A macaca nua (The Naked she-ape*)
A natureza eminente, patente e obviamente sexual da macaca é algo de sobejamente conhecido mas, paradoxalmente, é também um assunto muito pouco referido por pessoas de saber, quiçá devido ao carácter escorregadio e perigoso que a coisa encerra. Existe até uma adivinha popular, meio acriançada, como convém, que define perfeitamente o conceito: como se designa a porção de carne e osso que envolve a vagina? A resposta é: Mulher.
Por alguma razão as culturas de cariz islâmico optaram desde há milénios pela solução mais radical e fundamentalista: tapá-la toda com panos, a essa zona envolvente da vagina - e, por inerência, ocultar a mulher inteira, da cabeça aos pés, com roupagens largas que disfarçam todas as formas. Assim se procura, nessas espertíssimas religiões muçulmanas, liquidar à nascença qualquer veleidade imaginativa por parte dos restantes elementos sociais, ou seja, abolir pensamentos pecaminosos nas cabecinhas entesoadas dos machos de cobrição.
De igual modo, mas não de forma tão evidente, nas civilizações ocidentais, ditas "modernas", tenta-se hoje ainda preservar o papel da fêmea enquanto mera parideira e, quando muito, como objecto de satisfação sexual para o macho dominante. Assim, à fêmea da variante zoológica humana é tacitamente atribuído um papel social o mais reduzido e irrelevante possível; sistematicamente simulando aquiescência e cedência, são os machos dominantes que, em cada grupo social, definem as regras e os limites para a convivência entre os sexos; esporadicamente, estes mesmos líderes permitem que uma fêmea em particular assuma alguma importância... mas em condições muito restritas. Reveja-se os casos e as figuras de, por exemplo, Golda Meir, Margaret Thatcher, Indira Ghandi ou Madre Teresa de Calcutá; apenas por amostra, trata-se recorrentemente de casos perdidos, enquanto fêmeas, e de tristes figuras, enquanto representantes do sexo feminino. Para que uma mulher atinja alguma relevância social, é condição imprescindível que prescinda, ela mesma, da sua própria condição feminina; há-de ser por força tremendo coiro, feia, de preferência horripilante, sem qualquer espécie de atractivo, e só nesse pressuposto poderá aspirar a algo mais do que as suas tarefas normais e ancestrais, como arear as panelas, mudar fraldas e limpar o ranho a fedelhos.
Não se presuma, todavia, e ao contrário do que o mais leve assomo de inteligência faria supor, que o estatuto de menoridade social incomoda ou sequer perturba a fêmea humana; pelo contrário, é isso mesmo que a maioria pretende, e é apenas a isso que aspira; exceptuando talvez uma irrisória trupe folclórica de mulherio confundido (ou mal fodido), a fêmea humana apenas pretende constituir família ou, como se costuma dizer, "casar e ter filhos". Prudentemente, e de forma geneticamente programada, a mulher deixa para o sexo masculino todas as restantes maçadas que constituem a vida, ganhar dinheiro, fazer guerras, lidar com a porca da política, ir ao futebol e entrar em borracheiras de grupo, coisas assim.
A mulher pretende apenas um "maridinho", a sua "casinha" e os seus "filhinhos". E é esta, de facto, sempre foi, a ordem natural das coisas. Não consta que as putativas "liberdades" e "igualdades" concedidas ao sexo feminino tenham trazido consigo um módico de felicidade acrescida, para nenhum dos sexos: nem para as mulheres que, além de continuarem a tratar da casa e dos filhos, ainda são obrigadas a trabalhar fora de casa; e nem sequer para os homens que, em cima do que já trabalhavam antes, agora têm de "colaborar" ou de "ajudar" em casa. Tudo por via das tais "liberdades" e "igualdades", invenções recentes, transitórias e absolutamente contra-natura, paridas pelas torpes meninges da intelectualidade bem-pensante. À macaca humana apenas rala a subsistência, sua e da sua prole, de preferência abrilhantada com profícua e o mais possível arrebatada vidinha sexual, ou seja, em resumo, comida pronta e foda prestes. Eis a coisa. Pretender que a fêmea do macaco pense em mais alguma coisa do que em macacada é, além de contraproducente, perfeitamente imbecil. É essa a sua natureza e, como se sabe, esta é algo a que ninguém escapa, venha lá o mais pintado.
Ora, e aqui é que bate o ponto, as coisas nem sempre são assim tão simples, geralmente até são uma baralhada do caralho, donde ressalta a necessidade de colocar alguma ordem na bagunça hormonal. Aquilo que geralmente se designa por "moral e bons-costumes" surge, por conseguinte, como consequência directa da necessidade de preservação da espécie: se toda a gente andasse por aí a foder com toda a gente (como, de facto, anda), seria posta em risco a curialidade e a solidez da chamada "relação a dois" (heterossexual, bem entendido); simplificando e esclarecendo o paradigma, se fosse permitido à fêmea humana a expressão livre de todas as suas pulsões, se ela pudesse dar os pirafos que lhe desse na veneta, a instituição básica da sociedade diluir-se-ia inexoravelmente e, com ela, mais tarde ou mais cedo, a própria sociedade se extinguiria. Daí, portanto, a sustentação da necessidade de conservação da espécie anteriormente referida; digamos que, em termos mais pragmáticos, não seria muito agradável, para o gajo que paga as contas e que, por inerência, tem o direito académico de se considerar como o progenitor da putalhada que tem lá em casa, enfim, se ele soubesse que sua "esposa" andava a abrir as pernas à vizinhança toda... não iria certamente ficar lá muito contente.
Na realidade, é isso mesmo que se passa, na prática, mas a chave (e o verdadeiro fundamento) da moralidade nas relações humanas é que nada se saiba. É esse o segredo da instituição Família, a base social por excelência, a força aglutinadora, o favo primordial e estrutural dos grupos humanos. Quanto maior o grupo, maior a necessidade do estabelecimento de regras às quais todos os elementos deverão fingir que obedecem. Enquanto o gajo que paga as contas não souber que é corno, consequentemente, inerentemente e repetidamente, está tudo muito bem, tudo em ordem e sem novidade. O problema, como já aqui "expliquei" antes, é quando esse tal gajo desconfia de que algo se passa, quando se enfia por pensamentos próprios de quem duvida, "mas que merda vem a ser esta", "ai o caralho, que isto não me agrada nada, foda-se", etc.; por exemplo, quando um pai de família, respeitável e tudo, leva a esposa à maternidade e sai de lá com um catraio preto nos braços, sendo toda a gente na família de raça branca, enfim, digamos que é bem provável alguma espécie de desconfiança, por mais totó, mentecapto, imbecil ou mesmo socialista que esse senhor seja. Se bem que exista gente para tudo, há tipos que são uns mãos largas e só querem é que não os chateiem, mas, ainda assim, convenhamos que há situações maçadoras como tudo. É por não haver por aí assim tantos palermas como isso, é devido à escassez de cretinos e outros géneros de "bom-serás" que a moralidade se torna imprescindível.
Mas a natureza, a basezinha (como diria nosso Eça), o carácter sexual, erótico, extremamente entesoado e fodilhão, dos seres humanos em geral e das mulheres em particular, obriga a que se coloque alguma espécie de barreiras comportamentais. Quando não, repita-se e realce-se, andávamos todos a foder com todos (todas) (como andamos), e ninguém se ralava nada com isso. Ora, não pode ser. Esta merda, estou farto de o dizer, não é o da Joana. Note-se bem, foda-se, e de uma vez por todas. Ou há moral ou fodem todos. Há que impedir a macacada geral, porra. Isso é que era bom. Porrada nos cornos às vezes resulta. Não serve de nada, mas alivia consciências, diz-que lava mais branco, a honra e tal, e ele até há gajas que gostam de levar no focinho. Assim com'ássim, que se lixe. Tunga.
* - variação sobre o título original de Desmond Morris, The Naked Ape)










