Ego.com
Se Groucho Marx estivesse entre nós, imagino que ele abriria uma excepção ao seu desprezo por clubes que lhe aceitassem como sócio. Groucho poderia ser sócio fundador do MSB, o Movimento dos Sem-Blog. O MSB ainda não foi fundado mas é apenas uma questão de tempo. Afinal, ainda há vida inteligente fora da blogosfera.
Na noite passada, comecei a fazer uma lista mental das experiências que não tive. Não li Ulisses. So li o primeiro canto dos Lusíadas na escola secundária e não sou mais capaz de ir além da Taprobana, se me pedirem para citar de cor. Não visitei as ruínas de Petra nem assisti a uma montagem da Flauta Mágica. Nunca aprendi a me equilibrar de rollerskate. Além disso, nunca nadei em pelo nas águas de Fernando de Noronha. E, o que é pior, ainda não fui tirada para dançar pelo professor da gafieira Estudantina, na Lapa.
Como se vê, a vida está a passar ao largo e, logo, não terei nem memória para me lembrar do que não fiz. A lista é interminável e pode me levar à melancolia crónica. E, enquanto tento me consolar com a brevidade da existência, sou objecto de uma ofensiva de alistamento para acessar web logs, ou blogs. O blog vai extinguir a profissão de psicoterapeuta. Onde mais pode-se deitar ruminações, associações livres, projectar neuroses, atacar inimigos, sem a menor censura? O blog eliminou o conflito edipiano, já que o blogger conseguiu assassinar o pai/editor e imagina que consumou sua relação com o leitor/ mãe inesgotável. Aliás, a frase anterior é digna das sandices que tenho encontrado em blogs. O blog tornou-se o trenzinho eléctrico do ego. É um brinquedo elaborado, auto-indulgente e interessa acima de tudo a quem aperta os botões ou batuca o teclado numa incontinência verbal sem precedente. Assim como os couch potatos obesos que povoam as salas de estar contemporâneas são consumidores vicários do narcisismo alheio pela TV, os blogaditos (dependentes de acessar blogs) contribuem para este estado lamentável das coisas. E não me acusem de retrógrada. Tenho argumentos.
Numa festa, um velho amigo queixou-se de que não temos tempo de nos encontrar. Concordei e combinámos, entusiasmados, em promover uma noite bi-polar (depressão seguida de euforia), já que estou de posse de cópias novas em DVD de Morangos Silvestres (Bergman) e Duck Soup (Irmãos Marx). O meu amigo é um raro crítico de arte e comentarista cultural publicado regularmente nos principais jornais americanos. Escrevi-lhe um e-mail para marcar o dia do programa porque gostaria de temperar o atum na véspera. Acabo de receber, não uma resposta, mas um e-mail colectivo, anunciando que a estreia do blog dele foi um sucesso, com não sei quantos hits e, por favor, não deixem de recomendar aos outros. Nenhuma menção ao atum ou à minha companhia. E, quando ele vier, porque os homens, mais do que os peixes, morrem pela boca, vai falar do blog sem notar que a gravura do Fairfield Porter ficou melhor na sala de jantar, ao lado da samambaia.
O blog sancionou a tentação confessional e promoveu uma estranha imodéstia entre pessoas inteligentes. Em meio a citações de Auden ou Kierkegaard, os bloggers servem-nos suas angústias e dores de cotovelo. As quatro paredes que protegiam a intimidade já haviam sido erodidas pelos talk shows e Big Brothers. Descubro que comentários meus foram atribuídos de maneira velada ou explícita em blogs. Será que vou ter que alertar amigos nas conversas de que o que eu faço ou digo é «off-blog»? No momento, além de promover o MSB, já criei o meu anti-blog. Quem acessar o lúciaguimarães.com não vai encontrar nada. Apenas o silêncio gráfico do protesto porque a vida é curta, o sublime é raro e os filés de atum não devem passar mais de três dias na geladeira.
Lúcia Guimarães, Diário de Notícias
mesmo assim, escrito em brasileirês, onde é que assino por baixo?







