Psst, táxi!
Uma das classes sociais mais protegidas, em Portugal, é a dos chamados "pracistas". Aferrolhando a sua expressão nº 3, a de vítima, qualquer "chófer" de táxi se considera o mais perseguido dos mortais. Governo, comunicação social e público "em girali", toda a gente anda muito preocupada com a "segurança" dos taxistas; parece que, de vez em quando, alguns são assaltados, e até já calhou um ou outro ser assassinado.
E então agora temos carrinhos de aluguer, transportes públicos, cheios de "gadgets" securitivas, divisória em acrílico resistente - com uma portinhola de correr, que serve para falar com os animais que vão atrás - e luzinhas de segurança no tejadilho, e ligação rádio permanente, e agora sistema GPS, e etc., um estendal.
A questão, para o comum dos mortais que tem o azar de precisar dos serviços daquela gente, é a seguinte: que medidas estão previstas para proteger os passageiros do motorista? Sim, pergunto eu, como nos havemos de proteger, nós, os clientes, daqueles compatriotas que vão no lugar do condutor? Como evitar que o passageiro seja assaltado pelo taxista, como tantas vezes acontece? Como nos havemos de preservar de agressões como são o rádio aos berros ou, pior ainda, as imbecilidades que eles adoram gritar para o banco de trás?
Isto não é uma daquelas críticas destrutivas do costume, não, que isso é fácil e não está nos meus hábitos de ave corredora. Isto é uma crítica construtiva, pelo contrário, e portanto há que avançar soluções, sugestões para que o problema se resolva e se equilibrem finalmente as forças. Sugiro, portanto, que seja concedida automaticamente, ao utilizador frequente do serviço, licença de porte de arma; de preferência, arma de guerra (calibres acima de 7,65), já que bem sabemos todos que aqueles meninos não são para brincadeiras e eles próprios trazem consigo, na sovaqueira, no porta-luvas e por baixo do banco, um arsenal de respeito.
Quanto ao ruído ambiente, dentro do táxi, deveria ser obrigatório, como equipamento de base, abafadores de ouvidos, daqueles que usam os tipos das raquetes, nos aeroportos. O taxista deveria ser obrigado a tirar um curso de linguagem gestual, a única forma de comunicação que lhe devia ser permitida.
Os tais separadores em acrílico teriam de ser substituídos por modelos blindados, talvez em aço reforçado, por forma a eliminar a possibilidade de qualquer contacto visual entre condutor e passageiro. Isto teria também a vantagem acessória de inviabilizar quaisquer instintos assassinos do condutor. O pagamento poderia ser feito pelas janelas, sendo que, nessa ocasião, o passageiro teria o direito a apontar ao taxista a sua arma de utilizador, dando a entender àquele que este pretende a sua facturazinha como deve ser.
No lugar-do-morto deveria tomar assento um agente da autoridade, munido da sua arma de serviço (o bloco-notas), por forma a que ficassem registados os desacatos, os desmandos, as grosserias proferidas, as infracções de trânsito, etc. Isto serviria ainda para que agente e condutor pudessem confraternizar, falar de futebol, suspirar por um novo Salazar em cada esquina, etc.
Enfim, equilibremos um pouco as coisas. Não é necessário mexer nas tarifas, já que se tornaram em roubo institucionalizado, e são portanto intocáveis, mas não é justo que apenas as pessoas habilitadas com o diploma da 4ª classe tenham todas as armas e todos os direitos.
Seria de, por conseguinte, a quem de direito, pedir deferimento.