Olá
Senta-te.
Cala-te.
Levanta-te.
Despe-te.
Deita-te.
Cala-te.
Cala-te.
Cala-te.
Veste-te.
Vai-te embora.
Cala-te.
Adeus.
Cachucho social, marinado e sem espinhas. Notas e outras coisas gramaticalmente vis, vulgaridades e trivialidades sobre tudo e mais alguma coisa, etc.
Senta-te.
Cala-te.
Levanta-te.
Despe-te.
Deita-te.
Cala-te.
Cala-te.
Cala-te.
Veste-te.
Vai-te embora.
Cala-te.
Adeus.
Uma gota de orvalho formou-se agora mesmo em cheio na ponta do teu nariz.
A tua mão na minha está fria, mas custa-me largá-la assim sem mais nada.
Acho que sorris, se calhar sim, quem sabe se os teus olhos fechados
me recordam ainda, ainda teimam em se não despedir dos meus.
Estás mais bela do que nunca assim posta em repouso,
serena por fim, e radiosa, a tua alma espreitando,
vês, lá de cima, por aquela frincha da janela.
Sossega agora, estou bem ao pé de ti,
finalmente sou o teu único homem;
por fim guardo eu a tua solidão.
É agora, agora, meu amor.
Não me desapontes,
leva-me contigo
por favor.
Sim?
Sei que algo não se fez.
9
Sei que és quem não me ouve.
8
Sei que devia ser mais afoito.
7
Sei que o teu céu é mais leve.
6
Sei que não sou como tu és.
5
Sei que já não te sinto.
4
Sei que já não aguento.
3
Sei que perdi a vez.
2
Sei que há depois.
1
Sei o negrume.
Este é o sítio do silêncio
onde a paz finalmente dorme
e nada mais perturba a eternidade.
Este é o sítio do silêncio
onde se entende sem ouvir
e se cria pela força do pensamento.
Este é o sítio do silêncio
onde a água corre mansamente
para um mar de absoluta calmaria.
Este é o sítio do silêncio
onde as árvores marulham docemente
embaladas pela brisa mais suave.
Este é o sítio do silêncio
onde só as aves podem cantar
e o sol brilhar e a noite cair.
Este é o sítio do silêncio
onde se compreende por fim o paraíso
como vale a pena deixar a vida sem ruído
e que não acordar nunca mais faz todo o sentido.
Que esta batalha entre a tua sombra e um dos meus fantasmas,
que um deles não ganhará nunca o direito à tua estátua de pedra.
Algo me
diz que não haverá nem vencedor nem vencido ou
seja como for nada poderá derrotar os outros
mesmo que um deles desista e bata no peito
jurando que
por sua culpa, sua máxima culpa,
por pensamentos, palavras e obras,
nada ficará como dantes.
E nada me diz que alguma coisa te fará sorrir
quando souberes o que diz a tua sombra:
um espelho da luz que te ilumina
como se fosse um verso escrito ao contrário.
Que ainda assim saberás onde me encontrar.
Que descobrirás por fim uma maneira simples
de perscrutar o meu horizonte.
Destino virado do avesso
Nisto em que me atravesso
Um desatino curto e grosso
Como o estertor de um colosso
É o tempo que sinto finda
A vitória por fim ou ainda
Não é algo de que se prescinda
A imagem de mim por fim a mais linda
Stop enfim stop a partida stop a vinda
Vai-te mal vai-te animal
deixa-me em paz
Calças à boca-de-sino a estalar de tão apertadas.
Camisa justíssima, colarinhos bicudos até ao absurdo.
Sapatinhos de bico aflito e tacões de dez centímetros.
Trunfa pelos ombros, triunfante, esvoaçante.
Bigodinho malandreco, óculos Ray-Ban,
O andar ritmado da juventude.
Que felizes éramos nós debaixo do sol.
"Há-de haver um Natal, e será o primeiro". Não me lembro bem do resto mas era isto, ou era mais ou menos. O velho David, com a sua varinha mágica para palavras: "Em que se veja à mesa o meu lugar]
[vazio."
Lá estarás nessa noite, com a tua família e o frio lá fora. Há-de haver um Natal para ti, mais um. Litania ou ladainha? Não me lembro, pronto. O velho David, como quem diz "que se veja à mesa o meu lugar]
[vazio",
tua definição de longe e de distância, cada vez mais indefinida. Tu, e a tua família, e o calor da noite de Natal brilhando na lareira, e as luzes do presépio aquecendo essa árvore de plástico, "o meu lugar]
[vazio",
artificial, e uma estrela dourada lá em cima. Paz na terra, paz na terra, paz na terra, o comboio da felicidade irrompendo pela escuridão, a tua família na primeira carruagem e o teu sorriso abrindo um "lugar]
[vazio",
por entre a neve do esquecimento. Quando soarem as doze badaladas, o velho David explodirá na tua cabeça docemente, com aquela voz abençoada, que Deus lhe deu, mostrando-te à mesa o teu "lugar]
[vazio".
A tua ausência no meu lugar
[...]
Quando eu partir, toca esta música no teu gira-discos.
Tocas, por favor? Prometes? Diz que sim, vá,
Afinal o que te custa fazer isso em memória de mim?
Esquece o perigo, o passado, esquece os riscos.
Respeita o meu último desejo, agora que estou lá
Onde as coisas já não são nada, nem sequer assim-assim
Este é o meu enterro, a minha última vontade.
Nada mais há a dizer nem a fazer, acabou-se.
Nunca mais verás a minha face viva,
Sorridente, ou triste, ou inexpressiva.
Levou-me esta caveira, mulher, com a sua foice,
Gadanhou-me o corpo de qualquer saudade
E aqui vou eu, dócil e conformado, muito pálido,
Procurando em vão por onde pára a minha alma,
O que será feito dela, pergunto-me, a desalmada?
Quase branco e sem aqueles vinte e um gramas,
Despedido sem vivas, sem ovações, sem palmas,
Sinto-me assim leve, elegante, quase esquálido,
Em paz com todo o mundo, numa grande calma,
Livre para sempre de ti, ó rima rica, minha amada.
Quando eu morrer, põe esta música a tocar, por favor.
Será esta a tua missão, o teu compromisso.
Por mais que te custe, esquece a dor,
Esquece, por favor: faz-me isso.
Tu, que foste minha, és doce e és mátria
Deixa-me morrer em paz com a minha pátria.
Que me abrasa quando menos espero
Que te incendiava quando eras pequena
Que me consome quando muito te quero
Que te iluminava quando dormias serena.
Esse fogo real e perene, em chamas quase azuis
Essas brasas eternas, esse vulcão em ebulição
Que destrói tudo aquilo que houve, nós os dois
Para sempre ruínas, raiva, desespero, maldição.
Quem me dera outra vez esse fogo
Ver-te sair de mansinho, até logo,
E a tua sombra em chamas na parede
Queimando-me a língua com a tua sede.
Gosto de te ver ardendo
Gosto de te ver sofrendo
Ao menos de impaciência
Ao menos de paixão
Ao menos com violência
Ao menos com coração.
Sabes a que sabes? Sabes?
Não sabes. Como poderias tu saber?
Mas deixa, finalmente vou-te dizer.
Sabes a metal, a ferro, a chapa,
A cavilhas que seguram traves.
És como colher que se morde sem querer.
Sabes a parafuso, a anilha, a alicate,
A carril dos comboios, a toques a rebate.
Queres provar o teu sabor? Prova.
Vês? É assim, é isto, esta lata,
Este sabor de ferrugem a corroer.
Algo muito grande, enorme, como
Um tanque de guerra, ou algo pequeno,
Como um prego velho e retorcido,
Uma pobre carica enferrujada.
É a isto que sabes, sabes?
É este mesmo o teu sabor.
É um gosto amargo, tosco, animal.
É assim puro, livre de todo o mal.
O teu sabor e o teu perfume.
O teu fogo, teu aço, o teu lume,
A tua forma simples de dizer
Estou aqui, sou a tua mulher,
Toma-me, sou eu, sou toda tua.
E eu digo sempre sem dizer:
Meu Deus, adoro ver-te nua,
Adoro-te, querida, meu amor.
E provo-te de novo sem qualquer pudor.
Suspeitas.
Acusas.
Perguntas.
Respostas.
Sacodes.
Explodes.
Reprimes.
Redimes.
Convences.
Desistes.
Repetes.
Repetes.
Espero.
Admite.
Agora.
Confessa.
Oiço.
Repete.
Espera.
Admito.
Nunca.
Ouve.
Repito.
Desespero.
Confesso.
Sempre.
Sempre.
É o teu sangue a correr nas minhas veias.
Esse milagre de quando triste sorris
e me deixas ver como és fatal;
e eu escravo de ti, senhora.
Tu, minha, serva, imponente, que bela és
quando me prendes nos teus braços
e me deixas ver como és fatal;
e eu, querida, o teu senhor.
Lembras-te agora de como foi, a primeira vez ?
Meu Deus, mas quanto tempo se passou já?
Poderei agora ver como foste e és fatal,
amiga, amante, querida, meu amor,
oh, minha escrava desigual.
Deixa-te por um momento dormir em paz.
Descansa agora neste peito calmo.
Deixa-te então, mulher fatal,
dorme, sossega, diz-me
tu outra vez, descansa,
dorme, meu querido.
É tão bom ouvir-te dizer isso, meu amor
minha amiga, mulher, meu destino
fatal fatal fatal.
E o sono, o sono, o sono,
A tua imagem desfocada neste espelho barato.
E bocejo, e bocejo, e bocejo;
Sem querer desato a rir, sem parar, disparato:
Olha um dia, olha outro, e outro.
Acredita, que eu já não posso (não é chato?).
É o sono, é o sono, é o sono,
É que já nem me lembro bem da tua imagem!
Um esboço, um esboço, um esboço.
Fatalidade engolida em seco, desvantagem.
Soma tudo, soma, e qual é o resultado?
Uma pouca de nada, seu avião sem fuselagem.
Rabisco, ensaio, projecto, salpico,
Trajecto acabado, saiam todos, fim da viagem.
Esperei por ti e nunca chegaste realmente
Nem quando o sol se pôs nem quando nasceu.
Cedo, muito cedo, pela manhã, o teu lugar vazio
Mostrava-se amarrotado, mas cheio de ausência.
Ainda fui ver se te via, algures, se não seria confusão.
Mas não. Frio, muito frio, este jogo de esconde-esconde.
Não estavas e parece-me agora que nunca estiveste
E o gelo matinal deixou-me na boca este horrível travo,
Este vazio, esta raiva, este sabor metálico a traição.
Não ficou nada, realmente? É mesmo só isto?
Chegou, por fim, não o fim dos tempos, mas o fim,
Só isso, e ainda assim? Não resta nada, definitivamente?
Ao longe, vejo bem desta janela arrepiante,
Um barco despede-se de Lisboa, e de mim,
Imponente e ferrugento, nem rápido nem lento,
Sem grandes pressas de ir embora, quase pachorrento.
Serás tu ali, naquela vigia, acenando, dizendo adeus?
Será teu aquele lenço branco, aquela mão aberta?
Que horror, meu amor que já não és, como sulca
Essa quilha alaranjada e indiferente, como tritura
A espuma das águas o teu peito de madeira
E como é belo afinal o rasto que deixas para trás,
Imperial, triunfante, ondulante, sempre em frente.
Tu no teu casco de metal e eu aqui, repetindo sempre
Não, não, não, não pode ser, não, não, por favor, não.
Necessito água, rápido, lavar a boca, já, agora,
Lavar depressa de mim este sabor metálico da traição.
Adeus. Fez-se noite.
Já não me apetece caminhar,
passear contigo por essas veredas.
Adeus. Está de noite.
Parece-me que já te não vejo
tão bem como dantes. Agora custa mais.
Adeus. Caiu a noite.
É um silêncio, uma escuridão,
uma calma já sem saudade nem desejo.
Adeus. É noite.
O princípio de um novo dia
e o fim de tudo. Tudo. Já não interessa.
Bela, a noite. Adeus.
Ao longe, a vontade deixa de ser
cansaço, aquela coisa que se não encobre.
É água já esgotada, gasta como uma pedra
rolando pela praia, desolada esta,
deserta, a perder de vista.
Incompreensível areal,
misterioso e fino, mas generosamente companheiro.
Um só fôlego, último, emocionante, de quem
se encontra por fim com a verdade
que escorre por entre os dedos e que vem
e vai com a maré.
Fim dos tempos, como o sargaço,
em noite de lua cheia, embrulhando
os reflexos da tua juventude.
Que saudades, meu amor!
Que saudades tenho de mim.



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