Ideiafix, Abraracourcix e Panoramix na Lusitânia
A foice de ouro
Meia "blogosfera", a parte mais sinistra, demonstra sinais de nervosismo. Compreende-se. Para os adeptos das "amplas liberdades", paladinos da "verdade a que temos direito", a fantochada de anteontem resultou em duas coisinhas estranhas: uma que é, por um lado, boa para eles, excelente, e que foi o facto de os comunistas terem conseguido enganar mais uns quantos milhares de labregos, e que é má, por outro lado, obviamente, para esses mesmíssimos labregos e para a população em geral; a outra coisa, o outro resultado esquisito das autárquicas, foi o surgimento de uma Hydra de três cabeças, respectivamente as de Fátima Felgueiras, Isaltino de Morais e Valentim Loureiro. Esta hydra é um bicho de apenas três cabeças, não de sete, mas ainda assim os esquerdistas de serviço (e também alguns direitistas esquisitóides, como Macabro Correia) arrepelam-se por via da putativa enormidade do sucedido: quer dizer, como é possível, aqueles gajos e aquela gaja, todos os três a contas com a Justiça, a gaja até se pisgou e tudo, vejam lá, e agora ganham eleições, são eleitos, e logo como presidentes de Câmara, ora foda-se, onde já se viu tal coisa.De facto, é grave. Não a eleição daqueles três vígaros profissionais, evidentemente, isso não vale um caracol. O que é grave, o único facto relevante da palhaçada eleiçoeira é, outrossim, ter o Partido Comunista tido mais votos do que seria previsível; o que é grave é que, após a queda do Muro de Berlim, após a derrocada geral do sistema totalitário comunista, depois de mais do que comprovada a falência das "ideias" socialistas em geral, ainda assim parece que persiste, algures na Europa, num recôndito e atrasado país de atrasados mentais, não uma mas várias aldeias de irredutíveis cretinos que resistem ainda e sempre ao raciocínio. Parecia, quinze anos depois da queda do império marxista, que toda a Europa estava finalmente desocupada de comunistas. Toda? Não, como se vê. Mesmo sabendo esses irredutíveis cretinos que a vida não será fácil, cercados como estão pelas guarnições de legionários democratas, entrincheirados nos campos de Cavacorum, Soarismum, Guterrismum e Minorcum...
Que algumas pessoas fugidas à justiça, ou corruptas, ou mafiosas, assumam postos de liderança política não é grave, simplesmente porque muitas outras o são igualmente, ou coisas ainda piores, e a mesma Justiça finge que não sabe; é o caso, por exemplo, do pretérito Grande Chefe do Conselho de Cascais, sortudo ex-comunista que abarbatou não pequena fortuna, à custa do mesmo Concelho, sem nunca sequer ter sido indiciado fosse pelo que fosse; é o caso de políticos vários que, apanhados nas curvas de processos melindrosos, como o da pedofilia, desaparecem prudentemente da cena política, até que o mau tempo passe, com a conivência e a protecção das mais altas esferas. Aquilo não é grave porque, aparentemente, isto também não é.
O que é grave é assistirmos à crucificação pública daquelas figuras agora eleitas pelo povo, por parte de gente que postula, defende e apoia o assassínio em massa, o genocídio de populações e etnias inteiras. É possível que Fátima, Isaltino e Valentim, quem sabe se em horas de exaltação por via de abusarem da poção mágica, tenham empochado algum, roubado vários ou vigarizado todos. Mas os comunistas, apesar de todo o sobressalto virginal que aparentam, quando condenam aqueles que foram azaradamente caçados, tentam apenas fazer tábua rasa, esconder, obliterar aquilo que os motiva para o exercício do poder: isso mesmo e nada mais, o próprio exercício do poder. Curiosamente, para esses (e quejandos) paladinos da "democracia", o voto do povo é "bom" e está bem, vale, quando esse povo vota neles; quando esse mesmo povo vota em outros, das duas uma, ou esses mesmos "outros" são bandidos ou esse mesmo povo está enganado, é mau, não vale. Do mesmo modo que promovem o combate político pela liberdade de opinião, desde que esta seja a deles, recusam definitivamente a validade do escrutínio democrático, desde que não sejam eles os eleitos. No seu arcaísmo maniqueísta, o comunista (vulgo intelectual de esquerda) apenas tolera a democracia enquanto esta servir os seus interesses. Por isso, para eles e apenas para eles, o jogo democrático não passa de mera estratégia, transitória e pontual, trampolim para o poder absoluto e, em última análise, para a destruição de qualquer outra ideologia, ideia ou simples opinião.
Nunca existiu, em qualquer regime dito socialista, a mais ínfima partícula de democracia. Estaline, Pol-Pot, Mao-Tse-Tung, nenhum comunista foi alguma vez eleito por sufrágio, directo ou indirecto e muito menos universal. É evidente, isto, menos para os partidários do mesmo socialismo.
Portanto, é também evidente o motivo pelo qual esses apóstolos da longa noite socialista aparecem agora condenando os actos eleitorais em Felgueiras, em Oeiras e em Gondomar. Nestes Concelhos, pelos vistos, para esta gente, o "povo" afinal é constituído por uma turba estúpida até ao tutano, uma cambada de idiotas que se deixam enganar pelo populismo, pelos populistas; nos outros locais, onde nem um mísero vereador elegeram, eles não o dizem expressamente - era só o que faltava - mas lá ficam muito convencidos de que o povo foi mais uma vez ludibriado, iludido com falsas promessas, intoxicado pela padralhada, etc. Há democracia, por conseguinte, quando e se o povo vota neles; se vota em outros, é populismo, é coisa suspeita, aquela "gentinha" foi enganada. A estratégia política (*) do socialismo não é a via eleitoral, como sabemos. Pelo contrário, o primeiro objectivo é a sua destruição; apenas o caos viabiliza a imposição da ditadura.
É isto que é grave, nas últimas eleições. Há (muitos) mais inimigos da democracia que foram democraticamente eleitos para o exercício do chamado poder local, o qual consiste na criação de impostos autárquicos e na gestão totalmente irresponsável de financiamentos públicos. Podemos perfeitamente estar certos de que os três pastorinhos continuarão, à semelhança de outros, a roubar à tripa-forra; é o que toda a gente faz, desde o estucador mais simples ao mais douto jurista, desde os membros do Governo e deputados da nação até ao Xô Jaquim das frutas e legumes, passando por mecânicos, taxistas, dentistas e donos de tascas indiferenciadas.
Mas os comunistas eleitos, sendo anti-democratas ferrenhos, roubaram a própria democracia ... por isso mesmo, por terem sido sufragados por um regime que abominam. Paradoxo, talvez, mas apenas para eles mesmos. São eles quem descrimina o voto "bom" do voto "mau", quem distingue povo de povo, quem formula juízos de valor sobre a validade do acto eleitoral, sobre a qualidade dos eleitores e sobre a idoneidade dos eleitos.
Pessoalmente, ou seja, na minha opinião (que apenas a mim próprio interessa), considero que o voto popular em Fátima Felgueiras vale tanto como o voto popular em qualquer comunista: nada. Quantas eleições mais serão necessárias para que alguma coisa mude realmente, por fim, e de preferência para melhor?
Disse Horácio: Odi profanum vulgus et arceo. Não dia sim, dia não, nem às 2ªs, 4ªs e 6ªs, ou consoante as conveniências do momento, mas sempre, em quaisquer momentos ou ocasiões. Não por jactância, espero, não por soberba, afianço, mas apenas por coerência. Não voto, ou seja, voto o voto ao desprezo. As eleições servem apenas para oferecer, por assim dizer, uma foice de ouro a ceifeiros que apenas estão interessados em uma de duas coisas: ou em ceifar ouro com a foice ou em derreter o ouro da foice.
(*) "Estratégia política" é a metodologia determinada para a tomada ou para a conservação do poder.










