades e gente sorridente. Reiteremos: não é nada, é complicadíssimo, e é só gente pior do que fodida às voltas com aquela merda. Não é lá muito prático, para evitar as maçadas inerentes, a gente sair de casa já com o preservativo devidamente colocado - até porque "devidamente" implica pénis erecto, e não é fácil manter uma erecção, priapismo excluído, enquanto se conduz, se anda ou se toma um cafezinho, por exemplo.

Não esquecer ainda uma parte nada elegante do assunto, o descarte, isto é, quando está cumprida a função e se torna necessário a gente ver-se livre dos despojos: há gajos que retiram aquela porcaria (antes não era, agora já é) com um simples esticão, atiram o látex para o chão, e pronto; algumas mulheres, com o carinho tipicamente feminino e que tão bem lhes fica, fazem bastante mais, dão um nó na base, não vá o líquido escorrer e sujar a alcatifa, embrulham em papel higiénico e depositam por fim o embrulhito no caixote do lixo, ou despejam-no na sanita. Que é chato, pois com certeza, mas parece que o elemento feminino se sente muito mais à vontade com este tipo de operações, honra lhes seja.

Mas enfim, não tem nada que enganar e não há volta a dar-lhe: a camisinha é a coisinha mais empata-fodas que alguma vez foi inventada, muito mais e com efeitos mais devastadores e descolhoantes do que as sogras ou as vizinhas metediças. Claro que, não cabendo aqui - pelo menos por agora - referir trapalhadas homéricas do género dos cones vaginais, essa miserável traição que faz barulho (nhoc nhoc nhoc) e que arde como tudo, pois o uso de preservativo é uma imposição dos tempos modernos, não há nada a fazer, caralhosmafodam, mais vale gramar com aquilo do que pinocar por aí à maluca, a torto e a direito, sem qualquer espécie de protecção. Fodias-te, como soe dizer-se; as modas já não compactuam com semelhantes descontracções e inconsciências, há que dar com ele, e dar com força, mas sempre, sempre, sempre com o carapuço enfiado, reforcemos, pois que se não deve esquecer. Bem sabemos que não é a mesma coisa, há quem diga ser o mesmo que chupar um rebuçado sem o desembrulhar primeiro, mas não é de chupanços que se está aqui falando, entendamo-nos. Foder é, hoje em dia, uma das actividades mais perigosas para a saúde que existem, ele há de tudo, e já havia dantes, da insinuante sífilis ao vulgaríssimo esquentamento, uma festa de germes, vírus e bactérias alojados em quaisquer entrefolhos e quenturas venéreas, mas acrescido o naipe recentemente com as doenças mais canalhas e malignas que é possível imaginar, das hepatites às malditas retrovirais. Ora, isso é que é fodido a valer, essa coisa da SIDA; lá com as outras, vamos indo, ao menos a gente não vai desta para melhor, por exemplo o treponema pallidum (sífilis) não passa de uma brincadeira quando comparado com o HIV, esse "bichinho" que ataca em todas as frentes e liquida um ser humano em três tempos. Não brinquemos pois com assuntos sérios. Mais vale o sacrifício de embrulhar a gaita em plástico fininho do que depois nos embrulharem a nós em plástico bastante mais grosso. Todos os aborrecimentos ligados ao preservativo não são nada quando comparados com a pena de morte exarada, a segregação social e o isolamento total, a deserção e o abandono de família, amigos e conhecidos, e, por fim, a degradação inexorável de todos os sistemas vitais, a decomposição física ainda em vida, Karposi, pneumonia, hemorragias generalizadas, o Inferno cá na Terra e tempo para o ver detalhadamente.

Daí se poder dizer, sem qualquer risco de exagero ou entusiasmo desmedido, que estes preservativos "Pronto" representam - no mínimo - tremendo alívio para tão angustiante perspectiva ou probabilidade: finalmente, em resumo, já se pode foder à vontade sem receio de qualquer infecção, mais ou menos malévola, mais fodida ou menos fodida; e não só isso como, ou principalmente, deixa assim de haver pretexto para não usar a camisinha; o tempo que levava a colocar aquela coisa reduziu-se a um mínimo ridículo que, aleluia, deixará de interferir com a manutenção da tusa; por outro lado, e ainda em termos estritamente técnicos, torna-se agora possível foder à grande e à francesa, em qualquer lugar e a torto e a direito. Acabaram-se os pretextos, as negas, as desculpas manhosas. Haja Deus.

É de louvar, portanto, e de que maneira, a extrema importância e a sagacidade da invenção desse tal Willem van Rensburg. O fulano devia ganhar já, sem qualquer concorrência no horizonte, o prémio Nobel da medicina, por mérito absoluto, e o da paz, como brinde. Poderemos agora, por fim e com toda a segurança, quase não interromper a bela fodinha por razões de saúde e higiénicas; agora sim, poderemos dizer, sem qualquer margem para erro ou exagero, péraí, filha, dá-me só um segundinho; não é um mas, vá lá, são apenas três segundinhos. Faltarão porventura as variantes, a fim de conferir mais divertimento e espírito lúdico à coisa, Prontos às cores e com sabores, morango, kiwi, framboesa, tutti-frutti, Prontos com feitios, saliências e protuberâncias. Basta consultar o catálogo.

É este o futuro, e o futuro já chegou: Prontos. Digam lá se não estão contentes. Ó maravilha. Ó invenção de mestre. Ó pois é. Hem? Que dizes? Vamos a isso então, óspois? Então, Prontos, vamos lá.

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05/11/06

Consultório sentimental - XXI


O sexo dos anjos

Por esta altura, já não deve existir um único Português que nunca tenha ouvido falar de coisas tão esotéricas e estranhas como Yoga, Reiki, macrobiótica Zen. A julgar pelo número de "fiéis" arrebanhados por qualquer dessas novas multinacionais do espírito, e mesmo sabendo que alguns deles são adeptos de mais do que um clube, se não dos três em simultâneo, estaremos sem dúvida perante um fenómeno que se enquadra na designação genérica de "seita": enumerando,  temos por conseguinte a seita do Reiki, a seita do Yoga e a seita da macrobiótica, englobando nesta as variantes Zen, Zin, Chin, Chong, Tchang, Atchim, Burp, King-Kong e quaisquer outras que venham a surgir.

São, no seu conjunto, por assim dizer, a consequência natural das relativamente antigas seitas religiosas importadas da América do Sul, que se autodesignavam por "igrejas", como a Maná, a IURD e outras ditas "evangélicas". O princípio básico era nestas "igrejas" o mesmo que resulta naquelas "igrejas" mais recentes: desde a implosão da Igreja Socialista Mundial, também conhecida como Internacional Comunista, em 1989 e seguintes, e desde, concomitantemente, o descrédito generalizado da Igreja Católica nas massas burguesas, as pessoas necessitam cada vez mais desesperadamente de uma escora moral, de um módico de convicções ou, em suma, de algo a que se agarrar; algo que lhes dê uma sensação de segurança, face à perigosidade e à imprevisibilidade do quotidiano, e que explique de forma simples os mais profundos mistérios da existência. Tudo aquilo que, enfim, ao longo de milénios teve uma resposta cabal e decente, perfeitamente satisfatória, nas liturgias cristãs ocidentais, e que era personificado por um Deus a dois tempos, bondoso até ao infinito mas também capaz da ira mais extrema quando ou se posto em dúvida. 

Foi precisamente a face autoritária do cristianismo, a sua faceta de intimidação e de, por vezes, verdadeiro terror, que acabou por espantar - em ambos os sentidos - uma boa parte dos crentes na fé cristã, e esse facto foi decisivo para o surgimento de seitas várias, que assim se limitavam, sem qualquer esforço, a recolher as sobras humanas da debandada religiosa. Portanto, depois de falhada a fé socialista, e após um rápido processo de apodrecimento das seitas subsequentes, surge agora, na mesma sequência de modelos existenciais importados, uma nova seita, que não apenas se arrisca a tornar-se a maior de todas, engolindo as anteriores, como se vai já tornando - pelo elevado número de adesões e pela altíssima toxicidade dos seus "ensinamentos" - num verdadeiro perigo social. Trata-se daquilo a que os próprios dirigentes desta seita, cada qual detendo seu grupinho colateral, atribuem a pomposa designação de "Budismo".

Ora, é evidente que não falamos de Budismo quando falamos de "Budismo" em Portugal, em concreto, ou mais abrangentemente na Europa ou no Novo Mundo; o Budismo é uma religião muito antiga, com suporte teórico definido, sendo este não teológico mas teórico; é praticada por muitos milhões de pessoas em diversos países orientais, principalmente na China, no Japão, no Nepal, no Tibete e em certas zonas da União Indiana, entre outras nações a Oriente. É bom que distingamos as coisas e que remarquemos o cariz oriental desta crença religiosa, já que essa destrinça é fundamental para a compreensão dos conceitos de obsolescência, inadequação e desenraizamento do Budismo, quando artificial e forçadamente transplantado para o Ocidente. Uma coisa é falarmos do Dalai Lama, exilado político na Índia, Prémio Nobel da Paz, das suas prelecções e dos seus escritos, ou mesmo dos seus fidelíssimos seguidores, nas cordilheiras dos Himalaias ou nas florestas do Vietname, outra coisa bem diferente é referirmo-nos aos membros de seita budista num país ocidental.

Não existe qualquer semelhança entre um cambojano que vive da terra, pacificamente cultivando o seu arroz, que visita os templos do Buda e faz as suas orações, e um Espanhol ou um Americano que se desloca às "reuniões" da seita ao volante do seu automóvel. O Budismo faz todo o sentido e tem o seu ancestral e insubstituível lugar nas terras onde nasceu, e naquelas para onde se espalhou de forma naturalmente subtil e consequente. O mesmo processo, de resto, que levou à expansão de qualquer das mais difundidas formas de culto, do cristianismo ao islamismo; a religião, aquilo que no fundo nos distingue de qualquer outra espécie animal, tem uma óbvia base cultural e a Cultura depende e varia conforme as suas áreas de influência, isto é, fundamenta-se num determinado espaço geográfico. Quaisquer tentativas de perversão do sistema natural de propagação da fé, como sucedeu durante as invasões árabes, ou as cruzadas, ou o próprio colonialismo serôdio, resultaram em fracasso total, para não falar na grande soma de mortes e fatalidades várias que delas acabaram por resultar.

Importar o Budismo não é exactamente o mesmo que importar o Sushi e o Sashimi, as algas kombu ou a arte culinária nipónica em geral; uma coisa é abrir um restaurante japonês, e ir a Tóquio contratar o mestre de cozinha, outra bem diferente é mandar vir em contentores uns quantos bacanos vestidos de togas cor-de-laranja e pô-los a fazer tinir os seus sininhos na Rua da Betesga. Deixemos sossegada e em paz, por exemplo, a camponesa budista que acende pauzinhos de incenso no templo de Angkor; deixemo-la meditar profundamente, durante o tempo que lhe apetecer; mas não poderemos certamente deixar de rir, e achar no mínimo ridículo, completamente deslocado, observar alguém debitando sonoros "Aowm" em pleno Rossio, em Lisboa, ou na eborense muito típica Praça do Giraldo.

O tempo, a sua passagem e as suas medida e medição, bem como os valores nele (tempo) envolvidos, são totalmente diferentes a Oriente, em relação à nossa cultura judaico-cristã, ocidental, europeia, burguesa e consumista. A própria noção daquilo que é a vida, e da importância que se lhe dá, não têm nada a ver na Ásia com a nossa mentalidade fundamental de autopreservação, de fruição, de prazer e de prolongamento sistemático da própria vida. Nas sociedades industrializadas, são outros os valores, outras as necessidades e bem diversas as prioridades.

O Buda, o Budismo, os budistas, tudo e todos enfiados à matroca em qualquer rua das nossas cidades, em perfeita macaqueação de uma realidade distante, exógena e, por assim dizer, alienígena, eis um dos mais espantosos absurdos que nos é dado observar actualmente. Reuniões de "meditação" em grupo, tudo sentado no chão e em posição de flor-de-lótus? Mas onde? Numa cave da Rua das Trinas? Um "retiro" de um ou dois dias numa qualquer quinta da zona saloia? Então e as couvezinhas dessa quinta, que ficam por amanhar enquanto aquele pessoal está todo em profunda "meditação"? E as galinhas, quem trata delas entretanto? E os porcos, ou não há porcos? Ou também estarão eles a meditar, já que também são seres sensíveis? E para que servem, afinal, e em resumo, essas coisas da "compaixão" e da "iluminação"? Quer dizer que eu sento-me aqui, cruzo as pernas, fecho os olhos, digo "aowm" uma data de vezes e, pronto, pimba, eis-me "iluminado"? Isso da compaixão leva quanto tempo a adquirir, ao certo?

Trata-se sem dúvida de uma (in)actividade totalmente postiça, perpetrada por seres cujas motivações não poderão nunca ser as mais transparentes e honestas, já que de tão imóvel frenesim não consta que resulte o mais ínfimo resultado prático. Não é por muito "meditarem" que alguns irão atingir a "luz" e, atingindo-a outros teoricamente, sempre seria de indagar em que é que isso melhorou fosse o que fosse ou ajudou fosse quem fosse. Porventura uma  fractura exposta do fémur pode ser tratada através de muita carga de meditação? E os sininhos, plim, plim, plim, ajudarão na consolidação óssea?

Dúvidas existenciais e perplexidades ideológicas que ficam, evidentemente, sistematicamente, petulantemente, sem qualquer resposta. Nem vestígios de tal. A encenação de "budismo" que existe em Portugal parece ter respostas para tudo e mais alguma coisa, menos para justificar a sua atávica nulidade. E o que é mais grave ainda, de um ponto de vista meramente epistemológico, é a total ausência de reflexão sobre a sua própria essência; ou seja, ao "budista" ocidental pede-se que medite muito sobre si próprio mas que não medite coisa nenhuma sobre aquilo que está a fazer, ou seja, nada. Ficam assim aprioristicamente relevadas todas as faltas a compromissos, deixa de ter importância tudo o que se poderia ter feito (de útil) naquele espaço de tempo, e tudo justificado pela seguinte, espantosa, ridícula premissa: melhorei muito, fiquei uma pessoa muito melhor, sou muito mais bondoso e pacífico, simplesmente por ter estado ali sentado a olhar para as moscas; ou de olhos fechados a bater uma sorna, vem a dar no mesmo.

E realmente, convenhamos, não é fácil explicar ou sequer imaginar as misteriosas motivações dos dirigentes e dos operacionais da seita. O que poderá levar alguém a dedicar-se inteiramente a uma causa que consiste integralmente em não se dedicar a coisa nenhuma, a não ser "meditar" sobre essa mesma coisa? Pois não é fundamento da "fé" o esvaziamento total das emoções e dos sentimentos? E então, um chuto na veia ou uma martelada na cabeça não poderiam produzir os mesmos efeitos?

Mas não, tentar explicar a coisa pelo lado da lógica é contraproducente. Para tentarmos compreender o que leva alguém a meter-se nisto do "budismo" postiço, há que atender a dois factos: primeiro, a clique dirigente é quase integralmente constituída por homens; por outro, quase todo o contingente de "fiéis" é constituído por mulheres. Ora bem. Porque será? Como dizia Jardel, esse filósofo da bola, não será do guaraná. É sabido e patente que estes assuntos de religião falam muito mais ao pito do que ao badalo; em linguagem menos técnica, digamos que as coisas espíritas, ou espirituais, exercem um fascínio tremendo no mulherio, e pouco ou nenhum na gajada macha. Por alguma razão, que terá certamente a ver com o "romantismo" (tesão) tipicamente feminino, as mulheres ficam muito excitadas quando ouvem falar de "sentimentos" e de "emoções"; pelam-se por esse tipo de merdas; vai daí, fácil é compreender que elas se agarrem desesperadamente àquilo que lhes parece poder explicar uma coisa que para elas parece inadmissível, a qual se resume a adorarem foder e apenas pensarem em foder; alguém que lhes explique isso, caralho! E pronto, lá aparece o gajo do Reiki, ou o gajo do Yoga, ou o gajo do Partido, e agora o gajo do Buda, que lhes sussurra umas coisinhas mansas aos ouvidos, verdadeiros bálsamos para consciências atormentadas: "medita e serás salva", ou "faz a âsana do veado e ficarás livre de todo o mal". É trigo limpo. Gajinha que é gajinha fica logo pelo beicinho.

De obras, de caridade e auxílio aos pobres, aos doentes, aos inválidos, zero absoluto. Quem se avista nas imediações dos palcos de guerra, nas leprosarias, nos hospitais, é aquela gente excêntrica da Igreja Católica, esses gloriosos malucos das máquinas auxiliadoras, os mesmos que se estão nas tintas para a inutilidade e o parasitismo militante e tentam melhorar o mundo como podem; de budistas e outros caramelos cheios de bondade e amor ao próximo, nem rasto; estão entretidos a "meditar" sobre os males do mundo enquanto no mundo há cada vez mais males. Fazer alguma coisa quanto a isso, é para esquecer; têm muita "compaixão", imensa "compaixão" para dar, "compaixão" a granel, mas lá mexer uma palha, isso é que não lhes dá jeito nenhum. "Fodias-te", eis o fundamento prático da seita.

Portanto, afinal até não tem nada que saber: os dirigentes e quadros desta nova seita budista estão lá, como provavelmente já peregrinaram em outras seitas coevas, simplesmente para comer umas chavalas. É natural, não sejamos incompreensivos e maldizentes.  E sejamos também justos, o golpe é de mestre; de facto, aquela merda é um viveiro de gajas boas, todas com a cona aos saltos, na relação directa das suas inibições, frustrações e tesões recalcados. Esses "monges" budistas "dão-lhes" o mesmo que antes davam os "pastores" da Igreja Maná ou da IURD: pinocada moralmente aceitável e tacitamente justificada.

Assim, à luz desta razão que de repente me "iluminou", sem sequer me sujeitar à estopada da tal meditação, compreende-se perfeitamente o sacrifício que esses gajos fazem para salvar o mundo e as ovelhinhas tresmalhadas. Querem cona, ora, ora, nada mais natural. Escusavam era de se pôr com tantas merdas acessórias, a ver se enganam pategos, até porque a verdade geralmente tresanda. Deus lhes perdoe pela hipocrisia e puta que os pariu pela canalhice. Assim, nós, os ateus, não apenas fodemos menos e temos menos, como, ainda por cima, passamos por "maus" e "violentos" e "atormentados". Foda-se, que isto é chato.


NIRVANA - smells like teen spirit

http://www.youtube.com/watch?v=_1Qdcdw22Sw


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02/11/06

Consultório sentimental - XX



Rotura de ligações

É a lesão mais grave que pode suceder no jogo do amor. Tem paralelo no desporto em geral, e no futebol em particular, com equivalência na rotura de ligamentos, mas a rotura de ligações é incomparavelmente mais grave; é que, ao contrário da que afecta desportistas, esta outra não tem cura. Na corrida, se os ligamentos rompem, há que fazer gelo, entrapar e barrar com pomadas, se não houver necessidade de ir à faca, e depois é uma questão de sopas e descanso; muito descanso, até que os ligamentos se reconstituam; na rotura de ligações é mais simples: rompeu, fodeu. Não há pachos que remedeiem a coisa e, pior ainda, acabou-se o descanso.

Para qualquer mulher, ou para uma mulher qualquer, faz parte natural do processo emocional em curso (PEC) a componente "rotura", ou seja, romper com o seu até então mais-que-tudo, empontá-lo, pô-lo a andar. Embora sejam insondáveis os mistérios que se desenrolam no cérebro feminino, podemos especular que é este, de resto, o maior poder que as mulheres detêm: descartar seres humanos. Claro que os homens em geral e os mais sacaninhas em particular também são capazes de fazer o mesmo, mas a diferença reside na essência e na motivação. Já lá iremos.

Segundo a lógica feminina, desliga-se um gajo exactamente da mesma forma que se desliga um interruptor: click. Já está. E segundo essa mesma lógica, venal, vaginal e genial, não apenas o acto de dar ao botão é perfeitamente legítimo, seja em que circunstâncias for, como o objecto da desligação instantânea deve, ainda por cima, ficar muito venerador, atento e obrigado. O que antes, e sabe-se lá durante quanto tempo, anos, décadas, era "único" e"maravilhoso", passa num único instante a ser "horroroso" e "miserável"; o gajo que antes era o mais belo lá do bairro e arredores, o mais inteligente, o mais forte dos homens, passa à categoria genérica de "feioso", com as variantes acessórias de "burro como um cepo" e "cobardolas do caralho", quando não se chegar a coisas mais radicais e simples, como "filhodumagandaputa", "cabrão", "paneleiro" e outros mimos; onde apenas existiam virtudes passam a constar apenas defeitos; as grandes juras e protestos de amor transformam-se em ameaças, em insultos e em verdadeiras arruaças, peixeiradas de três em pipa. Os momentos sublimes e porventura únicos, partilhados de forma insubstituível, são completamente passados a ferro, terraplanados, obliterados, esquecidos, quando não amaldiçoados e vilipendiados. Toda a cumplicidade se desvanece por completo e toda a simpatia, e respeito, e consideração, desaparecem para sempre. O que era já não é. Qualquer espécie de intimidade se torna absurda e, de repente, estão ali dois perfeitos estranhos: um que odeia e outro que é odiado, primeiro, e dois seres que se odeiam profundamente, depois.

Pois então, como sucede tão espantosa, rapidíssima, avassaladora metamorfose? Como se transforma o amor em ódio? Em resumo, o que diabo passa naquelas cabecinhas diminutas para se julgarem intocáveis, ou superiores, ou o diabo que as carregue?

É esse processo, essa transformação de bela em monstro, que tentaremos agora explicar e, de preferência, atendendo às audiências maioritariamente femininas destas consultas, de uma forma simplezinha e acessível, sem grandes paneleirices metafóricas ou engonhanços filosóficos.

Sintetizando ao máximo, portanto, digamos assim: uma mulher desliga o interruptor a um gajo quando se mete debaixo de outro gajo. Por sua vez, e ao mesmo tempo que desliga um, liga o seguinte. A partir desse primeiro momento, que por regra coincide com a primeira foda com a nova aquisição, o novel macho de cobrição passa a ostentar todos os títulos e todas as qualidades que antes pertenciam ao agora descartado e, a este, restam os epítetos, os insultos, as desconsiderações e as humilhações que as mulheres reservam em exclusivo para este tipo de ocasiões. Compreendamos que o momento urge, há que salvar a face, se não calhar urgir salvar a vida, e, por isso, sejamos caridosos, quase se compreende que a mulher se sinta na obrigação de promover o novo objecto dos seus amores e ao mesmo tempo esmagar literalmente o anterior; a seu tempo, isto é, quando calhar surgir uma nova hipótese de "paixão", o processo repetir-se-á inexoravelmente, tocando a vez ao novo que passa a ser anterior. É a velha lógica do "ex", o desligado, o bardamerdas que nunca devia ter existido e que não passa agora de vaga reminiscência, desprezível excrescência, nojento erro de "casting" que apenas merece todos os pontapés que se lhe consiga acertar.

Mas, afinal, porque necessitam as mulheres de lixar o seu "ex"? Porque não, pura e simplesmente, seguirem adiante com o seu novo futuro "ex", sem mais conflitos? Porque não tentam ao menos levar a coisa a bem, tentando minimizar os prejuízos de quem, no mínimo, foi algures no passado algo de importante? Porque será que persistem no esmagamento, no achincalhamento, na humilhação do ex-parceiro? Para que serve andar a agitar-lhe debaixo do trombil as extraordinárias qualidades da tal nova aquisição?

Pois, muitas perguntas para uma resposta mui sencilla: à mulher está vedado na prática o papel de traidora, pela simples razão de que, muito convenientemente para ela, esse é um exclusivo masculino. Diz-se. Pois não são tradicionalmente os homens os maus da fita, de qualquer fita? Não são eles (dizem elas, é claro) que não podem ver uma burra de saias? Então? Ora, está-se mesmo a ver que são os homens os malandros, os traidores, as mulheres, coitadinhas, são lá capazes de uma coisa dessas!

Uma das tácticas femininas mais utilizadas, na eterna guerra dos sexos, é precisamente a da intoxicação pelo terror: acusando sistematicamente o seu parceiro daquilo que a ela apetece terrivelmente, a mulher consegue instalar na cabeça dele um sentimento de culpa que lhe abre a ela todas as possibilidades; injectado este veneno nos espíritos masculinos, a mulher ganha não só uma evidente supremacia moral como uma tremenda arma de arremesso para quando a ocasião se proporcionar. Não há hoje em dia gajo algum que não se sinta culpado, e que não vá a seguir comprar flores, sempre que dá um pirafo com uma colega lá do escritório, ou sempre que lhe apetece ir, por exemplo, às putas. E as mulheres, tão confortavelmente instaladas nestas verdades da treta, fingem que não sabem ou que não é verdade este facto indesmentível: homem algum se pode negar a uma rapidinha com qualquer boazona - ou até com verdadeiros coiros - que se lhe agarre à gaita. Isto é um facto. Por razões biológicas, e históricas, e também sociológicas (o medo de passar por bichona), macho que é macho trepa em qualquer mulher que esteja a fim de ser trepada por ele. Para a fêmea comum, os factos funcionam um pouco pela inversa: as solicitações são tantas e tão permanentes (bem, na maioria dos casos, não tanto quanto isso) que ela bem pode decidir, escolher, dizer que sim ou dizer que não; a pressão social exercida sobre o rótulo de "putéfia" ou de "galdéria" é incomparavelmente menor, é irrisório quando comparado com o que implica uma nega masculina: é logo para cima de paneleiro, picolho, bicha ou roto, para apenas citar alguns epítetos mais comuns.

Portanto, na prática, uma mulher pode foder quando e se quiser, mas um homem nem por isso, ambas as coisas. Contudo, é este princípio factual que é pervertido, ou revertido, através do referido sentimento de culpa que serve simultaneamente de pretexto e de arma de arremesso. E é essa mesma dicotomia que explica também o processo mental que leva ao sentimento e à necessidade de revanche, vingança, resposta excessiva ou totalmente desnecessária. Escorada pelo complexo de culpa que o homem interiorizou, a mulher sente sempre as mesmas ganas de liquidar um homem para justificar o aparecimento de outro.

Bem, mas isso é no caso de um gajo estar a modos que casado com uma gaja, ou coisa que o valha, namorado ou amante, ou assim. Então, e se por acaso um gajo estiver farto de uma gaja, estar desejoso (deserto) de vê-la a milhas, se se quiser livrar dela e não souber como? Onde é que entra aí a teoria da vingança feminina?

Pois é. Vem a dar praticamente no mesmo. Se esse gajo, ganda tóino, ou por indolência ou porque não queria estar a magoar a chavalita, apesar de já nem a poder ver, se deixou correr o marfim e acaba por ser desligado - segundo o mesmo processo - sem apelo nem agravo, bem, nesse caso está igualmente tramado: a gaja vai foder-lhe os cornos até mais não com a beleza, a inteligência e as habilidades de seu recém-adquirido Adónis; há-de por força agitar nas fuças do agora "outro" que este é que é, oh que maravilha maravilhosa é ele, toma, filho-da-puta, toma, toma, toma, olha como ele escreve, olha só como eu lhe escrevo, toma e lê, ganda morcão, toma e embrulha, grande pulha. Pior ainda, oh, muito pior, se por acaso o tipinho palerma chegou ao ponto de dar carta branca à rapariga ("vai e não me chateies"); ah, bem, então aí é que as gajas se passam completamente; ficam fodidérrimas; na primeira oportunidade, ele há gajos para tudo, atracam-se a um e lá vêm com a rapsódia da "paixão" para cima da gente, e que "amam" perdidamente aquele, e fazem questão de que leiamos os bilhetinhos e recadinhos de amor que arrulham ambos, armados em passarinhos; é um fartote de rir, se bem que, assim às primeiras, e nomeadamente no caso de o "ex" ter sido endeusado pela fulana, ao longo de anos, enfim, a coisa não pega lá muito bem. Não é agradável, para dizer o mínimo. Se, porventura e excepção, ainda por cima, um tipo tivesse a fulaninha em alta consideração, ou por motivos intelectuais ou por quaisquer outros, demonstrando ela por fim apenas mesquinhez e boçalidade, isso então é o pior de tudo: é que ela vai usar precisamente as mesmas armas, intelecto e personalidade, para atacar com tudo o que tem, do mais rasteiro ao mais abjecto; insinuando, como não poderia deixar de ser, que "é tudo ciúmes" e "explicando", arvorando um arzinho petulante e paternalista, que ela tem "direitos" e tem "liberdades", de expressão, de felação, de emoção; pois sim, mas ninguém tem direito à humilhação de outrem e muito menos à liberdade para coarctar a liberdade, a integridade, ao menos a identidade de terceiros.

Mesmo quando, como agora se costuma dizer, uma "relação" já deu o que tinha a dar, quando cada qual segue a sua vida - naturalmente, cada um com outra ou outras pessoas - e reste ou não reste alguma amizade mútua, agitar o espantalho da vingança é simplesmente mesquinho, reles, do mais baixo que imaginar se possa. Voltar atrás para dizer "olha, encontrei este senhor, repara bem, olha que espanto", é idiota, é triste, é uma manobra pateticamente provocatória; é o verdadeiro pecado três em um, luxúria, vaidade, soberba. Mesmo a pedir uma resposta igualmente pecaminosa, orgulho, ira, vingança. Não existe mais transparente relação de causa e efeito.

Todos sabemos que nós, homens, de entre os diversos defeitos de fabrico mais notórios na espécie, temos este pecado da comiseração, ou como se lhe quiser chamar: pelos vistos muito estupidamente, qualquer cavalheiro que se preze tenta ao máximo não ferir ou, pelo menos, não amarfanhar a pessoa, não atingir a auto-estima e o amor-próprio da mulher que já foi sua; conservamos, para além do desprezo ou até do asco que possamos sentir por alguém, ao menos um módico de consideração pela pessoa e um bocadinho de respeito pelo passado comum. Por isso, não é lá muito vulgar ver um homem humilhando sua "ex" com a presença da nova futura-ex, ou com referências elogiosas a ela. Tudo conceitos de simples e mera decência, o mínimo exigível nas relações humanas, que são totalmente desconhecidos na vaginal nação; para as mulheres, não apenas não existe reserva ou discrição, como é absolutamente necessário o número do costume, a saber, em suma, humilhar o "ex"; não apenas acham insuficiente foder e calar, como se sentem sistematicamente na necessidade, provavelmente em a foda agradando, de "assumir" o caso - atirando-o alarvemente à cara de quem se atreveu a ter antes estado no mesmo lugar; não lhes chega o novo "caso", pretendem, ainda por cima, que o "caso" antigo reconheça que este é muito melhor do que ele próprio, e que admita não passar de uma besta-quadrada. Ou seja, as mulheres assumem alegremente que o papel dos homens é levar chutos no cu e agradecer a amabilidade; acham que um "ex" deve funcionar de forma limpa, muito clean, ser usado e deitado fora; é o "amor kleenex" em todo o seu esplendor.

É de facto muito simplezinho. Como o são por regra as mulheres em geral, de modos que a coisa até confere. Não apenas é necessário justificar um com a putativa pulhice do outro, como há ainda que justificar a moralidade - de preferência, elevada à condição de santidade - da fodinha marota que se deu com um bacano qualquer. E aquilo que resolve todas as dúvidas ou engulhos que pudessem inquinar a teoria vaginal do interruptor, é precisamente o seu funcionamento mecânico e eléctrico: de facto, tanto nos interruptores de parede como nos sentimentais, existem apenas duas posições: on e off, ou ligado e desligado. Ou uma coisa ou outra, em ambos os casos, com a diferença fundamental de que mulher alguma desliga um gajo e depois o volta a ligar; se desligou, é de vez; e nunca mais, mas absolutamente, gajo desligado poderá sequer ter um vislumbre de qualquer coisa que se tenha passado durante todo o tempo em que esteve ligado e deu luz e energia; acabou-se; click; off.




(imagem de www.guikit.com)

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29/10/06

Consultório sentimental - XIX

A letra M

Olá, o meu nome é João, tenho 30 anos e sou casado há 2. Tenho acompanhado a correspondência no seu "consultório sentimental"e ando para lhe escrever há que tempos sobre um assunto que me deixa curioso e que resulta simplesmente da leitura dos seus escritos: é que me parece que você, afinal, detesta as mulheres! Pois é, que raio, você dá-lhes na touca à força toda, parece que não gosta... será? Há uns tempos li aqui uma transcrição de um anónimo qualquer que insinuava que você às tantas pega mas é de empurrão...
Porra, ó homem, você nem me diga uma coisa dessas! Não posso crer. Mas lá que você lhes chega, ai isso chega. Foda-se! Até parece que nunca conheceu uma gaja decente! Bem, já agora deixe-me que lhe diga que a minha também não é lá grande coisa (caralho, isto é para ficar aqui entre nós, ok?) e eu devo confessar que já estou farto dela até à raiz dos cabelos. São só dois anitos (faz no próximo dia 15, precisamente) mas, se pudesse, já a tinha empontado; olhe, fazia como aquele gajo do anúncio, pegava nela ao colo, ia lá a casa dos paizinhos dela e despejava-a no chão, como se fosse mercadoria marada: tomem lá esta chata do caralho de volta, e já agora chutem para cá o guito que eu torrei à conta dela.
Mas enfim, isto sou eu a falar. Há que aguentar, de peito feito e cara alegre, como você diz. O que interessa agora (e, sinceramente, duvido que você responda a isto) é saber que raio de ódio é que você tem às mulheres em geral. Caralho, você deve ter sido encornado para cima de uma data de vezes! Não lhe queria estar na pele, se não estiver enganado.
No hard feelings, old chap!
Saudações.
J.

 

Caro João, bem-vindo ao consultório.

A sua mensagem merece resposta, olá se merece, quanto mais não seja porque há décadas que não ouvia ou lia a expressão "já a tinha empontado". "Empontado", que giro, do muito injustamente esquecido verbo empontar. Olha que bem. Até fui ao dicionário confirmar se esse delicioso termo ainda lá estava e, confiramos, não consta do Houaiss (são as putas das modernices) mas consta de uma enciclopédia e do velho P.E.

Pois empontar, caro amigo, é precisamente o assunto de que fala vocência. Lá esses números do carrinho-de-mão, paneleiragens e tal, desculpe mas terá de consultar o tal anónimo, que além de anarquista parece ser realmente especialista no assunto. Eu cá, de paneleirices pouco ou nada entendo, a não ser que eles lá e eu aqui, que se fodam - em sentido figurado e em sentido literal - a bem da nação, e que não me chateiem é o que é preciso. Mas respondendo directamente à sua pergunta, não: ou melhor, como é politicamente correcto dizer-se, acho que não; nunca experimentei tal coisa e, sinceramente, não me estou a ver a sequer chegar-me ao pé de um gajo que cheira como eu, é tão feio como eu, tem uma coisa tão horrível entre as pernas como eu tenho e, principalmente, está completamente desprovido daquilo que me interessa em assuntos de cama: cona e mamas, não necessariamente por esta ordem; claro que o belo cuzinho também conta, e ó de que maneira, mas quando falo de cu falo de ancas largas, uma peidola valente e assim para o grandalhão, provida de preferência de uma apícola cinturinha, umas coxas nutridas e, em especial, de um pudor especial com esse detalhe anatómico. Já conheci umas duas ou três para as quais o belo enrabanço era o prato principal, o mais suculento e preferido, mas foram a excepção e não a regra.

Aquilo de que as mulheres realmente gostam, como todos sabemos, é de levar na cona. Nada mais, nada menos. E isso remete para o assunto central da sua questão: serei eu um miserável misógino, isto é, terei eu uma aversão desmedida às mulheres em geral?

Bom, dando de barato que nestas extremamente científicas questões a primeira pessoa do singular deve ser academicamente banida, já que o subjectivismo embota qualquer raciocínio, parece-me dever começar por afiançar que sim. Realmente, a minha prática e a minha teoria, daquela resultante, apontam nesse sentido: as mulheres servem única e exclusivamente para aquilo de que mais gostam, ou seja, repitamos para que não restem dúvidas, para levar na cona e pouco ou nada mais. Como dizia alguém que pouco entende destas subtilezas mas que diz umas coisinhas acertadas, é fodê-las primeiro e mandá-las foder depois. No fundo, vejamos, é isso mesmo que elas querem. Claro que milénios de aculturação as forçam, geralmente contrariadas, coitadinhas, a fingir perene e sistematicamente que não é assim, mas é. A suprema felicidade, para qualquer mulher, dura e é enquanto estiver com ele encavado. Não sejamos líricos, porque elas também o não são. Toda a parafernália,  o chamado arsenal sentimental feminino, se resume a uma questão central: com quem vou foder a seguir?

Ingente e urgente questão, que tantas e tão belas páginas tem dado à Literatura universal ou, pelo menos, do lado de cá dos Himalaias. Inúmeros patarecos e choninhas, como Shakespeare ou Balzac, para citar apenas dois exemplos, escreveram que se desunharam sobre a nobreza dos sentimentos e a intrínseca delicadeza da fêmea, quando esta, cagando-se absolutamente para tais patacoadas, escreve e diz as coisas como elas são; veja-se o caso de Florbela Espanca, essa notória histérica, entesoada até à medula, que não se coibiu de chamar os bois pelos nomes:

Amar!
Eu quero amar, amar perdidamente!
Amar só por amar: aqui... além...
Mais Este e Aquele, o Outro e toda a gente...
Amar!  Amar!  E não amar ninguém!

Recordar?  Esquecer?  Indiferente!...
Prender ou desprender?  É mal?  É bem?
Quem disser que se pode amar alguém
Durante a vida inteira é porque mente!

Há uma primavera em cada vida:
É preciso cantá-la assim florida,
Pois se Deus nos deu voz, foi pra cantar!

E se um dia hei-de ser pó, cinza e nada
Que seja a minha noite uma alvorada,
Que me saiba perder... pra me encontrar...

Ora aí está, amigo João. Troque vomecê o verbo, esse lindo verbo "amar", tão glosado pelos homens e tão gozado pelas mulheres, ponha-lhe o devido e correcto "foder" em vez, e já vê: a chavala o que pretendia era foder que nem uma leoa. Porém, precisamente, há que entender estas subtilezas de linguagem, mulher alguma - ou, melhor, só uma ou outra, esta Florbela foi uma excepção - se atreve a não utilizar o código específico da Língua da nação fêmea. Gaja que fale em "foder", sem mais aquelas, arrisca-se a levar com o carimbo de grandessíssima e alternadíssima puta, pelo que a alternativa é ir usando umas palavrinhas glicodoces e melífluas em vez daquelas que lhes apeteceria dizer. Por isso, além de "amor" em vez de "foder", dizem "coração" em vez de "cona", e falam dos seus "cabelos" quando pretendem significar "cu" ou "mamas" ou "pentelhos". E assim por diante: "paixão" é "tesão", "saudade" é "tesão de amarinhar pelas paredes", "carícia" é "punheta", etc. Mesmo a coisa em si, o trivialíssimo verbo "foder", é por elas sistematicamente transformado em "fazer amor", isso então é que me irrita até à quinta casa; já ouvi uma data de garinas babando a sua frasezinha preferida ("eu não fodo, eu faço amor") e posso afiançar que a partir daí as coisas correram pessimamente. Expressões um bocadinho mais complexas, como "adoro-te", representam imagens mentais, ou desejos não muito conscientes, que se poderiam traduzir como "gostei da última, mas soube-me a pouco" ou ainda como "foda-se, não dá para uma rapidinha, assim de repente?"

A coisa, em a gente se habituando, torna-se facílima de compreender e, por regra, dispensa tradução. E é precisamente por isto que, no meu caso particular e no de outros igualmente veteranos, a percepção dos factos e a lucidez demonstradas podem cheirar, diria mesmo tresandar, a pura misoginia. Mas não corresponde à verdade, como se demonstrou com exemplos. Uma coisa é alguém não gostar de mulheres, ou porque é paneleiro ou porque prefere exclusivamente bater pívias, outra coisa bem diferente é um gajo dizer aquilo que acha sobre as mulheres e, nesse caso, arrisca-se a ser mal interpretado. Por mim, caro João e caros outros colegas das belas artes, quero bem que isso se foda; tento explicar, de quando em vez, que não é por compreender as mulheres que deixo de gostar delas, em geral, e de umas quantas em particular, e muito menos deixo de apreciar tudo aquilo que elas me podem dar. Apenas não chamo a isso, a tudo o que elas me podem dar, os nomes que elas pelos vistos gostariam que eu chamasse. Fodei-vos. Eu quero é cona, não "coração". Que se foda o coração, que só dá chatices. Eu quero é foder, não "amor", não "paixão". Se houver alguma simpatia pelo meio, alguma amizade, melhor, excelente; se não, bem, então a coisa durará um pouco menos e será um pouco menos intensa. Nada mais. É como num jogo de fortuna e azar: rien ne vas plus.

Que uma qualquer mulher se diga (ou se sinta, o que vem a dar no mesmo)"apaixonada" por um tipo qualquer, é para mim o mesmo que ouvir o Marco Paulo a cantar: desligo imediatamente. Que possa ser eu próprio o objecto desses "amores" e dessa "paixão" emociona-me tanto como ouvir o mesmo Marco Paulo a cantar, já depois de eu ter desligado o cantante. Contente ficaria, isso sim, e fiquei em diversas ocasiões até hoje, quando uma mulher - porque também há disso - mostra que é um ser humano e não uma simples máquina de foder; quando - especialmente depois de a gente foder - me acende um cigarro ou me chega a cervejola; quando é simpática, e gentil, e amorosa; quando sorri sem ser de pura lascívia; quando um abraço ou um beijo têm tudo de carinho e nada de cio; quando me endireita o colarinho da camisa ou quando me compõe o nó da gravata. Quando, por fim, está comigo porque sim e não porque me deseja. Se bem que esta última também me não desagrade, mas não estraguemos a fluidez natural do texto.

E isto remete-nos para o início: o genial verbo "empontar". Pois saiba o amigo que, pessoalmente, sim, já fui empontado algumas vezes. Escusa de se começar já a rir porque, se bem conheço as mulheres, a sua estará muito provavelmente - neste exacto momento - a pô-lo a si em pontas (que é outro significado possível do verbo), ou seja, a empalitá-lo alarvemente. Dois anitos, diz o amigo? E diz que já está farto dela?! Hihihi. E ela não? Ela ainda deve estar muito apaixonadinha por si, descanse. Eu é que não queria estar na sua pele, ora essa! Vossemecê é que pode ser encornado, não eu, ou quem é que é aqui o gajo casado? Foda-se, fique-se lá com a sua mais-que-tudo, desenrasque-se, mas também não venha para cá mandar boquinhas foleiras.

Mas vá lá, por esta vez passa. Não faço a mínima ideia de quantas vezes a minha primeira mulher me "empontou" (ou empalitou), no mesmo período de tempo; presumo que algumas; como diz a Bíblia, se não em obras, pelo menos em pensamentos e seguramente por palavras. Isso é uma coisa chata que me sucede, a saber, falar a dormir, e calculo ter sido assim que a dita arranjou um pretexto para se "vingar", à época. Já a segunda (e devo acrescentar que, depois desta, já não houve mais encornanços legais, porque nunca mais caí desse cavalo abaixo), bem, essa só me empontou uma vez... se bem que tenha sido uma vez de escachar, uma coisa horrorosa. De outros episódios semelhantes não reza a minha história pessoal, porque não houve mais nenhum consórcio legal e porque, inerentemente, esse tipo de maçadas apenas ocorre a quem é suficientemente imbecil para casar ou juntar os trapinhos; em namoricos e assim, a gaja que me troque por outro apenas me resta desejar-lhe boas noutes e que se divirta; é uma chatice a menos e permite passar à seguinte de uma forma mais expedita.

Mas não se julgue que aquilo que penso ter demonstrado não ser "raiva" ou "asco" se agravou ou se deve em exclusivo a estes tristes episódios de empontanço. Nada disso. Evidentemente, tais e tão públicas "traições" acabam fatalmente por criar anti-corpos em quem delas é vítima, mas tudo acaba em bem, até porque tudo acaba, e o tempo se encarrega de repor a ordem natural das coisas: a primeira vive mais sozinha  do que um cão, tendo por companhia apenas o álcool; da segunda, nunca mais ouvi falar; das outras, nem quero tomar conhecimento; volta-e-meia, lá vejo uma em plena rua, irreconhecível, gorda como um batoque ou velha como uma carcaça; cumprimentos lá em casa, é o que lhes desejo.

"Gajas decentes", como diz, conheci uma única... até hoje. Mas tanto o conceito de "decência" como o seu inverso, a "indecência", dependem de uma única variável: toda a gente é "decente" enquanto não se descobre que, afinal era "indecente"; e também pode, muito mais raramente, suceder a operação contrária. Por definição, e na acepção estritamente sexual do termo, mulher "decente" é coisa que não existe e que não faz sequer, de um ponto de vista sociológico ou zoológico, sentido que exista. Pelo menos, não desde Maria Madalena, essa artista pelos vistos sinceramente convertida à santidade.

Pronto, amigo João, espero ter contribuído para a sua paz de alma. Esteja descansado. Aqui é tudo heterossexual (estão dali a dizer-me "achamos, achamos") e tudo finos apreciadores do belo sexo. Não temos caganças, é só isso. E o facto de eu ter exposto aqui assim a minha intimidade, que fique bem claro, é uma excepção que se fica dever em exclusivo ao facto de me ter apetecido. Nada mais a declarar.
Cumprimentos à esposa.
001


P.S.: a propósito: afinal, que tal é a sua mulher? Bom material? Homem, não se acanhe! Mande foto dela ou, melhor, mande-a a ela, em pessoa. A gente cá se encarrega de lhe aliviar o fardo a si. Os amigos são para as ocasiões, como soe dizer-se; temos de ser uns para os outros, não é? Às ordens.

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