
Consultório sentimental (4)
Maria da EncornaçãoPara variar, esta consulta não começa com citações de correspondência recebida. Não seria muito provável, aliás, que alguma carta ou e-mail aqui chegasse com dúvidas ou perplexidades deste jaez: "a minha mulher traiu-me, Xôtor, e agora?". De qualquer forma, o tema desde há muito estava engatilhado e não é tarde nem é cedo, aí vai, inteiramente grátis como os outros. Por se tratar de questão extremamente sensível, e dada a inevitabilidade da utilização de linguagem desbragada, a respectiva leitura não é aconselhável para menores de 40 anos.
Conheci Maria da Encornação em meados de 1995, ela na fila da direita e eu na da esquerda, ambos parados num sinal vermelho. Quando começou a mexer no cabelo, lembro-me de ter tido o seguinte, profundo, elaborado pensamento: «Ok». Mas apenas tive a certeza absoluta quando a vi sacudir aquela belíssima juba negra, com um gesto desprendido e, por fim, olhar para mim com um batimento das pestanas. Fiz o mimo de levar uma chávena aos lábios, ela respondeu com a mímica mais característica possível, algo que tanto podia ser interpretado como "bem, não sei" ou como "onde?". Alguém lá atrás buzinou, o sinal estava aberto; arranquei, passei à frente do carro dela e fiz um sinal com o braço fora da janela: "follow me".
Em apenas três meses, ou coisa que o valha, esqueci completamente o episódio, a forma como a tinha conhecido, e acabámos por juntar os trapinhos. Foi esta a segunda e espero que última mulher a ter a suprema lata de me encornar. A coisa atingiu-me em cheio, confesso, e andei a "bater mal", muito mal, pessimamente, durante uns tempos; acho que foi bastante pior do que da primeira vez, porque depois da primeira qualquer macho idiota pensa que aquilo não vai tornar a acontecer com ele; lá diz o ditado, "macho encornado nunca mais marra embolado"(©). Erro, é claro. A questão não está em se ser encornado ou não, porque não há como não, tudo se resume a que a coisa se descubra ou não. Descobri, azar o meu. De mauzinho, por vingança, nunca mais lhe pronunciei o nome correctamente. Mas assumo, uma vez sem exemplo, de peito aberto: eu já fui encornado. Duas vezes. Twice. Caralhosmafodam. Vá lá ser burro no inferno.
Assim como se pode afiançar que nenhum homem reconhece possuir armações na testa, a não ser a coberto do mais cobarde anonimato, como é o caso, também se pode jurar - pelo que há de mais sagrado - que apenas existe traição quando e se esta se torna pública. Ou seja, em termos axiomáticos poder-se-ia dizer que o acto de encornar é eterno, universal e omnipresente, mas nunca por nunca pode ser conhecido por mais do que as duas pessoas envolvidas, e muito menos ainda poderá vir a ser omnisciente; por outras, mais simples e transparentes palavras, o encornanço existe, fatal e inexoravelmente, mas ao mesmo tempo não existe, pura e simplesmente. Mesmo quando toda a gente já está careca de saber que fulana empalita o marido com fulano (e fulano, e fulano, e ainda sicrano), tudo poderá continuar perfeitamente, por muitos e bons, na paz do Senhor, desde que o dito marido fique na mais completa ignorância. Bem, como há gostos para tudo, ele até há maduros que apreciam ser empalitados, parece que a alguns dá gozo e a outros não rala nada, nadinha, é uma forma de alguém lhes aviar a legítima e assim ela ficar um bocadinho menos chata.
Mas enfim, é importante que se realce e repita: não há problema algum com o encornanço em si, isso é inevitável e natural, a coisa apenas se torna lixada quando é descoberta. Dizia-se nos meus tempos de liceu que existem três espécies de "côrnos"(*): o corno manso, que não se chateia muito, o corno bravo, que fica fodidíssimo quando descobre, e o corno de churrasco - o gajo que diz "eu cá ponho as mãos no fogo pela minha mulher".
De resto, esta ancestral actividade apenas constitui perigo para a espécie masculina. Uma mulher não pode ser traída, nesta mesma acepção e quanto ao assunto de que aqui se fala, pela simples razão de que todo o peso social desaba apenas na cabeça, nos cornos para ser exacto, do homem em causa. Não existem "côrnas", digamos assim, e não é preciso dizer mais nada. A mulher poderá até fingir-se ofendida, no momento em que descobre que o marido anda enrolado com uma gaja qualquer, e esse amuo pode mesmo prolongar-se por uns dois ou três dias, mas passa depressa; aliás, a esposa que se diz "traída" pretende apenas guardar um trunfo na manga, para quando mais lhe convier: se um dia o palerminha a apanhar em flagrante, com um gajo qualquer, ora ali está um excelente argumento para lhe atirar às trombas (aos cornos, pois, por conseguinte).
Presumir que alguma mulher é "fiel", como qualquer rafeiro, ou mesmo que existem excepções à regra, revela uma personalidade embrutecida e masoquista - o que vem a ser o retrato a traço grosso do típico macho latino; ou seja, aquele gajo que faz questão de, declarando por sistema que "as mulheres são todas umas putas", exceptuar devotamente duas: sua maezinha e sua mulherzinha, nem mais nem menos; alguns até se referem à progenitora, tal é o horror que a realidade lhes provoca, como "a minha santa Mãe". Deve ser alguma coisa bíblica, há-de ter a ver com Nossa Senhora e com a Imaculada Concepção, não sei bem, quem sou eu, mas é uma manifestação de verdadeira Fé, disso ninguém pode duvidar. Como pode uma mulher ser fiel, se o Criador, nem de propósito, a dotou de variados e extremamente apetecíveis atributos, aos quais nenhum macho pode ficar indiferente? E que diabo de culpa terão as mesmas se já vêm de origem equipadas com "airbags" frontais, laterais e traseiros, além de tremenda e incrivelmente oleada máquina de foder, com botões de "switch-on" espalhados por toda a carroceria ?! Apenas botões para ligar, disparar o mecanismo, nenhum para desligar, não há "switch-off" em lado algum naquela fabulosa estrutura. Sim, que podem elas fazer quando a própria natureza as programou unicamente para a procriação, ou seja, para foder que nem umas desalmadas? É mais fácil um camelo passar pelo buraco da agulha do que uma gaja boa evitar que muitos homens subam ao reino dos céus. Então se for podre de boa, é que está mesmo tudo fodido, em sentido literal. Ser um perfeito estafermo ajuda, no que à moral e aos bons costumes diz respeito, mas nem o coiro mais horripilante se aguenta a dieta de pepino e banana durante muito tempo.
Claro que existem as frígidas, (excelente petisco, posso garantir), as que não vão lá nem com escopro e martelo, e há também uma percentagem irrisória de sapatões, umas raridades tecnicamente do sexo feminino mas que apreciam exclusivamente gajas. Claro. É como haver por aí paneleiros a dar c'um pau, salvo seja, cada vez mais; que se fodam, umas e outros, não entram no pagode geral. Parece que até estes já inventaram uma forma de se traírem uns aos outros, e não é nada difícil adivinhar como, mas isso são contas de outro rosário e eu cá nem sei nada de paneleirices nem me interessa. Excepções e cartas fora do baralho existem sempre, em tudo e para tudo.
E não me custa nadinha admitir que há verdadeiras excepções, mulheres que nunca encornaram ninguém (como a minha santa Mãe, claro), onanistas militantes, duas ou três devotas enclausuradas, uns milhares no Afganistão e no Iraque, onde é fodidíssimo dar um pirafo, coitadinhas das muçulmanas, completamente nuas por debaixo da "burka" e os cabrões dos fundamentalistas ali à espreita, de pau em riste, não para lhes dar com ele mas para lhes dar com ele. E chega de excepções, que já enjoa.
Mas a regra, lá está, é fodida de todo. Gaja que é gaja, por mais "senhora" que se intitule ou seja de facto, cheira a sexo, sabe a sexo, sonha com sexo, pensa exclusivamente em sexo e em função do sexo; e quanto mais ciumenta, quanto mais furiosamente reservada, quanto mais acha e diz que as "outras" são todas uma cambada de galdérias, bom, aí calma, ainda pior; são as mais assanhadas. Não sei quem dizia que eu tenho a mania das progressões diametrais, mas enfim, nem acho nem isto tem nada a ver: o ciúme que uma mulher sente é directamente proporcional à culpa que realmente carrega, e inversamente proporcional à consciência que tem dessa culpa. Em suma, pessoal casado ou casadoiro, tomai lá um paradigma bestial: jovem, se a tua chavala é ciumenta com'ó caralho, se está sempre a mandar bocas foleiras porque tu galas as coxas daquela e fazes olhinhos àqueloutra, em vez de te rires e achares piadinha, ó parvalhão, põe-te mas é a pau - ou ela já te encornou, ou anda a encornar-te ou faz tenções de te encornar não tarda nada.
Semper fidelis é nos comandos, ou nos fuzileiros, ou no caralho mais velho, mas não é de certeza lá em casa. Quem te julgas tu afinal, ó jovem? Pensas que és o maior, que a tens "segura", que ela, a "tua", nunca, mas nunca seria capaz de tal coisa? Pões a mão no fogo por ela, jovem? Pois. Bem me parecia. Vai contando carneiros, vá lá.
Bem sei eu, mas falta acrescentar e esclarecer, que a minha Encornação, a segunda, ocorreu mais ou menos por volta da septuagésima mulher no currículo(**). E que, entre a primeira, por volta dos 23 ou 24 anos, e a segunda, uns 16 ou 17 anos depois, devem ter decorrido aí umas cinquenta ou sessenta gajas; as outras (10? 15?) foram antes da primeira que me enchifrou. Neste doloroso, pungente, chatérrimo assunto, a execução de cálculos mentais ajuda muito; a contabilidade é um precioso auxiliar para o equilíbrio mental de toda a gente, e de mais a mais numa coisa tão fodida como assuntos de cama. Contar conas, para o gajo fodido dos cornos (que lhe puseram), é como contar carneiros para quem sofre de insónias: este acaba infalivelmente por se cansar e adormecer, aquele acaba fatalmente por cagar no assunto e esquecer.
É tudo uma questão algébrica, de número e de números: quanto mais, menos importante. E vice-versa. Não existe nada fora da ilusão, além da Matemática.
(**) - who the fuck is counting? Um gajo está entradote quando chega não aos quarenta mas às quarenta... e já não consegue contar mais, apenas calcular por médias anuais
(*) - não confundir "côrnos", plural de "corno", homem traído pela mulher, e "cornos", o plural de "corno", étimo que respeita aos apêndices ósseos que alguns (outros) animais apresentam na região frontal do focinho.
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