O convívio com os gatos torna as pessoas estranhas. Está finalmente provado. É como uma hipnose, um feitiço. Quem tem gatos em casa fica esquisito, comporta-se como uma marioneta, cujos cordelinhos fossem puxados pelo próprio bichano, à distância, em silêncio, enquanto ronrona no sofá. O poder do tareco é implacável, imbatível e inimputável, porque actua no nosso inconsciente. Comportamo-nos de forma alterada mas não sabemos porquê, acreditando que o problema está em nós. Ou não enxergando sequer o problema, até ser tarde de mais. Mudamos de personalidade, falamos e é como se alguém falasse pela nossa boca, movemo-nos como robôs teleguiados, fazemos figuras tristes, metemo-nos em sarilhos, armamos em parvos, fazemos discursos brilhantes, afirmações cretinas, pomo-nos nos píncaros, caímos no ridículo, barafustamos, intrigamos, agredimos, tudo por culpa do gato, lá em casa a trincar espinhas e a manipular-nos, com todo o sangue-frio, metódico, até nos levar à destruição.
Mas o mais terrível é que o próprio gato está inocente. Na realidade, não é ele que se apodera da nossa mente. É apenas o veículo de uma força muito mais poderosa, uma entidade do limbo e das trevas, monstruosa, ardilosa, disforme e minúscula; um protozoário unicelular, um parasita, um chulo chamado toxoplasma gondii.
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É no cérebro de um rato que o toxoplasma passa os endiabrados anos da adolescência, mas é no intestino de um gato que desabrocha para a plenitude da vida adulta.(...) O que se sabe é que o toxoplasma se reproduz furiosamente, largando, de cada vez, uns 600 milhões de ovos que o incauto gato defeca e espalha por todo o lado. No solo, essa espécie de quistos pode esperar 18 meses até, na melhor das hipóteses, acabar por ser ingerida por um rato. No organismo deste, penetra no fluxo sanguíneo e surfa alegremente até se cravar num neurónio. É aí que conhece as primeiras alegrias e também as primeiras decepções da vida mas, para se desenvolver cabalmente, tem de regressar ao intestino de um gato. Como? Esperando, naturalmente, que o felino coma o roedor, como é da tradição.
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É muito comum que os ovócitos acabem no estômago de outro animal, ou de um ser humano. Basta que este coma vegetais mal lavados, ou carne mal passada, ou de alguma forma frequente os locais infestados pelas fezes dos gatos. A probabilidade de isto acontecer é enorme. Estima-se que 30 por cento da população mundial esteja infectada com o toxoplasma gondii e, nalguns países, como por exemplo a França, essa incidência seja próxima dos 90%.
Mas isso nunca preocupou os médicos e os biólogos, convencidos de que essa presença larvar do parasita no organismo era inofensiva, excepto em casos especiais,como o das grávidas ou o de indivíduos com os sistema imunológico enfraquecido, como os doentes de sida. Neste último caso, é frequente que a toxoplasmose leve à morte e, no caso das mulheres que a contraiam durante a gravidez, é provável que a criança venha a ter problemas mentais. Isto era sabido, pelo que há muito estão estipulados cuidados especiais nestas situações de risco. O que agora se descobriu foi que o toxoplasma é incapaz de viver sossegado. E que, uma vez instalado no cérebro de qualquer ser humano, começa a provocar-lhe alterações de comportamento.
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Segundo estudos realizados com centenas de voluntários, os homens infectados são mais agressivos, mais rebeldes, mais desconfiados e ciumentos, mais anti-sociais e menos inteligentes. As mulheres com toxoplasma no cérebro, segundo os cientistas, são mais alegres, mais comunicativas, mais afectuosas, com mais tendência para a mentira e para a infidelidade, ou mesmo para a promiscuidade, e apresentam um QI mais elevado.
(...) Mas o que pretende o obnóxio toxoplasma gondii fazer connosco? Trata-se de um erro de cálculo que leva o parasita a querer que sejamos comidos por um gato? Os cientistas temem que a realidade seja bem mais sinistra. Encurralados num cérebro humano, sem hipóteses de aceder à terra prometida, que é o intestino de um gato, o diabólico protozoário engendrou outro plano para se libertar: levar-nos à auto-destruição. Obviamente pouco preocupado em ser politicamente correcto, lá pensou que tornando os homens desconfiados e estúpidos e as mulheres promíscuas e inteligentes, conduziria os humanos a confrontos sangrentos e à morte.
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texto de Paulo Moura, revista Pública (suplemento do jornal Público), 05.10.03
(foto de www.anth.org/")
Se non é vero, é bene trovato. E explica muita coisa.







