Odi profanum vulgus et arceo
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25/03/07

Quatro batatas


Quatre patates
Vier kartoffeln
Four potatoes
Quattro Patati (Patatá?)
Cuatro patatas
VIER AARDAPPEL!

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21/03/07

Coisas que me emocionam profundamente

Ouvir, na televisão, um oficial da Armada portuguesa elucubrando sobre a "praia-mar". A cada novo "praia-mar" do sr. oficial, confesso, até me vêm as lágrimas aos olhos, tal é a emoção.

Ver, na televisão, o Emanuel aos pulinhos por ter ganho o "festival da canção" com a maior pimbalhada de todos os tempos. Parte-se-me o coração, de tão comovido.

Ler, nos jornais, a preocupação pressurosa (e um pouco sebosa, convenhamos) da nossa classe jornalística, a propósito da saúde periclitante de Jerónimo de Sousa, esse excelente dinossauro. Com merdas assim, eu cá é logo baba e ranho.

Ouvir e ver, em tudo quanto é lado, nosso Primeiro a dar uma de gajo porreiro e muito preocupado com a bendita saúdinha. Lembra-me logo aquela coisa altamente bichona do "work-out" e pronto, quedo-me assim, ó.

Ver, pues que en la pantalla, a Odete Santos declamando umas cenas, com um salero do caralho, tipo perna aberta e assim. Ah, a poesia, a poesia! O respectivo dia mundial que hoje passa, e tal, ah, ah.

Ouvir, no andar de cima, a puta da velha a arrastar móveis, enquanto arruma a casa pela duocentésima milésima vez. Com essa merda, fico tão emocionado que até amarinho pelas paredes.

Ler, numas coisas que têm capa e folhas, a ver se não me esqueço, o paleio de chacha do ALA. Imagino-o lá pelas suécias, à espera do prémio, coitadinho, com aquele frio de um caralhoqueofoda.

Ouvir, à nossa juventude, essa puta dessa espécie de candidatos ao genocídio, falando o seu dialecto preferido, mescla de mau Português e de péssimo Inglês. Aquilo é de arrumar qualquer um, de tão espiritual e cretino. Ya, chuif.

Saber, de fonte segura, que Portugal há-de continuar a ser o país mais atrasado da Europa, mas com o povo mais contentinho da vida que existe no mundo. É que nem os brasileiros nos batem nessa, chiça.

Ouvir e ler altos espingardanços contra a licença de isqueiro do Salazar e agora ter de ir tirar uma licença para dar banho à minhoca, vulgo pescar. Com a mais profunda emoção o digo: vão prá puta que vos pariu!

Assistir, com cerveja e tremoços, à peixeirada que vai pelo Largo do Caldas, na sede do CDS (Casa Da Sogra ou Centro Das Sopeiras?). Aquela Senhora, a Mizé, a que é linda de morrer, o que diabo andará por ali a fazer?

Ter tomado conhecimento, pelas vias competentes, de que Gabriel Alves foi despedido a chuto da RTP. Caralho! Finalmente! Aleluia! Ai, que ainda me dá uma coisa. Ah, ah, ah, ah. Aguenta, coração!

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15/03/07

Seria um prazer esquecerem-se do teu nome



Claro, sem qualquer rebuço o declaro, não gramo este gajo nem um bocadinho. Não é lá pelo arzinho enfastiado que o tipo arvora, com aquela maneira irritante de exalar o mais profundo desprezo pelo comum dos mortais, em todos os gestos e atitudes; nada disso; quero bem que se foda a pinta de espertinho do bacano, a sua pose de "grand seigneur" das artes, ou da p. que o p. Também não me rala nada que sua excelência fale - quando se digna falar às massas - com a mais superlativa das caganças existentes à face da Terra; é natural, este caramelo é portador de uma síndroma não tão rara quanto isso, mas que na sua pessoa condensa todo o poder de verdadeira patologia, a SPA (síndroma das peneiras agudas).

Foi portanto a esta patologia articulada, e não propriamente ao seu portador e máximo expoente, que foi hoje atribuído mais um premiozito de 20.000 contos por, diz-se no respectivo despacho de pronúncia, caracterizar-se aquela doença pel' "a maestria em lidar com a língua portuguesa, aliada à maestria em descortinar os recessos mais inconfessáveis dos homens, transformando num exemplo de autor lúcido e crítico da realidade literária."

Quer-se dizer: uma maestria, mais outra maestria, soma duas maestrias. Pronto, nesse caso, toma lá vinte milhas e cumprimentos à esposa.

A folha de jornal em que esta coisa espantosa vem embrulhada é um extraordinário exemplo da admiração pacóvia do portuguesito analfabeto por semelhante canastrão, imberbe escrevinhador de anagramas, aldrabão especializado em rabiscos, enfim, esse pobre tonto com o qual me arrisco a gastar todo o meu arsenal de impropérios, em não poupando uns quantos para mais tarde.

E o que me move, afinal, contra tal personagem, hem? Pois é, diz lá, ó Xiramaneco, hã, quem te julgas tu para estar práqui a cagar sentenças contra tão ilustre e premiada cachola?

Ora vamos cá ver. Nada. Não tenho nada contra. Repito: quero bem que o homenzinho se foda, e que seja muito feliz, na companhia dos seus. Mas, foda-se, ó gente incauta de uma cana, então mas não se está mesmo a ver que este gajo é um perigo? Hem? Que me dizeis? Não é? Não tarda nada, lá irá ele de novo para Estocolmo, para a Pensão do costume, até já deve ter uma chapa com o nome na porta do quarto, e pronto, a ver se é desta que pinga o nobelzinho da ordem. Mas não se está mesmo a ver? Agora, com este empurrão institucional no bolso, se calhar ainda lhe dão o diploma e a medalhinha, porra, porra, porra, longe vá o agoiro.

Não é como Português que me envergonharia tal merda, ver este patrício na galeria dos laureados; que se lixe, não é por aí, pois que já bem sabemos que o Nobel da Literatura foi por diversas vezes atribuído a escritores menores, isso é seguro e não aborrece ninguém. O problema reside, aqui para o abaixo não assinado, no facto indesmentível de esta figura em particular não ter nunca escrito fosse o que fosse de jeito, em toda a sua vida, não podendo por isso ser considerado como "escritor", nem maior nem menor. Atribuir-lhe a maior distinção - neste ramo de produção - a nível mundial, seria, a acontecer, um verdadeiro absurdo, uma tragédia de proporções épicas, uma bronca de todo o tamanho. Imagine-se que, um dia mais tarde, daqui a uma ou duas gerações, por exemplo, algum fulano lá do frio nórdico lhe dá para abrir um dos livros do dito cujo. Vai ser um escândalo do caralho! Não custa nada imaginar o tal fulano a entrar espavorido pelos aposentos reais (adentro), lívido, balbuciando num sueco muito pouco habituado a confusões:

_ Alteza, Vossa Majestade perdoará a intromissão... mas... mas... nós, em 2007, entregámos o Prémio Nobel a... como direi... Vossa Alteza sabe... enfim... (como é que hei-de dizer esta merda, bálhamedeus) a um... a alguém que... bom, cá vai: o homem, este Português aqui, este António Não Sei Das Quantas não batia bem da bola. Aí tem Vossa Alteza. Majestade. Sir. Li umas coisas dele, ao princípio nem queria acreditar, peguei num livro, depois noutro, depois outro, folheei não sei quantos, e é isto: não tem ponta por que se lhe pegue, se me permite Vossa Alteza a expressão; aquilo é tudo nhó-nhó-nhó, palavras a esmo, uma pepineira sem qualquer sentido; alguém fez... hum... "coisa" da grossa, lá na academia daqueles tempos, deram-lhe o prémio mas ninguém se deu ao trabalho de ler uma única linha, sei lá bem, nem eu próprio compreendo como pôde uma desgraceira destas acontecer. Uff. Pronto. Já disse. E agora, com sua licença, Majestade, os meus respeitos, venerador, atento e o obrigado, adeusinho.

O Rei da Suécia (ou a Rainha, sabe-se lá quem estará no trono daqui a uns tempos), branco como a cal da parede, vendo seu fiel escudeiro a fugir porta fora, recua de escantilhão e deixa-se cair num largo cadeirão, o queixo descaído, os olhos arregalados de espanto; esmagado pela terrível notícia, Sua Alteza o Rei da Suécia levará ainda algum tempo até conseguir fechar a boca e abri-la outra vez, chamar alguém, acudam, acudam, por favor, mas onde é que vocês estão, ó seus estupores, então não querem lá ver que agora me deixam aqui sozinho com esta porcaria em mãos, quer dizer, fazem a merda e depois aqui o palerma do rei que resolva, cambada de filhos da puta, ai, que não me estou a sentir nada bem.

Ora, portanto, sejamos discretos, deixemos Sua Alteza Real em sossego, deixemo-lo pensar, reflectir na melhor forma de se desenrascar de tão aflitiva embrulhada. Haja respeito pelas ralações alheias.

Cheguemo-nos nós outros aos santinhos de nossa devoção, acorramos em massa às igrejas - de qualquer confissão - e apelemos com fervor à compreensão e ao auxílio divino, nesta hora nefasta, oremos - de rastos, se preciso for - a toda a corte celeste, beatos e milagreiros incluídos, para que tal tragédia não suceda. Ainda vamos a tempo, ó almas de pouca fé! Aquela cena com o rei é só daqui a uns anos, em boa verdade ainda não se passou, mas lá que se arrisca a passar, ah, pois arrisca. Contribuamos assim, com a nossa fé e o nosso empenho colectivo, para que, através da interferência divina, com a preciosa ajuda da inspiração e dos bons pensamentos de Pai, Filho e Espírito Santo, enfim, pronto, que lá os gajos da academia sueca se não ponham com merdas e que caguem positivamente no nosso putativo laureado da literatura 2007 (ou 2008 e seguintes). Salvemos Sua Alteza Real o rei da Suécia de um futuro, inevitável de outra forma, lixadíssimo ataque cardíaco. Poupemo-lo a um fanico dos piores.

Vale a pena o sacrifício. Que seja pelas alminhas de quem já lá mora.




Foto e palavreado: DN

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10/03/07

Uma pergunta politicamente correcta

Até quando?




"Se o maquinista não tivesse trancado as portas, tinha ficado sem cabeça", afirma Pedro, 31 anos, um dos moradores do acampamento cigano montado junto à linha ferroviária, em Coimbra, onde uma criança de dois anos foi mortalmente atropelada por um comboio na quinta-feira à noite.

http://dn.sapo.pt/2007/03/10/cidades/familias_ciganas_exigem_casas_para_a.html

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09/03/07

O Professor Pardal e seu inseparável Lampadinha




Revele-se o mistério: nosso PM anda cheio de ideias geniais porque pediu emprestado o chapéu pensador ao Professor Pardal. Só pode ser isso. O homem senta-se, põe aquilo na cabeça e espera até que os três passarinhos do chapéu desatem a piar; é sinal de que acabou de ter mais uma ideia genial. Por vezes, quando anda por fora ou quando está num sítio cheio de gente, enfim, como é meio tímido e tem receio de que as pessoas se riam do chapéu pensador, JS socorre-se do Lampadinha, esse excelente e prestável companheiro de esgalhanço.

Mas com o chapéu pensador é que é: dali lhe vêm as ideias mais fixes, como as da despenalização do aborto e do roubo tabelado, por exemplo. Já aquelas que lhe são transmitidas pelo Lampadinha, às vezes, dão um buraco tremendo, como seja a de enviar tropas para o Iraque ou esta agora, a mais recente, de se poder despedir um funcionário público por ter tido duas avaliações de desempenho negativas.

Esta só poderia mesmo ter saído da cabeça luminosa do Lampadinha, um ser catódico meio americano e meio brasileiro, habituado portanto a outras voltagens. Uma coisa destas, em Portugal, só pode dar merda. Bem, como as outras vão dar merda, isso é certinho, mas esta então é de escachar.

Mas onde já se viu avaliação de desempenho na função pública portuguesa? Mas que desempenho é que existe para avaliar? Aquela merda, está-se mesmo a ver, não passa de uma artistice para despedir pessoal das repartições - coisa que era absolutamente impossível, até agora. Com esta engenhoca legal, qualquer chefinho passa agora a poder despedir um funcionário cujo nariz desagrade ou uma oficial cujos broches não convençam, assim, sem mais nada: dá-lhes duas "avaliações" negativas, seguidinhas, e pronto, fodeu, o gajo da penca e a gaja dos bicos estão ambos no olho da rua em dois singelos aninhos.

Esta merda é evidentemente ilegal, digo mais, é anticonstitucional, mas que se foda, não há nada que nosso PM não esgalhe, desde que seja a bem da Nação, em lhe parecendo.

Claro que, para a esmagadora maioria da população, esta vigarice legal cai que nem ginjas, porque não há cão nem gato que não gostasse de abichar um lugarzinho na administração pública, e vai daí toda a gente se pela por foder à tripa forra os cada vez menos privilegiados com tacho vitalício. Quanto menos eles são, os funcionários públicos, e quanto mais generalizada é a ausência total de direitos, para aqueles que o não são, mais engrossa a turba de ressabiados que pretendem liquidar o último reduto onde eles, os direitos, ainda existem. Tudo, é claro, em nome de coisas grandiloquentes como a "igualdade" e a "justiça".

A ver vamos, quando a dita lei entrar em vigor, e depois de devidamente comprados os sindicatos e representantes políticos da classe, que nova engenharia legal se irá engendrar para justificar a ilegalidade... da lei. Vai ser bonito. Quando o pessoal se aperceber de que acabaram os processos disciplinares e que, afinal, qualquer um pode ser despedido sem justa causa, senhores, a coisa pública vai rugir.

De resto, quando algum chato da oposição se puser com merdas, de que isto das duas avaliações negativas é despedimento liminar, ou assim, pois já todos estamos carecas de saber quem irá o José culpar: o Lampadinha, evidentemente. Não fui eu quem fez essa merda, dirá com sua característica presença de espírito, foi ele, foi aquela lamparina de um cacete!


(Imagem de Papersera)

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Referendo automático

Concorda com a despenalização da interrupção voluntária da propriedade, se realizada, por opção do gatuno, quando a este der ganas, em qualquer estabelecimento ou mesmo na via pública?

Não concorda?

Pois, azarito. Nós cá, os do Governo português, achamos que sim, que o roubo deve ser livre, e portanto que se foda. O referendo está automaticamente aprovado.

Para já, à cautela, a coisa só "cobre" os roubos de produtos tabelados abaixo dos 96 euros, mas é só para já. Há que ter peninha da gatunagem pequenina, coitadinhos, esses pobres diabos que agora até vão perguntar às pessoas, antes de as roubar, quanto vale o relógio, o telemóvel, o colar, a pulseira, os brincos, o casaco; assim, com esta maravilhosa lei, se os bens a gamar ultrapassarem a fasquia, nada feito, o gatuno segue adiante, escolhe outra vítima, outro filho da puta qualquer, desses que andam por aí a exibir pertences quando há quem não tenha posses para lhes chegar - o que não é justo, como se sabe.

Assim, de uma penada, limpam-se as secretarias dos tribunais, esvaziam-se as cadeias e, principalmente, Portugal poderá passar a orgulhar-se de ter as taxas de criminalidade mais baixas do mundo e arredores. Aliás, sem ser preciso grande sorte, o crime acabará por desaparecer no nosso país; roubar um automóvel ainda é crime, pelo menos até ver, mas com esta lei (maravilhosa, já tinha dito?) até já não será bem assim, pois que se pode roubar um carro às peças, um pneu de cada vez, uma porta e depois outra, finalmente o motor, todo desmontado em pecinhas, ó maravilha, nenhuma delas de valor criminal, ora pronto, está o problema resolvido; até uma casa, um palacete se pode roubar, o estádio da Luz, o autódromo do Estoril, à vontadinha, trata-se de o ladrão não se armar em burro, tira primeiro as telhas, depois as caleiras, os caixilhos das janelas, enfim, desmonta aquela merda tijolo por tijolo, ripa por ripa, sapata por sapata - tudo de valor unitário inferior a 96 euros, ora aí está, não roubou coisa nenhuma, por conseguinte.

Caralho, que esta merda é brilhante. Que se fodam lá os referendos e essas tretas todas, nós cá é que sabemos da poda, que venha o primeiro e levante cabelo, foda-se, invejosos do caralho, vocês queriam era ter-se lembrado desta primeiro, seus morcões.

Pois fodei-vos, mas é, a gente despenalizou o aborto até às dez semanas, agora vai o roubo até aos 96 euros, a seguir alguma coisa jeitosa se há-de arranjar, sei lá, por exemplo, o homicídio. Boa! Toca a despenalizar o homicídio. Ora deixa cá ver, José. Ah, já sei. Assim.

Concorda com a despenalização do homicídio, desde que realizado sem oposição por parte da vítima, sendo esta maior de 80 anos e não havendo qualquer interesse em que ande por aí a chatear as pessoas com os seus problemas de reumático, e assim?

Caralho, José, esta ainda está mais bem esgalhada do que a outra. Foda-se. És o maior.

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05/03/07

Cavalgaduras, uma mais-valia lusitana


Filho Da Puta, the Winner of the Great St. Leger, at Doncaster, 1815

Retrato do cavalo: HERRING, John Frederick (1795-1865) aquatinted by Thomas SUTHERLAND (1785-1838)
Citação e digitalização: Donald Heald

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01/03/07

Qeremos fudier e naum paga-mos



Bálhamedeus. Caralhosmafodam. Maz o q porra andaum a faser cua noça joventode, fuada-se? I istu saum istodantes univercitarius! Pqp!


Foto de Nuno Fox publicada no DN de hoje

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19/02/07

Salazar, segundo Jaime Nogueira Pinto

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14/02/07

Os (novos) intocáveis

O que sucede quando uma pessoa vai na estrada e alguém lhe dá uma "panada" por trás? No carro, quero dizer. Bom, em princípio, o condutor sai, o outro também, e tratam logo ali de preencher a chamada "declaração amigável": quem, onde, quando, como foi, essas merdas. Depois, cada qual envia ou entrega pessoalmente seu papelito na Companhia de Seguros e ambos ficam à espera de que a coisa se resolva. Nestes casos, que sucedem centenas ou milhares de vezes todos os dias, uns farolins partidos, alguma chaparia amolgada, trata-se de despachar o assunto burocrático, depois se verá; nada de mais e nada mais.

Agora vamos supor que vai na estrada e quem lhe bate por trás, no carro, quero dizer, não é alguém ao acaso, não é qualquer um, mas antes se dá a circunstância, o terrível galo de ser um cigano que se esqueceu de travar, ou que não travou a tempo. Bom, caro amigo, cara amiga, aí está tudo fodido, a sua vida acabou de mudar radicalmente. Isto, se tiver a sorte de a sua vida não ter mesmo acabado de vez.

Em Portugal, o Código da Estrada apenas se aplica aos portugueses, e por maioria de razões quando estes são de raça branca, homens, de meia idade e sem cadastro; caso sejam mulheres, ou não muito jovens, ou de qualquer outra raça que não a branca ou, especialmente, se forem cadastrados, drogados, notórios bandidos ou marginais indiferenciados, bem, aí já não é o Código da Estrada que se aplica mas algo que se poderia designar como "código minoritário", isto é, uma invenção abrilina consistindo no puro e simples privilégio apriorístico em função do facto de a etnia do autor ser minoritária; resumindo algo de muito complexo e intrincado, temos que ser jovem, mulher, preto, cigano, drogado, marginal ou simplesmente bandido facilita enormemente a vida, e não ser nenhuma daquelas coisas a complica de modo absolutamente radical.

Voltemos ao exemplo da simples "panada por trás". Bem sei que é "por detrás" que se diz, mas assim a coisa torna-se bastante mais legível, mesmo para o mais idiota ou empedernido dos esquerdistas. Um gajo leva no carro uma cacetada do caramelo que vem atrás; este, por coincidência e azar, é cigano (por exemplo). O que sucede? Há "participação amigável" à Companhia de Seguros? Não, claro que não há. O cigano, por regra e por definição, por idiossincrasia e por uma questão cultural (lá da cultura cigana, seja isso o que for), não sabe nem ler nem escrever, nunca foi à escola ou, se alguma vez foi, apenas andou lá a assaltar os seus coleguinhas e a infernizar a vida a toda a gente; portanto, o cigano não pode escrever nada na "participação amigável", simplesmente porque o cigano não sabe escrever; pelo mesmo motivo, recordemos, não saber ler nem escrever, o cigano não tem carta de condução, nem bilhete de identidade, nada com valor legal que o identifique. O cigano não precisa dessas porras porque é um eterno "pobrezinho", é um "desfavorecido" institucional, ou seja, alguém que por mais rico que seja terá para sempre toda a protecção legal, uma presunção de inocência inerente à sua condição, e o beneplácito generalizado de qualquer instância legal, social ou mesmo pessoal, já que os cidadãos são sistematicamente condicionados na sua forma de pensar, inocentando a priori qualquer cigano (ou marginal) seja do que for em função da raça e da condição presumida e administrativamente estabelecida.

Depois, há ainda a considerar que um cigano, qualquer cigano, por definição tem sempre razão... ou não fosse ele o detentor das armas, em sentidos figurado e literal; o cigano tem toda a razão, por regra, porque é o cigano quem dispõe de facas e de armas de fogo, e não esqueçamos o exército privado que constitui a sua família, uma turba disposta a tudo e ansiosa por cortar o pescoço a qualquer "sinhori" que se lhe depare, quanto mais não seja por desfastio e para desenjoar do último arraial de pancadaria. Portanto, de um ponto de vista legal e de um ponto de vista pragmático, é de extrema conveniência que o cigano esteja carregadinho de razão; caso contrário, está-se mesmo a ver a carrada de chatices que aí vêm.

Nenhum farolim, nenhuma quantidade de chapa amolgada merece a maçada e os inconvenientes de que semelhante chatice aconteça. O melhor, como toda a gente sabe, é fingir que se não passou nada e, se for o caso, pagar não apenas a própria reparação como também os estragos na viatura do cigano; pode ser até que ainda seja necessário pagar-lhe qualquer coisinha (aiiii), como "indemnização" pelo facto de o termos, de alguma forma, incomodado em sua admirável e honestíssima vidinha.

Do mesmo modo que o Código da Estrada se não aplica aos ciganos - deveria existir uma cláusula de excepção explícita e não apenas implícita - também não lhes é exigido ou exigível, muito menos, que paguem impostos, passem facturas ou que, de modo geral, cumpram qualquer dos requisitos de cidadania mínimos e correntes, como não incomodar o próximo, de forma abrangente, ou terem sequer um mínimo de civilidade, civismo ou um módico de educação. De tudo isso a raça cigana está completamente isenta, e ai (aiiiii) de quem se atrever a tugir ou mugir a respeito. Trata-se de "direitos adquiridos" e, por conseguinte, intocáveis. O cigano é, de resto, o mais intocável dos cidadãos portugueses, já que detém todos os direitos dos que o são, mesmo não o sendo, acrescidos daqueles que são inerentes à sua raça, vá-se lá compreender porquê, e não pesando sobre si nenhuma das obrigações a que e de que os outros cidadãos são sujeitos.

À semelhança daquilo que sucede em qualquer acidente de tráfego, nenhum cigano ao volante é detido por acusar excesso de álcool no sangue; aliás, as brigadas de trânsito estão já habituadas a mandar parar toda a gente, e todo o mundo vai ao balão, mas se é cigano, "siga", pode seguir, cumprimentos, saudinha, e até batem a pala, respeitosamente. À bófia não ocorre jamais a ideia peregrina de se meter em assados com a ciganada; estão escaldados, é natural, juiz algum se atreve a mandar para a cadeia um qualquer exemplar de tão edificante etnia - mesmo sabendo que as cadeias portuguesas estão a abarrotar com essa gente, tudo boa e honesta, como sabemos.

Experimentem não dar prioridade a uma carrinha cheia de ciganos e de alcatifas. Experimentem ultrapassá-los pela direita, se seguem à vossa frente a 20 km/h em plena auto-estrada. Experimentem buzinar-lhes se fazem uma asneira mesmo nos vossos estupefactos narizes. Experimentem um simples gesto de desagrado ou uma qualquer "boquinha" janela fora.

Vereis quantos saem de lá de dentro. Contareis quantos trazem paus e outros artefactos nada amigáveis. Vereis como sois cobardes, vós outros, por mais que vos surpreenda a própria cobardia. Vereis o que é o terror politicamente correcto e como passais a vida a fingir que as coisas "não são bem assim".

Vereis, por fim, quão cobarde é o povo português e como se agacha perante essa vil espécie de gente.

Enfim, rezai para que a próxima "panada" por detrás seja de um branco. Mesmo que esse seja também um bronco. Nada mau, hem? Uf, que alívio...

É só lata.

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01/02/07

Os Grandes Portugueses (da RTP)

Este post é repetido; por alguma razão que desconheço, o original, publicado no dia 18 de Janeiro foi substituído pela repetição de um outro post que não tem nada a ver. Devo ter cometido um erro de manuseamento, uma trapalhada qualquer.







Não seria nada de estranhar, se tivesse sucedido o "truque" referido neste post, segunda votação sem pré-aviso. No entanto, como se pode verificar AQUI, e de acordo com o formato original da BBC, pelos vistos há uma pré-selecção de 100 e depois os 10 mais votados (apresentados por ordem alfabética) passam ao "escrutínio" final.
Aliás, no primeiro programa da série da RTP (mms://195.245.176.20/rtpfiles/videos/gportugueses/gportugueses15102006.wmv), a "votação" dos 10 "finalistas" foi claramente anunciada e explicada.


Foi este o comentário que deixei n' A Voz Portalegrense e que seguiu para "aprovação", por parte do respectivo webmaster.

De facto, não seria nada de espantar que a televisão pública, apavorada com a iminente "vitória" de Salazar, inventasse uma forma qualquer de o apear do lugar mais "votado". Isso seria grave, e a simples suspeita já o não é menos. Portanto, sejamos curiais, não há nada como investigar os factos para chegar a conclusões. Aparentemente, não será desta que se pode atirar pedras à caixa mágica do Estado.





----- Original Message -----
Sent: Tuesday, January 30, 2007 10:16 PM
Subject: A Voz Portalegrense

Caro Amigo

Ao "passear" pelo Google encontrei uma referência à Voz. E ao entrar no seu Blogue encontrei o comentário que reproduzo.

Algo se terá passado, porque nunca recebi o seu Comentário.

Peço que tenha a paciência de voltar a enviá-lo, e terei todo o gosto em responder, como sempre faço.

Com as minhas desculpas pelo sucedido.

Cumprimentos.

Mário Martins





Assunto esclarecido. Foi mais uma chatice técnica qualquer. O comentário foi também reposto no post respectivo, n'A Voz Portalegrense.

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31/01/07

O Portugal de...




Não estraguemos isto com comentários. Enfim, só um: que diferença! Pronto, só mais outro: ó MEC, pá, ó das Pastilhas, vai-te lixar, moço.




Gravação original de RTP, Rádio Televisão Portuguesa (se ainda não mudou de nome); entrevista conduzida por Rui Ramos (nome citado de memória)

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23/01/07

Cinco anos, cinquenta cêntimos

- Eu lá recebi a tua carta...

Ega acudiu:
- Arranja-se tudo! Está tudo combinado! E com effeito eu não vim senão por um sentimento bucolico...
Muito discretamente Maria olhára para o rio. Ega fez então um gesto rapido com os dedos significando «dinheiro, só questão de dinheiro».
Os Maias, Eça de Queirós (cap. V, edição original); fonte Wikipedia

O debate de ontem à noite, na RTP, deixou em alguns espíritos um certo sentimento de frustração. Afinal, o homem, aquele sargento do exército com um metro e sessenta de altura e de carácter gigantesco, lá continua preso, enfiado algures numa cela aviltante. Depois de tudo quanto se disse, cada qual esgrimindo os seus argumentos o melhor que pôde e soube, o facto é que aquele herói, modesto e reservado, foi julgado, condenado e encarcerado - em vez de aplaudido, louvado e condecorado - pelo "crime" de protecção e auxílio a menor em risco.

Já praticamente toda a gente conhece a história, o triste episódio que mais uma vez manchará indelevelmente o sistema judicial português, essa implacável máquina trituradora. No entanto, este caso ainda é mais grave do que o costume, dado que se trata não apenas de flagrante injustiça como de pura e simples maldade, uma manobra perfeitamente sádica, perpetrada por quem detém o poder e se abstém do uso de qualquer espécie de senso comum. A criança está escondida algures, com a sua Mãe, e está muito bem; se não houver qualquer denúncia, ou "fuga de informação" à portuguesa, ao menos para já estarão ambas de perfeita saúde e em segurança.

O problema é o Pai da criança. Não se sabe quanto tempo cumprirá da pena de seis anos a que foi condenado, nem isso interessa agora; a questão é que não devia passar aquele homem bom um único dia privado da liberdade, de estar junto da sua família, de cuidar da sua filha. Essa é que é essa; tudo o mais não passa de ruído, razões descabeladas de quem apenas pretende ganhar alguma coisa com as grandezas e misérias da vida.

Ora, é evidente que a coisa se resolveria, por assim dizer, de forma queirosiana, isto é, facílima. O tal pai biológico da Esmeralda, Baltazar de sua graça, aquilo que quer é dinheiro, nada mais; será portanto uma questão de lhe dar o que ele pretende para largar de vez a "mercadoria", o "produto" que tem à venda, isto é, o ser humano para o qual deu em tempos uns mililitros de esperma.

O tribunal condenou o sargento a seis anos de cadeia por sequestro agravado e ainda a uma pena pecuniária de 30.000 euros (seis mil contos), como "indemnização por danos morais" causados a esse Baltazar. Foram evidentemente dois absurdos de uma só vez, mas enfim, dane-se, o fulano quer é guita, que diabo, portanto é dar-lha. Seis mil não chegam, vê-se bem, o que é isso nos tempos que correm, logo há que arranjar coisa que se veja, e depressa, pagar a esse biltre, principescamente se preciso for, a ver se ele não larga de imediato a princesa que nunca viu e da qual nunca quis saber para nada.

Mas onde é que está a dúvida? Pois então, como serão pagos os honorários dos advogados que defendem esta "causa" absolutamente indefensável? Como todos conhecemos de ginjeira, ou ao menos de ouvir falar, os mercenários de toga fazem-se pagar, eles sim, principescamente. E depois há ainda as despesas do próprio, desse tal que tem nome de "rei mago", pois coitadinho, sabe-se lá para que precisará ele da massa, mas que está muito carente, lá isso vê-se logo, aquilo é uma carência danada. Pague-se-lhe, raios. Arranje-se uma subscrição pública, uma conta bancária para donativos, lance-se a campanha de recolha de fundos, propagandeie-se a causa, esta sim, uma causa verdadeira e justa.

Seis mil é manifestamente pouco, mas talvez com dez vezes mais, sessenta mil contos, muito provavelmente com isso já o homem prescindiria de quaisquer "direitos" sobre a menina. E se não forem 60 mil, que sejam 100 mil, ou 200 mil, ou um milhão de contos. O que são 5 milhões de euros a dividir por 10 milhões de portugueses? Toca 50 cêntimos a cada bico, cem pauzitos! É de borla, como se vê, fazer justiça em Portugal. Assim haja vontade e capacidade de mobilização. Qualquer industrial pode pagar as quotas de 100, 500, 1000 portugueses. Causa mais importante do que esta, iniciativa mais meritória, não existe.

Ajude a salvar uma família inteira de portugueses, apenas esportulando uma esmola que só chega para um café. Junte-se a esta causa com um simples gesto, uma moedinha de 5o cêntimos atirada à cara de um facínora, traficante de crianças, vigarista sem qualquer moral. Compre-lhe de peito aberto aquilo que ele tem para vender e que é, não a consciência que desconhece, não a bondade que abomina, mas simplesmente uma criança de cinco anos. Resgate essa criança ao pesadelo dos tribunais e das conveniências oficiais. Impeça que o braço da Lei faça mal à rapariguinha, porque esse braço de um espírito malvado quer obrigá-la a deixar à força os seus pais verdadeiros e à força pô-la a viver com um estranho.

Compreenda isto, por fim. Faça você também "um gesto rapido com os dedos significando «dinheiro, só questão de dinheiro»".

Gaste-o, por uma vez, bem gasto. É apenas dinheiro, é para ser gasto que serve. E guarde para si as considerações morais, os argumentos legais, e tudo aquilo que lhe possa ocorrer mais. Lembre-se apenas da Esmeralda. O resto não interessa.

Quanto ao dador de esperma, esse Palma Cavalão dos tempos modernos, que lhe faça muito bom proveito, que o gaste como quiser, de preferência longe, bem longe, em qualquer sítio edílico do Pacífico, rodeado de coqueiros e bebendo suas belas "Margheritas". Por mais idílico, por mais paradisíaco que seja o lugar onde se esconder, das profundas do Inferno já ninguém o livra.

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22/01/07

Adoro gajas boas



Ainda há pouco tive uma chatice com o motor do meu carro. Abri o "cápom", como se diz em Lixebôa, e detectei de imediato o problema mecânico, por assim dizer: é que, dos 45 cavalos que aquela merda devia ter, verifiquei eu próprio todas as cabeças, três morreram, um tem uma pata partida, dois apanharam tuberculose, um outro meteu baixa injustificada e fraudulenta, outro fugiu para parte incerta, e os restantes têm todos mais de 15 anos. Ora foda-se. Esta merda assim anda com uma manada de 37 cavalos força, e ainda por cima estes já não têm força nenhuma, que os pariu, danou-se, ando por aí de carruagem a ser puxado pelo equivalente a seis ou sete parelhas como deve ser. Não tarda nada, mais uns mesitos, e minha carroça transformar-se-á em verdadeira abóbora, assim como a da Cinderela, salvo seja, ou na melhor das hipóteses em algo parecido com um 2 cavalos, esse clássico do caralho.



Foto: não sei quê da Xareca

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14/01/07

"Diz que é uma espécie de" programa de rádio

Parece que Pedro Rolo Duarte, o gajo mais militantemente anti-blogs que existe em Lisboa e arredores, agora tem um programa de rádio sobre... blogs. Extraordinário, se bem que um pouquinho esquisito. Enfim, para quem tiver interesse antropológico na coisa, é aos Domingos, na Antena 1, cerca das 11 da manhã.

Para quem descreveu sistematicamente a blogosfera como "puro ruído", entre outros mimos de igual calibre, para quem mediatizou a escola anti-blogosférica, de facto o tacho - ter um programinha de rádio sobre o tema - vem mesmo a calhar e adequa-se determinantemente, não apenas à figura tola como ao carácter ressabiado da personagem. Claro que, entretanto, muita água passou debaixo das pontes, desde que PRD nos fez o favor de expor a sua aversão a esta coisa rasca do bloguismo, e agora apenas restam uns quantos ecos da contestação que, timidamente, alguns bloggers se atreveram a manifestar contra tão descabeladas e estúpidas argumentações; houve mesmo, em devido tempo, quem se sentisse vagamente incomodado com as diversas e sistemáticas diatribes do radiofonista, mas enfim, já lá vão uns anitos e, como sabemos, a memória - mesmo, ou principalmente, a virtual - é curta, curtíssima.

Portanto, e vendo bem o caso, não será de estranhar que semelhante personalidade, histericamente alérgica a blogs e a tudo aquilo que eles representam, seja agora premiado com uma emissão radiofónica semanal cujo tema é precisamente aquilo que tanto dizia odiar; trata-se, por assim dizer, de dar ao cão aquilo que o cão mais gosta de morder, coisa que, de resto, o dito canídeo se encarrega de fazer com toda a ganância e empenho. De facto, a julgar pela amostra de hoje, a ração semanal de ossos para roer há-de por força ser extremamente suculenta, apetitosa; o animal convida um fulano qualquer que tenha um blog e fá-lo descascar alarvemente em todos os outros, exceptuando naturalmente o seu próprio e os dos "intocáveis", os pachecopereirianos. A conversa descamba fatalmente para a dicotomia preferida dos eleitos, ou seja, nós (eles), os bons, os maravilhosos, aqueles que contam, e os outros (nós), o "lixo" barulhento, os que não contam para nada, os que "nem sequer existem" e a respeito dos quais a única atitude "decente" é o mais puro, soberano, imperial desprezo. É, portanto, sem qualquer surpresa, a conversa do costume.

O convidado de hoje era não sei quem da Revista Atlântico e que já teve um blog chamado O Acidental. Realmente, esse moço que foi ao tal programa de rádio estava não apenas pessoalmente identificado, com nome próprio e dois apelidos, como se identificou igualmente por extenso com a paranóia que o radialista mantém e nem se esforça por disfarçar; e porque torna e porque deixa, sempre a mesma treta, o velho discurso elitista de quem se julga paradigma de algo, ou referência, ou o que quer que seja de superior em relação à manada, aquelas massas ignaras que somos nós todos, os outros, os "anónimos", desprezíveis e abjectos, por conseguinte e por definição. Citando de memória, o rapaz dos três nomes proferiu a sentençazinha habitual, ou seja, "o anonimato repugna-me". Pobrezinho. Quanta repugnância. Com entrevistados destes, com entrevistas assim, até se ouvem em fundo os ganidos de prazer do mastim, adivinha-se a baba que lhe escorre do focinho, o próprio vírus da raiva atravessa facilmente as ondas hertzianas e adentra-nos a casa. A preocupação central, quando não a única, é desacreditar, apoucar, amesquinhar a "cambada", malhar no ferro frio da sua irrelevância; com isto, evidentemente, releva-se o brilhantismo dos poucos "eleitos", à cabeça dos quais surge a figura esplendorosa do convidado ocasional, a importância decisiva que os selectíssimos membros do clube têm no cenário político, a sua maestria exclusiva nas coisas da escrita e, por fim mas não menos importante, como são eles e apenas eles que valem realmente a pena, que têm interesse, que possuem livros em casa e são os mais belos representantes da pensante espécie.

Claro que, assim para badamecos como eu, este tipo de coisas chateia-me; gosto pouco de que me chamem burro, ou ignorante, lerdo, ou simplesmente merdoso; então quando me chamam essas merdas em público, e de mais a mais não sendo possível responder cara-a-cara, confesso, fico fodido. E não apenas me chamam nomes, esses cabrões, como ainda têm o desplante de me atirar com o labéu da cobardia para riba dos lombos; é a conhecida ladainha do "cobarde" que se "esconde" por detrás do anonimato, enfim, já toda a gente conhece o paleio. Por mim, estou farto de dizer, seus caras de caralho, que não se me dava nada de fazer engolir o insulto, esse em especial, a qualquer um de vocês, mano-a-mano, quando e onde mais aprouvesse ao primeiro que se chegasse à frente.

Não adianta sequer tentar explicar a diferença entre um autor anónimo e um cobarde anónimo. Já deu para ver que essa gente que se julga a nata, simplesmente porque assina a própria trampa, porque assina o que defeca, apenas se ouve a si mesma e ao seu círculo particular de cagões; não são nata coisa nenhuma, são quando muito borra, e com bastante escumalha à mistura. O suposto anonimato é uma coisa que se explica por si mesma; quem persiste na sua condenação cega e radical, demonstra uma impenetrabilidade que apenas poderá resultar ou de conjecturas idiotas ou de algum instinto grupal, primitivo e simiesco. O suposto anonimato é suposto, não imposto; resulta não apenas de uma escolha pessoal como, ou por consequência, de uma atitude individual. São portanto, realmente, coisas não apenas diferentes como opostas: é o indivíduo a sós com o mundo, é a personalidade que defronta os outros e se confronta a si mesmo, é a independência total da ideia, finalmente despojada de um corpo que a transporta - e do nome que esse corpo tem, a fronteira da sua liberdade.

Recusar liminarmente a diferença, apanágio das supostas elites, persistindo na visão redutora e meramente insultuosa do anonimato, demonstra não apenas a mais constrangedora das simplicidades como uma profunda desonestidade intelectual. O que não constitui surpresa alguma, no caso, se atendermos ao facto de essas mesmas elites serem, como todos os grupos humanos estruturados, desprovidas de intelecto; no grupo, ao grupo e para o grupo, não convém que o indivíduo pense. Sabendo qual a motivação intrínseca do espírito gregário, e por exclusão de partes, fácil se torna concluir de que lado estão a estupidez, a ignorância e a própria cobardia.

Esta espécie de programa de rádio, com o locutor de serviço à cabeça, pode por conseguinte vir a tornar-se no órgão de propaganda de um "pensamento blogosférico" oficial: acéfalo, normativo, ditatorial e muito, muito, muito identificado. A merda está no ar.




(imagem de http://www.officepirates.com/officepirates/categoryresults/0,26922,2_date_desc_Funny,00.html)

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13/01/07

Grandes Portugueses


O maior Português de todos os tempos



Filictum Lusitanicus




Imagem de Escola Secundária de Pedro Nunes - Ciências Naturais - 8º ano

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12/01/07

Eia, temos aqui uma engraçadinha

A merdola de e-mail que se segue diz respeito ao post anterior.

----- Original Message -----
Sent: Friday, January 12, 2007 3:10 PM
Subject:Re: [Aliciante] New Comment Posted to 'Ainda há dúvidas?'

Olá,
o comentário apaguei-o porque considerei-o ofensivo. A linguagem utilizada é desnecessária e ao contrário do que primeiramente deduziste eu sou uma autentica ditadora e como o blog é meu eu apago os comentários que bem entender.
MAs tenho que te agradecer o post que fizeste sobre o assunto porque acreidta, sem ironia, me proporcionaste um dos momentos mais hilariantes que eu já vivi na blogosfera.
Obrigada mesmo
Mad

 
Em 11/01/07, dodo2004@iol.pt <dodo2004@iol.pt> escreveu:
A new comment has been posted on your blog Aliciante, on entry #381647 (Ainda há dúvidas?).

View this comment: < http://aliciante.weblog.com.pt/arquivo/2007/01/ainda_ha_duvida.html>
Edit this comment: <http://aliciante.weblog.com.pt/privado/index.cgi?__mode=view&_type=comment&id=861838&blog_id=152>
Name: Dodo
Email Address: dodo2004@iol.pt
URL: http://001.blogspot.com
Comments:

Não, nenhuma dúvida. Este é de facto o pior conjunto de palavras, em forma de versalhada, alguma vez escrito. "Inspirado" em Brecht, mas bera com'á ferrugem; nem o próprio conseguiria escrever tão mal.
E também não há qualquer dúvida sobre o direito que assiste à autora de cortar um braço, ou uma perna, ou ainda, se lhe apetecer, a própria cabeça. Não há quaisquer dúvidas sobre isso.

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Mad
www.aliciante.weblog.com.pt


Ao abrigo do direito de resposta, e nomeadamente quanto ao articulado que prevê o poder discricionário de o autor de um blog mandar bardamerda quem lhe apetecer, desde que o faça em sua própria casa, o espaço que se segue é da exclusiva responsabilidade do dito cujo.


Ó Leninha, filha.
Uma dúvida singela: o que é que significa "linguagem desnecessária"? Ora porra; se ainda ali tivesse aposto uma qualquer caralhadazita, por exemplo, ainda vá que não vá; agora assim, a seco... bem... com essa é que já me fodestes, melher. E ainda, na sequência da mesma dúvida - que pelos vistos nenhuma versalhada asquerosa pode sequer aliviar - sempre gostaria de saber o que virá a ser isso da "linguagem adequada". Graxa? Avante camarada, avante? O nosso povo, o nosso povo, o nosso povo? Os direitos, os trabalhadores, os direitos, os trabalhadores? Um aborto por ano dá saúde e é bacano?

Só mais uma notinha de rodapé: quero bem que se lixe essa tua maniazinha do autoritarismo. Mais: caguei positivamente, nisso e ainda mais na tua suposta ironia. Se não querias comentários "desnecessários", tinhas duas hipóteses: ou não punhas lá as caixinhas para o efeito, ou escrevias tu mesma os teus próprios "comentários" com "linguagem necessária"... o que presumo seja o caso.

Juízo.

P.S.: de certa forma, devo apresentar as minhas desculpas à autora da versalhada; pensando bem, aquilo não é propriamente uma grandessíssima bosta; o superlativo é um exagero, do qual me penalizo; do mesmo modo, retiro o balizante temporal "alguma vez" da expressão inicial (relativo a "o pior conjunto de palavras"), substituindo-o, sem qualquer favor, por "jamais". Se lhe servir de consolação, a essa autora, lembre-se de que o seu não é caso único; o que há mais por aí, até de consagrados e tudo, é coisas de igual qualidade ou jaez, verdadeiros palimpsestos de cal sobre estuque, com grafitagens de assinatura por cima.

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Yo no creo en censura pero que la hay, hay

Talvez aliciado pela designação, ou provavelmente por mero acaso, tropecei ontem em certo blog, não desfazendo, no qual deparei com a versalhada mais execrável que imaginar se possa e, por mero desfastio, resolvi deixar meu modesto comentário.

Nele, comentário, em resumo, qualificava a dita versalhada de "o pior conjunto de palavras alguma vez escrito" e acrescentava (cito de memória) que aquilo era uma espécie de Brecht mal parido, sendo que nem o próprio seria capaz de escrever assim tão mal; sobre o conteúdo do arrazoado palavroso, e nomeadamente quanto ao direito que assiste a qualquer mulher de decepar a si mesma uma perna, um braço, ou mesmo a própria cabeça, pois que não existem de facto quaisquer dúvidas a respeito, é fazerem o favor e deceparem-zi-a à vontade. Enfim, foi qualquer coisa deste género, como se vê sem absolutamente nada de ofensivo ou desprestigiante seja para quem for.

Qual não é a minha surpresa, porém, quando verifico hoje terem essas parcas observações sido liminarmente apagadas. Ora, isto é muito estranho, de mais a mais em se tratando de um blog pois que cheio de pinta esquerdista, pois que por suposto muito amigo dos pobrezinhos, e assim, militantemente pró-aborto, calculo que bué de anti-americano, anti-bushista, etc. e tal. A coisa apenas poderá ter resultado de lapso técnico, não posso crer em algo diferente. Pode lá ser, uma coisa dessas! Onde já se viu, os camaradas a apagar aquilo que não lhes convém?! Mas desde quando?

Terá existido lapso técnico, pois sim, isso é que não oferece qualquer dúvida. E daqui se lança, por conseguinte, o apelo: alguém seria capaz de recuperar aquele meu humilde comentário?

Seria uma obra de caridade, meritória mesmo, que alguém o resgatasse das profundas do inferno cibernético em que certamente terá caído por engano; e que depois fizesse o favor de o remeter para o e-mail dos camaradas, que já devem andar aflitos, coitados, à procura do dito, não vá alguém mais maldoso pensar que eles apagaram aquilo porque não lhes agradava ou, quem sabe, ele há gente para tudo, que fazem censura lá no boteco, cruz, credo, longe vá o agoiro.

Agradecimentos antecipados, penhorados e eminentemente prá-frentex.

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08/01/07

Melhor comentário blogosférico 2006

O júri de Viseu dá 10 pontos ao rapaz do "Foda-se" e 8 ao golfinho ubíquo.
Comentário de: Rita Soares
link: http://aspirinab.weblog.com.pt/2006/12/o_discurso_de_aceitacao_mais_t.html#comment-595950


É favor dirigir-se ao nosso caixa, a fim de receber o seu prémio (20 pontos).


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05/01/07

Vampiros




Existem cartazes nas ruas, anúncios na televisão e na rádio: dê sangue. As mensagens, seja em que meio for, são bastante claras: dar sangue é um acto de puro altruísmo que pode salvar a vida a alguém; para o dador não existe qualquer risco ou incómodo - o que não é exactamente assim - e o receptor até pode vir a ser, quem sabe, o mesmo dador ou algum dos seus familiares mais próximos - o que também não é exacto.

Naquele que se diz ser o maior hospital da península ibérica, existe uma coisa que se chama Associação Portuguesa de Dadores Benévolos de Sangue, onde não é de todo possível dar... sangue; o serviço de recolha de sangue foi, aliás, desactivado no Hospital de Santa Maria há já um bom par de anos. De resto, também não existem meios para o efeito na maior parte dos Hospitais Centrais e nos Centros de Saúde do país.

Um simples telefonema para qualquer das inúmeras associações de dadores é suficiente para constatar a seguinte, triste, espantosa realidade: é praticamente impossível dar sangue em Portugal; existem, pelos vistos, apenas três locais fixos, um no Norte, outro no Centro e outro no Sul; as recolhas fora destes "centros" são por regra efectuadas por "brigadas" - o que não deixa de ter a sua piada.

Quer dizer: quem vai a um hospital não pode dar sangue, por exemplo enquanto espera pela sua vez para a consulta, ou aproveitando o facto de ali se deslocar para visitar uma pessoa internada ou mesmo, simplesmente, porque ali foi tratar de uma qualquer papelada. Nada disso. Para dar sangue, ou se vai expressamente a um dos três "centros" de recolha permanente (com horário de função pública, ainda por cima), todos eles situados, respectivamente, atrás do sol posto, no cu de Judas e em Coisa Da Mãe Street, ou se espera pela próxima "campanha" de recolha, no emprego, no centro paroquial, no grupo de escuteiros lá da terra ou coisa que o valha. Como são essese assuntos planeados, coordenados, divulgados, pouco se sabe; é o quarto mistério da Santíssima Trindade.

O que é amplamente divulgado, isso sim, é que há necessidade de sangue nos hospitais; fazem-se campanhas publicitárias, certamente caríssimas, convidam-se actores e outras figuras públicas para divulgar os "apelos", mas, mas, mas: quando a ocasião se proporciona, quando o cidadão por fim se resolve, muito bem, vamos a isto, então é neste braço ou é neste, aí é que a coisa corre mal - agora não, aqui não podemos.

Aqui há uns anos, eu, que até recebi uma medalhinha por ser dador benévolo e que tinha a mania de ir dar sangue sempre que via uma carrinha de recolha, fosse onde fosse, caí na asneira de entrar numa espécie de autocaravana, em pleno centro de Braga (por assim dizer), com aquele espírito altruísta e sorridente de quem se vai mais uma vez sujeitar a 15 minutos de seca; primeira surpresa, afinal a "operação" não seria feita ali; aquilo era só um posto médico móvel completo, totalmente equipado para qualquer intervenção de emergência, quanto mais para uma simples recolha de sangue, mas o "posto" propriamente dito tinha sido montado num prédio em frente; que era só subir umas escadinhas; lá subi as escadinhas, achando um pouco estranho que houvesse pó e caliça por todo o lado, e também estranhando o ar de ruína que tudo aquilo exalava; no primeiro andar, uma sala enorme com soalho em ripas, lixo e estuque pelos cantos, o tecto ameaçando desabar a qualquer momento; por detrás de uma secretária, um tipo de bata branca. Mostrei o cartão de dador e acabou por não ser preciso dizer mais nada, felizmente, porque já nesse tempo estava completamente farto de responder sempre da mesma forma sempre às mesmas perguntas. Seguimos então para a sala ao lado, eu e mais o gajo da bata branca; uma cadeira de praia, daquelas a que se chama espreguiçadeira, assim a modos que articulada em três pontos, faz tec-tec-tec e dá para ajeitar melhor a cabeça, aconchegar o tronco, esticar mais ou menos as pernas.

É giro, vá lá, mas achei esquisito. Um sorriso enfiado deve ter dado para disfarçar a coisa, mas esse sorriso apagou-se-me instantaneamente quando o fulano da bata branca me enfiou a agulha no braço e colocou o saco para o sangue... no chão! Naquele chão imundo, nojento, onde não era nada difícil adivinhar, aqui e além, umas quantas caganitas de ratazana, no meio de montes de cal, cimento, bocados de tijolo, pedaços de papéis e restos de plástico. Mas enfim, pensei, que seja pelas alminhas; e lá fiquei, quieta e pacientemente abrindo e fechando a mão, para evitar a dormência e como mandam as regras de boa doação. Porém, sucedia que, tendo a agulha um buraco em bisel, este persistia em encostar à face interior da veia e, portanto, o sangue tinha alguma dificuldade em fluir. A ver se a gente se entende: a agulha é metida numa daquelas veias azuis e salientes que se situam, regra geral, na dobra interior do cotovelo, e é fixada com um adesivo colado à pele, para nem sair nem oscilar grandemente; a agulha está ligada a um tubo plástico, flexível, que vai dar finalmente ao saco de recolha; o furo por onde o sangue entra, na agulha, não é a direito, transversalmente, mas cortado em diagonal, num ângulo de, por hipótese, 25º; estes pormenores servem para que se perceba aquilo que estava a acontecer, e que era o seguinte: o sangue não corria, entupia-se, o saco enchia-se lentamente de espuma sanguinolenta.

Eu sei que vendem o meu sangue. Eu sei que as campanhas são uma treta que não somente gera milhões para quem as produz como não tem - a treta - qualquer efeito prático na população em geral. Há quem dê sangue e há quem o venda; se há quem o venda, é porque há quem o compra; logo, aquele que é dado acabará fatalmente por ser vendido. Tudo isto é nojento, para dizer o mínimo. Mas, mesmo sabendo que estas coisas são assim, custa um bocado passar por episódios que tais, recolhas e dádivas sem um mínimo de condições.

Se as coisas tivessem corrido normalmente, eu estaria dali para fora ao fim de um quarto de hora, vinte minutos ou, vá lá, meia hora. Mas o maldito saco teimava em não encher. O tipo da bata branca veio ver o que se passava, umas duas ou três vezes, mas duvido sinceramente de que fizesse a mais pequena ideia - não apenas disso mesmo como - daquilo que estava ali a fazer. Eu próprio tentei endireitar a agulha, dentro da veia, a ver se aquilo começava a escorrer normalmente. Mas nada. Depois de, sei lá bem, talvez três quartos de hora, o homem desistiu, tirou-me a agulha, pôs um penso e ajudou-me a levantar.

Assim que me pus em pé, caí redondo no chão. E de pouco mais me lembro. Devo ter passado pelas brasas e sonhado. Que aqueles tipos da bata branca vendem o sangue que eu dou a peso de ouro. Que existem redes organizadas de tráfico internacional, com gentes e agentes que fazem fortunas colossais à conta desta espécie de "solidariedade". Que essa gente, e esses agentes, está tudo metido também no tráfico de órgãos para transplante e sabe-se lá em que mais. Que o polvo estende os seus tentáculos ao meio artístico, à grande finança, aos partidos políticos, às instituições estatais. Que ninguém é inocente e que o sangue, fonte essencial de vida, pode ser algo que transporta consigo a mentira, o crime, a morte.

Continuo a dar sangue, quando por mero acaso esbarro com uma "roulotte". Mas nunca hei-de esquecer, por mais anos que viva, aquela bata, aquele labrego da bata, toda aquela imundície abjecta. E além disso, hoje em dia, sei um bocadinho mais sobre o que é "dar sangue" em Portugal.

É uma tristeza. Nada apagada e muito vil.



(Imagem de... não interessa; isto é tão deprimente que, uma vez sem exemplo, vai a fonte incógnita)

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