Consultório sentimental IX
Atracção fetal
"
Smooth-skinned and feminised looks are characteristics of youth. It's possible that these looks stimulate not only sexual but also maternal feelings. If women want to be more dominant, they will look for a little-boy face."
Desmond Morris
O maior mistério da existência, logo a seguir ao da própria existência: qual é a coisa qual é ela que mais nos atrai numa pessoa?
Quem feio ama, bonito lhe parece. Porquê? O que é a paixão, afinal?
Desmond Morris, o velho sábio, diz - com a propriedade do costume - que se trata de uma manobra biologicamente motivada por cima da qual foram barradas diversas camadas de explicações mais "convenientes"; entretanto, estas camadas acabaram por recobrir tão eficazmente a verdadeira motivação da atracção, algures durante o processo evolutivo, que acabámos por já nem saber bem qual ela era, ao certo. Mas continua sendo rigorosamente a mesma de quando ainda havia mamutes sobre a Terra; hoje como há milénios, é ainda a velha e por vezes rezingona Mãe Natureza quem manda, tanto nisso como em todas as coisas:
ide e multiplicai-vos, eis o fundamento bíblico, e simultaneamente natural, da atracção física. Mas trata-se de um princípio que se aplica apenas à nossa espécie, pelo menos de uma forma proactiva e não apenas reactiva, como acontece em algumas espécies de aves e na maior parte das famílias de primatas, bem como em outras espécies de mamíferos; por exemplo, algumas aves exóticas executam maravilhosas "danças nupciais", e casos existem em que elaboram complicadíssimas "pérgulas", decoradas com diversos materiais; existem rituais de "cortejamento" em espécies tão diversas como as renas, as focas, os golfinhos, ou mesmo entre espécies por nós domesticadas há milénios, como o gado bovino ou o simpatiquíssimo gato caseiro. Podemos também considerar que em quase todas, se não todas, as espécies, e mesmo entre os répteis, sucedem episódios de "conquista" - geralmente através da exibição de poder físico, por parte dos machos, que lutam entre si pelo direito de acasalar com uma ou mais fêmeas.
Porém, ao que se sabe, por exemplo a um cão será completamente indiferente se a cadela que vai cobrir tem um pêlo mais macio, se está bem lavada ou se costuma ser carinhosa com os seus cachorrinhos; ao mesmo canídeo pouco ou nada importará se à parceira ocasional faltar um olho ou uma pata, ou se terá mau feitio, ou se não passa de uma cadela vadia, em sentido literal e não figurado. O que está em causa, do ponto de vista do cão - e da cadela - é a reprodução da espécie... mesmo que disso não tenha a mais ínfima das consciências.
Connosco é obviamente diferente, tudo muito diferente. Da atracção física depende, em larga medida, o futuro do par, do casal, ou mesmo da própria consumação do acto sexual. Aquilo que é atraente para uns não será para outros, entre os sexos e para os elementos destes entre si, mas existem factores comuns que ajudam a compreender a mecânica quase reflexológica deste impulso básico.
Citando mais uma vez o sabidíssimo Desmond Morris, "o que não correu muito bem na evolução da nossa espécie, foi que o nosso cérebro cresceu cem vezes, ou mil vezes, enquanto o resto do nosso corpo ficou praticamente como era, no início". Ou seja, se a fisionomia da espécie humana tivesse acompanhado a evolução do cérebro humano, hoje em dia ninguém necessitaria de comer, beber, dormir, defecar, urinar. Assim, somos senhores de um pensamento livre, de uma cultura arreigada e complexa, mas ficámos agarrados a um corpo absolutamente primitivo, complicado, desgastante e, de certa forma, descoroçoantemente trapalhão: um corpo que engorda estupidamente, ou que emagrece irritantemente, que é necessário lavar permanentemente, um corpo sempre cheio de fome e de sede, um corpo que envelhece todos os dias, que ganha rugas, e cãs, e banhas; trazemos sempre connosco o nosso próprio cadáver adiado que, enquanto se não fina de vez, persiste em adoecer, ou cujas partes mais delicadas estão sempre em vias de quebrar em algum sítio. É um desespero, enfim, este corpinho que nos tocou em sorte. Temos a tecnologia para ir à Lua, ou mais além, mas um dos grandes problemas dos astronautas é como se desfazerem dos dejectos a bordo, ou como cortar as unhas no Espaço, por exemplo.
O conflito sistemático entre a nossa cultura, ou chamemos-lhe inteligência, e a nossa condição de simples e comum espécie animal é aquilo que mais nos confunde, de resto. A atracção, em qualquer das suas formas, seja a simpatia (ou o seu inverso, a antipatia), a amizade ou o chamado "amor", é a forma observável deste conflito: o que atrai (geralmente) um homem, numa mulher, as curvas mais ou menos voluptuosas do corpo dela, a sua voz ou a sua forma de andar, tudo isto não terá qualquer importância - e, por conseguinte, não implicará qualquer atracção - se, por exemplo, o cheiro dessa mulher for desagradável para aquele homem em particular; do mesmo modo, aquilo que (geralmente) poderá ser atractivo para uma mulher, num homem, a sua força física, o seu carácter descontraído, ou seja o que for, de nada tal servirá se, por acaso, esse homem for absolutamente inepto, ou brutal, ou simplesmente porcalhão. São, por regra, factores subtis e aparentemente insignificantes aquilo que provoca atracção (ou repulsa), mas em qualquer caso existe sempre uma base absolutamente primária para que ou uma ou outra das coisas suceda.
As formas "voluptuosas" que o homem vê, representam uma garantia de alimento para a prole; uma "gaja boa" é, por conseguinte, uma imagem geneticamente programada para o sexo masculino da nossa espécie; daí, simplificando ao máximo, o conceito de "beleza feminina" - que é uma ideia exclusivamente masculina. A força do macho, factor decisivo nos primórdios mas ainda hoje muito importante, representa a capacidade que aquele terá de defender a prole e a própria fêmea, além de que garante - previsivelmente - alguma qualidade genética para a constituição de uma prole saudável e com probabilidade de, por conseguinte, vingar. Beleza e força - ambos conceitos relativos - são dois sinais exteriores de saúde, garantia de qualidade geracional, e tanto mais quanto mais complexos se tornarem. A atracção, para ambos os sexos, consiste hoje em dia muito mais na apresentação do que na representação: a força física vai sendo radicalmente substituída pelas vestimentas que o homem enverga, pela viatura que conduz, pelo emprego e pela posição social que ostenta; o automóvel é hoje o símbolo maior do macho dominante, como era a moca para o homem primitivo, o machado para o troglodita ou o conjunto armadura e montada para o cavaleiro medieval. Por outro lado, a posição social garante alguma espécie de inteligência, o que é um factor não desprezível de outro tipo de força, igualmente ou ainda mais útil do que a simples força bruta.
Para um "bosquímane" da África central, uma mulher atraente não será por certo exactamente a mesma coisa que para qualquer camponês do Vietname; é claro que, para o
hommo urbanus actual, muito provavelmente tanto a mulher bosquímane como a vietnamita não apresentariam o mais pequeno atractivo. Concluindo que a beleza física - e, portanto, a atracção - é um fenómeno cultural, poderemos talvez depreender que alguma evolução fisiológica ocorreu nas sociedades modernas, e especialmente no que às mulheres diz respeito. Os atractivos sexuais femininos evoluíram de facto, e estamos a falar de mudanças realmente fisionómicas: as formas físicas femininas, e em particular os seios, desenvolveram-se, apenas nas sociedades urbanas ditas "evoluídas", e transformaram-se num símbolo de fertilidade (e de atracção para o sexo oposto) absolutamente único em todos os seres vivos, mas isto somente ocorreu na mulher citadina, europeia ou ocidental - não nas sociedades tribais ou culturalmente herméticas. Digamos que a chamada "mulher moderna" se transformou num produto de consumo altamente produzido, tendo esta transformação sido mais interiorizada e assumida pela própria mulher do que induzida ou imposta pelo sexo masculino.
Acontece, porém, que a mecânica mental subjacente ao processo de atracção se afasta cada vez mais da motivação biológica original; aos olhos de uma fêmea humana, o automóvel, a "encadernação", o cabelo limpo e a dentadura rebrilhante de um macho representam algo de ainda mais evidente e rasteiro do que a simples viabilidade reprodutiva; ou seja, representam dinheiro, aquilo que viabilizará uma vida descansada e sem necessidades, muito mais do que a agora desprezível capacidade de cobrição. Como cantava Marilyn Monroe, um ícone da verdadeira boneca urbana, "diamonds are a girl's best friend". Os músculos perderam grande parte da atracção, sendo rapidamente substituídos pelos cifrões - esses sim, aquilo que mais cativa o sexo feminino; de facto, qualquer mulher é perfeitamente capaz de se "apaixonar" perdidamente por uma grande conta bancária e de passar a desprezar olimpicamente qualquer desgraçado que se ache, de repente, por exemplo, no desemprego. Se bem que este seja um tipo de "atracção" perfeitamente delimitado, ou seja, tendo em vista a formalização contratual de uma ligação, aquilo a que vulgarmente se chama "casamento"; porque, para efeitos mais imediatamente sexuais, ou lúdicos, por assim dizer, os factores de atracção primordiais alargam-se um pouco: já não é apenas o dinheiro que interessa, no candidato a companheiro sexual, mas voltam a ter importância decisiva os factores físicos, a força, a coragem, os dentes, o hálito, o cabelo, o cheiro, as mãos, os olhos, etc.; neste particular o arsenal feminino é imenso e, por vezes, absolutamente hilariante.
Como existem gostos para tudo, há mulheres que apreciam particularmente - e aferem daí a qualidade do macho que têm em presença - o pé masculino; consideram, e algumas chegam a proferi-lo descaradamente, que o tamanho do pé de um homem é rigorosamente igual ao tamanho do seu pénis. Curioso axioma. Também há algumas que afiançam tirar tais medidas,
a priori, pelo tamanho de uma mão aberta; outras, apreciam e fazem equivaler de igual modo o tamanho do nariz com o respectivo "coiso". No fundo, e descontando estes palpites especulativos, o que resta como facto é que o tamanho interessa - ao contrário do que afirma a mulher politicamente correcta - e é mesmo fundamental, essencial, fatal como o destino. Isso e a "performance" do macho, a fama de garanhão que transporta colada à pele e que é passada de boca em boca pelas mulheres que vão conferindo as capacidades de cada um, ao longo da vida.
E chegamos por fim ao irónico desenlace de todo o processo. Aquilo que atrai uma mulher num homem (dinheiro, para casar, e hormonas, para acasalar) implica um tremendo esforço por parte daquela, para se tornar atraente aos olhos deste: a mulher pinta-se, produz-se, perfuma-se (e ainda bem, por amor de Deus) não para "se sentir bem consigo mesma" (como fica bem dizer-se) mas apenas para cativar a atenção do maior número possível de homens; é o princípio básico da manada de gnus em estado selvagem, ou do cardume de sardinhas, mas na perspectiva inversa: quanto mais elementos tiver a manada ou o cardume, menor probabilidade toca a cada um de ser caçado por um predador; para uma mulher, quanto mais machos "atrair", maior será a probabilidade de poder escolher vários e, destes, caçar os mais aptos (em dinheiro e em potência, preferencialmente, ou, se não for possível, ir-se-á testando cada coisa em sua vez). Ora, está bem de ver que a táctica resultou em pleno, após milénios de evolução e de informação genética aperfeiçoada: realmente, não existe qualquer alternativa nem pode haver qualquer resistência, do ponto de vista masculino, ao arsenal de atractivos femininos. Por regra e por definição, uma mulher é tanto mais feia, mal feita (e, portanto, moralista), quanto menos se importar com o seu aspecto físico ou quanto menos beleza natural lhe tiver sido distribuída, por fatalidade ou por deficiente combinação genética. As potencialidades atractivas, inerentes às condições físicas, têm o seu início
ab ovo, em sentido literal; utilizando um jogo de palavras um pouco redutor, mas apenas para passar a mensagem, tudo começa no feto, continua no fato e acaba na foto; ou seja, tudo depende daquilo que se passar ainda antes da fecundação, a herança genética de pai e de mãe, das suas condições de vida e do seu estado de saúde, e da própria gravidez (o feto) ; depois, depende das condições sociais de cada qual e das incidências pessoais que ocorrem durante a infância e a adolescência, até ao resultado na vida adulta, profissão, estatuto, etc. (o fato); por fim, ou no fim, não resta nada, ou quase nada, a não ser recordações, memórias, aprendizagens (a foto).
Como a saúde é um estado clínico que não augura nada de bom, a beleza física é um estado de decadência transitoriamente agradável à vista. Bem como a atracção, a paixão, o amor, são as diversas facetas de uma mesma, deprimente, por vezes horrível realidade: a fase larvar e
pulsátil que antecede o envelhecimento e a morte. Uma mulher pode ser espantosamente bela durante algum tempo, mas não o será certamente durante muito tempo, e muito menos durante o tempo todo. Como um homem pode ser o mais rico lá do bairro e arredores, ou o mais forte, ou o mais esperto, mas não será nunca mais do que o mais esperto, o mais forte ou o mais rico do cemitério onde for enterrado. E isto, ainda assim, se tiver a sorte de ser enterrado. Se tiver tido filhos, portanto. O princípio e o fim, portanto. Afinal, só isso é importante, portanto. Só isso é verdadeiramente atraente. Portanto.