Avaliação professoral: variações sobre o tema
_ Olhe, mulherzinha. Fazemos assim: bocemecê dá binte ao meu filho e eu dou-lhe boa nota de abaliação.
_ Mas, ó setora. Carambas. O que é que lhe custa a si escrever "vinte" num papel? Ora essa! Ai é? Então veremos qual vai ser a sua avaliação no fim deste ano.
_ Como? Oferece-me uma chouriça? Ó minha senhora, nem que me oferecesse um porco inteiro. Não dá a nota ao meu filho, amanhe-se, ouvi dizer que a marinha está a admitir pessoal. Leva zero na minha avaliação e já vai com muita sorte. Sua corrupta do caralho, você pensa que me compra com um enchidozito de merda? Ora, ora, meta mas é o chouriço na peidola, sua galdéria.
_ Então está combinado: você passa-me o catraio e eu dou-lhe nota máxima a si.
_ O que é que prefere? Se você dá nega à minha filha, das duas uma, ou eu lhe dou avaliação negativa ou lhe espeto um murro nos cornos. Então? Como é que vai ser?
_ E ela bem se esforça, coitadinha! Passa os dias todos a estudar, acredite. Vá lá... Suba lá isso para o cinco, vá. Eu depois dou-lhe também nota máxima. E olhe. Digo-lhe mais, mas isto fica só aqui entre a gente. Eu conheço os outros encarregados de educação, são meus vizinhos, e tal. Vai ver que eu lhe arranjo uma boa avaliação final, entre todos. Temos que ser uns para os outros, não acha? Hmmm, bezinha?
_ Ai riscou-lhe o carro? E isso que tem? Um riscozito de nada, coitadinho, que não faz mal a uma mosca. E o que tem o risco no carro a ver com a nota dele? Ah, ele é isso? Pois muito bem. Vai ver que nota lhe dou eu, no fim do ano. É outro risco. É 1, um, ouviu? Um, de cima a baixo! Trrj!
_ Meu família diz senhora nom ter dretu. Nós meu pátria assim unido, tudo coisa faz no conselho família. Senhora não pode (como se diz) reprova meu filhinha. Meu filhinha passa, senhora boa (como se diz) avaliação. Senhora não passa meu filhinha, senhora mau avaliação. Eu nom kéfrô, senhora, eu ingutchia.
_ Mais nóiss istamus áqui em Pórrtugáu fais tempo! Quiéisso, gentchi! Dá negatchiva pru meu filho não, sô! Isso dáí, cara, é xênofôbia, viu? Qué québrá a cara, moça? Eu lhi pégu, cara, cê vai vê! Vô tchi tascá zero em sua avaliação, morou? Zero, zerinho mêzmu, ó!
_ Eu tenho estado a falar consigo, cheio de paciência, mas sinceramente tenho mais que fazer. É assim: ou passa o meu filho ou eu chumbo-a a si. Entendido?
_ É que ele ficou traumatizado com as aulas de educação sexual, tá a ver? Aquelas coisas ainda lhe fazem muita confusão, coitadinho, tão pequenino, tá a ver?. Andou-me murchinho durante um mês, nem queira saber, tá a ver?. Mas pró ano, vai ver, o rapaz espevita, tá a ver? Dê lá a notazinha, ande. Olhe a sua avaliação, tá a ver? Quem me avisa meu amigo é, tá a ver?
_ Bom, realmente, quando uma pessoa não cede a argumentos curiais, perdoará a franqueza, isso tem um nome, e esse nome é teimosia. A senhora doutora não passa de uma teimosa, desculpe que lhe diga. Ora, na minha opinião tal coisa constitui uma grave lacuna pedagógica. Por conseguinte, serei forçado a avaliar negativamente o desempenho da senhora doutora. Cumprimentos.
_ Eu disse ao meu paizinho que a setora me ia dar negativa e o meu paizinho disse para eu dizer à setora que o meu paizinho manda dizer que ou a setora me dá positiva em vez de negativa ou o meu paizinho vem cá falar com a setora por causa da avaliação que o meu paizinho vai fazer à setora.
_ Aiiii sinhoraaaa. Ataum ê vô têri negativaaaa? Aiiii. Ku mê páí nã vai gostar nadaaaa. Aiiii ku mê páí tamém lhe vai dari negativa à sinhoraaa. Aiiii.
Adenda
Acabo de ouvir na rádio uma transcrição de certo blog, de um tal Daniel Não Sei Quê, a propósito deste mesmíssimo tema de papás avaliando profes. Pois fui correndo ver o radiodifundido post no tal blog tipo "D. Rosa, chegou a sua filha", a fim de conferir. Pois confere. Aquilo é que é falar, bolas, soberbo paleio. Mas, claro, como não se pode ter tudo, esse identificadíssimo Daniel tresanda a comunistice, ou comunistite, e, portanto, torna-se para mim impossível tecer qualquer espécie de consideração a respeito. O que é chato, porque ficaria aqui a calhar uma referência mediática, cheia de pinta e nem por isso bajuladora. Nada feito. É esta maldita alergia, ó raio de coisa. Não consigo, "derivado a" este meu maldito feitio. Tudo aquilo que diz um comunista não vale um caracol, como estou farto de repetir. Mas fico ciente, mais uma vez, de que ser comunista, além de "corajosamente" assinar com um nome qualquer, dá muito jeito a quem pretende singrar no reino da blogosfera colunável, filmável, entrevistável, publicável e radiodifundível.
Apenas como ilustração do carácter comunistóide, tóxico, perigosíssimo, daquele arrastão soviético, fica uma pequena citação: "Alguém que deixa as televisões filmarem as crianças da sua escola para mostrar como são criminosas em potências não se pode dedicar ao ensino."
O verdadeiro Kuomitat Gozudarstvennoi Bezopanosti em todo o seu esplendor. Complexas "potências". Apenas por mera coincidência um comunista pode debitar a mesma "opinião" de um anti-comunista, ou estarem ambos do mesmo lado; se calhar, quem sabe, é porque o outro lado afinal não deve ser assim tão mau.
















