email umbiguista
Olá M.Agora já não deve valer a pena transcrever o teu email. Recebeste a mensagem, é o que interessa. Aliás, acho muita piada a mim mesmo quando me surpreendo a raciocinar sobre o 001 como se fosse alguma coisa séria; ou como se fosse alguma coisa, de resto. E acredita que estou cada vez mais satisfeito com as crescentes obscuridade e insignificância do blog; já não é apenas o anonimato - esse pecado de lesa-mediocridade - que me permite alguma liberdade; principalmente desde que retirei a ferramenta de comentários e as listas de "favoritos" e de acessos, o blog ficou reduzido à sua verdadeira dimensão (nenhuma) e importância (zero); não contando com os teimosos e as simpáticas de sempre, a minha página deve ser a mais autista do mundo.
Aliás, era essa a intenção inicial, e daí o próprio endereço virtual: zero (0) de importância, zero (0) de dimensão, uma única (1) pessoa, eu, e ainda para mais não passando de espécime extinto. Olha que bem. Surpreende-me que ainda alguém espreite os meus escritos e, de certa forma, torna-se incómodo. A liberdade de escrita, que é igual à liberdade de pensamento com um código mais formal, depende e varia na razão directa do grau de privacidade; já tentei explicar esta teoria de diversas formas, tentando torná-la mais clara e objectiva, mas não é nada fácil por causa das palavras; uma ideia pode ser claríssima, na nossa cabeça, mas ficar muito complicada e dúbia quando verbalizada.
No fundo, com a ajuda da velha mania dos silogismos e das máximas paradigmáticas, trata-se de conservar um módico de independência através do distanciamento máximo. Cada pessoa que lê o que alguém escreveu (ou que ouve o que alguém diz) vai fatalmente condicionar aquilo que futuramente se dirá ou escreverá; e isto vale nos dois sentidos. Principalmente nos blogs, o fenómeno é facílimo de identificar: quantos são hoje produzidos sem um público(zinho) específico? A partir de uma "entourage" prévia de amigos e conhecidos, o "blogger" lança os seus primeiros conteúdos já contando com (e em função de) esse reduzido "público"-alvo; em pouco tempo se forma uma teia envolvente de conhecimentos e de simpatias que, alargando em número esse alvo, irá paradoxalmente restringir a margem de manobra do(s) autor(es); rapidamente, de forma quase alucinante, cada blog acaba por assumir uma personalidade própria, mescla da identidade de quem o faz e de quem o lê. O que acontece de curioso, por regra, é que essa personalidade é ditada de fora para dentro, ou seja, um autor começa por captar leitores em função daquilo que escreve, mas são esses leitores que passarão a influenciar o autor - acabando por lhe condicionar a escrita, podendo ainda, em extremo, liquidar pura e simplesmente toda a criatividade que antes pudesse ter existido. São inúmeros (e conhecidos) os casos de blogs que, desde há muito, escrevem e produzem conteúdos exclusivamente em função daquilo que os seus visitantes pretendem. É um ciclo vicioso: quanto mais público, menos heterogéneo este será (outro paradoxo aparente) e mais dependente desse público e desse crescendo de público será o conteúdo. Como o sabonete Lux para as estrelas de cinema, nove em cada dez blogs ditos de referência são escritos segundo aquilo que o(s) autor(es) julga(m) que os leitores esperam dele(s). É uma forma de ditadura das audiências, salvas as devidas distâncias; para aferir da eficácia do paradigma (e do paradoxo), basta ver o número de almoços, jantares, passeios, encontros e colóquios de blogs - formas aparentemente elevadas mas absolutamente primárias de palmadinhas nas costas, de demarcação de territórios, de estabelecimento de hierarquias e mesmo, esporadicamente, de formação de pares.
Disto decorre a conhecidíssima irritação, por parte dos patriarcas da chamada "blogosfera" e de outros balofos que tal, para com o anonimato em geral e a heteronimia em particular. Claro que é condição indispensável, para comparecer em tertúlias ou em festanças, levar o próprio corpo, com umas pernas por baixo e uma cabeça em cima; a não ser que se inventasse uma sessão de catadela em grupo levando cada qual sua máscara integral, dos pés à cabeça e com dispositivo de empastelamento da voz, convenhamos que não dá muito jeito a um anónimo comparecer em semelhantes eventos. Ora, isso torna-se de facto irritante, porque o anónimo foge ao controlo, à influência, quiçá ao putativo esmagamento intelectual por parte dos "bravos" identificados (geralmente tão anónimos como qualquer peixeira, mas que gostariam de o não ser). Se um anónimo militante (sete ou oito, contando comigo) recusa convites(1), se não aparece - justamente para, no mínimo, preservar o seu precioso anonimato - e se, por consequência, recusa o escrutínio da "inteligentsia" instalada(2), essa mesma fica de mãos a abanar, zoologicamente falando: não podem dizer a esse, por exemplo, "olá, eu sou Fulano de Tal, do blog macacosmemordam.blogspot.com"; é uma maçada, o anónimo não vai responder porra nenhuma, a começar porque nem sequer está presente, e assim o "valentão" identificado perde um possível leitor ou, quem sabe, um aliado ou simples compincha.
Uma coisa é, evidentemente, não confundamos, o comentário anónimo (e, esse sim, pode bem ser soez, cobarde, canalha) e outra bem diferente é o autor anónimo. Tanto se me dá, indo por analogia à literatura, que Manuel Tiago tenha resolvido botar a boca no trombone como sendo Álvaro Cunhal; ou que Miguel Torga seja afinal Adolfo Correia da Rocha; ou assim por diante, existem dezenas ou centenas de casos. O que é um nome, para o autor? Quanto vale, quando vale alguma coisa? É o autor quem faz o seu nome, ou é o nome aquilo que faz um autor?
Guardadas mais uma vez as devidas distâncias, no blogbairro a questão é a mesma. E se eu não gostar de cumprimentar os vizinhos, e muito menos de que os vizinhos me cumprimentem? Mas por que cargas de água hei-de eu catar os outros macacos, se nem me apetece? Logo eu, que nem macaco sou, pobre ave pernalta de bico adunco, e ademais extinta. Que se lixem. Passem muito bem, em suas importantes saúdes, é o que mais desejo. Quero sossego, não posso? Não dão licença, não?
Mas isto, a liberdade para ser anti-social, ou o direito a ter hipoglicémia, por exemplo, é apenas uma parte da questão. Basicamente, o anonimato pode ser uma atitude deliberada, consciente e determinada. Pode resultar daquilo a que a intelectualite dominante chamaria "busca interior": quem sou eu? Até que ponto serei capaz de ir? E se, afinal, tudo aquilo que penso estiver errado? O que haverá do outro lado? O que pensará um fascista? Os comunistas, serão eles humanos? Afinal, o Pessoa era bichona ou não era? O que haverá hoje para o jantar?
Coisas assim, profundas e deliberativas, às quais apenas se acede sem engulhos mentais, sem preocupações de agradar ou de desagradar e, principalmente, sempre cagando de alto(3) naquilo que Fulano, Beltrano ou Sicrano irão dizer, pensar ou até escrever sobre o que eu digo, penso ou até escrevo. Atingir este nirvana intelectual, este karma cagativo, o anonimato absoluto, é não pequeno empreendimento; dá uma trabalheira dos diabos não entrar em guerrinhas entre grupos e entre indivíduos, não responder a quase nada - nem sequer à maioria das mensagens que, estranhamente, ainda vou recebendo.
Esta é uma excepção, portanto. Dupla. Mas não te preocupes, amiga M. Tenho a certeza de que ninguém vai ler isto.
De resto, devo confessar que se me varreu completamente o motivo inicial desta troca de correspondência. Bom, assim com'ássim, tendo a coisa descambado para o micro-ensaio, deixemo-lo seguir como está. Isto de blogs, de posts, de emails, é como o Melhoral: nem faz bem nem faz mal.
Um abraço.
D
(1) nunca tive a oportunidade de recusar um único, note-se
(2) inteligentsia: polícia política, serviços de espionagem; inteligentsia instalada: polícia mental, serviços de espionagem
(3) pardon my French








