Odi profanum vulgus et arceo

20/07/06

Licença de porte de ignorância


Até ao 25 de Abril de 1974 era obrigatória uma licença anual de uso de isqueiros. Já nesses tempos, os governos tinham maneiras estranhas de sacar dinheiro ao pessoal. Mas o mais, digamos assim, interessante, é o que está escrito no próprio documento: o apelo à denúncia, premiando o acto com 15% do valor da multa!.Para os que não têm memória, cá está, no seu melhor, a pureza do regime salazarista-caetanista. Será que o uso do isqueiro era subversivo?.
in blog Outra Margem

Não sei por que bulas havia de, logo eu, deparar com tão desgraçada prosa. Bálhamedeus. A coisa até vale pelo documento histórico digitalizado que lá está, abrilhantando a dita prosa, a fotocópia de frente e verso de uma genuína Licença Anual para uso de Acendedores e Isqueiros, mas cumpre esclarecer, por assim dizer, iluminar as cabecinhas tontas desta juventude.

Pois, jovens, presumo que seja para vossas cacholinhas extremamente arejadas uma surpresa a simples verificação da verdade histórica atinente. Perdoareis por certo este meu maldito feitio de escrita, que vos forçará amiúde a consultar enciclopédias, porém sucede que não sei dizer as cousas de outra forma, é uma maldição, como estou farto de repetir, as mais comezinhas matérias jorram-me dos dedos em arrebiques verbais e em metafórico, extensíssimo e complicadíssimo fraseado, uma coisa horrorosa, estas frases que nunca mais acabam, e sucede por vezes mesmo alguém perder-se a meio, nesta floresta de palavras, chega a ser necessário ir deixando migalhas pelo caminho, como no conto célebre, para que se não perca o trajecto de volta, a ideia base, o fio à meada.

Tentarei, por conseguinte, até porque bem sei que todos pensais, jovens, que ler dá trabalho, ser o mais claro possível, e mais prometo me esforçarei, uma vez sem exemplo, ao máximo, na tentativa de deixar uma mensagem clara, transparente, de fácil digestão mental, algo que juvenilmente contribua para o esclarecimento da questão.

Abreviemos, portanto.

Começando por essa coisada de "regime salazarista-caetanista". Rapaziada, sabei que a hifenização é abusiva, no caso: Salazar finou-se em 1970, dois anos depois de ter deixado o Governo, pelas razões de saúde conhecidas, e com ele prescreveu também o Decreto-Lei 28 219, de Novembro de 1937(*), o tal que instituiu a chamada "Licença de Isqueiro". Marcelo Caetano sucedeu àquele estadista, como Presidente do Conselho, em 1968, uns tempos depois da famosa "queda da cadeira" que sofreu Salazar, mas é historicamente incontroverso que o "regime salazarista" - se aceitarmos essa designação simplista - desapareceu com o velho Professor. Caetano encetou então um período de reformas políticas em todos os sectores, a que chamou ele próprio "abertura", e que outros baptizaram de "Primavera marcelista", durante a qual o nosso país, então como hoje o mais atrasado da Europa, apresentou índices de crescimento absolutamente ímpares (e imparáveis), a nível mundial, apesar de quase metade do produto nacional ser absorvido pelos custos da Guerra Colonial. Este período de pujança económica foi abruptamente interrompido por um golpe-de-Estado, em 1974. Existiu em Portugal, entre 1928 e aquele ano fatal, um regime político musculado, de carácter corporativo e nacionalista, regime este que Salazar fundou e consolidou, e ao qual sucedeu Marcelo Caetano, um político totalmente diferente, como aliás eram diferentes os tempos e os ventos geopolíticos. Misturar os dois com um simples tracinho é, portanto, digamos, ridículo.

Foi este Professor Marcelo, precisamente, quem acabou com a licença de isqueiro, coisa que o outro nunca faria. Foi durante o consulado do "fasssista" Salazar que se promulgou aquele Diploma, e muito justamente: a respectiva sustentação política, quanto a esta como quanto a outras medidas sociais de igual calibre, baseou-se não em balelas politicamente correctas mas em factos absolutos e comprováveis. Surpresa, jovens: a licença de isqueiro servia exclusivamente para proteger o emprego dos operários da Fosforeira Nacional; assim, quem preferisse acender o cigarro ou o fogão com isqueiro (ou com acendedor, como previa o Decreto), em vez de usar os fósforos produzidos em exclusivo por aquela fábrica, teria de pagar uma coima; era um dissuasor, a Lei, e destinava-se a fazer com que os mais ricos - não esqueçamos que, naquela altura, os isqueiros eram produtos de luxo - pagassem aos mais pobres pelas suas extravagâncias; por outro lado, a licença e as multas forçavam as pessoas a usar quase exclusivamente fósforos, viabilizando a empresa fosforeira, os seus funcionários e respectivas famílias e, em última análise, o próprio Estado, accionista maioritário da Empresa.

Foram inúmeras as medidas de verdadeiro carácter social e, nessa perspectiva, socialista, que o velho "ditador" tomou, promoveu ou forçou.

Outro exemplo conhecido é o da proibição da marca "Coca-Cola" em território nacional. A finalidade objectiva, extremamente simples, como era regra nesse tempo, residia em proibir a comercialização da Coca-Cola para acautelar os interesses dos operários do sector nacional dos refrigerantes; se aquela marca americana entrasse em Portugal, rapidamente as nossas fábricas iriam à falência e, por conseguinte, todos aqueles operários para o desemprego. Evidentemente, as esquerdas apressaram-se de imediato a intoxicar a opinião pública a respeito disto, espalhando a atoarda de que a proibição se devia ao facto de Salazar julgar que a Coca-Cola tinha cocaína na sua composição e, portanto, interditava-a, e assim se via como ele era estúpido e ignorante. Nada mais falso, como se saberia se os factos não fossem sistematicamente terraplanados pelos esquerdistas, e como se vê perfeitamente através da simples constatação da realidade social actual.

Aquilo que vale para os fósforos e para os refrigerantes serve aqui de simples amostras. São apenas dois exemplos. Quem conhece, ainda hoje, o perímetro da Tabaqueira (que já não é Nacional, mas americana), ou o bairro operário da CUF, ou as urbanizações para funcionários em todas as barragens hidroeléctricas, sabe perfeitamente que a filosofia social de Salazar baseava-se no mais puro respeito pela dignidade e pelas condições de vida dos trabalhadores; quem já viu as casas e outras instalações cooperativas, construídas pelas organizações de funcionários das grandes empresas nacionais, não pode deixar de reconhecer que muito, e grande, e bom, foi feito durante o "antigo regime" de estrito mas nunca restrito cariz social.

Muitas dessas medidas e realizações constam hoje do anedotário esquerdista, que utiliza a velha receita de ridicularizar, amesquinhar e sistematicamente mentir a respeito. Não existe sequer comparação possível entre aquilo que era a protecção social no "antigamente" e aquilo que ela é hoje, como sabe também e sofre na pele qualquer português, branco e de meia-idade que se veja de repente no desemprego. Dantes, não havia subsídios a parasitas, mas o trabalho dos portugueses era defendido dos ataques estrangeiros. Dantes, não se davam casas a marginais, mas fomentava-se a iniciativa, fosse ela privada ou colectiva.

Em resumo, e é de facto um axioma comparativo: dantes, havia licença de isqueiro e por isso algumas pessoas podiam viver melhor; hoje, não há licença de isqueiro mas isso não beneficia ninguém.

Ou seja, jovens, Deus há-de perdoar-vos a inconsciência, relevar-vos a ignorância e absolver-vos de qualquer ignomínia. Sois novos, não pensais, é assim mesmo, o que se há-de fazer? Mas, olhai, e que tal se reformulásseis ao menos a sentença, essa questão final do vosso texto?

Hem? Vá lá. Não custa nada. Em vez de "será que o uso do isqueiro era subversivo" que tal pôr "será que o uso de isqueiro era criminoso"?




(Devo confessar que a coisa não me correu nada bem. Prometi abreviar e é o que se vê, bumba, bumba, bumba, e tal e tal e tal. Ó raios. Que chato. Ganda melga. Brrrrr! Mas enfim, fica a intenção. Aliás, para facilitar a função, coloquei a "bold" o fraseado mais suculento; assim, a leitura não dá trabalho nenhum, ora essa, por quem sois.)

(*) Única fonte encontrada a este respeito: blog A Verdade da Mentira; bela designação, mesmo a calhar.
Imagem do maravilhoso Zippo: www.lesans.com

comentários

14/07/06

Anti-comunista, eu? Sim.

Anda por aí tudo histérico, "derivado ao" facto de a maioria dos estudantes do ensino secundário estar chumbando, coitadinhos, coitadinha da maioria, nos exames nacionais, a uma catrefa de disciplinas. Vai daí, toca a repetir os exames porque, se a maioria chumba, bálhamedeus, é impossível que tal coisa se deva a ignorância, a cabulice, a estupidez dessa mesma maioria; o problema só pode estar, reside com certeza, absoluta, na forma como aqueles exames foram redigidos. Onde já se viu, caramba, alunos a chumbar em exames! Oh! Só podem ser os exames que estão errados, vê-se logo.

"Portantos", toca a "repetir-zi-os", como diria qualquer professor pós-moderno, os ditos exames. Se, na próxima época, a coisa suceder de novo, azar, foda-se, repete-se tudo outra vez. Até que sejam definitivamente extirpados os erros nos exames (o motivo único para que um aluno reprove) e até que, por fim, toda a gente passe "cumapérnáscostas". Há-de ir. Cona da mãe. Puta que pariu os exames, caralho. É preciso é que passe toda a gente. E quem não quer que passe toda a gente, é fasssista com três "s".

Eis o nirvana comuna, em todo o seu esplendor. Era esta mesma técnica, esta engenharia social, esta fantochada, que os comunas gostariam de ver aplicada a todos os actos sociais democráticos; ou seja, por exemplo, enquanto não ganhassem as eleições, democraticamente, como nunca ganharam e como nunca ganharão, o ideal seria que as eleições se repetissem, sistematicamente, exaustivamente, extenuantemente, até que, um dia, a puta da maioria, essa coisa intermitentemente incómoda, acabasse por se maçar e, vencida pela exaustão, acabasse por finalmente conceder a vitória nas urnas à cambada de facínoras, de bandidos, de marginais, de assassinos que a si mesmos se intitulam de "progressistas".

A paneleirice que agora se passa com os exames nacionais é mais um ensaio geral para talqualmente comunistóide desiderato.

Este país é uma puta de uma brincadeira, a fucking joke, minada, armadilhada, vigiada e controlada por comunistas, em todo o lado. E os mais perigosos são aqueles que, sendo-o, não sabem ou fingem que não sabem que o são.

Parafraseando a queridíssima, espantosa, admirável, brilhante Maria José Nogueira Pinto, eu sei que eles sabem que eu sei que eles são, esses cabrões. Bem, talvez, pensando melhor, a amiga Maria José não utilizasse a expressão "esses cabrões" mas, no essencial, a coisa viria a dar no mesmo.

comentários

Socialismo capitalista compulsivo

1. Médico de família
Presume-se, com esta figurinha legal, que todos os "utentes" do nosso sistema de saúde possuem uma. Ou seja, visto que não é possível um cidadão ter outro médico que não um destes, dito "de família", por inerência não existirá em Portugal ninguém que não tenha ou não pertença, por força, a uma qualquer "família".

Essa é boa. Então, e se realmente eu não tiver família? Não posso? Tenho de ter família para ter médico de família ou para, em suma, ter médico? E se eu não quiser ter família, deixo de ter direito? Se me estiver altamente cagando para todas as pessoas que têm o meu apelido e que, por mera coincidência, constituem a minha família biológica, se não souber nem quiser saber de nenhum deles, há um porradal de anos, como é, nesse caso? Não tenho direito a assistência médica? Ou terei de andar por aí, de chapéu na mão, a pedir pelas alminhas que alguma família caridosa me adopte?

Essa é famosa, como diria o Eça. Um valor da direita política, a família, adoptado por seu turno pelas esquerdas, e administrativamente transformado em facto universal, eis um axioma genial, daqueles que não lembravam nem ao careca.

Não quero "médico de família" nenhum. Quero que a minha família se foda, mas de vez em quando pode ser que precise de assistência médica gratuita, direito de qualquer cidadão, nacional ou não.

E, afinal, para que serve essa merda, além de pretensamente se dar a entender que o país é um paraíso onde todos se dão perfeitamente uns com os outros? Para quê, se a própria instituição família está em acelerado processo de extinção? Um médico conhece melhor os meus podres viscerais se conhecer os dos meus familiares? Terei eu mais e melhor tratamento, quando por fatalidade adoecer, se a terapêutica atender também ao historial clínico dos meus pais, irmãos, primos, tios e sobrinhos?

Mas, no fim de merdas, e se pura e simplesmente não me apetecer? Hem? E se eu for um "sem-abrigo"? E se eu quiser ser um "sem-família", em vez disso? Onde está a minha liberdade individual?

Apetece-me embirrar com toda a gente, a começar por aqueles que me estão mais próximos, precisamente, os parentes, os que andam por aí a circular com o "meu" sangue. Eles que se fodam, repito. Nem admito que eles são da minha família nem que me tentem obrigar, através de um simples cartão de utente, a reconhecer que pertenço à família deles. Que os pariu. Que se lixe o cartão, e o sistema, e o médico. Fodei-vos todos.

Hei-de morrer, assim sendo, só, pária, deserdado, mas totalmente livre. Hei-de morrer portanto cheio de saúde.

2. Assembleia de condóminos
Rosnar os bons-dias, num elevador, por exemplo, é o máximo que me pode ser exigido, salvo seja, na condição de vizinho. Nada mais. Os vizinhos que se fodam, é de resto o meu lema. Deles, apenas quero distância, e que primem pela ausência é o que mais desejo. Nada me obriga a ser simpático, nem sequer a cumprimentar, se não estiver para aí virado, como nada me pode obrigar a aturar o rádio daquela puta do 2º D, sempre em altos berros, ou o cãozinho da velha do rés-do-chão, esse filho-da-puta que não me grama, como a dona, diabos a levem.

Ora, em casos destes, em se tratando de gajo absolutamente anti-social, ou totalmente desprovido de quaisquer ferramentas de convivência - como é o meu caso evidente - gostaria de saber porque cargas d'água hei-de ser forçado a pertencer a uma "comunidade de condóminos". Mas porquê comunidade? Quero lá saber eu bem da comunidade para alguma coisa!

Esta foi mais uma das invenções comunistóides, uma das maquinações socializantes do pós-25 A. Pós de perlimpimpim, é como digo, borrifados por cima de toda a gente, à antiga soviética, no sentido de forçar a constituição de manadas politicamente controláveis. Pretender-se-ia com este tipo de socialização forçada, teoricamente, que o cidadão se "integrasse" na comunidade nacional, estando esta estruturada em células, desde o "grupo de trabalho" ao comité de cidadãos, passando pelas estruturas de poder local, sindicatos, organizações sectoriais, associações desportivas e culturais. O "condomínio" funcionaria então como "estrutura de base", espécie de émulo sub-reptício dos "comités de bairro" comunistas.

Estruturas de base estas que, à semelhança daqueles comités, têm por finalidade a vigilância de costumes e, por conseguinte, o estabelecimento de uma ordem comportamental estabelecida. É para isto mesmo, no fundo, que servem os vizinhos, organizados ou não em "condomínio": para controlar a vida alheia, zelando pelos interesses da chamada "moral e bons costumes". Servem os vizinhos, numa palavra, para bisbilhotar.

Ora, portanto, não sei se já tinha dito, eu quero é que os vizinhos vão meter o bedelho na grandessíssima puta que os há-de parir. Xô. Andor. Não só tenho de pagar as "despesas" de condomínio, pretensamente devido àquilo que o dito "gasta" comigo, como, ainda por cima, tenho de comparecer às respectivas "assembleias", esses horrorosos ajuntamentos de intriguistas, em pleno vão de escada, durante os quais se discute e se vota(!) sobre coisas interessantíssimas, o ordenado da mulher-a-dias que lava as escadas às 4ªs, a pedra que está solta no patamar, as beatas de cigarro no elevador, e outras merdas que tais.

Não vou. Foda-se. Metam o condomínio na peidola, se fazem o favor. A minha casa é o meu castelo, entro e levanto a ponte que, nem de propósito, é levadiça. Vizinhança, nem vê-la. É bom-dia e boa-tarde, quando muito, e a mais ninguém me pode obrigar. Venha de lá o mais zidane, a ver se tem sorte.

3. M!Ctório
Este barbas fundou uma tertúlia de inteligentes (ver significado no dicionário) com a finalidade de perorar sobre a pobreza em geral e sobre os pobrezinhos em particular. Para se poder pertencer ao clube deste barbas que, ainda por cima, se diz poeta e tudo, é necessário, em princípio, possuir o adequado currículo anti-fasssista (com três "s") e recitar convenientemente, isto é, na ponta da língua, o manual de coitadismo militante, além de saber de cor e salteado e de trás para a frente a oração subordinada causal que junta povo, capitalismo, justiça, exploração e direitos.

Sendo eles fundamentalmente comunistas e, portanto, anti-americanos, estes patuscos do barbas, vagamente ressabiados pelo facto de o seu querido povo se estar marimbando para a excelência das suas ideias, todos os frequentadores do M!Ctório me despertam, confesso, a mais profunda repugnância. Ultrapassada a fase do riso, ou seja, agora que já não lhes acho piada nenhuma, nem ao barbas nem aos acólitos, com as suas grandiloquências sobre a "exploração capitalista", parece-me que vai sendo tempo de alguém tecer algumas considerações enérgicas (e higiénicas) a propósito.

A começar pelo facto de o próprio barbas ser um tipo podre de rico, semelhantemente à esmagadora maioria dos seus confrades, que não manifesta nem manifestou nunca (era só o que faltava) a mais leve intenção de partilhar com os outros ao menos uma parte da sua não desprezível fortuna pessoal. O que implica, como se não fosse evidente mas é necessário explicar ao povo, centenas de vezes se preciso for, que tudo aquilo que se diz no M!ICtório não vale nada, é tudo verbo de encher, não passa de cortejo de vaidades, poço de trivialidades, fossa séptica de falsidades.

E isto, se necessário fosse, comprova à saciedade não apenas a minha teoria como, principalmente, a minha prática a respeito de esquerdas e de esquerdistas: não passam de refinados hipócritas. Por mais que arenguem sobre as qualidades genéticas do povo (em geral, e dos pobrezinhos em particular), nada, mas absolutamente nada, me fará mudar uma vírgula (era só o que faltava) no meu discurso de sempre a respeito do mesmo povo: odeio-o. Não tanto como o povo odeia a sua própria condição mas, ainda assim, aquilo que politicamente pretendo do povo é exclusivamente distância, lonjura, que fique lá com os seus robertos (ver significado no dicionário) leais e as suas sardinhas assadas.

Claro que tal não difere em nada do que o próprio barbas pretende também, com a diferença de que eu e outros que tais gostaríamos de que não existisse gente muito pobre, enquanto o barbas e outros que tais gostariam de que não existisse gente rica, à excepção deles próprios e dos seus camaradas. São estes os dois pólos políticos fundamentais, aquilo a que geralmente se chama esquerda e direita, os que tentam acabar com a pobreza (em geral) e os que tentam acabar com a riqueza (em particular).

O que torna o barbas, e aquilo que ele representa, absolutamente insuportável, é tentarem situar-se no meio, numa espécie de terra-de-ninguém política, quando de facto são pessoas de esquerda, e da mais pura e dura. Enchendo o seu espaço político à força de vacuidades, debitando às mijinhas a cartilha marxista, estes tristes tentam, acintosamente, hipocritamente, barbudamente, fazer passar a "mensagem" da sua elevação espiritual, da sua superioridade moral, da inevitabilidade das suas razões - quando, ao mesmo tempo, o porteiro do restaurante de luxo onde se reúnem mantém a uma distância conveniente qualquer desgraçado que se tente aproximar do grupo de eleitos e iluminados; ali, onde se discutem os problemas dos pobres, coitadinhos, pobre não entra, pois claro (era só o que faltava), para não perturbar os discursos de Suas Excelências.

Quem quiser, mesmo tendo tomado banho e estando minimamente apresentável, se quiser conferir aquilo de que falo, pode fazer a experiência: ide ao Clube de Empresários, esse extremamente socialista antro de barbudos bem-pensantes, oh, sim, ide e vereis. Aposto que não chegais nem perto do portão. Enquanto, lá dentro, os comensais esquerdistas trincham mais uma desgraça, e mais um frango à cafreal, servem-se de mais um pobre, e outra trufa marinada, emborcam mais uma manobra capitalista, e enchem de novo a taça com Chablis.

Que nojo, camaradinhas, que nojo. Não vos resta sequer um pingo de vergonha na cara? Ou nas barbas?

comentários

Atende às 2ªs, 4ªs e 6ªs


ORAÇÃO INFALÍVEL
Ao divino Espírito Santo, ao Menino Jesus e à Sua Santíssima Mãe e Santo António. Oh! Jesus, que disseste: pede e receberás, procura e acharás, bate e a porta se abrirá. Por intermédio de Maria Vossa Mãe Santíssima, eu bato, procuro e Vos rogo que a minha prece seja atendida (menciona-se o pedido). Oh! Jesus que disseste: tudo o que pedires ao Pai em meu nome Ele atenderá. Com Maria Santa Mãe, humildemente rogo ao Pai, em Vosso nome, que a minha prece seja ouvida (menciona-se o pedido). Oh! Jesus que disseste: o Céu e a Terra passarão, mas a minha palavra não passará. Com Maria Vossa Mãe Bendita, eu confio que a minha oração seja ouvida (rezar três ave-marias e uma salve-rainha). Em casos urgentes, esta novena deverá ser feita em nove horas seguidas. Publicar a oração assim que receber a graça. Agradeço graça recebida.
L.M.


Dos jornais

Notas: o pedido tem de ser feito exactamente como está, nem mais chus nem menos chus; quando não, qualquer mijadela fora do penico, danou-se, não funcemina. Onde diz "(menciona-se o pedido)", não é para dizer "menciona-se o pedido", é para mencionar o pedido que se quer mencionar mesmo. Não vale rezar duas ave-marias e duas salve-rainhas, ou salganhadas que tais, é 3 e 1, nem mais nem menos, ó tótó, vê lá se precisas que te faça um desenho, chiça, cambada de burros.

comentários

Síndroma de Pinóquio

Na área da Economia, José Sócrates garantiu que "não [haverá] aumento de impostos" mesmo que falhem as metas de redução da despesa a que Portugal se comprometeu com Bruxelas.
DN de hoje; artigo sobre a entrevista de Maria João Avilez ao primeiro-ministro, transmitida ontem pela RTP1 .

Deve ser, portanto, uma questão de dias até que chovam novos aumentos. Porém, de acordo com o quadro clínico desta síndroma e conforme o perfil psicológico do respectivo portador, o chamado "mentiroso compulsivo", esses aumentos virão por certo embrulhados em designações alternativas, como "taxa moderadora", "emolumento", "coima", "receita extraordinária", "pagamento especial por conta", "sobretaxa", "encargo", "despesa", "juros de mora", ou quaisquer outras conjugações terminológicas que excluam a palavra "imposto". Serão efectivamente, fatalmente, como sempre, simples aumentos de impostos mas, desde que se evite esse termo técnico, ninguém poderá acusar o primeiro-ministro de ter (mais uma vez) mentido. De facto, não aumentarão quaisquer impostos, mas outras coisas que não se chamam impostos. Brilhante, a receita do costume.

Aliás, a mesma que se aplica a qualquer dificuldade de governação. Quando algo não corre bem, num Ministério, numa Direcção-Geral, num departamento ou mesmo numa Empresa estatal, basta mudar o respectivo nome, a sua designação legal e respectiva sigla, para que o problema se resolva imediatamente.

Apenas para dar um exemplo, toda a gente se lembrará, por certo, do organismo estatal responsável pelas rodovias nacionais, a JAE (Junta Autónoma das Estradas); surgiram em tempos questões ligadas a corrupção, desvios de verbas e outras manigâncias, naquela instituição. Após longas, arrastadas investigações, não se tendo concluído absolutamente coisa alguma, como era de prever, o poder político optou pela solução radical: "extinguiu" a JAE e "criou" o IEP (Instituto das Estradas de Portugal), aproveitando a oportunidade para "criar" mais duas entidades novinhas em folha (ICOR e ICERR), como acessórios; de uma para a outra, transitaram todos os funcionários, toda a estrutura, toda a orgânica e todo o património; mudou apenas o nome, mas isso equivale na prática a matar dois coelhos de uma só cajadada: não apenas desapareceu a corrupção na JAE, porque a JAE desapareceu ela própria, como se criam novas e esplendorosas oportunidades para que a corrupção, o nepotismo e a incompetência se mantenham sob outro nome, mas agora a multiplicar por três. Esplêndida engenharia de Estado esta, prosseguida por todos os "estadistas", sem excepção, há cerca de trinta anos, independentemente da respectiva "cor" política.

O mentiroso compulsivo, como qualquer doente mental, vive num mundo de palavras, totalmente desligados da realidade ambos, o mentiroso e as palavras. Nesse mundo, também conhecido como "a porca da política", não cabe a mais ínfima partícula de honestidade, hombridade ou honra. É tudo uma questão de bois, e de nomes que se lhes chama. Por isso até "juram", os políticos, e dão a sua "palavra-de-honra". Não custa nada. Afinal, o que é "jurar"? Ora vejamos. Não é bem assim. Enquadremos a questão. Ao fim e ao cabo, enfim, digamos que...

comentários

13/07/06

Létss luque éta treila



Ah, os bons velhos tempos do HERMAN ENCICLOPÉDIA! Este foi um sketch que escrevi com o João Quadros para o Lauro Dérmio e que continha a linha de texto que até hoje faz o Herman ter convulsões de riso. É seguramente das coisas mais intensamente maradas que escrevemos nas nossas carreiras.
Nuno Markl

comentários

11/07/06

Sumário: técnicas de pinxar paredes e respétivas maneiras de fogir há bófia

Há uns anos, dei aulas numa (grande) escola secundária. Dois dos meus alunos, bons rapazes, eram conhecidos como grandes artistas do "graffitti". Como as paredes da escola, constituída por "n" pavilhões, estavam num estado miserável, e na tentativa de juntar por uma vez o inútil ao menos desagradável, na minha santa inocência, sugeri a ambos que espalhassem a sua "arte" por essas paredes, mas de forma coerente e em colaboração: apresentariam esboços, um para cada parede de cada pavilhão e, com a ajuda dos docentes de EV e após aprovação pelo CE, executariam o trabalho de forma planeada. A ideia seria, por conseguinte, não apenas "personalizar" tematicamente cada edifício, como demonstrar que pinchar paredes não tem necessariamente de ser uma manifestação de selvajaria.

A reacção dos artistas foi a mais previsível. Primeiro concordaram, achando a ideia "bué da fixe", yá setor, vamos nessa vanessa; mas depois, a sós com as suas calças negras cinco números acima e com as suas correntes de autoclismo metidas nos bolsos, coçando compenetradamente o brinco na orelha e o brinco no nariz, tomaram uma decisão não expressa: trabalho? Como "trabalho"? Graffitti como "trabalho" (que horror) não tem graça nenhuma. Esboços? Esboços também é trabalho, iach!, que nojo! E então nada de bófia, a gente ali assim com as latas de spray à vista de toda a gente, em pleno dia? Man, mas que ideia mais cota, da-se.

Ainda hoje aquelas paredes lá estão, abjectas, visualmente cacofónicas, camadas sobrepostas de gatafunhos, uma espécie de palimpsesto da irresponsabilidade. Palpita-me, sinceramente, que ninguém manda pintar aquela porcaria toda, de cima a baixo, por exemplo de branco, apenas para "não ferir susceptibilidades"; ou seja, a fórmula politicamente correcta para qualquer professor dizer sem dizer "borrem as paredes à vontade, antes isso do que me lixarem a pintura do carro..."

(A propósito de um "post" num blog que se chama, muito adequadamente, revisão da matéria.)

comentários

09/07/06

Portugal visto do espaço




(imagem original: International Charter)

comentários

SMS em Chinês

Deve ser lixado. Ou em Japonês, ou em Árabe, por exemplo. Há-de ser bonito escrever coisas como "qd xegars tlf meu 22" ou "k raio s passa? pq n ligas dd ontem?".

Com escritas "pictóricas", palpita-me que não deve ser mesmo nada fácil mas, ainda assim, não tão difícil como ir para a Somália vender dietas de emagrecimento, pregar o Evangelho na Arábia Saudita ou convencer Cavaco Silva a comer de boca fechada e, já agora, a fazer o mesmo quando fala.

Se alguém quiser tentar - a primeira das dificuldades extremas, não as outras - pode sempre, armado da respectiva paciência, usar o serviço chinês ecall China. Deve ser barato, ou praticamente de borla. Não sei ao certo, porque ando muito esquecido do meu Mandarim.

comentários

07/07/06

Perfeitamente

Melhor jogador jovem do Mundial 2006
Já se vão agitando as consciências nacionais, sempre as mesmas, sempre as do costume e aquelas que sempre dizem as mesmíssimas coisas, também sempre com o apoio e a sustentação minimamente articulada dos intelectualóides pátrios. Que é uma injustiça, e que o Cristiano Ronaldo é que deveria ter sido eleito como aquela coisa, para detentor deste novel título, exclusiva inovação do Mundial da Alemanha. E que "nós" (ou seja, ele, o puto malcriado e mimado que por acaso é bom jogador de futebol) perdemos porque somos "pequeninos" e "eles" são grandes, etc., etc.; o costume. É sempre a mesma coisa.

Ele são campanhas contra nós, os portugueses, porque somos essa tal coisa de "pequenos", e ele está tudo contra nós, nós, logo nós, caramba, os tipos mais porreiros do universo, e ele é manobras soviéticas umas atrás das outras, a ver se nos desestabilizam, e "eles" chamam-nos coisas terríveis, como "atrasados", e "trogloditas, e boçais, ó-ó, sei lá bem, coisas piores e tudo.

Eu cá não acho. Quero dizer, não acho que sejam assim tão injustas as acusações, até porque se trata de meros factos, não de algo que simplesmente se alega sem qualquer fundamento.

Um povo de medíocres que a si mesmo se promove como algo de colectivamente admirável, enquanto inferniza alegremente a vida a qualquer compatriota, esta gentinha que esmaga e destrói tudo aquilo que de realmente nobre ou minimamente útil alguns vão fazendo, esporadicamente, não tem mais do que esperar pela retribuição adequada. Um país que expulsa por sistema os melhores dos seus naturais, que abomina a inteligência, a capacidade de trabalho ou o mais leve indício de originalidade ou de valor, apenas merece o desprezo, a indiferença, quem sabe se justificadamente o asco de alguns povos civilizados, colectiva e individualmente manifestados.

A arbitragem do uruguaio na meia-final recente, como a do outro, o francês, com a mão de Abel Xavier, há uns anos, ou aquele que expulsou o Rui Costa por caminhar a passo, como muitos outros exemplos - pretéritos e futuros - significam realmente algum ressaibo, alguma raiva, algum nojo que percorre a espinha dorsal de muito estrangeiro sempre que ouve falar de ou que tropeça em algum Português ou em alguma coisa portuguesa, precisamente por não reconhecer nem vislumbrar sequer o mais ínfimo indício de coluna vertebral, de verticalidade, nem neste país nem neste povo que o habita. Estamos fartos de saber que isto é assim, e não é de agora. Porém, nada consegue apagar de uma vez por todas esta "nossa" paixão pela lamúria ("ah, e tal, eles não gostam de nós, os filhosdumaputa") e muito menos se vê, seja onde for, a mínima vontade de acabar com a labreguice nacional, o garrafão de tintol à cabeça, as costas das mãos nas ilhargas, a peixeirada, a cultura do barulho, a preguiça elevada a valor e lema nacionais, o gosto atávico pela foleirada, pela pimbalhada, pelo teatro manhoso, pelo salto para a piscina e, principalmente, a perseguição sistemática ao gosto, à honra, à transparência, ao saber, a aversão às artes em geral e à civilização em particular, a promoção da estupidez, da corrupção e da mediocridade a expoente máximo e a denominador comum.

Uma terra, além do mais, onde toda a gente copia toda a gente e ninguém produz nada de novo, é perfeitamente legítimo que seja absolutamente ignorada, ainda quando tal poderia não se justificar, e mesmo quando se trata de uma coisinha tão insignificante como o pontapé na chincha. Muitas gerações terão ainda de passar até que, talvez, um dia, Portugal e os portugueses mereçam o respeito das nações evoluídas. Até lá, muitos cristianos ronaldos e muitos campeonatos de futebol se passarão, para sempre "perdidos" e como sempre "injustamente", até que algum português ou alguma coisa portuguesa se possa distinguir de alguma forma, enquanto ser-humano de mérito ou enquanto realização notável. As raríssimas excepções, por regra e por definição desconhecidas e ignoradas na sua própria pátria, estão aí, ou lá, "lá fora", para o comprovar. O resto é folclore, malas de cartão, ridículo prototípico, indigência mediática e simples curiosidade zoológica.

Eu cá acho. Quero dizer, acho bem. Parabéns, Podolsky, ou lá como te chamas.

comentários

Singela homenagem aos nossos jogadores
Costinha
Pauleta
Paulo Ferreira
Nuno Valente

comentários

Consultório sentimental - XV

Números
E, havendo-lhe dado a beber aquela água, será que, se ela se tiver contaminado, e contra seu marido tiver transgredido, a água amaldiçoante entrará nela para amargura, e o seu ventre se inchará, e consumirá a sua coxa; e aquela mulher será por maldição no meio do seu povo. E, se a mulher se não tiver contaminado, mas estiver limpa, então será livre, e conceberá filhos. Esta é a lei dos ciúmes, quando a mulher, em poder de seu marido, se desviar e for contaminada; ou quando sobre o homem vier o espírito de ciúmes, e tiver ciúmes de sua mulher, apresente a mulher perante o Senhor, e o sacerdote nela execute toda esta lei. E o homem será livre da iniquidade, porém a mulher levará a sua iniquidade.
Bíblia Sagrada, Números (5, 27-31)

De um ponto de vista bíblico, por assim dizer, não existe qualquer dúvida sobre a culpabilidade inata da mulher, naquilo que ao sexo diz respeito. Fenómeno comum, de resto, a qualquer outra confissão religiosa, pelo menos no hemisfério ocidental, primando todas elas, religiões, pela regra geral da condenação apriorística do belo sexo em tudo aquilo que se relacione com o dito. Segundo este princípio universal, mulher que é mulher, se não é de forma patente galdéria, é porque anda a esconder alguma coisa; se não se lhe conhecem amantes, andará por certo a preparar alguma coisa pouco recomendável; duvidemos sistematicamente nós outros, homens, em suma, da virtude feminina - com a óbvia excepção, que primordialmente confirma a regra, a do ícone dos ícones, aquela mulher única e ideal que foi capaz de engravidar sem qualquer intervenção masculina e sem nunca ter sequer experimentado tão universal mas tão condenável acto, o mesmo desde o início, o mesmo do pecado original.

Porém, e mesmo dando de barato o carácter absolutamente alegórico das Escrituras, as coisas mudaram bastante nos últimos tempos, em especial desde a invenção do "soutien" e do direito a férias pagas, ou seja, mais ou menos a partir dos anos cinquenta do século XX. Se bem que persista, numa franja cada vez mais residual do universo feminino, algum sentimento de culpa em relação ao sexo e, por arrastamento, alguma contenção de ordem moral, podemos agora dizer, em boa verdade, que a esmagadora maioria da humanidade, homens e mulheres, se está altamente cagando para toda e qualquer espécie de prurido moral, em se tratando de laurear a pevide, e nomeadamente, especialmente, quando não exclusivamente por via sexual. Trata-se, de certa forma, da total inversão de valores ou, melhor dito, de total ausência dos mesmos, como forma de ao menos compensação pela longuíssima noite moralista, de raiz religiosa, infinita e estupidamente castradora.

Os números, nos tempos que correm, são totalmente diferentes dos poeirentos tempos bíblicos. Basta, actualmente, utilizar a palavra "números", em qualquer circunstância diferente de uma aula de Matemática, para que aflore de imediato um sorrisinho entendido, nas faces dos circunstantes e, por vezes, um ligeiro rubor comprometido, nas das presentes. É cada vez mais difícil, como sabemos, entabular uma simples conversa, entre um homem e uma mulher, ou entre vários e várias, sem que o tema descaia, ou descambe, conforme a perspectiva, sobre assuntos de cama; portanto, quando se fala de números, em qualquer tertúlia, toda a gente pensa de imediato no mais conhecido deles, aquele cujo símbolo é também o de um signo do Zodíaco; igualmente conhecido pela abreviatura, ou seja, simplesmente "69", corresponde este número à única "posição sexual" com direito a logótipo e, de certa forma, a marca registada universal.

O povinho português tem, quanto a este número em particular, e provavelmente devido ao seu idiossincrático gosto pela piadética, a estranha mania de falar dele evitando-o; qualquer labrego que tenha a "sorte" de cumprir o 69º aniversário nunca por nunca dirá esse número exacto, duplamente redondo; diz sempre, pelo contrário, e achando-se a si mesmo muito engraçado e original, que fez "sessenta e oito mais um" ou, ainda mais engraçado, hilariante mesmo, que foi o seu aniversário 68B. O que vale igualmente para uma página de qualquer jornal A Bola, assim mais espessa, entalada entre a 68 e a 70: diz-se "vê aí na página sessenta e oito bê"; uma outra variante surge nos jogos de azar, em especial nas sociedades recreativas, desportivas e culturais, por esse Portugal profundo; quando sai da tômbola a bola 69, logo o "cantador" ou a "cantadeira" anunciam "aquilo de que todos gostam" e de imediato toda a sala se desmancha a rir, de tal força é a piada.

O 69, enquanto "posição sexual gratificante", como diria a inefável Marta Crawford, não tem afinal graça nenhuma, muito pelo contrário; é mesmo um assunto sério, muito sério. Para aferir da sua importância, no contexto dos números em geral, bastará espreitar uma página de anúncios de qualquer jornal: são às dezenas, às centenas, diariamente, os pedidos de almas "solitárias e sensíveis" procurando as respectivas "almas gémeas" mas, note-se bem, sempre, absolutamente sempre jurando que é "para assunto sério". Assim mesmo. Gente à procura do 69, portanto. Nada de mais sério, também portanto. E reforce-se o conceito: não há nada de engraçado no 69, já porque o riso é o pior inimigo do sexo e já porque é necessário alguma experiência, diria treino intensivo, em tal actividade específica, para que se possam atingir níveis de proficiência minimamente aceitáveis.

De facto, antes de avançar, assim às cegas, para tão extraordinário número, é imprescindível conhecer os seus antecedentes ou, digamos, os respectivos radicais, respectivamente o 6 (mais conhecido por "minete") e o 9, seu oposto (também designado por "broche"); aqui, evidentemente, a ordem dos factores é arbitrária, pode muito bem ser ao contrário, o que vem a dar rigorosamente no mesmo. Acontece que, depois de adquiridos os conhecimentos devidos quanto aos radicais, mesmo estando apto o menino para o cunnilingus e a menina para o felácio, é ainda necessário obter alguma destreza e maleabilidade físicas para que broche e minete funcionem em simultâneo, a contento para ambas as partes. Devido à mútua posição de encaixe, e dependendo de quem fica por cima e quem fica por baixo, ou se estão ambos democraticamente de lado, existe sempre algum risco de que a um ou a ambos possa suceder alguma coisinha má, tipo sufocar, ou engasgar-se, ou assim. A coisa, ao contrário do que pensam as mulheres em geral e as inexperientes em particular, é de muito mais difícil execução para o homem; não apenas este tem de se aguentar à bronca durante um porradal de tempo, a ver se evita o inevitável antes dela, como, ainda por cima, aquilo acaba fatalmente por dar cãibras, não na língua mas, mais exactamente, nos encaixes da cremalheira, ou seja, na articulação dos maxilares; às vezes, como poderá afiançar qualquer gajo minimamente batido, aquela merda até estala, tac, é fodido, fica ali o caramelo com o focinho entalado entre as pernas da chavala, e as queixadas népia, foderam-se, não fecham, e ainda para mais dói que se farta. Tecnicamente, chama-se a isto "desenculatrar" os queixos, o que é fodidíssimo para ambos, para o mineteiro porque vai ter de parar, desencabeçar das pernas e fechar aquela merda com as mãos, e também para a minetada, porque vai ter de parar a função quando por certo já estava no melhor da festa, e ainda vai ter de ajudar ao curativo.

Mas deixemos, ao menos por ora, estas minudências aborrecidas, se bem que aconteçam ao mais pintado e mesmo à mais pintada, e falemos de outros números, não menos interessantes. Como, por exemplo, o número 3, ou trio, para os amigos e apreciadores. No catálogo posicional, poderíamos baptizar este número como 878, o que desde logo manda às urtigas o antiquíssimo e conservador Kama Sutra. Trata-se, como já todos adivinharam e como alguns estão carecas de saber, daquele número em que um gajo se amanha e lambuza com duas mulheres. Supremo petisco, ao qual os franceses chamam, com o seu linguajar requintado, "ménage à trois"; deve porém ser recomendado ao comensal mais fução que se abstenha de tal prática, dado o alto grau de exigência física envolvido; se o bacano não aguenta duas horas com uma, muito menos irá aguentar o dobro com duas e, portanto, é melhor nem se meter nisso, com a agravante de que aqui apenas são referidos os requisitos mínimos, muito longe dos ideais, que rondarão o dobro do dobro. Aliás, a propósito disto mesmo, escusado será dizer que a mesma lógica algébrica se aplica a números derivados de 3, como 4, ou 5, ou 6, isto é, mano que não queira passar vergonhas é melhor evitar meter-se ao barulho com mais do que duas - ou, vá lá, três mulheres, no máximo - ao mesmo tempo. Isto, claro, quando nos referimos a exclusividade masculina, só a nossa no meio delas, primeiro porque não há lugar neste consultório para números circenses e segundo porque, de acordo com as regras elementares da álgebra, o número de variáveis é directamente proporcional à probabilidade de ocorrência de erros, e vice-versa.

Apenas como nota de rodapé, e funcionando como ilustração de como são infinitos os números, refira-se um outro, do qual pouca gente fala, ainda que sejam cada vez mais os seus praticantes, com uma boa parcela daqueles que o fazem exclusivamente. É algo que ainda nem sequer está classificado e que se tornou possível apenas muito recentemente, com o advento da Internet. Falo, evidentemente, do sexo virtual, aquela variante que se inicia, como todas as outras, por uma fase de engate, através dos blogs, passa por um período mais ou menos longo de namoro, via e-mail, com ou sem "chat-room" de permeio, e termina em sexo puro e duro, como sempre, mas desta vez com a inovação de não haver qualquer espécie de contacto físico. Ora aí está, se a moda pega - como vai pegando - uma excelente forma de resolver de uma assentada dois dos problemas que mais afligem a humanidade: as doenças sexualmente transmissíveis e o excesso de população.

Realmente, quanto a esses dois aspectos, o sexo virtual é a descoberta do século - e bem poderá ser a última de todos os tempos - e não perde quase nada em relação a outras modalidades: o grau de "satisfação" pode ser igual ou mesmo maior, as "relações" através de áudio e vídeo podem ser tão "gratificantes" como gosta Marta, nossa referência, e sempre sem chatices, dispensa-se por fim a estopada do preservativo, está cada qual em sua casa, a sós com as suas manias que o outro não terá de aturar. São quase só vantagens. Claro que há esse pormenor de não ser possível o contacto físico, penetração natural incluída, e (ainda) nem sequer é possível incorporar coisas essenciais na relação, como os cheiros; mas isso o que importa? Ao fim e ao cabo, sexo por cabo ou por onda hertziana cumpre a mesma função do tradicional, segundo os ditames actuais, a saber, a fruição do prazer. Com a instauração da ditadura juvenil, e com o que isso implica de normalização compulsiva de padrões estéticos e comportamentais, a tendência natural será com certeza que este número cresça exponencialmente até absorver todos os outros, esmagando-os por exclusão de partes.

Como haveremos de designar este novo número? Pelo valor máximo de um byte? 11111111? Será este o número final? Quando não restar mais nada, será possível que haja alguma coisa para além de 256?

Talvez seja o princípio da solidão total e absoluta. Ou talvez o seu fim definitivo. Um novo paradigma bíblico, absolutamente imprevisto: ide e desmultiplicai-vos.

comentários

06/07/06

Os sete pecados mortais

Gula Avareza Ira Orgulho Inveja Preguiça Luxúria

Gula Luxúria
Os olhos brilhavam-lhe de excitação, as narinas dilatadas e frementes, a respiração ofegante. Segurou-o firmemente com a mão esquerda e com a outra fez deslizar o invólucro para baixo. Estendeu primeiro a língua, tocou-lhe com ela mesmo na ponta, e só depois o abocanhou por completo, semi-cerrando os olhos com extrema volúpia. Deixou escapar um murmúrio, quase um gemido, hummmm, enquanto chupava e mordiscava, fazendo-o rolar docemente dentro da sua boca. Então, por um momento, retirou-o de si, segurando-o com delicadeza, entreabriu os olhos e remirou-o, embevecida e gulosa. E de novo mergulhou nele, desta vez com uma espécie de raiva, ou desespero. Avançava, recuava, avançava, recuava, agora gemendo já sem pudor, cada vez mais depressa e mais arfante, por vezes mordendo e largando, por vezes apertando e mesmo trincando com alguma violência.

Quando acabou, por fim, largou o pau com um suspiro:

_ Ai. Não há nada como um belo de um magnum, Deus me perdoe.

comentários

The day after

10 razões para (se) estar contente com a derrota dos Labregas
Se a selecção portuguesa de futebol tivesse ganho à da França, teríamos de gramar:
1. Doses industriais, em todas as estações de rádio e canais televisivos, de entrevistas em directo ao "homem da rua", ao "popular" ou, horror dos horrores, ao emigrante luso parisiense, ao qual seriam colocadas as questões da ordem, como se sente, então e agora, acha que Portugal vai ser campeão, qual é o seu vaticínio, je penso quile vai a ganhar, le portugal, deux a um, butes de pólêtá.
2. Ranchos folclóricos envergonhando o país, por esse mundo fora, com suas típicas, execráveis, trogloditas, grosseiras, esquizofrénicas palhaçadas, por entre castanholadas, os braços ao alto em forma de cornos, e guinchos frenéticos a três notas musicais, e patadas no chão marcando o ritmo dos bombos, olariloléla, ai mãezinha, fostes à horta, tum-tu-ru-tum.
3. Espectáculos espontâneos de verdadeiros "artistas", sempre dedicados e disponíveis para o arraial, o cagaçal, o bacanal a que chamam cultural, essa manifestação nojenta, aviltante, indecente, esse carnaval em piso térreo e imundo, em ambiente viciado de fumo de sardinhas, de frango, magotes de gente circulando por entre e por causa do ruído imenso, o centro e a chama, o deus único da crença popular, uiiiim, maizuma voltinha, maizuma viagem, benha cá freguesa .
4. Cortejos automóveis constituídos por entusiastas da causa nacional, em todas as cidades, vilas e aldeias, do Minho a Timor, buzinando com desespero insano e com raiva patriótica, entupindo todas as ruas e avenidas e mesmo provocando um disturbiozinho ou outro, coisa pouca, não faz mal, a hora é para comemorar, fodei-vos, seus morcões, semos os máiores, pi, piii, piii, póóó, la cucaracha, pó pó pó.
5. Foguetório diverso, sustentado pela maestria de verdadeiros especialistas, virtuosos da "arte pirotécnica", pum catrapum horas a fio, de dia e de noite, e que se lixem as matas, que se danem as leis que proibem o pessoal de manifestar a sua alegria fazendo a festa, atirando os foguetes e apanhando as canas, haja saúde e binho, ah, que lindo, bistes, olha só, biba pertugáli, biba.
6. Milhares de posts em outros tantos blogs, mais ou menos, portanto, em todos aqueles que se escrevem em Português (uma minoria) e seus derivados (uma esmagadora maioria), ora louvando os "nossos bravos rapazes", ora "postando" mais um bandeira verde-rubra em formato gif e em tamanho extra, ora debitando análises avisadas sobre as incidências do jogo e de como afinal, o futebol comanda a vida, blá-blá-blá e patati-patatá.
7. Intermináveis entrevistas aos Labregas, a cada um deles e todas elas, durante as quais uns e outras repetiriam ad nauseam que, e eu penso que, e acima de tudo, e os noventa minutos, e acima de tudo, e fomos mais fortes, e acima de tudo, e acima de tudo, estivemos bem, pois que, acima de tudo, eles hádem ver, inté os comemos, acima de tudo.
8. Declarações embevecidas dos nossos quadros, dirigentes, a classe política em geral e a "Nova Gente" em particular, vozes convenientemente embargadas e poses prudentemente comovidas, batendo no peito e jurando a sua lealdade aos princípios futebolisticamente correctos de Luis Felipe Scolari, felipe com "e", note-se, o excelente, portuguesíssimo felipão, mai-los nossos heróis de Berlim, bem entendido, etc.
9. Repetição sistemática, nos quatro canais de "sinal aberto" e em mais dois ou três de "sinal fechado", do jogo com a França - na íntegra - e dos cinco jogos anteriores, neste campeonato, recolocando no ar imagens em câmera lenta das jogadas mais polémicas, tudo ilustrado e esclarecido pelas circunspectas e avisadas opiniões dos respectivos cientistas da bola, José Mourinho e assim, fazendo alarde dos seus espantosos índices de "scolaridade" e dos seus conhecimentos e belíssima pronúncia na língua de ére mágéstide de kuíne.
10. Fotografias de primeira página, a três quartos, em todos os jornais portugueses, com parangonas laudatórias e brilhantes, além de originais, "tipo" somos os maiores, depenámos o galo, toma-toma-toma, Zizou levou no pescoço, a nós a glória, Nossa Senhora de Caravaggio derrota S. Jorge, é nossa, já temos a scolaridade obrigatória, obrigado, D Felipe IV, glória a Simão nas alturas.

Enfim, quero dizer, cá na minha, não se perdeu nada. Donc. Merci les gars. Ah, a propósito: andate tutti a fanculo!

comentários

04/07/06

Explicações de Inglês

Portugal - Road To Germany - WC06

comentários

23/06/06

Psst!

Alô? Olhe, fazia o favor. Não se importa de dar sinal de vida, hem, para a gente sossegar?
Fazia o obséquio, sim?
A gente sente a sua falta, companheira. Gostamos de si. É uma maluquice, uma coisa assim colectiva, e tal, mas é do coração.
Uma palavrinha, vá lá.
Beijinhos.

comentários

No cais

E o sono, o sono, o sono,
A tua imagem desfocada neste espelho barato.
E bocejo, e bocejo, e bocejo;
Sem querer desato a rir, sem parar, disparato:
Olha um dia, olha outro, e outro.
Acredita, que eu já não posso (não é chato?).
É o sono, é o sono, é o sono,
É que já nem me lembro bem da tua imagem!
Um esboço, um esboço, um esboço.
Fatalidade engolida em seco, desvantagem.
Soma tudo, soma, e qual é o resultado?
Uma pouca de nada, seu avião sem fuselagem.
Rabisco, ensaio, projecto, salpico,
Trajecto acabado, saiam todos, fim da viagem.

comentários

19/06/06

Prova de traição


Esperei por ti e nunca chegaste realmente
Nem quando o sol se pôs nem quando nasceu.
Cedo, muito cedo, pela manhã, o teu lugar vazio
Mostrava-se amarrotado, mas cheio de ausência.

Ainda fui ver se te via, algures, se não seria confusão.
Mas não. Frio, muito frio, este jogo de esconde-esconde.
Não estavas e parece-me agora que nunca estiveste
E o gelo matinal deixou-me na boca este horrível travo,
Este vazio, esta raiva, este sabor metálico a traição.

Não ficou nada, realmente? É mesmo só isto?
Chegou, por fim, não o fim dos tempos, mas o fim,
Só isso, e ainda assim? Não resta nada, definitivamente?

Ao longe, vejo bem desta janela arrepiante,
Um barco despede-se de Lisboa, e de mim,
Imponente e ferrugento, nem rápido nem lento,
Sem grandes pressas de ir embora, quase pachorrento.
Serás tu ali, naquela vigia, acenando, dizendo adeus?
Será teu aquele lenço branco, aquela mão aberta?
Que horror, meu amor que já não és, como sulca
Essa quilha alaranjada e indiferente, como tritura
A espuma das águas o teu peito de madeira
E como é belo afinal o rasto que deixas para trás,
Imperial, triunfante, ondulante, sempre em frente.
Tu no teu casco de metal e eu aqui, repetindo sempre
Não, não, não, não pode ser, não, não, por favor, não.
Necessito água, rápido, lavar a boca, já, agora,
Lavar depressa de mim este sabor metálico da traição.


comentários

14/06/06

Almanaque de Asneiras


_ Um centramento no..., centramento na..., centramento em...

Palavras proferidas por Sua Excelência a Senhora Ministro(*) da Educação de Portugal, no Telejornal da RTP 1, hoje, às 14:05 h. Em triplicado, como transcrito.

centramento
Dicionário Houaiss: não consta
Enciclopédia 1: não consta
Enciclopédia 2: não consta
Dicionário P.E.: não consta
Dicionário T.E.: não consta
Prontuário ortográfico: não consta
Google (pt): 412 referências


"Centramento" não consta, em nenhum dicionário ou enciclopédia, como palavra "derivada" ou composta por sufixação, nem do substantivo "centro", nem do adjectivo "central", nem do verbo "centrar".

Provavelmente, a Senhora Ministro(*) referia-se a um site de meditação transcendental brasileiro, o Centramento.

Confere. Publique-se.



(*) A expressão idiomática "Senhora Ministra" foi pela primeira vez atestada pelo político Salgado Zenha (1923-1993). Primordialmente, o substantivo significava, entre outras coisas, "mulher medianeira, empenho, cunha". Por outro lado, a palavra "Ministro" nunca fez mal a ninguém, ao contrário de muitos assim designados. Digo eu, que não utilizo nem dicionárias nem enciclopédios.

comentários

10/06/06

Os sete pecados mortais

Gula Avareza Ira Orgulho Inveja Preguiça Luxúria

Gula Ira Orgulho
Este miúdo tem nove ou dez anos e uma colecção de cromos para acabar. Merece portanto toda a confiança, e além do mais não passa de um garoto.

_ Levas estes meus quarenta e quatro repetidos, escolhes os que quiseres e depois entregas-me quarenta e quatro cromos, com repetidos dos teus.

Uns dias depois, recebo o mesmo envelope, com 38 cromos, alguns deles repetidos duas, três, quatro vezes.

_ Merecias era um estalo na cara, seu puto reguila - penso eu, de mim para mim, porque se é proibido dizê-lo, muito mais é fazê-lo.

Os pais da criança, com olhares de desafio, gabam em volta a esperteza de seu rebento.

comentários

08/06/06

Consultório sentimental - XIV

A auto-sedução

Tive um namorado que ia ajudar na loja do seu melhor amigo nas férias. Quando vendia alguma coisa, metia algum no bolso e o resto é que ia para a caixa. Na altura do Natal, fazia tanto dinheiro que dava para as prendas e ainda depositar a prazo o resto. Eu DETESTAVA que ele fizesse isso, mas nunca o denunciei.
inconfessáveis


Deitemo-nos a adivinhar. Salvo seja. Esse seu ex-namorado, cara amiga, passeava-se numa bruta máquina, certo? Era menino para descapotável ou, no mínimo, para circular montado em sua espampanante mota de alta cilindrada, pois não era assim?

Era, pois era. Não é difícil adivinhar. Como todos sabemos, este país está cheio de ladrões altamente automobilizados, patifes do género desse seu "amigo", sem tirar nem pôr, gajos que roubam descaradamente, não apenas ao melhor amigo como até à própria mãe, se for preciso, tendo como finalidade primeira tal gatunagem, precisamente, a obtenção de uma ou várias prestigiantes montadas - aquelas coisas com rodas e motor das quais se diz ser cada qual consoante a que possui.

Surgem estas questões prévias como tentativa para localizar a questão, que se poderá por conseguinte resumir da seguinte forma: aquele bandido foi seu namorado e, portanto, a menina foi namorada do meliante, não certamente pelos seus dele dotes de inteligência, ou sensibilidade para a vida artística, por assim dizer; a menina ficou enrabichada pelo catraio não por via do carácter, mas antes, muito simplesmente, pelos bens que o homenzinho arvorava, a começar pela armadura (a farpela, a vestimenta, os trapos) e terminando, ou especialmente, pelo coche, pelos cavalos que o puxavam e respectivos arreios. É. Com efeito, nos tempos que vão correndo, aquilo que de mais sedutor existe num homem, aos olhos de uma mulher, é sem dúvida o seu meio de transporte; seu, dele, repita-se. Nada mais excitante, em sentidos figurado e literal, do que andar de cu tremido, como se costuma dizer e como é sabido.

Como implicação imediata da lei social estabelecida e comummente aceite, " tu és aquilo que conduzes", temos que a força gravitacional da atracção (e, por inerência o poder de sedução) varia na razão directa não da potência do macho mas da potência da máquina que o macho possui. Não é fácil encontrar uma mulher que resista ou fique indiferente a uma "bomba" reluzente, de duas ou de quatro rodas; existe na viatura, como se embutida nos cromados ou algures no porta-luvas, uma quantidade gigantesca de substâncias químicas propiciadoras daquilo a que se chama atracção, da mais trivial tesão, da mais arrebatadora das paixões. Segundo o mesmo princípio químico, a situação inversa também se verifica pela negativa, ou seja, nada pode causar mais repulsa, ou "antipatia", em linguagem feminina, do que o mau estado de conservação de uns estofos, uma pintura toda estalada ou, de forma mais abrangente, o "mau aspecto" de qualquer caranguejola. A sobrevivência, o prolongamento, a manutenção e mesmo o incremento da paixão dependem mais do estado geral da viatura, da sua idade e do seu preço, do que de qualquer estado de espírito ou qualidade própria do respectivo condutor.

Presume-se, assume-se, toda a gente, que o proprietário de qualquer viatura acima dos 10.000 contos, ou digamos, 5.000, não pode ser má pessoa, desonesta, sacana, muito menos estúpida e ainda menos ignorante. Caramelo ao volante de qualquer Ferrari não será por suposto nunca menos do que um perfeito génio, refinado espertalhão, cavalheiro de respeito. É logo de doutor para cima, imediatamente e de chapéuzinho na mão, quando não vossa excelência para cá, vossa excelência para lá, e queira fazer a fineza, oh, por quem sois, senhor engenheiro, mande sempre. Logo, portantosmente, nenhuma lata de valor inferior pode transportar alguém de valia não correspondente, forreta, pé-rapado, indigente, ou seja, refinadíssimo cretino, bandidote, filho-da-puta encartado, chega pra lá essa merda, ó paneleiro, vai levar no cu, ganda pindérico, manda-me essa merda prá sucata.

Em outro registo mas na mesma bitola, realcemos que pouquíssimas coisas existirão mais descorçoantes, geradoras de antipatia e, por via disso, anti-clímax, ou empata-fodas, do que o calhambeque a cair de podre. Não existe um único gajo que desconheça o verdadeiro momento, o único factor realmente importante quando chega a hora de a gaja avaliar a pinta do animal: é quando lhe aparece pela primeira vez à frente com o seu bólide; ao primeiro relance, a chavala, consoante a carripana lhe agrade ou não, toma uma irrevogável e definitiva posição, a qual será uma de duas, ou algo como "ah, que lindo" e fica logo ali apaixonada, ou uma coisa do género "mas que merda vem a ser esta" e isso é sinal de que não fica apaixonada, danou-se, a coisa morre ali mesmo, "ah, afinal não gosto nada dele".

Cabe ao candidato, se calhar a negativa, não ficar ofendido. A lapidar, típica, feminina expressão "ah, afinal não gosto dele" refere-se ao carro, não ao dono, por mais que seja gramatical e prosodicamente indestrinçável tal coisa, a partir de tão parcas palavras, que nem são, de resto, geralmente produzidas, ficando-se apenas pelos mais recônditos interstícios mentais da ex-candidata a objecto de amores; correu mal, pronto, o carro até seria mesmo uma valente cagada, há que reconhecê-lo e seguir em frente, mulher alguma consegue re-apaixonar-se, a não ser que se consiga uma viatura decente num prazo curtíssimo, se não pode, fodeu, há que ter "fair-play" nestas coisas.

Cumprido este périplo através de algumas das circunvoluções cerebrais que entroncam o e no chamado "eu-fêmea", ou "anima femina", podemos então regressar ao início da conversa, agora já detentores da explicação, das motivações que levaram a nossa correspondente a enamorar-se (ser namorada) do primordialmente referido gatuno. Pois é. Tomou-se de amores nossa amiga por semelhante biltre, apenas por, ou tendo em consideração que, o cabrãozito andaria pela certa muitíssimo bem montado. Ora, como poderia ela adivinhar que o carro, aquela bisarma com 200 cavalos, era roubado ou tinha sido comprado com dinheiro proveniente de desfalques? Sejamos sérios. A rapariga estava inocente, de todo. Em não sendo bruxa, realmente, como poderia ela suspeitar de tal coisa?

Ficou embeiçada pelo roncar do motor, pela velocidade estonteante, coitada da rapariga, apaixonou-se violenta e consequentemente pelo rapaz, não a crucifiquemos agora por ter sido tão ingénua, estúpida, galinha entesoada. Bem bastarão certamente os remorsos que andará carpindo desde aí. Não podemos nem devemos atirar pedras, isso não é cristão, de mais a mais sabendo perfeitamente, isto é, presumindo, que tal coisa não voltará a acontecer e que a dita, a pobre infortunada, terá mais cuidado para a próxima, não cairá assim tão facilmente, não ficará logo com as hormonas e a passarinha aos saltos, deverá indagar previamente qual o modo de vida do candidato, a proveniência da viatura, quiçá solicitando os respectivos livrete e registo de propriedade, há que ser de extrema prudência nestes materialistas e conturbados tempos. Haja respeito e compostura, enfim, não há-de agora uma moçoila deixar-se ludibriar por qualquer valdevinos, vigarista, arrivista, lá porque surge montado numa irresistível ("amorosa") moto, num qualquer "Jeep" quatro por quatro, por mais "lindo" que seja, ou, por exemplo, num Mercedes série A de apenas dois lugares, oh, que romântico; coisas que, já se vê, bem podem ser não do próprio mas do alheio, o que, em alguns casos, acaba por foder tudo.

Haja decoro também por parte de nossa rapaziada. Isso de andar por aí a "sacar" gajas, à conta da motorização que se tem debaixo dos pés, está mal; é aproveitar a ingenuidade das moças, a sua natureza amorável, namoradeira, apaixonadeira, a sua fraqueza inata por cavalos-força, a sua delicadíssima constituição sexual, que por vezes as leva inadvertidamente ao orgasmo, apenas por dar uma voltinha a 200 à hora. Bem sabemos como pode ser, para o chamado sexo fraco, estonteante, a velocidade, emocionante, o perigo da estrada, excitante, uma razia a outro automóvel, fascinante, a tremenda potência do motor, alucinante, uma curva a derrapar, de cortar a respiração, um "cavalinho". Aos jovens se pede que se aquietem, até porque chega para todos; não há necessidade nenhuma de enganar as raparigas que se pretende comer com aquilo que não é nosso ou que foi obtido por meios menos legítimos; pode-se comer na mesma, assim às manadas, sem precisar de golpadas e de enrabanços apriorísticos do género.

E também, sejamos claros e concisos, tal honesto procedimento, não usar o furto para impressionar, e tal, acaba por marcar pontos a nosso favor; muito provavelmente, se aparecermos apeados ou com um carrito merdoso, num primeiro encontro com uma candidata a levar com ele, o mais certo é ficarmos imediatamente e daí em diante a chuchar no dedo, mas também pela certa essa candidata levará em linha de conta a nossa atitude honesta e ficará, doravante, nossa amiga; é muito melhor do que nada, a curto prazo, e a longo sempre nos podemos consolar com o facto de que também não teremos que levar com ela para o resto da vida.

Ora, jogos de sedução há muitos. Se não vai lá com o pópó, pode ser que funcione com pastelinhos, bombons ou pão-de-ló. Ou com conversa. Umas rimas e assim. Costuma pegar, à falta de melhor, mesmo nos casos mais desesperados, para quem não tem dinheiro nem para o táxi, para os desgraçados que se deslocam em sucatas como o R4, o R5 e o R16, que horror, não vale a pena exagerar, mas haja esperança. No paleio, por excepção, pode residir a salvação dos auto-excluídos. O problema é que as fábricas não param de produzir, caralhosasfodam.

comentários

07/06/06

Os sete pecados mortais

Gula Avareza Ira Orgulho Inveja Preguiça Luxúria

Preguiça
Por alguma razão, balançou, rodou ligeiramente, um canto bateu na parede, ficou esmilhado, por fim despenhou, partiu a meio de encontro ao lavatório, e numa fracção de segundo o espelho desfez-se em estilhaços no chão de ladrilhos, centenas de espelhinhos minúsculos, e cacos, e poeira de vidro por todo o lado.

A senhora foi buscar a pá, a vassoura. Pela primeira vez em muitos anos varreu, mais ou menos, quase todos os destroços e algum do lixo acumulado. O tapete, que em tempos tinha sido branco, rebrilhava agora estranhamente, como se estivesse coberto de lantejoulas. Pegou nele e foi dependurá-lo no estendal, com duas molas de roupa.

O vento se encarregaria de o sacudir.

_ Graças a Deus, há o vento - disse.

comentários

Direito Laboral Português (DLP)

Subsídios para um tratado consuetudinário do nacional-atavismo


O trabalho em Portugal rege-se e, numa perspectiva histórica, sempre se regeu por três princípios básicos: esperar pela hora de saída, esperar pelo fim do mês e esperar pela idade da reforma; existe ainda um princípio intermédio, espécie de fio do condutor e elemento de ligação coerente dos outros três: esperar pelo fim-de-semana. Funcionando como factor de encorajamento social colectivo, verdadeiro motor da inércia caracteristicamente lusitana, há ainda as revigorantes possibilidades de esperar pelo próximo dia feriado, pela próxima "ponte", pela próxima "baixa", ou, suprema benesse e saborosíssimo delíquio virtual, existe também aquilo que geralmente se designa por "esperar pelas férias".

O verbo "esperar" constitui, na verdade, o étimo que melhor define a identidade nacional; Português que se preze está permanentemente, perpetuamente, pacientemente, sempre "à espera" de uma coisa qualquer: à espera de receber uma carta de chamada, à espera de uma entrevista para um emprego maravilhoso, à espera da consulta com o "especialista", à espera de que seja despachada certa e urgentíssima papelada, à espera de uns resultados importantíssimos, à espera de que acabem as obras lá em casa, à espera do canalizador ou da mulher-a-dias, à espera do autocarro ou da boleia combinada, à espera de que seque a tinta nas paredes ou de que o frango acabe de assar. Esperar é, em Portugal, um verdadeiro estado de alma, é uma coisa em si, uma actividade; nenhum outro povo consegue esperar tão proactiva e freneticamente; são conhecidos, e clinicamente reconhecidos, casos de portugueses absolutamente viciados em tais empreendimentos, e aos milhões são eles, pessoas que adoram e que se ocupam exclusivamente a esperar ou "aguardando" a sua vez na bicha, qualquer bicha, não interessa, a bicha do banco, a bicha da gasolina, a bicha dos táxis, a bicha das Finanças, e assim por diante. Curiosamente, o Português militantemente atarefado com as suas bichas apenas se preocupa com a designação, bicha, bichas, e considera tal coisa um horror, não o facto em si, a bicha ou as bichas, mas o facto de se lhe chamar bicha ou bichas e não aquilo que deveria ser, não é bicha, é fila, e não é bichas, é filas, não façamos confusões.

Aliás, é desta obsessão pelo preciosismo linguístico e pelo vernáculo sociológico, pelo rigor terminológico, em suma, que brota o não menos importante apego pelo direito em geral e pelo direito laboral em particular. Laboriosamente conquistado, ao longo de séculos de História pátria, o inalienável direito a esperar, cumpriu-se mais uma vez Portugal, a três quartos do século passado, com a chamada revolução de Abril; reduzida finalmente a letra de forma e valendo por lei, o direito a esperar arrasta consigo, anexos, apensos, uma série de direitos conexos, genericamente conhecidos como "direitos adquiridos" e que têm por fulcro a defesa intransigente do direito ao lazer. Escorados não apenas pela vontade democrática, expressa pelo voto, da maioria dos preguiçosos, dos laxistas e dos parasitas, mas também pelo próprio código genético lusitano, do qual é já parte activa e significativa, estes "direitos adquiridos" representam a espinha dorsal do Direito português e o mais espantoso contributo identitário do Portugal democrático, no âmbito europeu e, porque não dizê-lo, universal. De facto, reconheçamo-lo sem qualquer rebuço, existe uma lógica absolutamente inatacável subjacente à estatuição dos direitos adquiridos: ao Português comum, o chamado popular, ou homem do povo, ocupado, sobrepujado, ajoujado, atarefadíssimo em seus actos de espera e, por conseguinte, sem mãos a medir nem tempo para fazer seja o que for, são legalmente facultados os direitos fundamentais à existência, a saber, emprego remunerado ou, em não sendo possível arranjar-lhe o emprego, ao menos garante-se-lhe a remuneração, devendo ser o dito emprego o mais possível "estável", isto é, vitalício, e, de preferência, sem grandes ou com nenhumas atribuições ou responsabilidades.

Torna-se assim, por fim, possível que se realize no quotidiano este real paradigma da felicidade: ter uma santa e descansadíssima vida profissional, uma carreira de trinta ou quarenta anos preenchida por tempos de espera, pela manhã de casa para o emprego, em transportes públicos ou em viatura própria, à tardinha do emprego para casa, idem aspas, com de seis a oito horas intermédias, à espera da hora de saída. Assim, dia após dia, esperando com ansiedade a 6ª Feira à tarde, mês após mês, aguardando a chegada do Verão, ano após ano, até à abençoada meta final, o bem supremo, a querida, merecidíssima reforma paga, o trabalhador português, o homem da rua, o povo, consegue algo de inacreditável, para qualquer estrangeiro roído de inveja, ou seja, passar toda a sua vida sem fazer, sem alguma vez ter feito, e todo contente consigo mesmo, absolutamente nada.

Digamos que, se nos fosse perguntado, por absurdo, qual é a coisa que mais nos distingue de todos os outros povos do mundo, a resposta seria ligeiramente diferente da usual, até há uns anos, a qual era "a saudade"; actualmente, aquilo que nos distingue já não é esse folclórico e romântico substantivo, mas antes a muito singela expressão "não fazer nenhum". Exactamente. Apenas em Portugal é possível fazer carreira, construir uma reputação, ter um modo de vida exclusivamente a partir de coisa nenhuma, sem produzir seja o que for. Esperamos uns pelos outros e todos por qualquer coisa, nisso consiste a mais pujante realização, o único verdadeiro sector de actividade nacional. Os mais aptos, em tal mister, rapidamente chegam a lugares de responsabilidade, onde ficam à espera da próxima, inevitável, segundo o princípio de Peter, irresistível promoção. Os ainda mais aptos chegarão aos topos sociais, à nata, irão a ministros, a secretários-de-estado, a adjuntos ou a secretários, na pior das hipóteses. Os excepcionalmente aptos, nestas artes da simpática inépcia, da voluntariosa inércia, os eleitos, enfim, com extrema facilidade chegam a chefes de repartição, a sub-delegados adjuntos, a coordenadores de serviços, a gestores de empresas, a porteiros de discoteca, a presidentes da república, a cabo-de-mar ou a agente da autoridade.

Todos os portugueses, do mais alto magistrado da nação ao mais modesto contabilista, demonstram igual fervor no cumprimento da sua missão no concerto das nações e das humanas espécies. Todos se dedicam, os portugueses, de alma e coração, a esperar que o tempo passe. Precisamente aquilo que o tempo faz sozinho, mas pronto. Não compliquemos.




comentários

Fôdeu

comentários

05/06/06

Dá-se? Não! Da-se!



My blog is worth $11,290.80.
How much is your blog worth?



Facilidades de pagamento. Mensalidades suaves. 1ª mensalidade grátis. Só paga no Verão.

(foda-se; levem lá esta merda, fáxabôri; isto só tinha piada quando não valia um tusto; assim, não gosto; é foleiro; é uma coisa pauloqueridamente ridícula; please? Kit anti-comunista incluído, totalmente grátis. Se responder a esta magnífica oferta durante os próximos quinze dias, receberá ainda, sem qualquer encargo adicional, um magnífico dicionário ilustrado de caralhadas em Português, edição exclusiva, espantosamente encadernado a coiro e maravilhosamente gravado a oiro.)

comentários

Olha!

Alguém como eu
Budismo
Se não te portas bem, na próxima reencarnação, és uma barata. (mote)

Glosas
Se a tua vida corre mal, é porque estás a pagar as patifarias que fizeste na tua vida anterior.

Se a tua vida corre bem, não te excites muito porque na próxima estás lixado.

Se cheiras mal dos pés, é porque andaste por maus caminhos desde que reencarnaste.

Se cheiras mal da boca, é porque não só mas também.

Se partiste uma perna, com fractura exposta, podes estar descansado porque isso daqui a trinta anos não é nada.

Se te achas muito infeliz, atenta na vida que levam as larvas da couve galega.

Se estás feliz, põe-te a pau com aquilo que aí vem.

Se tens saúde, isso não augura nada de bom e vais certamente desencarnar em breve.

Se não tens saúde, toma um chá de cidreira e espera que o problema passe.

Se és uma pessoa bafejada pela sorte, bem podes esperar pela pancada na próxima vida.

Se te julgas o gajo com mais galo à superfície da Terra, acredita que na próxima vida vais ter toda a sorte do mundo.

Se desejas mal a teu vizinho, podes crer que esse mal te vai cair em cima, se não for antes o vizinho.

Se teu vizinho te quer mal, se te mói o juízo, não te rales, paz e amor, caga nisso.

Se tens azar ao jogo e no amor, não te metas mais em jogos amorosos, porque um mal nunca vem só.

Se tens sorte à batota e com as mulheres, eu se fosse a ti largava o baralho e ia já a correr para casa.

Se algum mal te sucede, é porque ainda não pagaste o suficiente pelo mal que fizeste.

Se não fizeste mal nenhum a ninguém, vais pagar na mesma daqui a duas ou três vidas, porque hás-de fatalmente reencarnar em grandessíssimo filho-da-puta.

Se nunca fizeste bem algum a alguém, hás-de ser recompensado com uma reencarnação do piorio.

Se gostas da pesca à linha, na próxima reencarnação és uma minhoca.

Se votaste Cavaco Silva, na próxima reencarnação és o pato Donald.

Se votaste Cavaco Silva e não gostas da pesca à linha, na próxima reencarnação és a minhoca do pato Donald.

comentários

03/06/06

Bem


Um dia morro ao vento. Morro com o meu corpo a cortar o vento. Com a música a rebentar-me em bolas de sabão nos ouvidos e a escorrer pelas paredes do corpo. Um dia morro com um último gosto doce na boca. Um dia vou com o vento.


Mas quem será esta fulana? De sonsa não tem nada, e desconhece-se-lhe inteiramente a cara. Tem aquilo, a julgar pela amostra, que é cada vez mais raro, na vida como na escrita: a sinceridade. Alguns chamam-lhe genuinidade. A mais difícil das formas de expressão.

comentários

02/06/06

6 de Junho: Dia Nacional do Snoopy


VIRTVTIBVS MAIORVM VT SIT OMNIBVS DOCVMENTO.PPD-PSD(*)




(*) tradução do Latim: "Às Virtudes dos Maiores, para que sirva a todos de ensinamento. Dedicado a expensas públicas" - partido social democrata. Esta inscrição está no arco triunfal da Rua Augusta, em Lisboa, e foi esculpida na pedra muito antes de Sá Carneiro ou Magalhães Mota terem idade para fumar, nos tempos de Sua Alteza a Rainha D. Maria Cachucha.
fonte do Latim: zerozero.pt (sacanas, copiaram-me o endereço quase todo)
imagem do símbolo nacional: sarahackerman.blogspot.com (boneco provavelmente gamado de outro sítio qualquer)
imagem do outro símbolo nacional: Encarta

comentários

Cavaco não é integralmente burgesso

Só um bocadinho. Na forma como mastiga, e tal.

Porque, de resto, a minha alma está parva, o actual inquilino de Belém acaba de demonstrar não apenas alguma inteligência como até um módico de faro para as cousas da política. Cousas, não causas, e por via disso mesmo andam aí agora nossas esquerdas aos pinotes, pior que estragados, comunistas e afins. O homem fodeu-lhes a lei da paridade bem fodida. Gaveta com ela. Devolva-se. Arquive-se.

Olha que bem. Aplausos, uma vez sem exemplo, para nosso Presidente. Como se diz nas televisões portuguesas, uma grande salva de palmas para ele.

Evidentemente, e não há nisto mistério algum, ao contrário do que indiciaria o incómodo que sentem os vermelhos, se bem que já desconfiasse, agora tenho a certeza: nosso Cavaco lê aqui o Godot, a "morar" no endereço http://001.blogspot.com. Bem me parecia. Há que tempos andava eu intrigado com um dos raríssimos visitantes aqui chegados sem ser através de pesquisas Google; o endereço de IP não engana, é da zona de Belém, mas, ainda assim, nunca fiando, nunca se sabe, poderia ser um maluco qualquer lá daquelas bandas; agora o próprio Presidente da República! Oh honra, oh maravilha, ó Glória, caralhostafodam!

Mas sim, é verdade. Confirma-se. Desde o dia 23 do mês passado, quando aqui publiquei um avisadíssimo texto sobre a Lei da Paridade, as visitas de Sua Excelência cá ao boteco tornaram-se diárias e, por exemplo ontem, Cavaco veio cá três vezes, três. Não me custa nada imaginar o gajo a queimar os neurónios com aquele modesto, porém certeiro e cirúrgico arrazoado, pedindo opiniões a seus doutos conselheiros, atão mas vocês não acham que este caramelo tem razão, que isto é mesmo uma lei muitíssimo mal parida, hem, que me dizem? Vocências vede aqui esta conversa do povinho, a maneira como o povo fala dessa lei, tá-se mêmo a ver, com certeza, é para vetar, fodei-vos.

E pimba. Lá foi Sua Excelência pespegar o vetozinho na puta da lei, essa é que é essa. Tudo à conta aqui do bacano, como se vê. Escusam os comunistóides de andar por aí, em blogs merdosíssimos, tipo arrastão soviético, a insultar o Presidente por causa do veto; além do mais, haja respeito, Cavaco é uma instituição da República, um símbolo nacional, caralho, é de bom tom não abandalhar as instituições. É escusado que andeis por aí a bater com a cabeça nas paredes, a ver se descobris o que terá originado o veto presidencial, a inventar maquiavélicas teorias da conspiração e tenebrosas manobras da reacção; não foi nada disso. Foi até muito simples, não procureis mais, a causa estava mesmo debaixo de vossas ranhosíssimas pencas.

O homem informa-se, antes de tomar suas altas decisões. Que é? Que foi? Veio aqui, sim, leu a minha opinião, tomou-a como aquilo que ela é na verdade, a verdadeira voz do povo, e pronto, não tem nada que enganar, vetou a lei mal parida. Foda-se. Cambada de invejosos. Será preciso fazer um desenho?

O que é que queriam? Que o PR tomasse as suas decisões completamente sozinho?

Senhor Presidente, Excelência. Não ligue a esses comunas. Veio Vossa Excelência a esta sua casa, a conselho, e veio muito bem. Veio perfeitamente. A verdade é esta, Excelência: foi aviado ou não foi aviado, Excelência? Ora, foi, claro que foi, portanto não há mais nada a dizer.

Às ordens do Senhor Presidente. Cumprimentos, Senhor Presidente. Mande sempre, Senhor Presidente.

A Bem da Nação.

Zero Zero Um

comentários

31/05/06

O blog do poder glúteo

É raríssimo, mas de vez em quando lá aparece um blog interessante, coerente, inteligente. Tropecei agora mesmo numa dessas preciosidades que, além daquelas três coisas acabadas em "ente", ainda por cima está bem escrito e cheio de belíssimas fotografias.

Embora já exista há bastante tempo, aquele blog especializou-se recentemente num tema absolutamente inovador: a peida portuguesa ou, melhor dito, a peida da portuguesa. Espantoso. O autor anda atrás de mulheres, no "metro", no café, no super-mercado, em plena rua, e zás, fotografa-lhes o pandeiro, que publica diariamente sob a sugestiva designação genérica de "Uma Granda Peida Por dia".

É uma ideia brilhante, convenhamos. As imagens dos cus, surpreendentemente diversos, são por regra ilustradas com texto. Como, por exemplo, esta pérola:

Há peidas que não valem um cu.

Isto por excepção, claro, porque de facto ali o que mais abunda é o cuzinho mimoso, o traseiro estonteante, a bela peidola. Vale bem a visita diária, por conseguinte.

Os meus sinceros parabéns ao autor, pela ideia, pelo requinte do tema e pela fascinante análise sociológica que vai elaborando de forma retroactiva, por assim dizer. E não esqueçamos o contributo linguístico da obra, já que o autor acabará certamente por efectuar um exaustivo levantamento da terminologia conexa: nominal, como rabo, padiola, cagueiro, nádegas, nalgas, nalguedo, bunda, etc., verbal, como enrabar ou rabejar, por exemplo, e mesmo expressiva ou idiomática, seja como em "dar ao cu", "vai levar na peida", "cair de cu", "nascer de cu virado para a lua", "no cu de Judas", "fugir com o rabo à seringa", e assim por diante.

Apenas uma desprezível minoria de blogueiros, aqueles mais cagões, se poderão dar ao luxo de achar que A Vida É Uma Festa não vale um peido, como gostam tanto de dizer de todos os blogs menos do seu. Habituados a confundir sistematicamente o cu com as calças, apenas a essa espécie de caguinchas o assunto poderá suscitar algum tipo de caganças, ou reserva mental.

Como nota final de destaque, aprecie-se também a lista de "links" daquela página: um verdadeiro paradigma de coerência.

comentários