Odi profanum vulgus et arceo

02/10/03



Guia do viajante poliglota

Alemão

Inglês

Francês

Italiano

Português

ach du liebescheiβe

I need that like an extra hole

Ah, ben, on s'emmerde pas, ici

porcaria lavaccacia

dá-te gozo foderes-me o juízo?

beschiβ

to get fucked by someone

truandage

presa per il culo

fodido e mal pago

bürokratenscheiβdreck

red tape

conneries depaperasse

burocrazia di merda

burocratas da merda

da kannst duseuchen, bis du scwartz bist

you can turn me over till you go blue in the face

cherche toujours, mon mignon

puoi cercare finché diventi Nero

bem podes tu procurar

der schlag solldich treffen

drop dead

vas t'faire foutre

che ti fulmini un lampo

um caralhinho que te foda

du hast wohlsackratten?

have you got the pox?

t'as les morpions?

cos'hai le piattole?

apanhaste um esquentamento?

du hast wohltomaten auf den augen

wou're blind as a bat

tu as les yeux dans ta poche

hai il salame sugli occhi

estás ceguinho de todo

du pinnst wohl

you've got a screw loose;are you crazy?

tu déconnes pas un peu?!

ma sei scemo?;dai i numeri?

estás marado dos cornos

du rindvieh

ox

abruti

animale

grande besta

etwas na densackhaaren herbeiziehen

tell that one to the judge

tirer para les cheveux

tirato per i capelli

essa é tanga

gequirltescheiβe

bull shit; crap

connerie(s) montée(s) en neige

che minchiata; cazzata

tretas

piefke

social brown-noser

bêcheur

nuovo ricco

novo-rico

pissen

to piss

pisser

pisciare

mijar

puff

brothell

bordel

bordello

casa-de-putas

quadratlatschen

row boats

écrase-merde

piedipiatti

patudo; pezudo

räuberhöhle

robbers' den

coupe-gorge

tana di ladri

covil de ladrões

rote sau

pinko

coco

porco socialista

comuna

rotzlöffel

toe rag

morveaux

sfacciato

mal parido

ruhe im puff

shut up

arrêtez c'boxon

silenzio

caluda

sack und eier

bollocks

putain d'merde

porca miséria

ora porra

sackgesicht

rat bag; dip-shit

gueule d'empeigne

faccia di cazzo

cara de cu

saftladen

cheap place

merdier

sgabuzzino

espelunca

saubär

clown

mon gros poulet

orsacchiotto

palhaço

saufaus

boozer

poivrot

spugna; ubriacone

bebedolas

saufen

to get blastered; booze

siffler

ubriacarsi; sbronzarsi

emborrachar-se

sauhund

cunt

gros poulet

orsacchiotto

grande besta

scheiβen

to take a crap

chier; couler un bronze

cagare

cagar

scheiβerei

the shits/squirts

 

sciolta

cagadeira

schlappschwanz

limp dick;looser

couille-molle

rammollito

impotente; lambe-conas

schmierentheater

brain damage

cést du boulevard

fábrica dipalle

espectáculo do piorio

schnepfe

slag

cocotte

puttanela

principiante; tenrinha

schrapnell

stuck up oldtrout

rombiére

Regina Elisabetta

coiro; entradota

schwanz

cock; dick; prong; prick

bite; queue; noeud

cazzo; minchia

caralho; picha; piça

schwuchtel

les; dike; butch

folle; lopette; gonzesse

ficaiola

fufa

schwule sal

faggot; fag; bender

pédé; enviandé; englandé

culatone; orecchione

paneleiro; panasca; bicha

stinkstiefel

pratt-face

casse-couilles

girapalle; rompipalle

rebenta-cus

sturer bock

blockhead

ducon

testa dura

cabeça dura

titten

tits; boobs; lungs; Charlies

nichons

tette

tetas; mamas; air-bags

tussi

skirt

pepe

amichatta

gaja

verfluchtedrecksau

you mother fucker

putain d'salop/e

schifezza umana schifoso/a

seu filho/a da puta

vergammeltesloch

shit hole

trou à rats

buco

ninho de ratos, pardieiro

vergiβ es

that's not worth it

laisse tomber

lascia perdere

esquece essa merda

verpiβdich

piss off

tire-toi

sparisci

vai-te foder

warmer bruder

fairy; faggot

tante; mignard

mezzo culo

paneleiro,maricas; roto

was kostet derscheiβ?

what's the damage?

ça coute combien, vot'merde?

quanto costa stá schifezza?

quanto custa essa merda?

wichs dir einen

go and toss/jerk

vas t'faire enculer

vatti a fare una sega

vai levar no cu

wichsen

to wank/jerk off

branler; faire reluire; se palucher

pugnetta

punheta

wichspfoten weg

hands off; fuck off

pas touche

giù le zampe

tira as patas

zieh leine

make tracks; piss off

fous l'camp

squaglia

põe-te na alheta

zimtzicke

moaning Minnie

punaise

histerica

histérica

zitzen

droopy tits

mamelles

tette di vacca

grande par de tetas

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01/10/03


L.:
Não sei se te apercebes daquilo que estás a fazer comigo.
(Hás-de reparar que a minha frase característica para começar cartas é "não sei se..."; isto não explica nada, só é curioso)
Olha que este terreno é muito escorregadio. As coisas são como são, e se deixam de o ser pelo simples facto de não poderem ser, é cá uma destas chatices que nem queiras saber. Pelo menos para mim.
Já sonhei muito, estupidamente, e durante muitos anos. Acredita: estou até aqui de banhos gelados. (não, não vou ligar o esquentador.)
Sonhei em tempos com uma casa simples, com tudo lá dentro, para aquela 1ª mulher impossível; ela era drogada, viciada, apodrecida, doente, e eu queria estar só no mundo com ela, para a proteger, guardá-la dos mauzões, curá-la, cuidar dela, viver para ela; ser eu melhor por obrigá-la a tornar-se boa, ser eu a droga dela, ser ela a minha droga; era linda, só para mim, de uma beleza que só eu via e sabia e não conhecia e queria conhecer.
Sonhei em tempos, noites e noites, com aquela que era espantosamente bela, e tão perseguida, e tão sózinha; e queria-a só para mim, com todo o amor e toda a violência do mundo, contra outros mauzões que também esta perseguiam, contra a solidão dela, contra os canhões, marchar, marchar. Ela tinha um filho, um ex-marido com o qual nunca fora casada mas que era o pai da criança, e com o qual viveu maritalmente em casa materna, à mistura com o irmão, a mãe e uma cadela; grandes confusões que me pareceram naquela altura coisas deliciosas, maravilhas mesmo a calhar para o meu instinto de macho protector; para ela, para a minha protegida, queria tudo: queria ser rico, queria que ela fosse rica (éramos ambos uns pequenotes burguesotes), queria que o filho dela não tivesse falta de nada na vida, nem sequer do pai que já tinha.
Sonho agora contigo, penso em ti constantemente, faço a figura de urso do costume, esqueço-me do que ia a dizer, não como a papinha toda, digo coisas a despropósito, parvoíces, disparates. Enfim, todas estas bacoradas eu faria sem esforço, caso não fosses tu a terceira mulher e não a 1ª ou a 2ª; mas juro que ainda não cheguei a tal degradação.
Aqui há uns meses, escrevi-te "apanhei a doença". Podes crer. Valham-me as artes do disfarce, o poder do recalcamento, a facilidade da sublimação (?) e dos escapes sociais. Neste último caso, não me apetece quase nunca ir a uma "boite", por exemplo; sinto-me bem na simples contemplação da tua pessoa, L. À procura talvez daquela hipóteses de negação que se usa nos julgamentos; é a minha defesa a funcionar, já que o meu ataque não tem agora a elegância e a subtileza que tinha: é do género "amo-te" e chega; não tem intenção, não dá luta. Marimbo-me para o "ataque"; se tu me gramas e eu te gramo, chega mesmo.
Quanto aos teus defeitos, descansa que não me podem fazer grande mossa. O quê, a tua petulância? O teu egoísmo? Que se lixem os teus defeitos. Repito, são circunstanciais, e quanto a elas, circunstâncias, há que resolvê-las e nada mais.
Dir-se-ia, a julgar por todo este paleio, que te estou a tecer grandes teorias sobre a lógica do irracionalismo proletário ou qualquer outra treta igualmente comprida. Mas olha que não: para já, estamos sóa falar e, além disso, patatipatatá, gramo falar contigo, e, se calhar, alguma coisa se aproveita do que eu digo, tu conheces-me assim mais um bocado, as coisas ditas são mais fáceis de entender do que as caladas.
Lamento, isso sim, que tanta coisa tenha de ser dita quando se poderia ter passado tão bem sem dizer nada; tipo "tás bem?" Tou. Gramo estar contigo. Eu também. Pois. Eu também gosto de ti, seja com for.
E fosse como fosse! Agora estaríamos os dois juntos em qualquer lado, a curtir o nosso princípio, a ver qual de nós fraquejava em primeiro lugar, até que ou a morte ou a vida nos separasse.
Na tua breve passagem pela vida, acredita, não se pode fazer nada de mais belo, nem mais racional, nem mais bonito, nem que mais valha a pena.. Nem mais!

3 de Março, 1983


Já fui jovem, nem acredito. Para ler uma coisa destas, é necessário daqueles saquinhos que distribuem nos aviões.
No dia seguinte, 4 de Março de 1983, escrevi-lhe outra carta, ganda maluco, onde lhe gabava as mamas e o cu. Sejamos claros. Era uma gaja que me fazia amarinhar pelas paredes. Podre de boa.
Enfim, é mais ou menos assim que se escreve quando se é jovem, ai que saudades, aiai, e reconheçamos o interesse histórico-linguístico-antropológico do documento: "gramar", "curtir", "sózinha" com acento, as "boites", etc. Que giro.
Pois, a L. Valia cada palavrinha. Podre de boa, já tinha dito?

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29/09/03

Viver mata


Nunca tinha visto um único maço de tabaco feio. Agora não há um único maço de tabaco bonito. Aliás, já pouco se distingue um SG Filtro de um Ducados: por fora, e por lei (europeia, note-se, deles, portanto) todos os outrora fascinantes maços têm uns dizeres a branco em fundo negro, "fumar mata", "o tabaco provoca o cancro do pulmão", "vais morrer, ó sacana", etc.; olha a grande novidade.

Longe de mim a peregrina ideia de defender "Os Benefícios do Tabaco"; é inútil e tremenda parvoíce, porque não está provado que fumar faça bem à saúde. Há até quem diga que faz mal, mas isso agora não interessa nada, nunca interessou. O óbvio pretexto para sacar mais uns milhões em impostos, porque esta medida irá certamente fazer disparar o consumo, ou seja, o pretexto do costume, vem agora escorado pela satisfação dos interesses assanhados da trupe de mentecaptos PC. Julga-se assim estarmos perante um espertíssimo golpe de asa da moderna sociedade, uma coisa com pinta até mais não: os politicamente correctos ficam satisfeitos, ao menos por uns tempos, e sempre se reduz o défice. Brilhante. Giro.

É o triunfo do PC, por fim, afinal os amanhãs não cantam, não bebem e não fumam. Que bom. E, ainda por cima, aquela gentinha da saúde a metro pode assim dar largas à emoção, ai que gozo, estragamos-lhes os pacotes, salvo seja, toma-toma-toma, queres fumar mas agora levas com os letreiros e depois vais levar com fotografias de pessoas a morrer. É realmente uma coisa muito gira.

Sugeria, no entanto, que se estendesse a coisa a outros igualmente ou piormente nocivos prazeres: "fazer" praia, conduzir ou ver Televisão, em escolha aleatória. Dado o número de ocorrências nefastas, e na mesma proporção dos maços de tabaco, as praias deviam ter um cartaz de 150 por 10 metros, espaçados cem metros entre si, com os seguintes dizeres: "o Governo adverte que trabalhar próbronze, além de escaldões e outras chatices, origina cancro da pele"; isto e as variantes que a imaginação sugerir. Qualquer automóvel novo devia vir acompanhado de um folheto com fotografias, por exemplo, do Hospital do Alcoitão, mostrando as consequências que o uso prolongado dessa maldita máquina ocasiona sistematicamente. Todos os canais de TV deveriam ser obrigados a colocar cartazes semi-transparentes por cima de todas as suas emissões, alertando os incautos espectadores de que se estão arriscando, naquele preciso momento, a morrerem de estupidez, mas acrescentando que é mesmo de morte macaca, lenta e dolorosa.

Já agora, em vez de calçada à portuguesa, o Governo devia pintar nos passeios umas mensagens subliminares, com fotos se necessário, alertando o incauto peão para os imensos perigos que poderá correr se tiver o galo de tropeçar num buraco, ou a grande e assustadora probabilidade que existe de que um autocarro lhe passe por cima.

Nas tascas, em vez de quadros pirosos comprados na feira, era melhor uns esclarecedores dizeres a propósito das tremendas merdas que ali se comem. O mesmo nas ementas dos restaurantes: o Governo adverte que o bacalhau à Gomes de Sá lhe pode provocar uma azia do caraças, e outros igualmente esclarecedores avisos. Claro, MacDonald's está bom de ver: "enfardar Big-Mac's provoca doenças mortais", e assim.

Sou de opinião de que todas as drogas, do haxixe ao cavalo, deviam passar pelos circuitos comerciais estatais, e não pelos paralelos e ilegais, como até agora. Para que, ao menos, se protegesse o consumidor contra qualquer coisa da qual porventura estivesse a Leste; evidentemente, há muitos agarrados, mais atreitos a produtos naturais, como a cocaína, que não fazem a mais pequena ideia dos malefícios da droga. Há que informar esses também, protegendo de igual modo os interesses do Estado, que é, ao fim e ao cabo, todos nós, e bem-haja por isso.

Fica a sugestão.

Pensando nas vantagens desta coisa, porém, concluo que é agora que a minha colecção de maços de tabaco vai quintuplicar de valor. Obrigado.

Outra forma de ganhar alguma coisa com esta Lei europeia é açambarcar já uns milhares de "porta-maços", aquelas coisas que servem para meter os maços dentro; uma coisa que dantes se oferecia às pessoas quando não havia tempo para comprar um presente de jeito. Agora, um porta-maços já deve valer umas lecas valentes. Melhor ideia ainda será arranjar um maduro que tenha jeito para o negócio e fabricar porta-maços em alumínio de 1mm, com estampagem exterior de todas as marcas de tabaco. Assim, lá dentro, os cigarritos até ficariam mais protegidos e continuando a ostentar, por fora, todo o esplendor da marca original.

Às ordens.

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25/09/03

Sabedoria (pura e simples)


As mulheres tratam os homens como aos pensos higiénicos. Metem-nos na mala, usam-nos e deitam-nos fora a sangrar...

O que as mulheres querem

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ah, poeta, foda-se!


foda-se foda-se foda-se foda-se
foda-se foda-se foda-se foda-se foda-se foda-se
foda-se foda-se!
foda-se foda-se foda-se foda-se foda-se foda-se foda-se foda-se
foda-se foda-se foda-se foda-se
foda-se foda-se!
foda-se?
foda-se, foda-se, foda-se, foda-se, foda-se, foda-se, foda-se, foda-se, foda-se, foda-se...
podes crer

com o gentil patrocínio das rações para galináceos da famosa marca Porranenhuma, este singelo poema é uma homenagem ao brilhante e pipilante poeta cá do blogbairro; ó pra ele aqui a declamar

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21/09/03

UnGoogle


Coisas que não constam mas deviam

TROGLODITAR: v., de troglodita, acto de tornar algo primitivo, incivilizado; efeito do trogloditismo; diz-se de quem abre a boca e entra mosca.

ACHANDRAR: o m.q. axandrar, quando aplicado ao acto achativo; quando se achava mas já não se acha o mesmo; ficar caladinho; meter a viola ao saco; entupir.

ACHATIVO (acto): pulsão lusitana; o verbo achar conjuga-se, em Português, apenas de duas formas e em duas pessoas: "eu cá acho que" e "tu não achas?"

ÓLHAQUESTA: expressão idiomática do Português; usa-se, por exemplo, quando nos apalpam as partes à má-fila.

EMPREGADISTA: s., 2 géneros; pessoa que arranja empregos aos amigos e aos camaradas do Partido; no plural, aplica-se aos "trabalhadores" portugueses em geral e aos funcionários públicos em particular.

CAVACAMENTO: coisa feita à maneira de Cavaco Silva; com o prefixo "en" indica tratar-se de acto reiterado.

ENTRETERAM-SE: forma criativa do verbo entreter; atestado pelo jurnalista Luís Octávio Costa, do jornal Público (21.09.03, pág. 38), com a célebre frase «sem trabalho de maior, Fouhami e William entreteram-se com o adversário». Jóia. Parabéns. (*)

RRRRUAAACHH: onomatopeia que representa o som que antecede a projecção, por parte de qualquer bom macho nacional. da bela, verde, meio sólida e impositiva escarreta.; tb. um símbolo nacional da arte portuguesa do despejo. Eça usava "restituir", hoje usa-se escarrar na rua. É lindo.

PTUM!: som produzido pelo omo portugalensis quando despede sua escarretazita na calçada. Forma sonora de marcar território. Tb quer dizer programa de transportes urbanos do município de S. Paulo, Brasil.

BARDAMÉÉÉÉRDA: neologismo oficialmente atestado pelo Sr. Almirante Pinheiro de Azevedo, ex-primeiro-ministro, já falecido. Foi também ele o autor do célebre termo upôvésereno, entretanto caído em desuso.

QUIÊ-ÍE: Q.I. no Norte de Portugal

ÓBÁLHAMEDEUS: expressão típica dos cooperantes portugueses em Timor, quando não sabem nem querem saber o que mais dizer. Atestado montes de vezes por um tal Paulo.

VÓMITÃO: contracção de verbo (ir, 2pp) e advérbio (então); forma de slang muito utilizada entre a R. Augusta e o Intendente, em Lisboa.



(*) esta deu 13 resultados na Google! Deve ser engano.

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19/09/03

A furacona


Novilíngua II


A violência PC (policamente correcta), em especial a nível linguístico, chega a ser hilariante. O DN de hoje titula, a páginas 20:

«Isabel» em fúria varre costa Leste

Esta Isabel é um furacão e a costa é a dos EUA. O fenómeno em si não tem piada nenhuma, principalmente para quem vive naquela zona, mas o nome de baptismo que lhe deram já tem alguma graça.

Através de uma rigorosa sondagem de opinião, num universo de 7 pessoas lá do bairro, e com uma margem de erro de 0,03%, concluí que apenas 14% (1 dessas 7 pessoas) sabia que os nomes dos furacões têm regras: é furacão menina-furacão menino-furacão menina-furacão menino e assim sucessivamente. Qué-se dezeri, agora é obrigatório que os furacões sejam fifty-fifty.

E isto tem, de facto, a sua lógica indestrutível. Então não querem lá ver? É que, dantes, muito provavelmente durante a longa noite fascista, os furacões tinham sempre nomes próprios de mulheres: ele era Ariana, Barbara, Sofia, Amélie, Christianne, etc. Evidentemente, isto era uma tremenda injustiça para o belo sexo (agora isto diz-se "condição feminina") e vá de repor as coisas no devido lugar; em que é que as mulheres são menos do que os homens? Ora, atão vá, ponham lá também nomes de homens a essa coisa, e depressinha, a ver se a gente não se zanga.

Tradicionalmente, e desde que existe uma coisa chamada meteorologia (ciência da atmosfera), os furacões sempre foram designados com nomes próprios femininos; pretendiam aqueles cavalheiros, talvez, homenagear o carácter por vezes irascível das senhoras; pensavam eles que não havia nada mais parecido com um furacão, porque também elas levam tudo à frente, quando se zangam, e são de igual forma imprevisíveis, misteriosas, poderosas; o buraco no centro do fenómeno, um e outro, quase garanto, não terá ocorrido a nenhum meteorologista como pretexto ou mote da analogia.

Foi quanto bastou para que às feministas e a outros espécimes semelhantes tivesse dado um tremendo ataque de cólicas, mas o que é isto, não pode ser, queremos igualdade, e patati-patatá. E pronto, a malta vergou a mola mais uma vez, com sempre, de resto, quando se trata de "igualdade". Portanto, agora temos o furacão Isabel e o próximo há-de ser, com a graça de Deus, quem sabe, Joaquim, Alfredo, John, Bruce ou coisa que o valha; há-de ser furacão macho, dê lá por onde der.

Todos sabemos que isto das quotas para o risco-ao-meio já chegou até ao parlamento; é motivo suficiente para a admissão na FP e nos grandes empórios; qualquer anúncio de emprego deve, por lei, referir (M/F) como condição de candidatura ao lugar - e é muito engraçado ver anúncios pedindo umA SecretáriA qualificadA com essa coisa do M/F. Todos estamos ao corrente destes deprimentes factos. Agora, pelos vistos, quanto às quotas M/F para nomes de furacão é que pouca gente sabe. As estatísticas não mentem, não é?

Talvez fosse boa ideia completar o ramalhete com o género do substantivo, ele mesmo. Furacão é masculino, e, por conseguinte, obviamente desprestigiante e discriminatório para tão delicada, susceptível, injustiçada metade da espécie humana. A massa de ar e água que está agora arrasando a costa Leste dos Estados Unidos da América passaria então a ser, por despacho, a furacona Isabel.

Fica a sugestão. Já agora, por arrasto e por inerência, palavrinhas de igual quilate desigualitário deveriam também mudar de género: vamos a lexicar, prestes, digo, já, tempestado, fúrio, síndromo, doenço, dor-de-cabeço, facado, sopeiro, etc.; neste etecetera deverão ser incluídas todas as palavras que tresandam a coisinha má e que foram, por lapso, classificadas como de género feminino. Pela inversa, que também as há, o mesmo: tipo globa celeste, céuza, Sola, dinheira, ordenada, a automóvel, carra, oura, bronza. Para os termos com ditongo final alguma coisa se há-de arranjar.

O machismo está clarissimamente entranhado na linguística e há que corrigir tão flagrante injustiço.



Feminismo termina no pneu furado (frase de pára-choques de camião brasileiro)

Novilíngua I

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18/09/03

Macacos me mordam


Será verdade que a SIDA se transmitiu à espécie humana através dos nossos primos, os macacos? E que o sexo oral sem protecção deveria ser acrescentado à lista de comportamentos de risco para a transmissão do HIV? E que foram as transfusões de sangue uma das primeiras formas de transmissão? E que esse sangue, se não no todo pelo menos em parte, tinha sido doado mas entrou no circuito mundial de tráfico? E que não está absolutamente provado ou demonstrado quando, como, porquê e com quem se pode ser infectado? E que o número de infectados já atingiu o de mortos na 2ª Guerra Mundial? E que existem casos de pessoas que desenvolvem imunidade, mas desconhecem-se as razões para isso? E que, e que, e que?

Não entremos em detalhes meio capciosos; de tudo isto apenas se poderá talvez concluir que estamos metidos num belo sarilho. Se assumirmos que o nível individual de militância moralista é inversamente proporcional à respectiva moral íntima, bem podemos esperar pela pancada. Aliás, o assalto neomoralista já começou, se bem que ainda apenas pela rama, não indo ao essencial: o namoro e a fidelidade são hoje, de novo, tão valorizados como eram na primeira metade do século XX, para não ir mais longe; a selecção de um único inimigo público é muito mais fácil e massificante do que a dispersão de atenções por vários de igual calibre, daí a absoluta demonização da pedofilia sem qualquer referência a quaisquer outras taras de equivalente perigosidade social, como a zoofilia, a coprofilia ou a necrofilia; paralela e concomitantemente, existem há décadas outros fenómenos, como a perseguição aos fumadores, a obsessão pela saúde, a hipervalorização da juventude, a condenação violenta da contravenção em paralelo com a desculpabilização da verdadeira criminalidade. No limite, aceitando como boa a lógica de Desmond Morris, por exemplo, o que representa esta sanha de uns grupos, maioritários, contra outros, minoritários e por vezes irrisórios, é apenas o instinto de auto-defesa da espécie: estando em causa a viabilidade do corpo, este defende-se; seja esse corpo um ser vivo, um indivíduo, um grupo, uma sociedade ou uma espécie, o princípio da conservação é rigorosamente o mesmo.

A analogia torna-se ainda mais evidente de um ponto de vista biológico: a produção em massa de anti-corpos é despoletada em presença de qualquer corpo estranho, e em proporção com as respectiva violência, quantidade ou perigosidade. Ainda nesta acepção, e por maioria de razões a respeito da SIDA, a reacção torna-se tanto mais urgente, difícil, e geralmente contraditória, quanto é o próprio sistema imunitário o atacado.

Será, portanto, natural que - face a um perigo desconhecido - reapareçam novas cruzadas e novos cruzados contra o inimigo sem rosto, sem nome, e que não se sabe de onde vem. Ora, não é nem fácil nem cómodo - como ilustrou Cervantes - lutar contra coisa nenhuma; factor de coesão do grupo é a instituição do inimigo comum e é necessário que este seja facilmente identificável: "os outros". Sob diversas capas, comunistas ou fascistas, hereges ou infiéis, mas sempre "eles". Esta pulsão natural revela-se nos diversos planos de interacção social, principalmente o político e o religioso, mas sempre estribada na mais básica das ideias: nós somos os bons e os outros são os maus; fenómenos verticais, comuns a todos os grupos humanos, como é hoje o caso da SIDA e foi no passado o da peste, conduzem a crispação social, a aumento exponencial da rigidez nos costumes.

A nova cruzada contra não-se-sabe-bem-o-quê começou, sem qualquer coincidência, em meados dos anos 80 do século passado, precisamente quando foram isolados os primeiros casos e foi possível detectar a progressão geométrica da pandemia. Entretanto, muita coisa mudou. Mas não no fundamental, ou seja, que a nova peste permanece e que é necessário combatê-la. Seja lá como for. Com repressão em vez de informação, provavelmente, com moralismo em vez de ciência, certamente. Levada ao extremo, e parece ser essa a situação actual, a lógica maniqueísta vai separando sucessivamente os grupos de inimigos: se já não são comunistas e fascistas, hereges ou infiéis (dependendo de quem são os "outros"), hão-de ser por força coisa talvez pior, fumadores, devoradores de carne, vermelha pior ainda, aficionados das touradas, adeptos de um qualquer "outro" clube. Na velha tradição, de resto, de diabolizações passadas, fora de moda, por assim dizer, dos bárbaros aos homossexuais, passando por bruxos, bandidos, meliantes, drogados, alcoólicos e "marginais" em geral.

Com outros nomes, os costumes mantêm-se , portanto. Não aprendemos nada desde as pirâmides. Será?

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16/09/03

Informação é poder


Paulo Portas abriu a "saison" com as suas habituais e muito sinceras invectivas contra as coisinhas do costume. Pacheco Pereira respondeu, logo, de repente, abruptamente. Bojarda-resposta, vacuidade-alarvidade, teorema-teoria, boca-rosnanço. Escolha o seu par ou arranje outro mais adequado. Não importa.

O que é significativo, o que é novo nisto, é a nova forma de comunicação que agora surge. Nem o próprio Pacheco se terá apercebido - quando fez o Abrupto - da dimensão e do poder desta nova coisa, os blogs. Resposta, intervenção, diálogo, provocação, seja o que for, mas de imediato, em qualquer ponto do mundo e sem quaisquer interferências ou impedimentos. O próprio conceito de liberdade está aqui muito claramente expresso: liberdade de pensamento, de opinião, de cidadania, sem quaisquer limitações, nem políticas, pelo vazio legal do meio cibernético, nem temporais, pelo imediatismo que faculta, nem geográficas, pela absoluta diluição de distâncias, nem mesmo de meios, pela generalização galopante de recursos informáticos e comunicacionais.

Em resumo, e parece-me que isto passou despercebido até mesmo aos intervenientes: o Paulinho das feiras vociferou em Lisboa, Portugal, e o Josélito atirou-se-lhe às canelas desde Bruxelas, Bélgica, apenas porque existem blogs; de outra forma qualquer, há apenas alguns meses, isto não teria sido possível. Enquanto um debitava sua ladainha, pode bem ter estado o outro com o portátil nos joelhos, escrevendo já seu brilhante massacre a tão vil retórica.

Porque é hoje possível não haver distância (nem tempo), conceitos antigos como ponderação, meditação, ou um módico de prudência, poderão estar já condenados, a caminho da extinção. Ora aí está, caro Dr. Pereira, algo que não consta da sua lista de objectos, coisas e ideias extintas ou em vias de desaparecer; não procure mais longe; a ideia (mais uma) que lançou no seu blog deveria começar por aquilo que vai desaparecendo já em si, em mim, em todos: a paciência. Seja ela para escrever uma simples carta e levá-la no dia seguinte ao marco de correio mais próximo, seja para, mais prosaicamente ainda, pensar um pouco antes de escrever.

Numa perspectiva meramente técnica e evolucionista, estamos perante uma revolução: a Internet, e em particular a técnica "blog", eliminam de facto aquilo que medeava a causa e o efeito, ou seja, o tempo e o espaço. Mas eliminam com igual radicalismo o que tempo e espaço antes implicavam e que perde agora todo o valor: a razão.

Em progressão geométrica, a verificar-se de forma tão absoluta que E=mc2, ainda veremos posts em blogs contestando discursos que ainda não foram sequer proferidos. Não sei bem se isso será bom.

Talvez?

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Caro visitante,
Provavelmente, você é uma daquelas pessoas que gosta de provérbios mas nunca se deu ao trabalho de meditar um pouco sobre o assunto. Muitas pessoas, defendem que um provérbio é uma frase criada pelo povo mas, numa análise mais cuidada, o tema mostra-se bastante mais complexo.
(*)


Ditados populares e expressões idiomáticas portuguesas


Diz-me com quem andas, dir-te-ei quem é.

Não sei se beba um tchá, se coma uma tchouriça.

Grécia, 11 - Portugal, 0 (**)

É Portugal, ninguém leva a mal.

Mais vale um pássaro na mão do que dois na prisão.

25 de Abril nem sempre!

Mais vale Duque de Bragança por um dia do que chifrudo toda a vida.

Ao menino e ao borracho, Deus arranja sempre um tacho.

Calça branca em Janeiro, sinal de que é bichona.

Quanto mais me bates mais gosto de bater em ti.

Uma andorinha não faz a Primavera, quanto mais o Verão.

Nem tanto ao mar nem tanto aterra.

A união faz a forca.

O fado é kinduca e o futebol é kinstrói.

O pior cego é o ceguinho de todo.

Quem não tem cão caça sozinho.

Quem ri por último faz figura de parvo.

Está a chover cães e gatos em Londres.

Somos todos filhos de Deus mas a mãe não sabe.

Boda molhada, boda estuporada.

Sol na eira e nabos no nabal.

Pelo S. Martinho, vai à adega e prova o vinho com parcimónia.

Quem sai aos seus não sabe a quantas anda.

O Benfica é uma naçon, carago.

A reacção não passará nem passarou.

Quanto mais prima, mais desatina.

Cantas bem mas não me alegras.

Somos filhos da madrugada mas só às vezes.

Oito vezes oito são mais ou menos sessenta e oito.

Quem sai aos seus, bálhamedeus.

Patrão fora ou dentro, dia santo na loja.

Quem muito se abaixa, vê-se-lhe a racha.

Amigo do meu amigo, amigo dele é.

Se queres perder um amigo, pede-lhe dinheiro emprestado.

Ó Rosa arredonda a saia, vá lá a ver.

Portugal anda aos papeis desde o século XVI.

Coimbra diz que estuda, Lisboa diz que baila e o Porto diz que trabalha.

Se os brasileiros são nossos irmãos, eu quero ser espanhol.

Se os espanhóis são nuestros hermanos, eu quero ser biafrense.

Homem pequenino, ou poeta ou grande cretino.

A vida é dois dias e o Carnaval é uma porrada deles.

A cada pé seu Louis Vuitton.

Deus põe e o homem dispõe da mulher.

Para Angola, e em força.

Ainda a procissão vai na Rua da Betesga.

Quem espera sempre tem muita pachorra.

Troçar é o contrário de destroçar.

Não me chateia nada que dois e dois sejam quatro.

Quem nesta casa entrar, ao inferno vai parar.

Cada dor de cabeça, sua sentença.

Deus, Pátria, Família, uma dose de caracoletas assadas e um copo-de-três.



(*) fonte inspiradora, salvo seja: http://proverbios.no.sapo.pt/leia-me.htm
(**) título do jornal Público de hoje; a Grécia regista crescimento de PIB positivo há 11 meses; entrementes, Portugal vai negativo. Daí.


(*) ó fonte: "você é um daqueles que" gostam! Ok, chefinho?
GOSTAM
GOSTAM
GOSTAM
GOSTAM
GOSTAM
GOSTAM
GOSTAM
GOSTAM
GOSTAM
GOSTAM

ahhhh. Já me sinto melhor.

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07/09/03

No comment


Alguns bloggers brasileiros, do alto da sua modéstia, acham que os portugueses isstaum um pôkinho atrasados - presume-se que em relação a eles mesmos, brasucas. Pois se até é raro ver um blog portuga com sistema de comentários!
Caríssimos, a explicação é simples: Portugal é um país de trogloditas (é essa a vossa herança genética, certo?); os comentários, nos blogs portugueses, funcionam como balde do lixo; permitir que um qualquer imbecil vomite uma série de patacoadas, geralmente agressivas, provocatórias e insultuosas, borrando por baixo aquilo que escrevemos, é uma tremenda parvoíce. Existem comentadores ou, melhor dito, comentaristas militantes, gentinha que não faz outra coisa além de chatear este e aquele; correm os blogs da moda e, nos que têm sistema de comentários, deixam a sua marca odorífera... isso, como os canídeos de bairro. Procuram assim alguma notoriedade, quanto mais não seja pelo cheiro. E, claro, quanto pior disserem e pior cheirar, melhor. Excelente exemplo daquilo que é e para que servem os sistemas de "bocas" é o velho pipi, recordista mundial de comentários; aqui sim, a coisa adequa-se e tem tudo a ver, como qualquer latrina pública há muitas coisas escritas nas portas e nas paredes, tudo condizente, tudo com o mesmo fedor entranhado, tudo com sarro por igual.
Depois há as paragens obrigatórias, as "blogzonas", por regra com "posts" microscópicos, mesmo a pedir sua bajulaçãozinha a cada um; que ele também há disto, o inverso da pinchagem, tu-comentas-o-meu-que-eu-comento-o-teu.
Por fim, o comentarista militante, que vai a todas, vai também aos outros, aos do fim da lista, aos blogapeadeiros; e é nestes que malha, sistematica e parcimoniosamente.
Não há pachorra. Aqui no Godot, quem quiser comentar ou simplesmente mandar umas bocas que use o email; é mais higiénico. Dispensa-se antecipadamente o esforço, mas vá lá.
De resto, entre as muitas coisas que a maioria dos cromos nacionais ainda não entendeu, há uma que é realidade insofismável: ninguém é obrigado a ler coisa nenhuma; muito menos comentar, portanto. Dentro de uns meses, quando esta moda dos blogs for substituída por outra, absolutamente ninguém se vai lembrar de um único endereço, de um só "post" mais catita, da mais lapidar frase.
Isto é uma ideia gira a termo certo, como tudo na vida. O que aqui se escreve é absolutamente etéreo, porque virtual, valendo muito menos do que uns rabiscos em qualquer toalha de papel. Os "comentários" são como graffittis, pinchagens em parede acabada de pintar. Mesmo os de sentido inverso, os de pura graxa, são igualmente ou mais ainda dispensáveis.
Eu, abaixo assinado, declaro que me estou altamente nas tintas para o facto de alguém me ler ou não. Por isso, não há aqui nada a comentar.

Dodo

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27/08/03

Aviso à navegação


O meu carro é um Opel Corsa, série A, modelo 2, de 1991.
Não tenho pinta nenhuma, por conseguinte. Ao que sei, tendo este facto - indesmentível e ligeiramente enferrujado - presente, o autor deste blog não pode passar de um falhado, idiota, cretino, um teso, pelintra, pé-rapado à brasileira, etc.; será sempre e compulsivamente suspeito de qualquer malfeitoria ou coisa pior ainda, ganda mau aspecto, hmmm, não me cheira, ali anda coisa, não sei o que é mas coisa boa não é de certeza.
A julgar pela imediata e brusca mudança de atitude de 99,9% dos portugueses, assim que me topam ao volante, suponho nem sequer merecer o estatuto de "cidadão nacional", o meu B.I. devia ser-me imediatamente cassado, eu próprio devia ser caçado e metido numa enxovia, algures no Alto Volta (Burkina Faso, ou lá o que é agora). Estarei por certo, ao conduzir tão perigosa e desprestigiante viatura, abusando da sorte e da bondade dos meus semelhantes, e abusando também pelo simples facto de estar vivo; coisa de que muito me penalizo, sinceramente.
Mnemónica: Corsa, A, 91.
Está o aviso feito. Depois não se queixem.

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Requiescat in pace






Terça-feira, Agosto 26, 2003

Nota: Marcamos hoje, 26 de Agosto, o quinto mês de actividade do Posto de Escuta. É essa uma das razões pelas quais não podíamos estar mais revoltados por hoje termos conhecimento de uma tentativa de plágio da nossa página. A página em questão ultrapassa o uso normal (ex. Metablogue) do conceito por trás do 'Posto de Escuta' e faz uso ilegítimo não só da descrição da nossa página (criada por nós a 26 de Abril de 2003) como também de algumas das citações que diariamente seleccionamos. O próprio título e endereço dessa página são elucidativos da óbvia tentativa de associação e identificação com o Posto de Escuta.

Decidimos publicar esta mensagem aqui pois na altura em que o fazemos não existe em nenhum local da página qualquer referência ao(s) seu(s) autor(es) e/ou forma de entrar em contacto com este(s).
O plágio é algo de que, cremos nós, ninguém gosta de ser alvo. É por esse motivo, e para evitar a confusão de alguns visitantes, que achámos necessário este esclarecimento.

A Equipa do Posto de Escuta
postodeescuta@hotmail.com


Terça-feira, Agosto 26, 2003
Vem o Ecos desta forma responder ao Posto de Escuta, pois julgamos ser a nós que se referem (isto depois de termos reparado na vossa descrição). De facto a descrição é a mesma e pelo facto pedimos as nossas desculpas pois confessamos que não tínhamos reparado na vossa. A ideia do Ecos surgiu para guardarmos para nós aquelas citações que mais gostamos dos blogs que mais visitamos e daqueles que vemos esporadicamente. Não temos outro tipo de blog porque achamos que tudo o resto já está escrito e bem escrito. Já que o fazíamos também o podíamos divulgar. Julgamos que citações sempre existiram ao logo dos tempos. Até se vendem livros de citações. Não pretendemos copiar o posto e só o visitamos depois de colocarmos as nossas mensagens. Acusam-nos de colocar citações seleccionadas por vós. Procurámos para ver se tal tinha acontecido porque o que seleccionamos é feito por nós, e encontrámos uma que realmente colocámos depois de vós, tal como encontrámos uma que nós tínhamos colocado primeiro. Julgamos ser natural que dois blogs com o mesmo espírito acabem por ter coisas iguais. Isso acontece em blogs de política, de humor e de tudo o resto. Quantos foram os blogs que falaram da entrevista da Paula Bobone ao DN? quantos a transcreveram na íntegra? algum acusou o outro de se andarem a copiar por causa disso? Tanto o Ecos como o Posto de Escuta sobrevivem à custa de "copiar" palavras escritas por outras pessoas. Não vemos nada de errado em existirem vários blogs assim. Como dissemos o Ecos pretende divulgar blogs, ou apenas frases, que considera interessantes. Achamos natural que, por vezes essas frases coincidam com as escolhas do Posto de Escuta ou de qualquer outro blog de citações. Isso já aconteceu, como dissemos, ao contrário (o Posto de Escuta colocar mensagens anteriormente colocadas pelo Ecos e até achámos graça à coincidência, porque não passa disso mesmo, uma coincidência). Quanto à descrição, uma vez mais pedimos as nossas desculpas. Foi de facto sem intenção que colocámos uma igual. Talvez essa descrição tivesse ficado inconscientemente na cabeça daquele de nós que a sugeriu e os outros não se lembraram que já existia. Apenas achámos que tinha tudo a ver com o nome do Blog. De qualquer maneira até nem nos parece algo muito grave. Se duas mulheres forem loiras de olhos azuis, só porque uma nasceu depois não se vai dizer que ela é morena de olhos verdes. Afinal somos mesmo Ecos da Blogosfera. Mas, como não queremos ferir susceptibilidades (nem nunca nos passou pela cabeça que o Posto de Escuta quisesse o universo de citações só para si, ou teríamos pensado duas vezes antes de enveredarmos por um caminho que ia ofender outros), mudaremos a descrição. Por enquanto, e enquanto não conseguirmos chegar a um consenso sobre aquela a ser colocada, ficaremos sem nenhuma. Aos nossos leitores pedimos desculpas por toda esta confusão e, caso tenham sugestões para uma nova descrição, podem contactar-nos para o email: blogoecos@hotmail.com 8:58 PM

Blogoecos


Quarta-feira, Agosto 27, 2003

Por tudo. Por nada. Descontinuamos o Posto de Escuta.

Desistimos não porque alguém nos acusa de querer ficar com o 'universo das citações' por afirmarmos de que fomos alvo de plágio. Desistimos não porque alguém diz que copiar a nossa descrição (ecos da blogosfera), dar o nome de 'Ecos' a uma página, ter o endereço 'blogoecos' e um mapa-mundo como imagem foi feito sem 'reparar'. Desistimos não porque 'amuámos', porque sim amuámos. Desistimos não porque alguém criou uma página com o mesmo conceito que o Posto de Escuta, algo legítimo e normal. Desistimos porque ao trazer tudo isto para a nossa página acabámos por, nossa culpa, macular algo que durante 4 meses deu-nos imenso trabalho e prazer fazer. De resto, o 'universo das citações' é algo que nunca nos motivou nem nos interessa. Mas sabemos que depois disto o Posto de Escuta já não seria a mesma coisa para quem o lê e faz. O Posto de Escuta nunca foi sobre quem o fez, mas ontem ultrapassámos esse ponto, sem regresso.

Obrigado.

Posto de Escuta




Posso mandar palpites?


Ora portantos. Prontos. O Posto de Escuta finou-se, inda agora inda agorinha. Já antes tinham "descontinuado" o servicinho que dava um trabalho dos diabos, e que era arrumar os blogs portugueses por categorias; estas eram absolutamente arbitrárias, e foi com uma sensação de alívio geral que aquilo desapareceu; classificar o Blog de Esquerda ou o Cruzes Canhoto, por exemplo, como "serviço público", não lembrava ao careca. E nem sequer denuncia nada, nem tendência política nem coisa nenhuma, nada, nadinha, era uma coisa muito bem feita.

Agora, quanto ao que restava do Blogo, e que era precisamente este "posto de escuta", chapéu, acabou-se também. Diz que ele há por aí um malandro que lhes copiou a ideia, e tal, e tal. Os gajos que, de facto, copiaram a ideia, a papel de esquisso virtual, dizem que não senhor, que a net é livre, que não tinham reparado (!), e mais umas coisas assim; ler os "posts" completos é muito mais giro do que estar aqui a condensar. Seria boa ideia, talvez, se não pretendem apagar o sáite, era mudar o título das páginas: para o Blogo, passaria a ser "blogo, logo não existo" e o posto de escuta devia passar a "posto de escuta surdo e mudo".

Que patuscos, les uns et les autres. Oh, que grande tristeza! Então agora já acham que serem copiados é mau, ó do ex-Blogo? Hem? E vocês outros, os dos blogotraques, sentem-se muito espertinhos, hem, com as vossas comparações e analogiazinhas descabeladas, hem?

O Blogo contém material copiado, no conceito, no método e no processo. Já se esqueceram, ou só é plágio quando são os outros a copiar?

O "ecos" plagiou, sim, literalmente. Ponto. Não adianta nada estar agora com subtilezas comparativas ou usar variantes dialéticas, a ver se cola; o que alegam não passa de um chorrilho de desculpas atrapalhadas, de retórica mal enjorcada, de citações mal feitas de um qualquer alucinado.

Em resumo: estão bem um para o outro, estes dois. Não produzem, apenas reproduzem; e, mesmo só colagens, fazem mal, fazem a trouxe-mouxe, sem quaisquer critérios perceptíveis. E têm ambos a suprema lata de achar que "fazer" aquilo dá imenso trabalho. Bem, ao menos aos do Blogo também "dava prazer"; para os dos "ecos", o que deve dar grande prazer é terem conseguido criar toda esta confusão. Parabéns!

Espero agora que os novos "donos" das citações não se "zanguem" por causa das colagens lá em cima. Quando leio alguma coisa que, na minha opinião, vale a pena reproduzir - como quem guarda um bilhete - também aqui no Godot se faz algum webclipping; até existem serviços especializados nisso, sabiam? E programas específicos, sabiam também? Pois, calculo que soubessem, afinal é essa a vossa especialidade.

Por definição, plágio é a apropriação do trabalho alheio, literário ou artístico, em proveito próprio. Na Internet, sociedade virtualmente anárquica, este conceito deve ser alargado... por paradoxal que isso pareça; o manancial de conteúdos virtuais circula livremente onde não existem nem Estados, nem leis, nem poderes, nem estrutura, nem instituições; o que resta para que a "web" se não transforme numa anarquia absoluta é o mais elementar sentido de justiça humana: se já existe um processo, se já alguém descobriu uma forma de alcançar um resultado, se já existe um serviço, uma ideia que funciona, reproduzi-la é plágio puro e duro; se omitir as fontes é, no mínimo, deselegante (e plágio), fazer exactamente o mesmo que outrem já produzia é desonesto (e é plágio). Ou nos regulamos por leis tácitas, baseadas na mais simples decência, ou isto não tem de facto futuro algum.

Ou então, e isso é o mais certo, também a "net" será no futuro o reino dos parasitas.

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25/08/03

MR. VON HEINZ
Valiant Privatbank AG
Postfach 3001 Bern,
Switzerland


Sir;

PRIVATE AND URGENT.

I am contacting you on business transfer of a hugh sum of money from a deceased account. Though I know that a transaction of this magnitude will make any one apprehensive and worried, but I am assuring you that all will be well at the end of the day. We decided to contact you due to the urgency of this transaction.

PROPOSITION;

We discovered an abandoned sum of US$5,500,000.00 (Five million five hundred thousand united states dollars) in an account that belongs to one of our foreign customers who died along with his entire family. Since his death, none of his next-of-kin or relations has come forward to lay claims for this money as the heir. We cannot release the fund from his account unless someone applies for claim as the next-of-kin to the deceased as indicated in our banking guidelines. Upon this discovery, we now seek your permission to have you stand as a next of kin to the deceased as all documentations will be carefully worked out by us for the funds (US$5,500,000.00) to be released in your favour as the beneficiary's next of kin. It may interest you to know that we have secured from
the probate an order of madamus to locate any of deceased beneficiaries.

Please acknowledge receipt of this message in acceptance of our mutual business endeavour by furnishing me with the following;

1. Beneficiary name and address

2. Direct Telephone and fax numbers

These requirements will enable us file letter of claim to the appropriate departments for necessary approvals in your favour before the transfer can be made. We shall be compensating you with a million dollars on final conclusion of this project, while the rest shall be for us. Your share stays while the rest shall be for us for investment purposes. If this proposal is acceptable by you, do not take undue advantage of the trust we have bestowed in you, I await your urgent mail.

Regards,

Mr. Von Heinz.

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PUBLIC AND NOT THAT URGENT
TAKE YOUR TIME


Dear Sir,

Please go fuck yourself. Put your 5,5000,000.00 dollars where the sun never shines.

Regards,

Mr. 001

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micro-Blogssário


Blog: s.m., diário virtual; o m.q. weblog
blogue: aportuguesamento bacoco do termo original Inglês "blog"; curiosamente, não existe "uébelogue"
blogger: autor de blog
blogosfera: o universo dos blogs, mas presume-se que este universo seja restrito. Enfim, o universozinho dos blogs portugueses, onde se criam e cimentam belas inimizades.

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22/08/03

Novilíngua


Há palavras, nomeadamente as mais recentemente atestadas, que denunciam perfeitamente intenções, posições políticas, maneiras de ser, não apenas de quem as criou - ou atestou, o que vem a dar no mesmo - como de quem utiliza essas em detrimento de outras; existem sempre termos equivalentes em significado, palavras mais antigas e com uma raiz etimológica vetusta, perfeitamente identificável e, portanto, com muito superior eficácia linguística, ou seja, eficiência comunicativa.

Por exemplo, o termo "gay", anglicismo geralmente aceite com o significado de "homossexual"; a raiz etimológica deste barbarismo estará algures nas ruas de Nova-Iorque e não em qualquer evolução gramaticalmente analisável; "gay" (alegre), pressupõe, implica, insinua, quer dizer que o seu oposto (os heterossexuais) são, por conseguinte, "tristes" (sad). A designação não é nem arbitrária, nem casual, nem sequer inocente.

"Conservador". Designar desta forma posições políticas ditas "de Direita" não é absolutamente (de forma alguma) arbitrária ou fruto do acaso e não tem qualquer sustentação pragmática, ou sequer factual, ou mesmo política - se for uma pessoa de Direita a argumentar sobre o assunto. "Conservador implica que o seu inverso é "progressista", isto é, que estes desejam o progresso, a melhoria das coisas, e, portanto, o bem; e que os "outros", os "conservadores", pelo contrário, são um grupelho de facínoras que apenas pretende que tudo fique cada vez mais na mesma, ou que, de preferência, ande para trás até aos bons tempos das cavernas. Não é inocente. Progressista é bom, conservador é mau; se uma coisa é positiva, a outra apenas pode ser negativa, é essa a ideia.

Hoje em dia, há coisas que "não se podem dizer". Na União Europeia, é proibido falar de "deficientes"; não existem deficientes; não há disso, na Europa; o que há é "pessoas portadoras de deficiência".

Há uns anos, durante a primeira cruzada politicamente correcta (anos 60, 70 e 80 do século XX), rapidamente se instituiu que não se devia dizer "pobres" mas "desfavorecidos" (portanto, os outros eram "favorecidos"), em vez de "criados" devia ser "empregados", "invisuais" em vez de "cegos", "terceira idade" em vez de "velhos", etc. Portanto, hoje em dia uma criança ("jovem") não deve perguntar a sua mãe que o leva respeitosamente - e um pouco amedrontada - pela mão:

_ Ó Mãe, olhe ali um cego!

Deve proferir uma sentença do género

_ Pá, olha ali uma pessoa portadora de deficiência. Yá, que cena! É invisual, não é? Quero um gelado.

Acabaram-se os "contínuos" nas escolas; agora temos técnicos auxiliares de educação; por causa disso ou talvez não, naqueles tempos da "longa noite" os contínuos trabalhavam alguma coisa e agora, com aquela designação complicadíssima, não fazem nada de nada. Quem agora lava arrastadeiras nos hospitais já não são as "serventes", são as técnicas auxiliares de saúde e higiene; por esse motivo, ou talvez não, agora as arrastadeiras são lavadas por máquinas e aquele pessoal de alto coturno dá azo à sua óbvia inteligência, em conversas intermináveis, de preferência em altos brados. Qualquer badameco tem, hoje em dia, não uma profissão mas a respectiva designação superprestigiante, faça muito, pouco, ou nada, seja bom, medíocre ou execrável naquilo que era suposto executar.

Um preso é "detido", ou "recluso, mais exactamente. Pancadaria da grossa é "desaguisado", "altercação acalorada", "distúrbio da ordem pública". Não há pirómanos; o que há é "alegados autores de fogo-posto". Um assassino é obrigatoriamente uma pessoa perturbada que terá, alegadamente, molestado fisicamente um transeunte, factos de que - alegadamente - terá resultado a morte deste.

O bordel era uma instituição completamente fascista que foi substituída pelas palavras bar de alterne, bar de "charme", clube de "strip", "casa de meninas" e outras coisas assim. Nestes prestigiados locais de diversão trabalham profissionais de entretenimento, verdadeiras técnicas superiores de assistência social, formadas na arte de receber.

Roubar não é roubar, é furtar; alegadamente, claro. Fugir à polícia é evitar a detenção. Mandar uma pessoa à merda é promover a discórdia.

Inadmissível hoje em dia, por exemplo, é um professor "castigar" (repreender) um aluno se este, por mero acaso e sempre alegadamente, promover a discórdia incluindo no seu discurso um dos progenitores do dito professor (vai à merda, ó filho-da puta).

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Olha! Bom Português!


COIMBRA É UMA LIÇÃO
O Abrupto inseriu anteontem um post notável sobre a "desresponsabilização e a boçalidade" associadas a um Telejornal da RTP. Entre outras peças grotescas a que assistiu, o autor do texto evoca uma em que um grupo de estudantes da Universidade de Coimbra, de capa e batina negras, canta alegremente «é o branco, é o tinto que me faz levantar de manhã».
A estudantes de Coimbra, já eu ouvi muitas histórias. Curiosamente, em nenhuma delas se abordava o mérito científico ou pedagógico dos catedráticos, ou as horas de estudo árduo, ou outras futilidades quejandas. Não. O teor das histórias costuma ser mais elevado. Elogiam-se as proezas sexuais dos académicos, enumeram-se os bons jogadores de bilhar, contam-se as façanhas dos bebedores de gin mais apurados.
É mesmo assim. Sem tirar nem pôr. Se um estudante palavroso, satírico, desleixado em sua compostura, ébrio, insultador de docentes, não consegue a estimação pública, é pelo menos certo grangear fama de talento e um desgraçado prestígio entre os colegas mais convizinhos dos seus vícios.
A vinolência, entre os académicos, é distinção invejável: quem beber duas valentes litradas e digerir de pé o seu álcool atinge o acume da celebridade. E não é de agora. A velha cidade sempre distinguiu penosamente entre os que se literatavam e os que se litravam...

Nova Frente

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21/08/03

Mote
Primeiro levaram os comunistas,
mas eu não me importei
porque não era nada comigo.

Em seguida levaram alguns operários,
mas a mim não me afectou
porque não sou operário.

Depois prenderam os sindicalistas,
mas eu não me incomodei
porque nunca fui sindicalista.

Logo a seguir chegou a vez
de alguns padres, mas como
não sou religioso, também não liguei.

Agora levaram-me a mim
e quando percebi,
já era tarde.

Bertolt Brecht



Glosa
Primeiro combati os fascistas
porque eram eles o inimigo
e o combate era comigo.

Em seguida combati os socialistas
porque eles eram também da reacção
e eu só quero a liberdade.

Depois liquidei uns camaradas do Partido
essa corja de traidores e revisionistas
porque nós só queremos a verdade.

Logo a seguir combati os outros todos
à direita, ao centro, à esquerda
e ficou no mundo apenas um.

Agora sei que tinha razão
e com toda a justiça dialética
fiquei sozinho no paraíso.

Dodo

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17/08/03

Procura marido? Mas porquê, coitadinha? Ké kasá? Mas, mas, mas, mas...


Deve ser um dos casos de maior "sucesso"(*) da blogosfera e já há muito que tinha a pergunta entalada, salvo seja: mas que raio de ideia é essa de "procurar" marido? Também espera levar uma martelada na cabeça? Gostaria que lhe caisse um autocarro em cima? Tem esperança de que um dia a sorte lhe sorria e lhe nasça um belo tumor no cérebro? Adora quando lhe fazem colonoscopia? E riscos na viatura, dá-lhe gozo?

Ainda por cima, não é caso único, o desta senhora mai-la sua ideia peregrina; veja-se a maluqueira, canudo, também há o desejo casar, com não apenas um bloguista solitário, mas uma molhada deles, uns dez, e com uma rapariga pelo meio. Nem assim. Que horror. Casar? Casar? Repito: casar???

Bom, pensando melhor, compreende-se o "sucesso"(*): são uns brincalhões mas sabem-na toda, estes que se dizem "abertos" a casar, ora pois, entendi-te, claro, vejam bem, é uma coisa tão estranha que vai lá tudo ver. É isso, não é? Só pode. Truquezinho de psicologia de massas, é o que é.

Pois. Uma pessoa pode abordar um perfeito desconhecido, no meio da rua, e dizer "olhe, desculpe, o senhor dá-me lume", mas já não é lá muito normal a gente chegar-se a qualquer um e pedir convictamente "olhe, desculpe, o senhor não se importa de me dar um murro no focinho, fáxavor".

Portanto, se bem que não seja grande novidade, aqui fica a receita infalível para blogs de "sucesso": a coisa está toda no título, que deve ser "simple, blunt, striking" (SBS). O conteúdo é o que menos importa desde que se tenha um bom título; por exemplo "adoro Masoch", ora aí está um giro; ou "Coprofilia", dentro do género; "Heil Hitler"? Hmmm, que tal?

Por alguma razão os blogs portugueses de melhor conteúdo têm nomes sem grande significado (o Aviz, por exemplo).


(*) - blog de sucesso: milhares de visitantes, citações na imprensa, lista de links bem comprida, alta cotação na blogshares, centenas de comentários a cada "post"

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12/08/03

Roçar mato


Meus caros (3) leitores, como toda a gente vai debitando seus avisados palpites sobre o assunto, pois eu também quero. Lá vai palpite sobre o fogo, os fogos, Portugal a arder, etc.

Aquilo que me encanita e me apresso portanto a comunicar-vos, a todos os três, é a respeito de uma das causas mais referidas como explicação, ou causa, dos incêndios florestais: a "limpeza" das matas. Todo o bicho careta, desde o simples "popular" entrevistado pelo repórter no local ao ministro mais pintado, em ilustre mesa-redonda, toda a gente enfim "acha" que o problema é que os bosques e pinhais não ardiam se estivessem "limpos", isto é, sem "mato"; se bem entendi, tratar-se-ia então de pôr uma quantas pessoas a roçar mato, de Outubro a Maio, por forma a que, no Verão, o fogo não, digamos, hmmm, portanto, a bem dizer, ardesse; recompondo a frase, a ver se a gente se entende: a mata sem mato não arde. Espantoso. Estou varado, por assim dizer.

Portugal tem (tinha, até há uns dias) uma das maiores áreas de floresta, em percentagem, de toda a Europa: 8,9 milhões de hectares de terrenos vocacionados, dos quais 3,3 estão (estavam) efectivamente florestados.

Façamos umas continhas de cabeça, começando pelos números básicos: hectare é o mesmo que 10.000 metros quadrados, ou um quadrado com 100 metros de lado; para facilitar, e como se costuma dizer, é sensivelmente equivalente ao relvado de um campo de futebol (120X80); portanto, a área florestal a "limpar", segundo os iluminados ministros e populares, seria qualquer coisa como 3,3 milhões de campos de futebol. Escusado será dizer que a floresta não é plana e lisa como os relvados da Luz ou de Alvalade; mas isto é detalhe. Temos, portanto, 3,3 milhões de hectares (que poderão ir a 8,9) para "limpar", todos os anos, durante 240 dias - evidentemente, incluindo Sábados, Domingos, dias feriados, "pontes" e outras artistices nacionais. Ora, isto dá 13.750 hectares (campos de futebol) por dia; a oito horas de trabalho por dia, isso é que era bom, mas enfim, teríamos então 1.718 campos por hora. Quantos metros quadrados de mato consegue um ser-humano roçar, por hora? 50? 100? Vale a pena continuar?

Não, não vale, até porque isto é uma falsa questão. Que se faça isso nas imediações das habitações, nas bermas das estradas, etc., claro, encantados; muitas vezes, o fogo chega a edifícios e infraestruturas precisamente porque as imediações estão, aí sim, "sujas". Mas esta "sujidade" é diferente, os motivos são diferentes, e diferentes são os meios necessários para a "limpeza". Na floresta, o mato faz parte do ecossistema: restolho, caruma, rebentos, caniços, flores, frutos, árvores mortas, galhos caídos, tudo é ou virá a ser matéria em decomposição que irá alimentar a própria floresta; caso se removesse toda essa matéria orgânica, como poderia a floresta sobreviver?

A Amazónia, por exemplo, foi alguma vez "limpa"? Alguém até hoje se lembrou de roçar todo o mato de qualquer floresta, seja ela "virgem", natural, ou de plantação humana, mesmo as de exploração industrial?

O argumento de que o fogo se propaga através do mato rasteiro, o que é rigorosamente verdade mas apenas meia-verdade, não vinga, pura e simplesmente; mesmo sabendo que existem diversos tipos de exploração florestal, é óbvio que os grandes incêndios florestais se propagam também de árvore para árvore, seja pelas copas seja pelo simples aumento da temperatura nas imediações do foco; o vento encarrega-se de propagar o fogo a grande velocidade, com mato ou sem mato.

Os húngaros, que também têm árvores lá no país deles, inventaram uma máquina de extinção de incêndios muito engenhosa: tiraram a torre a velhos tanques de guerra e montaram-lhes em cima uma turbina de avião a jacto; esta espécie de tanque a jacto, telecomandado, aproxima-se da frente do fogo e, ligando o jacto na potência máxima, apaga-o com o sopro fabuloso. Mistura de T34 e Mig19, esta máquina de paz feita de despojos de guerra já deu provas mais do que suficientes: funciona, que é o que interessa. E, além disso, recicla material de sucata.

Já os americanos e canadianos, por exemplo, adoptam diversas estratégias, em função de cada tipo de incêndio. No caso dos grandes fogos florestais, juntam diversos especialistas, de múltiplos ramos e, com a ajuda de instrumentos, calculam onde devem começar a cavar; usam retroescavadoras e arrasam tudo no perímetro calculado, isolando o fogo; fazem um anel de vazio, espécie de terra-de-ninguém a toda a volta, e dali o fogo não passa.

Em Portugal, dá-se mangueirada nas labaredas e atiram-se uns baldes de água para cima do fogo. Calda retardante, pelos vistos, não temos. Os aviões e helicópteros despejam uns litros, mais ou menos no sítio que está a arder, e vão dali reabastecer a 300 km.

Em Portugal, a boa vontade e o esforço dos bombeiros não chegam para muita coisa. Em Espanha, que ainda é aqui ao lado, arderam 10% da nossa área queimada; num país que, mesmo não sendo tão relativamente florestado, é absolutamente 546% maior.

Em Portugal, estão mais de 20.000 soldados nos quartéis, atentos à muito provável invasão de melgas e mosquitos.

Pronto. Era isto. Obrigado pela paciência, amiguinhos.

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