A obsessão anti-comunista
From Stettin in the Baltic to Trieste in the Adriatic an iron curtain has descended across the Continent.
Winston Churchill
Duas das três pessoas que aqui vêm às vezes manifestaram algum incómodo por aquilo que lhes parece ser uma mania persecutória (minha e de outros que tal) em relação aos comunistas. Que meto tudo no mesmo saco, ele é comunas e comunistices a torto e a direito, um exagero; e que diabo, que já chega, isto assim torna-se chato, maçador, repetitivo. Pois sim. Esclareçamos então competentemente.
É que esses cabrões (a esquerdalhada toda) estão agora tentando levantar a cabeça de novo, e essa merda, em última análise, irrita-me profundamente. É muito simples, humano e compreensível: o comunismo, à semelhança do fascismo e do nazismo, deveria - pela ordem natural das coisas - estar hoje em dia completamente comatoso, reduzido como ideologia à condição de simples referência histórica e como movimento social à mais completa das insignificâncias, com uma representatividade meramente residual. Ora, das três variantes de bestialidade promovida a ideia, apenas resta uma, e precisamente a mais violenta, a mais abjecta, a mais desumana delas. Não apenas subsiste, mesmo depois de destapados os crimes contra a humanidade pelos quais foi directamente responsável, como ressurge agora com uma nova pujança, com mais arrogância ainda, com novos e ainda mais alucinados argumentos, com novos e ainda mais sanguinários aliados de circunstância.
A perturbação mental vulgarmente designada por comunismo, ou na sua versão pura e dura ou mascarado de "democrata" - envergando roupagens socialistas, ecologistas, popularistas - ou ainda simplesmente infiltrado nas correntes de opinião e de influência, não apenas se mantém hoje nas esferas do Poder político como ameaça seriamente conseguir aquilo que nunca na História tinha alcançado: o beneplácito. Seja ele político ou de simples opinião pública, seja por desmemorização sistemática da História ou através de insinuações e subtilezas de raciocínio, o facto é que o beneplácito geral, em relação a tal ideologia e aos criminosos que a perfilham, significa na prática desculpabilizar a primeira e inocentar os segundos. E isso, assistir impávido e sereno, como é pelos vistos de regra e de uso geral, torna-se absolutamente insuportável para quem - pura e simplesmente - se nega a esquecer.
A recusa da amnésia histórica, ou da terraplanagem do passado, obriga obviamente a, ao menos, denunciar aquilo que se está a passar; implica reconhecer os tiques totalitários no discurso comunistóide, as suas tácticas de propaganda, e denunciá-los, aos tiques, ao discurso e à propaganda; pressupõe que se diga e faça alguma coisa para tentar ajudar a travar a marcha implacável da militância acéfala, a arregimentação cega de indivíduos cegos pelas dificuldades extremas e pela penosidade da vida quotidiana. Ora, aquilo que se está a passar é a repetição taxativa do que sucedeu recorrentemente até à década de 90 do século XX; o discurso e os tiques são os mesmos, a papel químico do que então sucedia, a mesma estratégia de aproveitamento da pobreza, de apologia do medo e de capitalização da angústia; a mesma técnica de repetição exaustiva de factos inventados até que estes se transformem em factos reais; a mesma oferta de respostas utópicas, facílimas de entender, para questões concretas e extremamente complexas, dificílimas de resolver.
Aqueles que se dizem muito amigos dos "desfavorecidos", dos explorados, dos pobres em geral e, por consequência, se julgam moralmente superiores, oferecem - hoje como ontem - solução rápida e eficaz para tudo e mais alguma coisa, na condiçãozinha implícita de que, em troca, os povos contemplados com a bênção da iluminação socialista recompensem os respectivos benfeitores com a tomada do Poder, essa coisa horrível quando em mãos erradas. Porque, de resto, tirando esse pormenor insignificante, está feito, é facílimo, mas afinal qual é o problema, resolve-se já: é o desemprego? Pois que haja mais emprego, e o emprego já há. É a fome? Pois que não haja mais fome, e a fome desaparece. É a guerra? Pois que se faça a paz, e paz se fará para todo o sempre. A mensagem é clara, transparente: amigos, camaradas, companheiros, não sejais inferiores, não exploreis mais o vosso semelhante, não vos deixeis explorar, juntai-vos a nós outros, os bons, os que nem exploram nem se deixam explorar, e todos juntos cantaremos alegre e eternamente, em suprema felicidade. Ai ele há desemprego? Mas, ó camarada, é muito simples: Diz Não Ao Desemprego! Ai eles querem tirar-te direitos, companheiro? Então diz assim: Mais Direitos, Já! Ai eles querem acabar com as tuas regalias? Ai os malandros. Vai e atira-lhes: Andar Para Trás, Não!
Pois que, já lá disse Estaline, o paizinho dos povos, "faça-se felicidade" e fez-se felicidade, "criemos uma sociedade sem exploradores nem explorados" e criou-se uma sociedade sem ambas as coisas. O que pretendeis vós outros, pobrezinhos, homenzinhos? Hem? O que vos faz falta? Dizei uma só palavra e sereis salvos das garras do capital. Vinde a nós, juntai-vos a esta aliança, a aliança da paz e da abundância, e vivereis eternamente no paraíso, livres de todo o mal.
Nunca, jamais, em tempo algum, a mais ínfima das promessas socialistas se cumpriu, mas isso não atrapalha minimamente o ressurgimento da ideia totalitariamente igualitária. Após uma década de quase completo apagamento, que decorreu entre o fim do Império soviético (1991) e o ressurgimento do islamismo radical (2001), ei-los de novo, os herdeiros da felicidade compulsiva, da abundância rigorosamente planeada, espalhando a fé e tentando reconstruir o império. Que importam agora as dezenas de milhões de seres-humanos massacrados em nome do ideal, onde isso já vai, agora o que interessa é o futuro, e o futuro é radioso, há-de ser por força, está cientificamente provado que não há nada mais radioso do que o futuro.
Nem mesmo a última das armas, a ironia, ou a mais radical de todas, a exposição do ridículo, parece ter actualmente qualquer espécie de efeito; não, evidentemente, nos próprios comunistas, porque a esses nem uma leucotomia poderia valer, mas nos meios tóxicos onde as suas mentiras se reproduzem alarvemente. Nada. Nada afecta a solidez granítica das palavras-de-ordem socialistas. Parece absolutamente impenetrável, este novo muro de estupidez, esta escuridão total em que vão mergulhando vagas sucessivas de pessoas, umas por inércia, outras por cansaço, outras simplesmente porque aceitam com agrado o seu novo cérebro, lavadinho, rebrilhante e extremamente solidário.
Como no passado, uma cortina de ferro vai-se abatendo, já não apenas sobre o Ocidente mas sobre toda a razão humana, onde quer que ela se encontre. Há agora um outro muro de Berlim, já sem cimento e arame farpado, mas de igual forma maciço e intransponível; é outro muro da vergonha.
Vamos gritando por cima dele, deste muro, nós, uns quantos indefectíveis humanos, a ver se alguém nos ouve. E continuaremos a gritar a plenos pulmões, pelo menos enquanto soubermos ou sequer suspeitarmos de que ainda resta alguém vivo do lado de lá.










