Consultório sentimental - XXI
O sexo dos anjos
Por esta altura, já não deve existir um único Português que nunca tenha ouvido falar de coisas tão esotéricas e estranhas como Yoga, Reiki, macrobiótica Zen. A julgar pelo número de "fiéis" arrebanhados por qualquer dessas novas multinacionais do espírito, e mesmo sabendo que alguns deles são adeptos de mais do que um clube, se não dos três em simultâneo, estaremos sem dúvida perante um fenómeno que se enquadra na designação genérica de "seita": enumerando, temos por conseguinte a seita do Reiki, a seita do Yoga e a seita da macrobiótica, englobando nesta as variantes Zen, Zin, Chin, Chong, Tchang, Atchim, Burp, King-Kong e quaisquer outras que venham a surgir.
São, no seu conjunto, por assim dizer, a consequência natural das relativamente antigas seitas religiosas importadas da América do Sul, que se autodesignavam por "igrejas", como a Maná, a IURD e outras ditas "evangélicas". O princípio básico era nestas "igrejas" o mesmo que resulta naquelas "igrejas" mais recentes: desde a implosão da Igreja Socialista Mundial, também conhecida como Internacional Comunista, em 1989 e seguintes, e desde, concomitantemente, o descrédito generalizado da Igreja Católica nas massas burguesas, as pessoas necessitam cada vez mais desesperadamente de uma escora moral, de um módico de convicções ou, em suma, de algo a que se agarrar; algo que lhes dê uma sensação de segurança, face à perigosidade e à imprevisibilidade do quotidiano, e que explique de forma simples os mais profundos mistérios da existência. Tudo aquilo que, enfim, ao longo de milénios teve uma resposta cabal e decente, perfeitamente satisfatória, nas liturgias cristãs ocidentais, e que era personificado por um Deus a dois tempos, bondoso até ao infinito mas também capaz da ira mais extrema quando ou se posto em dúvida.
Foi precisamente a face autoritária do cristianismo, a sua faceta de intimidação e de, por vezes, verdadeiro terror, que acabou por espantar - em ambos os sentidos - uma boa parte dos crentes na fé cristã, e esse facto foi decisivo para o surgimento de seitas várias, que assim se limitavam, sem qualquer esforço, a recolher as sobras humanas da debandada religiosa. Portanto, depois de falhada a fé socialista, e após um rápido processo de apodrecimento das seitas subsequentes, surge agora, na mesma sequência de modelos existenciais importados, uma nova seita, que não apenas se arrisca a tornar-se a maior de todas, engolindo as anteriores, como se vai já tornando - pelo elevado número de adesões e pela altíssima toxicidade dos seus "ensinamentos" - num verdadeiro perigo social. Trata-se daquilo a que os próprios dirigentes desta seita, cada qual detendo seu grupinho colateral, atribuem a pomposa designação de "Budismo".
Ora, é evidente que não falamos de Budismo quando falamos de "Budismo" em Portugal, em concreto, ou mais abrangentemente na Europa ou no Novo Mundo; o Budismo é uma religião muito antiga, com suporte teórico definido, sendo este não teológico mas teórico; é praticada por muitos milhões de pessoas em diversos países orientais, principalmente na China, no Japão, no Nepal, no Tibete e em certas zonas da União Indiana, entre outras nações a Oriente. É bom que distingamos as coisas e que remarquemos o cariz oriental desta crença religiosa, já que essa destrinça é fundamental para a compreensão dos conceitos de obsolescência, inadequação e desenraizamento do Budismo, quando artificial e forçadamente transplantado para o Ocidente. Uma coisa é falarmos do Dalai Lama, exilado político na Índia, Prémio Nobel da Paz, das suas prelecções e dos seus escritos, ou mesmo dos seus fidelíssimos seguidores, nas cordilheiras dos Himalaias ou nas florestas do Vietname, outra coisa bem diferente é referirmo-nos aos membros de seita budista num país ocidental.
Não existe qualquer semelhança entre um cambojano que vive da terra, pacificamente cultivando o seu arroz, que visita os templos do Buda e faz as suas orações, e um Espanhol ou um Americano que se desloca às "reuniões" da seita ao volante do seu automóvel. O Budismo faz todo o sentido e tem o seu ancestral e insubstituível lugar nas terras onde nasceu, e naquelas para onde se espalhou de forma naturalmente subtil e consequente. O mesmo processo, de resto, que levou à expansão de qualquer das mais difundidas formas de culto, do cristianismo ao islamismo; a religião, aquilo que no fundo nos distingue de qualquer outra espécie animal, tem uma óbvia base cultural e a Cultura depende e varia conforme as suas áreas de influência, isto é, fundamenta-se num determinado espaço geográfico. Quaisquer tentativas de perversão do sistema natural de propagação da fé, como sucedeu durante as invasões árabes, ou as cruzadas, ou o próprio colonialismo serôdio, resultaram em fracasso total, para não falar na grande soma de mortes e fatalidades várias que delas acabaram por resultar.
Importar o Budismo não é exactamente o mesmo que importar o Sushi e o Sashimi, as algas kombu ou a arte culinária nipónica em geral; uma coisa é abrir um restaurante japonês, e ir a Tóquio contratar o mestre de cozinha, outra bem diferente é mandar vir em contentores uns quantos bacanos vestidos de togas cor-de-laranja e pô-los a fazer tinir os seus sininhos na Rua da Betesga. Deixemos sossegada e em paz, por exemplo, a camponesa budista que acende pauzinhos de incenso no templo de Angkor; deixemo-la meditar profundamente, durante o tempo que lhe apetecer; mas não poderemos certamente deixar de rir, e achar no mínimo ridículo, completamente deslocado, observar alguém debitando sonoros "Aowm" em pleno Rossio, em Lisboa, ou na eborense muito típica Praça do Giraldo.
O tempo, a sua passagem e as suas medida e medição, bem como os valores nele (tempo) envolvidos, são totalmente diferentes a Oriente, em relação à nossa cultura judaico-cristã, ocidental, europeia, burguesa e consumista. A própria noção daquilo que é a vida, e da importância que se lhe dá, não têm nada a ver na Ásia com a nossa mentalidade fundamental de autopreservação, de fruição, de prazer e de prolongamento sistemático da própria vida. Nas sociedades industrializadas, são outros os valores, outras as necessidades e bem diversas as prioridades.
O Buda, o Budismo, os budistas, tudo e todos enfiados à matroca em qualquer rua das nossas cidades, em perfeita macaqueação de uma realidade distante, exógena e, por assim dizer, alienígena, eis um dos mais espantosos absurdos que nos é dado observar actualmente. Reuniões de "meditação" em grupo, tudo sentado no chão e em posição de flor-de-lótus? Mas onde? Numa cave da Rua das Trinas? Um "retiro" de um ou dois dias numa qualquer quinta da zona saloia? Então e as couvezinhas dessa quinta, que ficam por amanhar enquanto aquele pessoal está todo em profunda "meditação"? E as galinhas, quem trata delas entretanto? E os porcos, ou não há porcos? Ou também estarão eles a meditar, já que também são seres sensíveis? E para que servem, afinal, e em resumo, essas coisas da "compaixão" e da "iluminação"? Quer dizer que eu sento-me aqui, cruzo as pernas, fecho os olhos, digo "aowm" uma data de vezes e, pronto, pimba, eis-me "iluminado"? Isso da compaixão leva quanto tempo a adquirir, ao certo?
Trata-se sem dúvida de uma (in)actividade totalmente postiça, perpetrada por seres cujas motivações não poderão nunca ser as mais transparentes e honestas, já que de tão imóvel frenesim não consta que resulte o mais ínfimo resultado prático. Não é por muito "meditarem" que alguns irão atingir a "luz" e, atingindo-a outros teoricamente, sempre seria de indagar em que é que isso melhorou fosse o que fosse ou ajudou fosse quem fosse. Porventura uma fractura exposta do fémur pode ser tratada através de muita carga de meditação? E os sininhos, plim, plim, plim, ajudarão na consolidação óssea?
Dúvidas existenciais e perplexidades ideológicas que ficam, evidentemente, sistematicamente, petulantemente, sem qualquer resposta. Nem vestígios de tal. A encenação de "budismo" que existe em Portugal parece ter respostas para tudo e mais alguma coisa, menos para justificar a sua atávica nulidade. E o que é mais grave ainda, de um ponto de vista meramente epistemológico, é a total ausência de reflexão sobre a sua própria essência; ou seja, ao "budista" ocidental pede-se que medite muito sobre si próprio mas que não medite coisa nenhuma sobre aquilo que está a fazer, ou seja, nada. Ficam assim aprioristicamente relevadas todas as faltas a compromissos, deixa de ter importância tudo o que se poderia ter feito (de útil) naquele espaço de tempo, e tudo justificado pela seguinte, espantosa, ridícula premissa: melhorei muito, fiquei uma pessoa muito melhor, sou muito mais bondoso e pacífico, simplesmente por ter estado ali sentado a olhar para as moscas; ou de olhos fechados a bater uma sorna, vem a dar no mesmo.
E realmente, convenhamos, não é fácil explicar ou sequer imaginar as misteriosas motivações dos dirigentes e dos operacionais da seita. O que poderá levar alguém a dedicar-se inteiramente a uma causa que consiste integralmente em não se dedicar a coisa nenhuma, a não ser "meditar" sobre essa mesma coisa? Pois não é fundamento da "fé" o esvaziamento total das emoções e dos sentimentos? E então, um chuto na veia ou uma martelada na cabeça não poderiam produzir os mesmos efeitos?
Mas não, tentar explicar a coisa pelo lado da lógica é contraproducente. Para tentarmos compreender o que leva alguém a meter-se nisto do "budismo" postiço, há que atender a dois factos: primeiro, a clique dirigente é quase integralmente constituída por homens; por outro, quase todo o contingente de "fiéis" é constituído por mulheres. Ora bem. Porque será? Como dizia Jardel, esse filósofo da bola, não será do guaraná. É sabido e patente que estes assuntos de religião falam muito mais ao pito do que ao badalo; em linguagem menos técnica, digamos que as coisas espíritas, ou espirituais, exercem um fascínio tremendo no mulherio, e pouco ou nenhum na gajada macha. Por alguma razão, que terá certamente a ver com o "romantismo" (tesão) tipicamente feminino, as mulheres ficam muito excitadas quando ouvem falar de "sentimentos" e de "emoções"; pelam-se por esse tipo de merdas; vai daí, fácil é compreender que elas se agarrem desesperadamente àquilo que lhes parece poder explicar uma coisa que para elas parece inadmissível, a qual se resume a adorarem foder e apenas pensarem em foder; alguém que lhes explique isso, caralho! E pronto, lá aparece o gajo do Reiki, ou o gajo do Yoga, ou o gajo do Partido, e agora o gajo do Buda, que lhes sussurra umas coisinhas mansas aos ouvidos, verdadeiros bálsamos para consciências atormentadas: "medita e serás salva", ou "faz a âsana do veado e ficarás livre de todo o mal". É trigo limpo. Gajinha que é gajinha fica logo pelo beicinho.
De obras, de caridade e auxílio aos pobres, aos doentes, aos inválidos, zero absoluto. Quem se avista nas imediações dos palcos de guerra, nas leprosarias, nos hospitais, é aquela gente excêntrica da Igreja Católica, esses gloriosos malucos das máquinas auxiliadoras, os mesmos que se estão nas tintas para a inutilidade e o parasitismo militante e tentam melhorar o mundo como podem; de budistas e outros caramelos cheios de bondade e amor ao próximo, nem rasto; estão entretidos a "meditar" sobre os males do mundo enquanto no mundo há cada vez mais males. Fazer alguma coisa quanto a isso, é para esquecer; têm muita "compaixão", imensa "compaixão" para dar, "compaixão" a granel, mas lá mexer uma palha, isso é que não lhes dá jeito nenhum. "Fodias-te", eis o fundamento prático da seita.
Portanto, afinal até não tem nada que saber: os dirigentes e quadros desta nova seita budista estão lá, como provavelmente já peregrinaram em outras seitas coevas, simplesmente para comer umas chavalas. É natural, não sejamos incompreensivos e maldizentes. E sejamos também justos, o golpe é de mestre; de facto, aquela merda é um viveiro de gajas boas, todas com a cona aos saltos, na relação directa das suas inibições, frustrações e tesões recalcados. Esses "monges" budistas "dão-lhes" o mesmo que antes davam os "pastores" da Igreja Maná ou da IURD: pinocada moralmente aceitável e tacitamente justificada.
Assim, à luz desta razão que de repente me "iluminou", sem sequer me sujeitar à estopada da tal meditação, compreende-se perfeitamente o sacrifício que esses gajos fazem para salvar o mundo e as ovelhinhas tresmalhadas. Querem cona, ora, ora, nada mais natural. Escusavam era de se pôr com tantas merdas acessórias, a ver se enganam pategos, até porque a verdade geralmente tresanda. Deus lhes perdoe pela hipocrisia e puta que os pariu pela canalhice. Assim, nós, os ateus, não apenas fodemos menos e temos menos, como, ainda por cima, passamos por "maus" e "violentos" e "atormentados". Foda-se, que isto é chato.
NIRVANA - smells like teen spirit
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