Sopa de letras

A receita pode variar, mas o caldo é sempre o mesmo, por assim dizer. Uma coisa é alguém assinar com FJV, JPP, VJS, VGM ou MEC, por exemplo, ou ainda, vá lá, como EPC, outra bem diferente é rubricar umas coisinhas pífias que mais fazem lembrar formato de ficheiro, seja ZZU, no caso; como poderia ser ZDI, de Zé Das Iscas, ou FDT, de Fulano De Tal, gente de somenos e que não conta para nada.
Mas afinal, quem é que vem a ser esse tal ZZU? Quem se julgará ele? Olha, olha, então não querem lá ver, já a formiga tem catarro, mas qual Z e qual Z e qual carapuça, isto não vai lá com umas iniciais quaisquer, isso é que era bom. Que se diga um chorrilho de asneiras ou que se tergiverse infindavelmente, pois com certeza, está muito bem, se aquilo vem cunhado com griffe de autor, as três iniciaizinhas consagradas, pois sim, é uma porcaria mas é porcaria da boa, caso não fosse - por exclusão de partes - o que estariam ali a fazer as três letrinhas, aquelas e não outras quaisquer, aquelas que toda a gente conhece? Se não presta, mas vem consagrado, então já presta e é por isso mesmo, de novo, consagrado como obra-prima, primor de redacção, verdadeira pechincha de ironia e fino recorte.
O hábito de ler, que é extremamente raro em Portugal, modificou-se de uma forma surpreendente para a generalidade daqueles que ainda o fazem: o português consumidor de letras começa sempre a ler de baixo para cima, isto é, tomando primeiro conhecimento das iniciais do autor, e só depois, caso aquelas interessem, é que optará por uma de duas hipóteses: ou ler na diagonal ou ler a salto de cavalo, quer dizer, uma coisinha aqui e outra ali, os títulos e subtítulos, quando não apenas o primeiro e o último parágrafos. Esta agilíssima técnica de tresleitura permite assim, ao dito consumidor, por um lado não se ralar muito com os detalhes e por outro ficar detentor daquilo a que se costuma chamar "uma ideia geral"; polvilhado com uns conhecimentozinhos nominais de tudo e mais alguma coisa, como é seu costume e hábito, fica por conseguinte o típico leitor português habilitado a debitar opiniões e a tecer considerandos a respeito de qualquer assunto, desde a teoria literária que se pode detectar no discurso de ALA ou do seu homólogo militar, ARE, aquele das suíças, à influência cubista na obra de Luís Pereira de Sousa (LPS). Não interessa rigorosamente para nada que este último nunca tenha publicado coisa alguma, e que se diga mesmo por aí à boca pequena não saber ele sequer ler, quanto mais escrever, porque o facto é que possui, reconheçamo-lo, um belíssimo trio de iniciais e, portanto, se não escreve é porque não quer e está no seu pleno direito.
Outro tanto sucede com alguns dos autores da nossa praça, os quais, depois de consagradas as respectivas iniciais, bem podem nunca mais na vida esgalhar a mais singela das frases. E o pior, se pior ainda é possível, é isto ser caso raro, porque a maioria desses tais consagrados se considera na obrigação de nos presentear regularmente com o brilhantismo do seu pensamento, a argúcia da sua visão existencialista, a elegância do seu estilo redactorial e coisas que tais. Não valeria a pena estarem agora a incomodar-se, mas enfim, alguém que lhes vá lá dizer isso, os manufactores de pessegada - vulgo, fazedores de opinião - estão-se bem ralando para os apetites do rebanho.
Quando eu, que assino 001 (ZZU), escrevo umas coisinhas de jeito, por vezes muitíssimo bem esgalhadas, que até me mijo a rir quando as leio mais tarde, pois bem, que se foda, esta merda é aqui um deserto do caralho, só meia-dúzia de maluquinhos cá vêm às vezes espreitar. Pois, senhores, se no dia seguinte as mesmas merdas aparecem num blog qualquer, devida e competentemente recicladas, aí é um ai jesus, e ohs de admiração, e expressões de espanto sortidas. Isto assim é uma merda, devo confessar. Ainda há dias recebi por e-mail um texto do VGM sobre o Ensino e... caralhosmafodam se não escrevi aqui as mesmíssimas merdas, vai para uns tempos. Só que, lá está, o Vasco Graça Moura é o VGM e o 001 é o ZZU. Portanto, fodeu.
Outra. Ando eu aqui há séculos a pregar (do verbo pregar, aquilo que fazia Santo António aos peixes) sobre os perigos do antitabagismo; vai-se a ver, ninguém ligou meia aos meus mais do que avisados avisos, e agora é aquilo que se vê, não há cão nem gato que não diga as mesmas porras, por outras palavras ou com as mesmas, sem tirar nem pôr. Que o Altíssimo vos desse com uma marreta nos cornos, seus caras de caralho, tunga, à força toda! Agora, ides mas é fumar barbas de milho com a cabeça enfiada na retrete, se não quiserdes ir parar à cadeia. Doravante, com os documentozinhos legais que acabaram desgraçadamente de sair, ides não apenas ter de viver até aos 150 anos, com saúde até aqui, ó, como ainda tereis de bufar os nomezinhos de todos os criminosos que vistes a puxar umas fumaças. Não ligastes ao que eu vos andei a dizer durante anos a fio, lá porque eu não tenho umas iniciais jeitosas, e agora estais todos bem fodidos, ides gramar com uns gajos a dar na veia ao vosso lado, em tudo quanto é sítio, mas não podereis jamais acender o cigarrito, nem que seja para espantar o nervoso ou porque vos morreu alguém de família.
É por estas e por outras que estou a pensar seriamente em mudar de nome ou, ao menos, de sigla. Quem sabe, talvez uma coisa assim mais sonante, tipo CVC (Carlos Vaz de Carvalho), que é não só sonante como até capicuante; ou talvez algo mais amaricado, que isso também está a dar, sei lá, DVD (David Vilarinho Darque, ou o caralho que o foda), hem, outra capicua abichanada, como convém, que me dizeis vós outros?
Pois, seus coninhas, não dizeis nada, não é? Estais para aí mudos que nem umas putas de umas múmias e eu aqui deste lado a tratar conscienciosamente dos vossos interesses, ingratos do caralho. Se calhar, preferíeis que eu adoptasse uma sigla de duas letrinhas, não? Bem, é um caso a considerar.
Há-de haver, de resto, alguma relação causal entre a qualidade e o número de autores com três e aqueles que apenas possuem duas iniciais: veja-se os casos de EQ, mais antigo, venerando escritor, ou de NR, este bastante mais modernista, enciclopedicamente cabotino, e compare-se a sua popularidade e o número de vezes em que são citados com os equivalentes de quem possui nome e dois apelidos, ou dois nomes e apelido, ou mesmo três apelidos. Então não se vê logo? Não tem nada a ver. Por outro lado, pensando bem, se o próprio Álvaro Cunhal (AC) até de pseudónimo usava só duas letras (MT), e se mesmo de alcunha também (MB, de Mula Branca), pois quem sou eu para questionar semelhante cachola. E o FP, esse fino apreciador de cocaína. O MS, o AG, o próprio JC, a MT de Inglaterra, essa rija e colhuda senhora, o grande JS, escritor americano. Assim de repente, afinal vejo que há uma data de nomezinhos fixes só com duas iniciais.
Pois, é uma hipótese a considerar, em vez de trio. Se calhar, ainda vira moda: RG, AP, LM, ST, ou assim. Ora foda-se. Parecem marcas de tabaco.
Hum. Não sei bem. Vou pensar nisso.
Foto: USA Kulinarische (culinária americana, em Alemão; fosga-se!)




