Odi profanum vulgus et arceo
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15/03/07

Seria um prazer esquecerem-se do teu nome



Claro, sem qualquer rebuço o declaro, não gramo este gajo nem um bocadinho. Não é lá pelo arzinho enfastiado que o tipo arvora, com aquela maneira irritante de exalar o mais profundo desprezo pelo comum dos mortais, em todos os gestos e atitudes; nada disso; quero bem que se foda a pinta de espertinho do bacano, a sua pose de "grand seigneur" das artes, ou da p. que o p. Também não me rala nada que sua excelência fale - quando se digna falar às massas - com a mais superlativa das caganças existentes à face da Terra; é natural, este caramelo é portador de uma síndroma não tão rara quanto isso, mas que na sua pessoa condensa todo o poder de verdadeira patologia, a SPA (síndroma das peneiras agudas).

Foi portanto a esta patologia articulada, e não propriamente ao seu portador e máximo expoente, que foi hoje atribuído mais um premiozito de 20.000 contos por, diz-se no respectivo despacho de pronúncia, caracterizar-se aquela doença pel' "a maestria em lidar com a língua portuguesa, aliada à maestria em descortinar os recessos mais inconfessáveis dos homens, transformando num exemplo de autor lúcido e crítico da realidade literária."

Quer-se dizer: uma maestria, mais outra maestria, soma duas maestrias. Pronto, nesse caso, toma lá vinte milhas e cumprimentos à esposa.

A folha de jornal em que esta coisa espantosa vem embrulhada é um extraordinário exemplo da admiração pacóvia do portuguesito analfabeto por semelhante canastrão, imberbe escrevinhador de anagramas, aldrabão especializado em rabiscos, enfim, esse pobre tonto com o qual me arrisco a gastar todo o meu arsenal de impropérios, em não poupando uns quantos para mais tarde.

E o que me move, afinal, contra tal personagem, hem? Pois é, diz lá, ó Xiramaneco, hã, quem te julgas tu para estar práqui a cagar sentenças contra tão ilustre e premiada cachola?

Ora vamos cá ver. Nada. Não tenho nada contra. Repito: quero bem que o homenzinho se foda, e que seja muito feliz, na companhia dos seus. Mas, foda-se, ó gente incauta de uma cana, então mas não se está mesmo a ver que este gajo é um perigo? Hem? Que me dizeis? Não é? Não tarda nada, lá irá ele de novo para Estocolmo, para a Pensão do costume, até já deve ter uma chapa com o nome na porta do quarto, e pronto, a ver se é desta que pinga o nobelzinho da ordem. Mas não se está mesmo a ver? Agora, com este empurrão institucional no bolso, se calhar ainda lhe dão o diploma e a medalhinha, porra, porra, porra, longe vá o agoiro.

Não é como Português que me envergonharia tal merda, ver este patrício na galeria dos laureados; que se lixe, não é por aí, pois que já bem sabemos que o Nobel da Literatura foi por diversas vezes atribuído a escritores menores, isso é seguro e não aborrece ninguém. O problema reside, aqui para o abaixo não assinado, no facto indesmentível de esta figura em particular não ter nunca escrito fosse o que fosse de jeito, em toda a sua vida, não podendo por isso ser considerado como "escritor", nem maior nem menor. Atribuir-lhe a maior distinção - neste ramo de produção - a nível mundial, seria, a acontecer, um verdadeiro absurdo, uma tragédia de proporções épicas, uma bronca de todo o tamanho. Imagine-se que, um dia mais tarde, daqui a uma ou duas gerações, por exemplo, algum fulano lá do frio nórdico lhe dá para abrir um dos livros do dito cujo. Vai ser um escândalo do caralho! Não custa nada imaginar o tal fulano a entrar espavorido pelos aposentos reais (adentro), lívido, balbuciando num sueco muito pouco habituado a confusões:

_ Alteza, Vossa Majestade perdoará a intromissão... mas... mas... nós, em 2007, entregámos o Prémio Nobel a... como direi... Vossa Alteza sabe... enfim... (como é que hei-de dizer esta merda, bálhamedeus) a um... a alguém que... bom, cá vai: o homem, este Português aqui, este António Não Sei Das Quantas não batia bem da bola. Aí tem Vossa Alteza. Majestade. Sir. Li umas coisas dele, ao princípio nem queria acreditar, peguei num livro, depois noutro, depois outro, folheei não sei quantos, e é isto: não tem ponta por que se lhe pegue, se me permite Vossa Alteza a expressão; aquilo é tudo nhó-nhó-nhó, palavras a esmo, uma pepineira sem qualquer sentido; alguém fez... hum... "coisa" da grossa, lá na academia daqueles tempos, deram-lhe o prémio mas ninguém se deu ao trabalho de ler uma única linha, sei lá bem, nem eu próprio compreendo como pôde uma desgraceira destas acontecer. Uff. Pronto. Já disse. E agora, com sua licença, Majestade, os meus respeitos, venerador, atento e o obrigado, adeusinho.

O Rei da Suécia (ou a Rainha, sabe-se lá quem estará no trono daqui a uns tempos), branco como a cal da parede, vendo seu fiel escudeiro a fugir porta fora, recua de escantilhão e deixa-se cair num largo cadeirão, o queixo descaído, os olhos arregalados de espanto; esmagado pela terrível notícia, Sua Alteza o Rei da Suécia levará ainda algum tempo até conseguir fechar a boca e abri-la outra vez, chamar alguém, acudam, acudam, por favor, mas onde é que vocês estão, ó seus estupores, então não querem lá ver que agora me deixam aqui sozinho com esta porcaria em mãos, quer dizer, fazem a merda e depois aqui o palerma do rei que resolva, cambada de filhos da puta, ai, que não me estou a sentir nada bem.

Ora, portanto, sejamos discretos, deixemos Sua Alteza Real em sossego, deixemo-lo pensar, reflectir na melhor forma de se desenrascar de tão aflitiva embrulhada. Haja respeito pelas ralações alheias.

Cheguemo-nos nós outros aos santinhos de nossa devoção, acorramos em massa às igrejas - de qualquer confissão - e apelemos com fervor à compreensão e ao auxílio divino, nesta hora nefasta, oremos - de rastos, se preciso for - a toda a corte celeste, beatos e milagreiros incluídos, para que tal tragédia não suceda. Ainda vamos a tempo, ó almas de pouca fé! Aquela cena com o rei é só daqui a uns anos, em boa verdade ainda não se passou, mas lá que se arrisca a passar, ah, pois arrisca. Contribuamos assim, com a nossa fé e o nosso empenho colectivo, para que, através da interferência divina, com a preciosa ajuda da inspiração e dos bons pensamentos de Pai, Filho e Espírito Santo, enfim, pronto, que lá os gajos da academia sueca se não ponham com merdas e que caguem positivamente no nosso putativo laureado da literatura 2007 (ou 2008 e seguintes). Salvemos Sua Alteza Real o rei da Suécia de um futuro, inevitável de outra forma, lixadíssimo ataque cardíaco. Poupemo-lo a um fanico dos piores.

Vale a pena o sacrifício. Que seja pelas alminhas de quem já lá mora.




Foto e palavreado: DN

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13/03/07

Vinte a Ensinês

Indo direito ao assunto, podemos começar por admitir que no final de 12 anos de escolaridade o estudante português não está em condições de distinguir moral de ética, princípio de lei, moralidade de legalidade. O estudante saberá um quase nada de História de Portugal, quase nada de História das ideias e nada de nada de Direito (ou de Português, já agora). E o pouco que sabe, quantificado ao longo de um trajecto escolar que não garante fiabilidade, é inútil. O sistema não o levou para uma compreensão interdisciplinar e transdisciplinar; ou seja, o aluno recolheu alguma informação, mas ela é avulsa, desconexa, incompleta. Como consequência, a Escola não talha cidadãos, pois boicota a formação de uma visão de conjunto da sociedade. É como se a Escola tivesse aversão à realidade, tudo fazendo para proteger o aluno do mundo exterior. Esse aluno, cuja vida foi só brincar e decorar, e que pertence à elite dos menos de 25% que concluem o Ensino Secundário, parte para as licenciaturas, ou para o mercado de trabalho, sem saber onde está, donde vieram os seus pais, para onde vão os seus filhos. Entretanto, já pode conduzir e votar sendo que a última actividade é ainda mais perigosa do que a primeira.

(extracto de Aspirina B: ácido acetilsalicílico+tiamina+aneurina+um porradal de substâncias)

Não sabia que alguém escrevia posts mais compridos do que os meus e, assim como os meus também, quase sem erros de Português. Duvido de que alguém leia aquilo tudo, como acontece aqui neste rés-do-chão, número 001 do Quebra-Costas, mas enfim, eu cá até li, enchi-me de coragem e aqui vai disto. Não doeu nada.

Aquele extracto de complexo vitamínico, ali em cima, refere-se a um assunto deveras interessante (para mim e para os meus botões) sobre o qual ninguém se atreve a mandar umas bocas, nanja eu: o ensino não tem absolutamente nada a ver com a aprendizagem.

Bom, nanja eu é como quem diz.

Qual é a semelhança que existe entre a matéria de estudo de uma determinada disciplina, em qualquer grau de ensino, com o objecto ou conteúdo dessa mesma disciplina?

Longa pergunta para resposta sintética: nenhuma. Por exemplo: o que tem a disciplina de Inglês a ver com o Inglês? Nada; qualquer semelhança entre uma coisa e outra é pura coincidência; numa semana de férias em Londres, qualquer atrasado mental aprende mais Inglês do que em dois ou três anos de aulas de "Língua Inglesa".

Esta disciplina, como qualquer outra de línguas "vivas" - ou de qualquer outra área, mas já lá iremos - obedece a uma lógica meramente curricular, totalmente desligada da realidade pragmática e do ambiente linguístico a que teoricamente se refere; depende em exclusivo, em termos de eficácia e de proficiência, do esquema geral do processo de ensino/aprendizagem que consiste, em Portugal, em assistir às aulas, ter boas notas nos testes e passar de ano; consiste ainda, por fim, na transmissão (ou apropriação, por qualquer meio, incluindo o chamado "copianço") de esquemas padronizados de utilização da língua (principalmente, exercícios de gramática), e baseia-se num "approach" que privilegia a escrita em detrimento da oralidade.

Ou seja, um aluno poderá aprender alguma coisa, nas aulas de Inglês, mas não ficará nunca - com toda a certeza - apto a utilizar aquela língua com um módico de eficácia. O que significa o seguinte, e com isto voltamos ao início do paradigma: não é Inglês que se aprende nas aulas de Inglês. Aliás, nesta como em qualquer outra disciplina curricular, reiteremos, em todos os graus de ensino, existe um linguajar específico, um modo de comunicação instituído e ritualizado que afasta ainda mais o estudante do objecto de estudo. As aulas de Inglês são dadas numa "espécie de" Inglês, que muito pouco ou nada tem a ver com a língua inglesa. O que interessa é que a nota a essa "cadeira" contribua para a média geral, bastando para isso despejar umas coisas acertadas nos testes e exames teóricos (sobre coisas de que nenhum anglófono alguma vez ouviu falar) e, de "cadeira" em "cadeira", ano após ano, cortar a meta final, qual Carlos Lopes da ignorância, recebendo a sua medalhinha - o diploma - pelo esforço dispendido em tão longa maratona.

O mesmo princípio se aplica a todas as outras "matérias", não apenas às línguas, a começar na Matemática e a acabar (nem de propósito) na História, passando muito evidentemente pelo Português. O verdadeiro desastre nacional a que se assiste quotidianamente, naquilo que à língua portuguesa diz respeito, não é uma consequência directa do sistema anacrónico de ensino: a escola poderá, quando muito, dar uma ajuda, mas o factor primordial de aprendizagem do Português é a leitura, primeiro, e a escrita, depois. Ora, peguemos então por aqui, como bem sabemos não é o aluno que mais lê e mais escreve, em princípio ou por definição, aquele que melhores classificações obterá na disciplina de Português; pelo contrário, e isso é tanto mais notório quanto mais descermos no grau de ensino. E este espantoso, quantificável e verificável facto deve-se exclusivamente ao "pormenor" de, mais uma vez, o Português do sistema de ensino não ter nada a ver com o Português. Não é possível escrever (ou mesmo ler) correctamente sem ter lido muito, ler muito, ter escrito muito e escrever muito; ninguém precisa de declinar casos verbais para escrever uma lista de compras ou um tratado de anatomia; uma frase bem construída é resultado da experiência e do manancial de conhecimentos informais de cada qual e, pelo contrário, o erro discursivo surge da ausência desses mesmos conhecimentos e experiência, da falta de livros - a qual significa, fatalmente, ausência de automatismos discursivos e de intuição linguística.

Por analogia com a semana de férias em Londres, qualquer estudante (ou não estudante) aprende mais a escrever com correcção num único romance de Eça de Queirós, por exemplo, do que em toda a sua carreira académica. Levando a coisa ao extremo argumentativo, uma única página, um singelo parágrafo daquele romancista excelente, qualquer dessas coisas é mais instrutiva do que dezenas de horas passadas nas aulas. E, note-se bem, é este um dos romancistas portugueses aos quais mais e mais sistematicamente são assacados "erros" na escrita. Quem? Ora, quem: esquisitos, admiradores de Lobo Antunes, e assim.

Por paradoxal que possa parecer, isto não é nenhuma espécie de apologia do empirismo e muito menos do chamado "saber de experiência feito". Pelo contrário. A escola pode (ou poderia) constituir uma forma de estruturação do saber; porém, a realidade actual demonstra que a escola não é tal: não apenas não forma como, de certa maneira, deforma o objecto de estudo e, por consequência, desestrutura o conhecimento, espartilhando-o em formatos metodológicos rígidos.

O linguajar específico de cada disciplina, normativo e impositivo, afasta cada vez para mais longe a matéria, os conteúdos, o objecto a que teoricamente se refere. Tomemos como ilustração o "matematiquês" (a língua veicular da disciplina de Matemática): muito mais importante do que saber resolver uma equação de 2º grau, através de raciocínio lógico e com recurso a alguns conhecimentos básicos, é conhecer o significado de expressões-chave do dialecto específico; mesmo inteligente, mesmo dotado, ainda que possuindo ferramentas mentais extraordinárias, estudante algum será capaz de resolver o problema caso desconheça aquele linguajar. É nesta medida que o ensino regular se revela totalmente desligado da realidade e, por consequência, daquilo que se presumiria ser o seu objectivo primordial, isto é, a transmissão do saber.

Existe uma lógica meramente formal, no ensino, que viabiliza este paradoxo: um aluno pode ser capaz, mas mostrar-se incapaz, ou ser incapaz e mostrar-se capaz. É por isso que vemos tantos licenciados (e mestres e doutores) que não sabem escrever, mas debitam palermices e asneiras em tudo quanto é pasquim; alguns destes incapazes promovidos pelo sistema de ensino dialectal chegam mesmo a dar aulas, em todos os graus de ensino mas principalmente nas universidades, reintegrando-se no fluxo de disseminação da ignorância diplomada.

São conhecidos, porque o descaramento não tem limites, casos de professores de Alemão que, sem rebuço, confessam não saber "nada de Alemão"; pois, mas sabem muito, têm todos longos anos de experiência de ensino de Alemão, o que é, já sabemos, algo totalmente diferente. Claro. O que é que uma coisa tem a ver com a outra? Os alunos vão às aulas para "aprender" a declinar casos (Nominativ, Akkusativ, Dativ, Genitiv) e umas coisinhas assim; saber Alemão não interessa para nada, nem é o que está em causa. Não deve surpreender ninguém que um filho de emigrante na Alemanha tenha dificuldades com esta disciplina, em Portugal.

Para passar com distinção a Geografia, a Biologia, o aluno apenas deverá reconhecer as fórmulas canónicas do "geografês" e do "biologês", marrar umas coisas na véspera ou copiar outras tantas no exame, e pronto, não tem nada que se ralar com pormenores como o RPC dos países em vias de desenvolvimento ou com as causas do míldio; há que interpretar a expressão "atente na figura e discorra sobre as consequências do efeito de estufa, a nível de..." (algo ensaiado na aula), sem fazer a mais pequena ideia daquilo que vem a ser uma estufa ou para que efeito serve; declinar a anatomia da rã, eviscerada num desenho, é muito mais importante, pelos vistos, do que saber de que lado é o fígado nos seres humanos.

Os exemplos seriam inúmeros, e fastidiosos, demonstrando em toda a latitude que não existe qualquer intersecção entre o saber e a escola ou que, na melhor das hipóteses, essa área comum é singularmente microscópica. O sistema de ensino "pós-moderno" é um sistema constituído por uma rede de depósitos de jovens, imberbes e ignorantes, sistema esse cuja função consiste em esperar que aos jovens cresça barba.

Presumir que ou ter alguma espécie de esperança em que alguém aprenda alguma coisa no processo, é desconhecer (ou fingir desconhecer) que a razão de ser do sistema de ensino não é propriamente o aluno, mas que o aluno é a razão para que o próprio sistema subsista, como coisa em si, tornando irrelevante o ensino e muito mais ainda a aprendizagem.

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08/03/07

Um dos erros que mais se cometem

Era um dos que se encontrava na taberna de Rufo quando ele fizera o seu discurso de candidatura.
Mário de Carvalho, Um Deus Passeando Pela Brisa da Tarde, ed. Caminho, 4ª ed.,1996

Os estudiosos da língua portuguesa que referi apresentam exemplos da utilização do singular em vez do plural em diversos escritores, tais como:
a) Damião de Góis: Uma das coisas que mais me espantou desde o tempo que comecei a revolver livros foi a demasiada negligência dos cronistas destes reinos;
b) Frei Luís de Sousa: Esta cidade foi uma das que mais se corrompeu da heresia;
c) Padre António Vieira: Uma das coisas que muito agradou sempre a Deus em seus servos, foi a peregrinação...;
d) Simão de Vasconcelos: E uma das coisas que muito alegrou ao novo visitador foi...;
e) Padre Manuel Bernardes: Uma das coisas que derrubou Galba do Império foi tardar algum tanto;
f) Júlio Dinis: O reitor foi um dos que mais se importou com a preocupação do homem;
g) Camilo Castelo Branco: Acurvado sobre a mesa esconsa de seu lavor mercantil, era, aí mesmo, um dos primeiros homens doutos que escrevia em português sem mácula;
h) Alexandre Herculano: Um dos nossos escritores modernos que mais abusou do talento, e que mais portentos auferiu do sistema....;
i) Aquilino Ribeiro: O bispo de Silves foi um dos que caiu no erro funesto.;
j) Fernando Namora: O homem fora um dos que não resistira a tal sortilégio.;
l) João Ribeiro: Foi um dos poucos do seu tempo que reconheceu a originalidade e a importância da literatura brasileira.

Maria Regina Rocha, Ciberdúvidas da Língua Portuguesa

Mas, ó bálhamedeus, será por alguns autores escreverem com erros que esses erros deixam de o ser?

Quem já leu, por exemplo, a correspondência de Fernando Pessoa, sabe perfeitamente que aquela pessoa escrevia bem... mal, quando utilizava a escrita como simples instrumento de comunicação; sabe-se lá se alguém mais habilitado, alguma obscura figura que não consta de biografia nenhuma, não corrigiria o Português de nosso Nandinho, antes de lhe seguirem os textos para a tipografia.

Toda a gente com um mínimo de gosto, e com uma bagagem de leituras equivalente a quaisquer duas malas das antigas, conhece pelo menos um autor que é cada tiro cada melro (Lobo Antunes, por exemplo), cada bacorada cada prémio (por exemplo, Lobo Antunes), e não é por isso que os tiros na gramática deixam de matar a Língua, os melros linguísticos abatidos deixam de ser negros, as bacoradas deixam de ser bacoradas e os prémios deixam de ser injustos.

Quantas vezes vemos, ouvimos e lemos, nós outros, os pategos, coisas tão estapafúrdias como "concerteza" (uma das palavras que não existem, mas que se gasta ao desbarato), ou como "derivado a" (uma expressão daquelas que nem merecem comentários, tal é a frequência com que é utilizada).

As minhas patentes dificuldades com a utilização academicista de gramáticas e de prontuários impede-me de tecer considerações a respeito daquilo que é óbvio, nomeadamente pelo facto de eu próprio cometer minha bacoradazita, volta e meia, sem que daí advenha qualquer mal ao mundo. Trata-se, quando muito, em sucedendo tal coisa, de proceder a uma manobra soviética: voltar atrás, regressar ao passado, empreender conscienciosa caça à gralha, batida à bacorada, largar a canzoada linguística às canelas do erro escorregadio, persegui-lo até à morte e exterminá-lo à vista sem qualquer piedade.

Ainda há dias me entretive a desportivamente caçar um texto meu pejado de erros, até no título tinha, aquela merda. Pois bem, não há que enganar: corrija-se e republique-se. Calão não é vernáculo, e vice-versa; vernáculo é rigorosamente o contrário de calão, ao invés do que muita gente pensa, e eu também "pensava" quando escrevi tal cagada. Como se vê, eu sou um daqueles que cometem erros, um dos que dão calinadas, um dos que - não se importando de o reconhecer e corrigir - se ralam com a escrita e seu formalismo, para além do respectivo catitismo.

Portanto, pentelhai à vontade, pentelhai e tornai a pentelhar, aqui, e além, e ainda mais longe, neste, e naquele e naqueloutro, pentelhai para sempre, pentelhai perdidamente. Ora aí está uma daquelas coisas que me dão muito jeito, por sinal. Quanto aos outros, salvo seja, a qualquer outro, quero bem que se fodam e se foda, respectivamente: é uma coisa que não me rala nada, eviscerar a escrita do mais pintado.

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04/03/07

"Diz que é uma espécie de magazine"

O divertido da coisa, do meu ponto de vista, reside no facto de ver políticos de diferentes quadrantes a usarem a palavra aconselhamento a torto e a direito. Passo a explicar, porque acho que merece. Podem ir consultar o dicionário. Experimentem e verificarão que não encontrarão tal palavra.
Extracto e "lead" de artigo com o título "Do aconselhamento"
Autora: Isabel Leal, Psicóloga
Coluna "Psicóloga de Serviço", revista Notícias Magazine do Diário de Notícias, 4 Março 2007, página 80



Com sua licença, por conseguinte, Sr.ª Dr.ª, lá fui catar no dicionário a dita palavrinha. A coisa levou-me cerca de 5 segundos a encontrar (eu cá sou o verdadeiro Speedy Gonzalez da catação dicionarística). E lá estava, a marota.

aconselhamento s.m. (sXX cf. ACG)
1. Acto ou efeito de aconselhar(-se)
1.1. acto ou efeito de pedir, receber ou dar conselho(s); orientação
1.2. Indicação da necessidade, conveniência ou desejabilidade de; recomendação, sugestão
1.3. Troca de ideias ou reunião para se debater algo
2. PED PSIC: Auxílio ou orientação que um profissional (pedagogo, psicólogo, etc.) presta ao paciente nas decisões que este deve tomar em relação à escolha de profissão, cursos, etc., ou quanto à solução de pequenos desajustamentos de conduta
ETIM aconselhar+ -mento; ver consult-
(dicionário Houaiss, Temas e Debates, Lisboa, 2005)

De facto, o velhinho P.E. não tem lá essa coisa, na edição em papel, edição esta que já tem uns anitos valentes e umas gralhitas não menos, mas a edição on-line sim, abracadabra, é ir lá consultar - completamente à borliú:

aconselhamento
substantivo masculino
1. acto de dar conselhos a; consulta;
2. orientação;
3. PSICOLOGIA forma de assistência cujo objectivo é prevenir ou resolver problemas psicológicos

Poças. Carambinhas. Aquela da "psicologia", ali escarrapachada em ambos os dicionários, e em maiúsculas e tudo, isso é que não convinha nada. À Sr.ª Drª, quero dizer. Mal que lhe pergunte, que raio de dicionários é que tem lá em casa? Ou no escritório, na redacção do jornal, onde quer que tenha escrito, hem, diga lá aqui à gente, mas que bosta de desmancha-dúvidas costuma vocelência usar, afinal? E, já agora, lá no seu curso (foi Psicologia que tirou, não foi?), faltou a essa parte das aulas ou, pura e simplesmente, na sua Faculdade não se liga a coisas tão merdosas como o aconselhamento, essa excentricidade ou, como lhe chama a Drª, esse "estrangeirismo"?

Em vez de "aconselhamento", como acto terapêutico, no âmbito da sua especialidade, qual é a técnica postulada pela escola de vocelência, Sr.ª Dr.ª? Palmadinhas nas costas? Palavreado? Rebéubéu pardais ao ninho? Dar-se-á primazia, segundo a sua escola psi, à Pepsi-cola em detrimento da coca? Talvez esbarrondamento em vez de aconselhamento, hem?

Ora, ora, Sr.ª Dr.ª, ó santinha. Tenha juízo, mas é, com o devido respeito.

A propósito. A construção "ver políticos de diferentes quadrantes a usarem a palavra" é uma calinada de todo o tamanho. Também fez gazeta a suas aulinhas de Português, foi? Ah, traquina.



Comentário: a palavra "vocelência" não consta de qualquer dicionário (dos que tenho). Quanto às outras, é pentelhar.

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01/03/07

Qeremos fudier e naum paga-mos



Bálhamedeus. Caralhosmafodam. Maz o q porra andaum a faser cua noça joventode, fuada-se? I istu saum istodantes univercitarius! Pqp!


Foto de Nuno Fox publicada no DN de hoje

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05/01/07

Vampiros




Existem cartazes nas ruas, anúncios na televisão e na rádio: dê sangue. As mensagens, seja em que meio for, são bastante claras: dar sangue é um acto de puro altruísmo que pode salvar a vida a alguém; para o dador não existe qualquer risco ou incómodo - o que não é exactamente assim - e o receptor até pode vir a ser, quem sabe, o mesmo dador ou algum dos seus familiares mais próximos - o que também não é exacto.

Naquele que se diz ser o maior hospital da península ibérica, existe uma coisa que se chama Associação Portuguesa de Dadores Benévolos de Sangue, onde não é de todo possível dar... sangue; o serviço de recolha de sangue foi, aliás, desactivado no Hospital de Santa Maria há já um bom par de anos. De resto, também não existem meios para o efeito na maior parte dos Hospitais Centrais e nos Centros de Saúde do país.

Um simples telefonema para qualquer das inúmeras associações de dadores é suficiente para constatar a seguinte, triste, espantosa realidade: é praticamente impossível dar sangue em Portugal; existem, pelos vistos, apenas três locais fixos, um no Norte, outro no Centro e outro no Sul; as recolhas fora destes "centros" são por regra efectuadas por "brigadas" - o que não deixa de ter a sua piada.

Quer dizer: quem vai a um hospital não pode dar sangue, por exemplo enquanto espera pela sua vez para a consulta, ou aproveitando o facto de ali se deslocar para visitar uma pessoa internada ou mesmo, simplesmente, porque ali foi tratar de uma qualquer papelada. Nada disso. Para dar sangue, ou se vai expressamente a um dos três "centros" de recolha permanente (com horário de função pública, ainda por cima), todos eles situados, respectivamente, atrás do sol posto, no cu de Judas e em Coisa Da Mãe Street, ou se espera pela próxima "campanha" de recolha, no emprego, no centro paroquial, no grupo de escuteiros lá da terra ou coisa que o valha. Como são essese assuntos planeados, coordenados, divulgados, pouco se sabe; é o quarto mistério da Santíssima Trindade.

O que é amplamente divulgado, isso sim, é que há necessidade de sangue nos hospitais; fazem-se campanhas publicitárias, certamente caríssimas, convidam-se actores e outras figuras públicas para divulgar os "apelos", mas, mas, mas: quando a ocasião se proporciona, quando o cidadão por fim se resolve, muito bem, vamos a isto, então é neste braço ou é neste, aí é que a coisa corre mal - agora não, aqui não podemos.

Aqui há uns anos, eu, que até recebi uma medalhinha por ser dador benévolo e que tinha a mania de ir dar sangue sempre que via uma carrinha de recolha, fosse onde fosse, caí na asneira de entrar numa espécie de autocaravana, em pleno centro de Braga (por assim dizer), com aquele espírito altruísta e sorridente de quem se vai mais uma vez sujeitar a 15 minutos de seca; primeira surpresa, afinal a "operação" não seria feita ali; aquilo era só um posto médico móvel completo, totalmente equipado para qualquer intervenção de emergência, quanto mais para uma simples recolha de sangue, mas o "posto" propriamente dito tinha sido montado num prédio em frente; que era só subir umas escadinhas; lá subi as escadinhas, achando um pouco estranho que houvesse pó e caliça por todo o lado, e também estranhando o ar de ruína que tudo aquilo exalava; no primeiro andar, uma sala enorme com soalho em ripas, lixo e estuque pelos cantos, o tecto ameaçando desabar a qualquer momento; por detrás de uma secretária, um tipo de bata branca. Mostrei o cartão de dador e acabou por não ser preciso dizer mais nada, felizmente, porque já nesse tempo estava completamente farto de responder sempre da mesma forma sempre às mesmas perguntas. Seguimos então para a sala ao lado, eu e mais o gajo da bata branca; uma cadeira de praia, daquelas a que se chama espreguiçadeira, assim a modos que articulada em três pontos, faz tec-tec-tec e dá para ajeitar melhor a cabeça, aconchegar o tronco, esticar mais ou menos as pernas.

É giro, vá lá, mas achei esquisito. Um sorriso enfiado deve ter dado para disfarçar a coisa, mas esse sorriso apagou-se-me instantaneamente quando o fulano da bata branca me enfiou a agulha no braço e colocou o saco para o sangue... no chão! Naquele chão imundo, nojento, onde não era nada difícil adivinhar, aqui e além, umas quantas caganitas de ratazana, no meio de montes de cal, cimento, bocados de tijolo, pedaços de papéis e restos de plástico. Mas enfim, pensei, que seja pelas alminhas; e lá fiquei, quieta e pacientemente abrindo e fechando a mão, para evitar a dormência e como mandam as regras de boa doação. Porém, sucedia que, tendo a agulha um buraco em bisel, este persistia em encostar à face interior da veia e, portanto, o sangue tinha alguma dificuldade em fluir. A ver se a gente se entende: a agulha é metida numa daquelas veias azuis e salientes que se situam, regra geral, na dobra interior do cotovelo, e é fixada com um adesivo colado à pele, para nem sair nem oscilar grandemente; a agulha está ligada a um tubo plástico, flexível, que vai dar finalmente ao saco de recolha; o furo por onde o sangue entra, na agulha, não é a direito, transversalmente, mas cortado em diagonal, num ângulo de, por hipótese, 25º; estes pormenores servem para que se perceba aquilo que estava a acontecer, e que era o seguinte: o sangue não corria, entupia-se, o saco enchia-se lentamente de espuma sanguinolenta.

Eu sei que vendem o meu sangue. Eu sei que as campanhas são uma treta que não somente gera milhões para quem as produz como não tem - a treta - qualquer efeito prático na população em geral. Há quem dê sangue e há quem o venda; se há quem o venda, é porque há quem o compra; logo, aquele que é dado acabará fatalmente por ser vendido. Tudo isto é nojento, para dizer o mínimo. Mas, mesmo sabendo que estas coisas são assim, custa um bocado passar por episódios que tais, recolhas e dádivas sem um mínimo de condições.

Se as coisas tivessem corrido normalmente, eu estaria dali para fora ao fim de um quarto de hora, vinte minutos ou, vá lá, meia hora. Mas o maldito saco teimava em não encher. O tipo da bata branca veio ver o que se passava, umas duas ou três vezes, mas duvido sinceramente de que fizesse a mais pequena ideia - não apenas disso mesmo como - daquilo que estava ali a fazer. Eu próprio tentei endireitar a agulha, dentro da veia, a ver se aquilo começava a escorrer normalmente. Mas nada. Depois de, sei lá bem, talvez três quartos de hora, o homem desistiu, tirou-me a agulha, pôs um penso e ajudou-me a levantar.

Assim que me pus em pé, caí redondo no chão. E de pouco mais me lembro. Devo ter passado pelas brasas e sonhado. Que aqueles tipos da bata branca vendem o sangue que eu dou a peso de ouro. Que existem redes organizadas de tráfico internacional, com gentes e agentes que fazem fortunas colossais à conta desta espécie de "solidariedade". Que essa gente, e esses agentes, está tudo metido também no tráfico de órgãos para transplante e sabe-se lá em que mais. Que o polvo estende os seus tentáculos ao meio artístico, à grande finança, aos partidos políticos, às instituições estatais. Que ninguém é inocente e que o sangue, fonte essencial de vida, pode ser algo que transporta consigo a mentira, o crime, a morte.

Continuo a dar sangue, quando por mero acaso esbarro com uma "roulotte". Mas nunca hei-de esquecer, por mais anos que viva, aquela bata, aquele labrego da bata, toda aquela imundície abjecta. E além disso, hoje em dia, sei um bocadinho mais sobre o que é "dar sangue" em Portugal.

É uma tristeza. Nada apagada e muito vil.



(Imagem de... não interessa; isto é tão deprimente que, uma vez sem exemplo, vai a fonte incógnita)

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02/12/06

TLEBS, designação técnica de cagalhão em geral

Ah, pois é, eu cá também tenho direito a opinar sobre a TLEBS, ah, pois tenho.

Portanto, e tal e tal, contável, nome, próprio, comum, mais ou menos animado, mais ou menos humano (mais pra menos do que mais pra mais). Ora, cá está: TLEBS obedece à mesma classificação taxonómica, ou lá o que caralho vem a ser isso, que a mais trivial e retinta merda.

Pois que ambas as cousas são contáveis (olha ali um monte de merda, olha outro, são portanto dois, e olha o tlebs, dá três no total), são nomes (foda-se, pisei a puta da merda, olha, vai-te foder, tu e o tlebs), são comuns (não há nada mais comum do que cagadelas, por exemplo nos passeios, e a própria tlebs também é comum em tudo quanto é blog, veja-se por exemplo aqui esta merda), são mais ou menos coisas animadas (quer-se dizer, a merda é bastante mais animada do que a tlebs, que é um cagalhão, grande, putrefacto, dá pouco jeito para atirar), são mais ou menos humanos (bem, a tlebs é completamente desumana, mas foi feita por cagões, portanto vale).

Batlebs, tlebsmente, como quem chama por mim. Será chuva, será gente? Gente não é certamente, e a chuva não bate assim. Fui ver. A merda da tlebs caía do azul cinzento do céu. Que quem já é pecador sofra tormentos, enfim! Mas as crianças, Senhor, porque lhes dais tanta dor?!... Porque padecem assim?!... E uma infinita tristeza, uma funda turbação entra em mim, fica em mim presa. Cai merda na Natureza e cai também na Educação.




(Ó Augusto Gil, pá, desculpa lá isso, hem? Sem ofensa, camarada. É por uma boa causa, uma causa de merda, muito apropriadamente.)
(Ó Pacheco, pazinho, isto é a ver se a Google rebenta, hã, mas não digas a ninguém; vai ser um fartote de rir, o pessoal chega lá e escreve "tlebs" e aparece logo o significante e o significado: merda, merda, merda. É a isto que se chama "keyword weight", topas?)

Legenda
TLEBS: Trapalhada Linguística para os Ensinos Básico e Secundário (até a sigla/acrónimo contém um erro de Português, mas não faz mal; é Portugal)
Augusto Gil: diz que é o autor de uma versalhada muito conhecida, aqui ligeiramente g(l)ozada
Pacheco: o próprio, o único, o verdadeiro artista que tudo vê, com aquele fantástico olho que tem na testa, a mais os outros três, o ciclope da blogosfeira, etc.

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03/11/06

Este texto contém quatro erros graves (de Português) e uma data deles nem por isso

3.11.06
Por que raio 'quantificador' e 'modificador' são considerados termos "abstrusos, aberrantes e incompreensíveis" e 'pronome indefinido' e 'aposto ou continuado' conceitos claros e cristalinos, de compreensão imediata?. Provavelmente é apenas por a grande maioria das pessoas estar familiarizada com os segundos e não com os primeiros.

Há muita gente a precipitar-se e a fazer tristes figuras por causa duma coisa que não compreendem nem querem compreender, quando mais discutir -- apenas insultar quem ousou tocar na sua sabedoria de liceu do antigamente. É verdade que em tudo o que se relaciona com a língua impera o conservadorismo, mas bolas, não há ninguém que tente perceber se ao menos houve um motivo, uma necessidade qualquer, de reformular a terminologia e os conceitos duma área científica? Será que hoje em dia se faz Biologia, ou Física, ou Matemática, usando todos os termos e conceitos de há 100 ou 150 anos atrás?

Há a suposta dificuldade das crianças, e, mais ainda, dos professores em apreenderem a nova terminologia. Mas pior ainda é o divórcio entre aquilo que é ensinado nas escolas e o que é ensinado nas universidades. Faz algum sentido, por exemplo, continuar-se usar-se o termo 'substantivo' no ensino básico para designar o que na universidade é um 'nome'? Será que a solução é criar-se cadeiras de 'gramática tradicional' nas universidades (regidas por especialistas em literatura, claro), só para os futuros professores poderem ensinar às criancinhas essa curiosidade arqueológica?
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O Céu Sobre Lisboa



Talvez seja por isso. Por causa desse raio.

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29/09/06

Sociedade da informação

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À Ensinu há matroca ou naum á? Á, à pelo menos 11 anus, devidu aus maleficios do tabaco.

 Olá a todos.


Estavam a dar-me graxa?! Não me parece, sou professora à 11 anos e foi a primeira vez que ouvi alunos dizerem aquilo. Talvez a nossa juventude ainda tenha futuro:)

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11/07/06

Sumário: técnicas de pinxar paredes e respétivas maneiras de fogir há bófia

Há uns anos, dei aulas numa (grande) escola secundária. Dois dos meus alunos, bons rapazes, eram conhecidos como grandes artistas do "graffitti". Como as paredes da escola, constituída por "n" pavilhões, estavam num estado miserável, e na tentativa de juntar por uma vez o inútil ao menos desagradável, na minha santa inocência, sugeri a ambos que espalhassem a sua "arte" por essas paredes, mas de forma coerente e em colaboração: apresentariam esboços, um para cada parede de cada pavilhão e, com a ajuda dos docentes de EV e após aprovação pelo CE, executariam o trabalho de forma planeada. A ideia seria, por conseguinte, não apenas "personalizar" tematicamente cada edifício, como demonstrar que pinchar paredes não tem necessariamente de ser uma manifestação de selvajaria.

A reacção dos artistas foi a mais previsível. Primeiro concordaram, achando a ideia "bué da fixe", yá setor, vamos nessa vanessa; mas depois, a sós com as suas calças negras cinco números acima e com as suas correntes de autoclismo metidas nos bolsos, coçando compenetradamente o brinco na orelha e o brinco no nariz, tomaram uma decisão não expressa: trabalho? Como "trabalho"? Graffitti como "trabalho" (que horror) não tem graça nenhuma. Esboços? Esboços também é trabalho, iach!, que nojo! E então nada de bófia, a gente ali assim com as latas de spray à vista de toda a gente, em pleno dia? Man, mas que ideia mais cota, da-se.

Ainda hoje aquelas paredes lá estão, abjectas, visualmente cacofónicas, camadas sobrepostas de gatafunhos, uma espécie de palimpsesto da irresponsabilidade. Palpita-me, sinceramente, que ninguém manda pintar aquela porcaria toda, de cima a baixo, por exemplo de branco, apenas para "não ferir susceptibilidades"; ou seja, a fórmula politicamente correcta para qualquer professor dizer sem dizer "borrem as paredes à vontade, antes isso do que me lixarem a pintura do carro..."

(A propósito de um "post" num blog que se chama, muito adequadamente, revisão da matéria.)

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14/06/06

Almanaque de Asneiras


_ Um centramento no..., centramento na..., centramento em...

Palavras proferidas por Sua Excelência a Senhora Ministro(*) da Educação de Portugal, no Telejornal da RTP 1, hoje, às 14:05 h. Em triplicado, como transcrito.

centramento
Dicionário Houaiss: não consta
Enciclopédia 1: não consta
Enciclopédia 2: não consta
Dicionário P.E.: não consta
Dicionário T.E.: não consta
Prontuário ortográfico: não consta
Google (pt): 412 referências


"Centramento" não consta, em nenhum dicionário ou enciclopédia, como palavra "derivada" ou composta por sufixação, nem do substantivo "centro", nem do adjectivo "central", nem do verbo "centrar".

Provavelmente, a Senhora Ministro(*) referia-se a um site de meditação transcendental brasileiro, o Centramento.

Confere. Publique-se.



(*) A expressão idiomática "Senhora Ministra" foi pela primeira vez atestada pelo político Salgado Zenha (1923-1993). Primordialmente, o substantivo significava, entre outras coisas, "mulher medianeira, empenho, cunha". Por outro lado, a palavra "Ministro" nunca fez mal a ninguém, ao contrário de muitos assim designados. Digo eu, que não utilizo nem dicionárias nem enciclopédios.

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30/05/06

Avaliação professoral: variações sobre o tema


_ Olhe, mulherzinha. Fazemos assim: bocemecê dá binte ao meu filho e eu dou-lhe boa nota de abaliação.

_ Mas, ó setora. Carambas. O que é que lhe custa a si escrever "vinte" num papel? Ora essa! Ai é? Então veremos qual vai ser a sua avaliação no fim deste ano.

_ Como? Oferece-me uma chouriça? Ó minha senhora, nem que me oferecesse um porco inteiro. Não dá a nota ao meu filho, amanhe-se, ouvi dizer que a marinha está a admitir pessoal. Leva zero na minha avaliação e já vai com muita sorte. Sua corrupta do caralho, você pensa que me compra com um enchidozito de merda? Ora, ora, meta mas é o chouriço na peidola, sua galdéria.

_ Então está combinado: você passa-me o catraio e eu dou-lhe nota máxima a si.

_ O que é que prefere? Se você dá nega à minha filha, das duas uma, ou eu lhe dou avaliação negativa ou lhe espeto um murro nos cornos. Então? Como é que vai ser?

_ E ela bem se esforça, coitadinha! Passa os dias todos a estudar, acredite. Vá lá... Suba lá isso para o cinco, vá. Eu depois dou-lhe também nota máxima. E olhe. Digo-lhe mais, mas isto fica só aqui entre a gente. Eu conheço os outros encarregados de educação, são meus vizinhos, e tal. Vai ver que eu lhe arranjo uma boa avaliação final, entre todos. Temos que ser uns para os outros, não acha? Hmmm, bezinha?

_ Ai riscou-lhe o carro? E isso que tem? Um riscozito de nada, coitadinho, que não faz mal a uma mosca. E o que tem o risco no carro a ver com a nota dele? Ah, ele é isso? Pois muito bem. Vai ver que nota lhe dou eu, no fim do ano. É outro risco. É 1, um, ouviu? Um, de cima a baixo! Trrj!

_ Meu família diz senhora nom ter dretu. Nós meu pátria assim unido, tudo coisa faz no conselho família. Senhora não pode (como se diz) reprova meu filhinha. Meu filhinha passa, senhora boa (como se diz) avaliação. Senhora não passa meu filhinha, senhora mau avaliação. Eu nom kéfrô, senhora, eu ingutchia.

_ Mais nóiss istamus áqui em Pórrtugáu fais tempo! Quiéisso, gentchi! Dá negatchiva pru meu filho não, sô! Isso dáí, cara, é xênofôbia, viu? Qué québrá a cara, moça? Eu lhi pégu, cara, cê vai vê! Vô tchi tascá zero em sua avaliação, morou? Zero, zerinho mêzmu, ó!

_ Eu tenho estado a falar consigo, cheio de paciência, mas sinceramente tenho mais que fazer. É assim: ou passa o meu filho ou eu chumbo-a a si. Entendido?

_ É que ele ficou traumatizado com as aulas de educação sexual, tá a ver? Aquelas coisas ainda lhe fazem muita confusão, coitadinho, tão pequenino, tá a ver?. Andou-me murchinho durante um mês, nem queira saber, tá a ver?. Mas pró ano, vai ver, o rapaz espevita, tá a ver? Dê lá a notazinha, ande. Olhe a sua avaliação, tá a ver? Quem me avisa meu amigo é, tá a ver?

_ Bom, realmente, quando uma pessoa não cede a argumentos curiais, perdoará a franqueza, isso tem um nome, e esse nome é teimosia. A senhora doutora não passa de uma teimosa, desculpe que lhe diga. Ora, na minha opinião tal coisa constitui uma grave lacuna pedagógica. Por conseguinte, serei forçado a avaliar negativamente o desempenho da senhora doutora. Cumprimentos.

_ Eu disse ao meu paizinho que a setora me ia dar negativa e o meu paizinho disse para eu dizer à setora que o meu paizinho manda dizer que ou a setora me dá positiva em vez de negativa ou o meu paizinho vem cá falar com a setora por causa da avaliação que o meu paizinho vai fazer à setora.

_ Aiiii sinhoraaaa. Ataum ê vô têri negativaaaa? Aiiii. Ku mê páí nã vai gostar nadaaaa. Aiiii ku mê páí tamém lhe vai dari negativa à sinhoraaa. Aiiii.




Adenda
Acabo de ouvir na rádio uma transcrição de certo blog, de um tal Daniel Não Sei Quê, a propósito deste mesmíssimo tema de papás avaliando profes. Pois fui correndo ver o radiodifundido post no tal blog tipo "D. Rosa, chegou a sua filha", a fim de conferir. Pois confere. Aquilo é que é falar, bolas, soberbo paleio. Mas, claro, como não se pode ter tudo, esse identificadíssimo Daniel tresanda a comunistice, ou comunistite, e, portanto, torna-se para mim impossível tecer qualquer espécie de consideração a respeito. O que é chato, porque ficaria aqui a calhar uma referência mediática, cheia de pinta e nem por isso bajuladora. Nada feito. É esta maldita alergia, ó raio de coisa. Não consigo, "derivado a" este meu maldito feitio. Tudo aquilo que diz um comunista não vale um caracol, como estou farto de repetir. Mas fico ciente, mais uma vez, de que ser comunista, além de "corajosamente" assinar com um nome qualquer, dá muito jeito a quem pretende singrar no reino da blogosfera colunável, filmável, entrevistável, publicável e radiodifundível.
Apenas como ilustração do carácter comunistóide, tóxico, perigosíssimo, daquele arrastão soviético, fica uma pequena citação: "Alguém que deixa as televisões filmarem as crianças da sua escola para mostrar como são criminosas em potências não se pode dedicar ao ensino."
O verdadeiro Kuomitat Gozudarstvennoi Bezopanosti em todo o seu esplendor. Complexas "potências". Apenas por mera coincidência um comunista pode debitar a mesma "opinião" de um anti-comunista, ou estarem ambos do mesmo lado; se calhar, quem sabe, é porque o outro lado afinal não deve ser assim tão mau.

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03/02/06

Cédula pessoal

Momento de crítica livresca

«Enquanto estudantes, não temos de estudar; enquanto trabalhadores, não temos de trabalhar; enquanto membros da comunidade, não temos de (nem podemos) mexer uma palha.»(*)

Esta citação é do livro Bilhete de Identidade, escrito por Maria Filomena Mónica, e foi para aqui transcrita com modificações a nível de pontuação. O que remete imediatamente para a questão mais pungente, por assim dizer, que a leitura desta obra por certo fará germinar no cérebro de qualquer pessoa habilitada com o Curso Geral dos Liceus, ou equivalente: será que a Maria não tinha dinheiro para pagar a um bom revisor de provas? Ou terá sucedido que a Filomena faltou a todas as aulas de Português, até ao 5º ano? Ou, ainda, andará nossa Mónica lendo António Lobo Antunes desde a mais tenra infância?

Não se pretendendo escritora, muito modesta e apropriadamente, Filomena Mónica editou um caso paradigmático de algo que poderia ser, ou ter sido, obra de mérito e a merecer reflexão, mas que perde irremediavelmente pela falta de revisão; nestas condições, com o material tal e qual seguiu para a editora, torna-se difícil, quase impossível, a leitura das suas memórias. O que é, evidentemente, uma pena. Eis um caso exemplar de desperdício. Não se trata de perfeccionismo, muito longe disso, mas apenas do mais básico grau de exigência, prerrogativa de qualquer leitor, compulsivo ou não, ou de qualquer simples consumidor de livros.

Uma vírgula mal colocada, como sabe o mais mediano dos alunos liceais, pode alterar completamente o sentido de uma frase; o mesmo vale para o excesso, a profusão de vírgulas, coisa na qual a amiga Mena também parece ser especialista, à semelhança do anteriormente referido produtor de livros.

Antigamente, falava-se aos jovens da importância da pontuação citando a velha lenda da "pichagem" dos tempos de Salazar. Sucedeu uns dias depois de o ditador ter "caído da cadeira"; no longo e histórico muro da Rua da Alfândega, em Lisboa, apareceram - em letras garrafais - os seguintes dizeres:

Morra Salazar
Não Faz Bem à Nação

A coisa ter-se-ia tornado notada, e politicamente delicada, se não tivesse surgido mão caridosa, e igualmente anónima, que rapidamente torneou o problema:

Morra Salazar?
Não! Faz Bem à Nação

Apenas dois sinais de pontuação que viravam completamente do avesso o sentido das palavras.

Se necessário fosse, a prova definitiva de que o material publicado deve estar formalmente correcto reside nisto: a autora consegue condensar, em apenas vinte e quatro palavras, todo o conceito de portugalidade, resumir os pilares existenciais do português comum, caricaturar com rigor a chamada "alma nacional" portuguesa; no entanto, a pontuação absolutamente desastrada da frase liquida na origem, por ausência de forma ou por deformação, o conteúdo da mensagem. Tanto assim que todo o presente texto, despretensiosamente crítico, se refere ao problema da forma e não à densidade, à curialidade, à precisão cirúrgica do conteúdo; aquela construção frásica tripartida, se bem escorada, representaria talvez o diagnóstico mais certeiro alguma vez produzido sobre Portugal e a sua doença crónica, a preguiça mórbida; ora, como está, conforme saiu da editora, o livro, as frases, o diagnóstico, tudo acaba por evidenciar aquilo que pretende denunciar: preguiça.

Enquanto escritores, pelos vistos, não temos de saber escrever. Faltou essa.

O que não invalida, mesmo assim, que a autora de Bilhete de Identidade tenha conseguido, de facto, traçar um retrato fidedigno do Portugal do terceiro quartel do século XX; apresenta-nos, de forma quiçá questionável, o seu próprio percurso de vida, como bilhete de identidade, tornando-se mesmo de certa forma incómoda, pela exposição da intimidade de pessoas ainda vivas; mas o que perpassa naquelas páginas é bastante mais do que um simples B.I., é também a cédula pessoal da alta burguesia lisboeta, o boletim de sanidade da intelectualidade de então e o passaporte que existia naquela época para escapar à mediocridade vigente.

Ponto final, parágrafo?


Bilhete de Identidade
Memórias 1943-1976
Maria Filomena Mónica
Alêthea Editores, Lisboa, Outubro 2005
ISBN 989-622-012-3

(*) pág. 273

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17/01/06

A Língua Brasileira está viva e recomenda-se

a julgar pela amostra junta

http://busca.uol.com.br/www/index.html?q=tradu%E7ao%20de%20ingleis%20pra%20portugueis

Domain Name (Unknown)
IP Address 201.32.174.# (Telemar Norte Leste S.A.)
201.32.174.94
ISP Telemar Norte Leste S.A.
Location Continent : South America
Country : Brazil (Facts)
State/Region : Rio de Janeiro
City : Rio De Janeiro
Lat/Long : -22.9, -43.2333 (Map)

Language Portuguese (Brazil)
pt-br
Operating System Microsoft Win98
Browser Mozilla 1.7.2
Mozilla/5.0 (Windows; U; Win98; pt-BR; rv:1.7.2) Gecko/20040803
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12/01/06

"À" mais uma "prá" colecção, companheiro




jornal 24 Horas de hoje, a páginas 11

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06/01/06

Maravilhosa tradução, maravilhosa (ta-rahn)

Ah, o fascínio das novas tecnologias, e tal

----- Original Message -----

From: "lopez fulgence"lopezfulgence@gmail.com
To:dodo2004@iol.pt
Sent: Friday, January 06, 2006 1:55 AM
Subject: info reservas

Bom-dia ,
Sou o Sr. LOPEZ FULGENCE homem de negócio que residant em cote d'ivoire nós quero reservar 4 câmaras simples para as datas do 4 de Fevereiro ao 10 porque temos negócios muito importantes a regular no vosso país.
Queiram para aquilo fazer-nos chegar a factura nosso sejour em nós querem-nos também que presta-nos um serviço à nós: Desejo pela mesma ocasião que reglez a agência de viagem que se ocupa dos nossos bilhetes. Ou seja preleverez sobre o meu N° cartões de crédito a nota de reservation e a soma de 3000 euros para os nossos bilhetes e fazer-o chegar por Western União à agência Ar lines viaja situado em Quota de Marfim da qual comunicá-los-ei coordonées. Com efeito, temos uma redução com esta agência e previmos lá regler nossos bilhetes além disso, estamos actualmente em MAROC para um seminário de uma semana ou mais, dos nós repartirons directamente no vosso país.
Por conseguinte vocês nós feito um orçamento das câmaras incluidos os 3000 euros para a agência. Interrogamos-vos além disso prestar-nos este serviço, porque a agência de viagem não possui terminal de prélevement a distância, se não, ter-lhes -emos feito de chegar o nosso N°de cartões de crédito. Também, não somos no nosso país, e não podem fazer-lhes transferência bancária. Recordo-vos que sabendo que isto não é da vossa actividade, oferecemos-vos uma comissão de 300 euros para este serviço.
Na pendência da factura global (nota de reservation + 3000euros bilhetes de aviões + a vossa comissão)
Temos a agradecê-los de adiantamento _ muito cordialmente, bom e feliz ano 2006

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15/12/05

Tráfico na baliza de aterragem


Porque o local onde nos encontrávamos acocorados em fila eram as superstruturas de um antigo draga-minas polaco da classe «Czaika», lançado à água em Modlin, terminado em Gdynia, o qual encalhara no ano anterior, a sudoeste da baliza de aterragem, fora do canal por consequência, e não perturbava o tráfico.

O Gato e o Rato, Günter Grass, pág 7.

Título original: Katz und Maus
Tradução de: Carmen Gonzalez
Tradução cedida por Europa-América, Lda.
© Steidl Verlag, Göttingen
© BIBLIOTEX EDITOR, S.L., para esta edição
ISBN 84-96180-01-8
Dep. Legal B. 8867-2003

Nem vale a pena enumerar todos os erros, gramaticais e de tradução, que existem no parágrafo transcrito. Seria de facto difícil fazer pior em apenas 49 palavras. Claro que se pode presumir ser o resto da tradução (159 páginas) de igual calibre, pelo que resistir até à página 7 já representa algum heroísmo em combate de leitura. Uma verdadeira desgraça, como se vê, a tradução em Portugal.

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23/11/05

TPC e falta de material


Ensino de 1960: Um componês vende um saco de batatas por 100 francos. As suas despesas de produção elevam-se a 4/5 do preço de venda. Qual é o seu lucro?

Ensino tradicional de 1970: Um componês vende um saco de batatas por 100 francos. As suas despesas de produção elevam-se a 4/5 do preço de venda, ou seja 80 francos. Qual é o seu lucro?

Ensino moderno de 1970: Um camponês troca um conjunto B grande de batatas por um conjunto M de moedas. O cardinal do conjunto M é igual a 100 e cada elemento bM vale um franco. Desenha 100 pontos que representem os elementos do conjunto M. O conjunto C dos custos de produção compreende menos 20 pontos que o conjunto M. Representa o conjunto C como um subconjunto de M e responde à seguinte pergunta: qual é o cardinal do conjunto L do lucro (escreve-o a vermelho)?

Ensino renovado de 1980: Um agricultor vende um saco de batatas por 100 francos. Os custos de produção elevam-se a 80 francos e o lucro é de 20 francos. Trabalho a realizar: sublinha a palavra "batatas" e discute-a com o teu colega de carteira.

Ensino reformado de 1990: Um kanpunez kapitalista privilejado enriquesse injustamente em 20 francos num çaco de batatas, analiza u testo e procura os erros de kontiudo, de gramatica, de ortugrafia, de pontuassão e em ceguida dis o que penças desta maneira denriquesser.

(transcrito de APM- Educação e Matemática)


Este nada cómico texto circula desde há muito pelas escolas portuguesas. Inspirado no modelo picante e cheio de ousadia do nosso "pronto-a-escrever" (no post anterior), talvez se pudesse estender o conceito de "reforma pedagógica" a outras áreas do Ensino, nomeadamente quanto à sua terminologia própria. Por exemplo, duas coisas que os alunos de todas as gerações conhecem, uma como "TPC" e a outra como "faltas de material".

Ensino tradicional de 1970: TPC era acrónimo de "trabalhos para casa" e estes eram corrigidos e avaliados, contando para a "nota final" do aluno; a "falta de material" (manuais, cadernos, material de desenho ou de ginástica) era marcada a verde na ficha individual do aluno e tinha influência na avaliação.

Ensino moderno de 1970: TPC era "trabalhos p'ra casa", e estes eram corrigidos às vezes e avaliados quando era necessário subir a "nota final" ao aluno; a "falta de material" (manuais, cadernos) era assinalada, por vezes, a lápis, na ficha do aluno; a falta de material de "ginástica" deixou de existir porque essa Disciplina passou a chamar-se "Educação Física".

Ensino renovado de 1980: TPC era TPC, e aquilo, quando existia, servia exclusivamente para ajudar o estudante a passar no final do ano; a "falta de material" (manuais) era, esporadicamente, referida numa folha de papel.

Ensino reformado de 1990: TPC era "trabalhos p'a casa", que serviam para passar o jovem; a "falta de material" desapareceu completamente, à excepção da bola de futebol que era sempre necessária para as aulas de EF.

Ensino renovado de 2000: TPC é "trblhs p kz" e não serve para nada, nem sequer existe; a "falta de material" ressuscitou, mas agora como forma de promoção social dentro dos "gangs" a que dantes se chamava turmas, e refere-se a "ténis" de marca, tatuagens e objectos metálicos no corpo, calças dez números acima, pastilha elástica na boca e no cabelo. "Falta de material" é também, entre a malta do "naum pagamus", não trazer consigo umas quantas "brocas" ou "panfletos"; o futebol foi substituído, no plano curricular, pela chamada "fuga à polícia".

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05/05/05

National Education Channel


Acabo de ouvir na televisão uma anónima moçoila, envergando luvas amarelas, que proferiu a seguinte sentença, com o Cabo da Roca por fundo: "O chorão é uma planta doninha que mata as outras espécies em vias de extinção."

Conheci em tempos duas professoras, uma escocesa e a outra inglesa, ambas licenciadas em Francês (!), que nunca tinham ouvido falar em Passé Simple; sempre tinham utilizado o Passé Composé, davam-se muito bem com isso e, calculo, punham os seus meninos a fazer exercícios em conformidade. Ainda hoje estou convencido de que elas estavam a gozar comigo.

Conheci também, e não apenas no sentido bíblico do termo, uma coleguinha da área das Geografias que não fazia a mais pequena ideia de coisas tão triviais como a capital da Guiné-Conacri, o maior produtor mundial de café ou a diferença entre um "kolkhoz" e um "sovkhoz". Conhecimentos de algibeira, zero. Nunca lia um jornal ou uma revista, para além da "Holla" e da "Maria". Era, no entanto, altamente considerada, por docentes, discentes e empregados lá da escola.

Há uns anos, em plena reunião de avaliação, já não me lembro exactamente o que poderei ter dito para provocar a frase lapidar de uma colega de Alemão (a única daquela escola): "_ Mas eu ensino Alemão há mais de vinte anos e não sou fluente em Alemão..." Acho até que a senhora disse "não sei nada de Alemão". Claro. Mais uma brincalhona. Onde já se viu, uma pessoa ensinar aquilo de que entende!

A certa colega de informática, engenheira não sei das quantas, foi pedido que determinasse qual o sistema mais adequado para determinadas funções. Uma semana depois, lá apareceram os resultados: tantos registos vezes tantos dados, a tanto por dado, dá X de "memória de massa"; vezes tantos ficheiros, dá Y; logo, os computadores do sistema devem ser os que têm um disco rígido com capacidade igual a Y. Genial. Parece que agora está a dar aulas de Informática de Gestão, algures, com igual brilhantismo.

Nos meus tempos de estudante, onde isso já vai, chumbei em dois anos (3º e 5º) por causa de uma coisa que se chamava Ciências Físico-Químicas; naqueles bons tempos, se bem me lembro, passava-se "cortado" a uma Disciplina, mas não a duas; ora, já se sabe, raramente passei a Matemática, e nunca tive mais do que 10. Portanto, a questão para passar de ano era sempre "safar-me" a CFQ. Lembro-me perfeitamente daquilo que me fez chumbar, num ano e no outro: no 3º, foi por não saber o que é um "bico de Bunsen"; no 5º ano, foi por desconhecer a "natureza do nónio" que estava desenhado no teste. Em ambos os casos, se tivesse acertado naquelas duas perguntas... isso seria suficiente para o 10. Nunca utilizei um bico daqueles e acho que nunca vi um nónio na vida, Nosso Senhor lhes perdoe.

Sendo tecnicamente um perfeito imbecil, por não entender uma palavra de matematiquês, tive de, posteriormente, disfarçar: acabei por compreender alguma coisa de Matemática, cheguei à conclusão de que, afinal, aquilo não é nada de especial e, finalmente, passei a trabalhar quase exclusivamente com números, cálculos, fórmulas.

A diferença entre Matemática e matematiquês é a mesma que existe entre a Física e o fisiquês, a Química e o quimiquês, a informática e o informatiquês, a Língua Alemã e o alemanês, o Inglês e o inglamanês, o Francês e o françuguês ou entre qualquer Disciplina relacionada com Geografia e o correspondente "geografês". Existe uma linguagem própria, exclusiva para cada Disciplina curricular, em todos os graus de Ensino, que tem muito pouco ou nada a ver com a matéria à qual diz respeito. Para "passar", e mesmo com excelentes notas, ao estudante português não é exigido que saiba "a matéria", mas apenas que entenda e se desenrasque utilizando a linguagem concreta que se usa nas aulas respectivas. Por isso, é perfeitamente possível, natural, expectável, que um "bom aluno" passe com distinção a qualquer das cadeiras sem o mais ínfimo dos conhecimentos sobre os conteúdos.

Uma coisa é responder correctamente às questões de um teste, ou de um exame, outra bem diferente é compreender problemas, manusear soluções, resolver questões que o imediato e o quotidiano apresentam, em todas ou em qualquer das áreas do saber. Uma coisa é compreender a formulação específica escrita e responder conforme aquilo que "está no manual" ou "foi dito na aula", outra bem diferente é compreender uma situação real e responder conforme as circunstâncias. Em resumo, não existe necessariamente intersecção alguma entre aquilo que se "aprende", dentro do plano curricular e com os métodos pedagógicos aprovados, e aquilo em que de facto consiste o universo de conhecimentos de uma dada "cadeira".

Qualquer semelhança entre uma Disciplina nominal e a respectiva disciplina de conhecimento é mesmo pura coincidência. Um aluno "passa", ano após ano, com excelentes médias, acaba por se licenciar e provavelmente irá dar aulas, refluindo no sistema, sem nunca ter tido o mínimo contacto com a realidade intrínseca daquilo que suposta e teoricamente andou a estudar. E o processo repete-se, refina-se, torna-se cada vez mais paralelo: não é necessário saber falar e escrever correctamente em Português, Inglês ou Francês, para "ensinar" qualquer dessas Disciplinas; não é necessário, e torna-se mesmo um empecilho, saber seja o que for de Matemática para dar aulas de Matemática, ou de Geografia para leccionar I.D.E.S., por exemplo.

No caso da Matemática, o que citei por se ter passado comigo (logo, aquele que melhor conheço), o que acontecia era que o linguajar próprio dessa Disciplina exercia um estranho efeito de bloqueamento no meu cérebro; assim que lia, num teste, o início de qualquer pergunta ("considere a expressão..."), bloqueava imediatamente; já não conseguia raciocinar, pensar, fosse o que fosse ou sequer mexer-me; lembro-me de que desatava a suar; enfim, coisas daquelas ("seja o número..."), eram para mim como violentos pontapés na cabeça. Então quando a coisa envolvia os chamados "problemas", puff!, nada feito; não conseguia entender porque é que um pedreiro havia de construir 17,5 metros por hora e quantos metros por hora seriam construídos, em 45 horas, por dois pedreiros, "sabendo que" um deles era maneta e, portanto, presume-se, trabalhava metade do outro. Estas coisas nunca fizeram, pelo menos para mim, o mais ínfimo dos sentidos. E isso é que é "ser burro". Descobrir uma regra, determinar um padrão, formular matematicamente um processo, tudo isso são coisas que não interessam para nada.

Conceitos "farfalheiros", como burro, imbecil, idiota ou ignorante, decorrem por conseguinte não dos conhecimentos específicos, e da articulação entre eles, mas da capacidade reprodutora (ou reprodutiva) de conhecimentos nominais (gramática, regras, alíneas), se e quando debitados numa linguagem estabelecida.

O Passé Simple não existe, de facto, porque pode passar-se bem sem esse tempo verbal. A lógica informática pode bem ser a da batata, desde que se lhe espete um palito, a ver se está cozida. A capital da Guiné-Conacri é Bissau, como todos sabemos. Os rios nascem no mar, lá se diz na Ala dos Namorados, que era a estratégia utilizada por D. Nuno Pacheco Pereira na Guerra de Aljubarrota, no século XIX. O chorão é uma planta doninha, esse predador e carnívoro nocturno.

Caramba. O chorão é um mamífero. Está no manual.

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