Odi profanum vulgus et arceo

07/11/03



um blog útil



O lisboeta vizinhos é um dos poucos a fazerem-nos ainda acreditar que isto dos blogs serve para alguma coisa de útil. Além de textos sobre o que se vai passando, principalmente mal e outras vezes pessimamente, em Lisboa, existe ali uma petição/abaixo assinado contra os altifalantes da Baixa-Chiado.

De facto, é mais uma peregriníssima ideia, essa de pôr "música" em altos berros nas ruas da baixa lisboeta. Doze horas por dia, bálhamedeus! O leit motiv, ou tema-guia, do abaixo-assinado é

OS ABAIXO-ASSINADOS SÃO CONTRA O SOM QUE É IMPOSTO PELA CÂMARA MUNICIPAL DE LISBOA A PARTIR DOS MAIS DE 100 ALTIFALANTES QUE ‘ORELHAM’ OS CANDEEIROS DA BAIXA LISBOETA DURANTE DOZE HORAS DO DIA.

Enfim, recomenda-se vivamente uma visita e, já agora, a assinaturazinha; é necessário número do B.I.

Já agora, e aproveitando o balanço, para quando um abaixo-assinado, mas desta vez à escala nacional, contra a sonorinfestação em geral? Porque diabo havemos de levar com "música" (aos berros sempre aos berros) em tudo o que é sítio? Nos combóios e nas estações, nos autocarros da Carris e nos barcos da Transtejo, nas áreas de serviço das auto-estradas, nos cafés e nas tascas, no andar de cima, no do lado e no de baixo, nos bólides dos malandros, em todo o lado, todo o lado, todo. Que tristeza. O que terá feito de mal o silêncio, esse saudoso companheiro do início dos tempos? Outra espécie em vias de extinção, o silêncio. Ora, espécies extintas é com o Dodo. Tema para um próximo "post", assim sendo.

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04/11/03

Houaiss do Diabo


Ena, descobri um errozito no Mafarrico:
E, se o leitmotif inicial do debate era uma bete noir da politica o honorável Dias Loureiro, e a homenagem que a Universidadede Coimbra lhe prestará na qualidade de mecenas, o debate em si mesmo revelou-se interessante e paradigmático.(permalink)

Pois, nem sequer é calinada na língua pátria, não, nem calinada nem canelada no Português, e o dos cascos até não escreve malzinho, mas enfim. Leitmotif, chefinho? Hmm? Gralhazita, hem, ou já aí tendes o próprio Houaiss, e mais o Torrinha?

Ó que tristeza. Não era suposto, além de condenar verbalmente, e razoavelmente, repito, todos os penitentes blogueiros, ao fogo eterno e às chamas da razão, mas, porém, contudo, dizia, não era suposto saber seu pedaço de Alemão? E, já agora, também sua nesga de Francês? Bete noir? Refere-se, com certeza, a uma "soap-opera" americana.

Hmm, pois. Olha, afinal não era um errozito, eram dois. Claro que há lá mais, coisas de somenos, subtilezas como "poderá candidatar-se", em vez de "poder-se-á candidatar", "labiríntica", sim, mas com acento, umas conjunções fora do lugar, etc., mas tudo absolutamente irrelevante, se comparado com o tremendo brilhantismo das castigações aplicadas a trouxe-mouxe, blogosfera fora.

Bem, Mestre, hem, sem ofensa, vá lá.

(já ganhei o dia, hi hi hi)

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Psst, táxi!


Uma das classes sociais mais protegidas, em Portugal, é a dos chamados "pracistas". Aferrolhando a sua expressão nº 3, a de vítima, qualquer "chófer" de táxi se considera o mais perseguido dos mortais. Governo, comunicação social e público "em girali", toda a gente anda muito preocupada com a "segurança" dos taxistas; parece que, de vez em quando, alguns são assaltados, e até já calhou um ou outro ser assassinado.

E então agora temos carrinhos de aluguer, transportes públicos, cheios de "gadgets" securitivas, divisória em acrílico resistente - com uma portinhola de correr, que serve para falar com os animais que vão atrás - e luzinhas de segurança no tejadilho, e ligação rádio permanente, e agora sistema GPS, e etc., um estendal.

A questão, para o comum dos mortais que tem o azar de precisar dos serviços daquela gente, é a seguinte: que medidas estão previstas para proteger os passageiros do motorista? Sim, pergunto eu, como nos havemos de proteger, nós, os clientes, daqueles compatriotas que vão no lugar do condutor? Como evitar que o passageiro seja assaltado pelo taxista, como tantas vezes acontece? Como nos havemos de preservar de agressões como são o rádio aos berros ou, pior ainda, as imbecilidades que eles adoram gritar para o banco de trás?

Isto não é uma daquelas críticas destrutivas do costume, não, que isso é fácil e não está nos meus hábitos de ave corredora. Isto é uma crítica construtiva, pelo contrário, e portanto há que avançar soluções, sugestões para que o problema se resolva e se equilibrem finalmente as forças. Sugiro, portanto, que seja concedida automaticamente, ao utilizador frequente do serviço, licença de porte de arma; de preferência, arma de guerra (calibres acima de 7,65), já que bem sabemos todos que aqueles meninos não são para brincadeiras e eles próprios trazem consigo, na sovaqueira, no porta-luvas e por baixo do banco, um arsenal de respeito.

Quanto ao ruído ambiente, dentro do táxi, deveria ser obrigatório, como equipamento de base, abafadores de ouvidos, daqueles que usam os tipos das raquetes, nos aeroportos. O taxista deveria ser obrigado a tirar um curso de linguagem gestual, a única forma de comunicação que lhe devia ser permitida.

Os tais separadores em acrílico teriam de ser substituídos por modelos blindados, talvez em aço reforçado, por forma a eliminar a possibilidade de qualquer contacto visual entre condutor e passageiro. Isto teria também a vantagem acessória de inviabilizar quaisquer instintos assassinos do condutor. O pagamento poderia ser feito pelas janelas, sendo que, nessa ocasião, o passageiro teria o direito a apontar ao taxista a sua arma de utilizador, dando a entender àquele que este pretende a sua facturazinha como deve ser.

No lugar-do-morto deveria tomar assento um agente da autoridade, munido da sua arma de serviço (o bloco-notas), por forma a que ficassem registados os desacatos, os desmandos, as grosserias proferidas, as infracções de trânsito, etc. Isto serviria ainda para que agente e condutor pudessem confraternizar, falar de futebol, suspirar por um novo Salazar em cada esquina, etc.

Enfim, equilibremos um pouco as coisas. Não é necessário mexer nas tarifas, já que se tornaram em roubo institucionalizado, e são portanto intocáveis, mas não é justo que apenas as pessoas habilitadas com o diploma da 4ª classe tenham todas as armas e todos os direitos.

Seria de, por conseguinte, a quem de direito, pedir deferimento.

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03/11/03

Ligou para a caixa de correio de...


Quando ouvir isto, desligue imediatamente. A não ser, claro, que pretenda de facto deixar uma mensagem gravada. Pouca gente sabe, e muito menos gente sabe quanta é essa "pouca gente", que as chamadas para telemóveis, quando ninguém atende do outro lado, têm um limite de 5 segundos para que não seja cobrada a chamada.

O golpezinho, combinado entre as três operadoras nacionais, é o seguinte: se o incauto consumidor, seja 91, 96 ou 93, não desligar antes de passarem os tais cinco segundos, ao sexto já está a pagar; se conseguir ser suficientemente rápido, não paga nada. Claro que o arranjinho entre os confrades telecomunicacionais foi devidamente escondido e, por conseguinte, a maior parte das pessoas nem sequer repara que acabou de ser roubada, uma vez, e outra, e outra, ad infinitum. Note-se que, por consequência, se um telemóvel estiver desligado, fora de serviço, sem bateria ou coisa que o valha, os três maiorais Vodafone, Optimus e TMN continuam a facturar desalmadamente. À custa dos incautos e a coberto da santa ignorância que se encarregaram de espalhar, recusando-se a divulgar esse detalhezinho dos 5 segundos. Espertinhos, não são?

Enfim, ora aqui está uma das coisas para as quais os blogs servem, ou deviam servir: para avisar o povão. Estás portanto avisado, povão: se ninguém atender e não quiseres pagar por ouvir a voz gravada, desliga antes de cinco segundos e não vais pagar nada.

Ah, grande poeta, este Dodo.

E pronto, já fizemos a nossa boa acção diária, heim?

De nada.

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27/10/03

Derniers Vers


D'Alfred de Musset


L'heure de ma mort, depuis dix-huit mois,
De tous les côtés sonne à mes oreilles,
Depuis dix-huit mois d'ennuis et de veilles,
Partout je la sens, partout je la vois.

Plus je me débats contre ma misère,
Plus s'éveille en moi l'instinct du malheur;
Et, dès que je veux faire un pas sur terre,
Je sens tout à coup s'arrêter mon cœur.

Ma force à lutter s'use et se prodigue.
Jusqu'à mon repos, tout est un combat;
Et, comme un coursier brisé de fatigue,
Mon courage éteint chancelle et s'abat.

1857

Alfred de Musset mourut à Paris en 1857

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Adoro SG Filtro


Acho tão foleiro ver ppl a fumar... Vamos eliminar a foleirisse do planeta!
pah..drogas..alcool, é d'homem... mas cigarros nao pelamordedeus. cheira mal cmá porra e ninguem consegue respirar ao pé dum cigarro acendido. e ficam com um bafo de fugir, além da roupa e cabelo e pele intrincadas com xeiro insuportavel, e uns anos depois dedos amarelos e labios roxos e inchados. e dentes amarelos, e rugas, e olhos vermelhos. DASS........


hello world, this is me (him, not me)

Com peças literárias deste brilhantismo, enfim, acabo de acender mais um.

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O sonoro finalmente em Portugal




O reconhecidíssimo artista internacional Manoel de Oliveira, realizador de cinema, acaba de estrear a sua mais recente peça projectável. Numa sala perto de si, poderá agora apreciar devidamente a coisa, que apresenta como grande novidade o facto de ser uma película com banda sonora. Extraordinária inovação, à qual adere incondicionalmente o mais premiado dos nossos cinematistas, o que é de saudar com entusiasmo, até porque já estavamos um poucochinho maçados com as estopadas mudas do antigamente, deste e de outros igualmente brilhantes "sportsmen" das artes peliculares; estribado talvez na impressionante inovação de João César Monteiro, recentemente falecido e autor da famosa invenção do filme para cegos, este verdadeiro dinossauro, que nem sai de cima, por sinal, elaborou agora mais esta, que tanto nos irá prestigiar, aquém e além-mar, a descoberta do filme falado. Bem haja, mestre.

Não sendo crítico de cinema, e nem sequer tendo visto a pérola (*), parece-me, no entanto, dever tecer desde já alguns encómios a respeito: para quem viu, estoicamente e até ao finalzinho, preciosidades como "Aniki Bóbó" ou "Os Canibais", pouco mais haverá a acrescentar; mas ainda assim. É de esperar tudo, rigorosamente tudo, de quem já vai em 90 anos de idade, 10 centímetros de espessura nas lentes dos óculos, 1425 filmes produzidos, representando qualquer coisa como 12 voltas à Terra, se estendido ao comprido todo aquele celulóide, milhões de dólares empochados, incontáveis prémios, prebendas, comendas e encomendas e, acima de tudo, inumeráveis e notabilíssimos amigos; como saldo de uma vida, convenhamos que já provecta nas décadas (nove, é fazer as contas), é muito, é bastante, irra, é de mais. É de esperar tudo, dizia, será mesmo de temer o pior, sabe-se lá se um filme em still video integral (uma só imagem, projectada no écrã durante 3 ou 4 horas), ou mesmo um épico sem filme algum, no qual o espectador pagante entrará na sala de projecção apenas para ouvir o senhor falando de si próprio durante as mesmas 3 ou 4 horas, ou mais, depende. Enfim, alguma coisa igualmente brilhante há-de sair daquela grande cachola, pela certa, num futuro não muito distante.

Aguardamos frementes de ansiedade, pelo menos eu, ave pernalta extinta, e o Godot, ignorante assumido.

(imagem de Madragoa Filmes)

(*)livra!

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23/10/03

Faltava esta pérola



Fumar
provoca
o cancro
pulmonar
mortal.


Portantosmente, falta a foto dos pulmões recem-autopsiados. Evidentemente, o pior do cancro do pulmão não é ele ser mortal; precisamente, é enquanto ele ainda não matou.

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Nem todo o spam é lixo...


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22/10/03

Breaking news


O novo estádio da Luz vai ser inaugurado com um desafio entre o Benfica e o Monte Vídeo, do Uruguai.

Jornal das 2, Sic Notícias
(locutora da qual não me ocorre agora a graça; é uma assim com umas repas)

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Blog: blague ou bluff?




Sexo na Internet liberta portugueses


O anonimato garantido pelo sexo na Internet tem um papel libertador e desinibidor para a maioria dos portugueses, conclui a sexóloga Ana Alexandra Carvalheira.
O cibersexo «permite assumir identidades diferentes e a expressão livre de desejos e interesses sexuais». Assim, estes chats(*) tornam-se úteis para as pessoas que têm dificuldades em encontrar parceiros de forma convencional.

Diário de Notícias de hoje, pág. 26


(*) - um bocadinho desactualizada, a piquena; o chat já não está a dar; agora a técnica de engate mais "avançada" é o... harrummm... bloguismo. Coisa, de resto, já aqui referida há uns dias; enfim, nada de tão científico ou trabalho tão bem feito como certamente esta sexóloga fará, mas enfim. Lá ficou a achegazinha.

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20/10/03

Quote


Estou-me cagando para os avisos nos maços de tabaco.

Unquote



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18/10/03

Silogismozinho


Fumar é um acto reflexo que varia na razão directa da pressão ambiente sobre o fumador.
Os avisos a preto e branco, nos maços de tabaco, são factor de pressão e de "stress" para os fumadores.
Logo, este fumador passou de 3 para 4 maços diários "derivado à" imbecilidade stressante daqueles avisos.

Exijo indemnização, por conseguinte. Desenrasquem-se.

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16/10/03


Fumar causa
elevada
dependência.
Não comece
a fumar.


Com este, cuja principal característica é possuir dois pontos finais e não apenas um, parece que está completa a colecção. Quando eu era puto, todas as colecções de cromos tinham um que era "o mais ruim", ou seja, o mais raro de todos. Aqui deve ser o mesmo. E este bem merece ser o mais ruim de todos.
Acho, ainda assim, que esta colecção está muito pobrezinha. O que aconteceu? Falta inspiração? Que não seja por isso, cá vão algumas sugestões cheias de boa vontade e tentando manter o nível de cagança:

Fumar mata.
É favor
ir morrer
longe.

O cigarro
contém mais de
3.000 substâncias
químicas nocivas.

Os gases de
escape contêm
apenas 2.000
químicos tóxicos.

Fumar é causa
frequente de
cancro labial
e outros
desatinos.

Se está grávido:
Parabéns. Acaba
de ganhar
USD $15000000





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12/10/03

Bilhete deixado sobre a mesa de...



Cá estive, pedindo a Deus não te encontrar e que não chegasses, enquanto rabisco este bilhete. Pessoalmente, quase nunca te pude pedir perdão, porque tu pensas que isto é, apenas, uma humildade, que humildade é um apoucamento, e assumes, cada vez, uma soberba desdenhosa, que não te fica bem, que me enfada e me apiada de ti.

Sempre que te amansei e te conduzi um pouco à realidade foi com descanso _ e só eu sei quanto me custou fingi-lo. Odeio a mentira, e a pior delas é a que esconde um sentimento bonito, para expandir, em defesa própria, uma atitude banal, de gestos e palavras. Quando e em quem será o dia em que poderei valer pelos meus sentimentos mais legítimos?

Assim por escrito, é-me fácil chegar a teu coração, porque não estou presente... e tu usas o coração por fora da blusa, não sentirás necessidade de escondê-lo.

Cá estive, para que estes recados desdissessem alguma crueldade que te fiz, quando tentaste encontrar em mim uma bondade maior que a dos homens.

Esqueceste de que eu era, simplesmente, um homem; fragilmente, um homem; fortemente um homem. E que o homem _ o melhor deles _ é feito apenas de dor e de orgulho. Tu não quiseste que eu partilhasse do teu sofrimento. Tu me viste exibi-lo, cruelmente, para saber até que ponto eu resistiria ao desespero.

E eu era um homem, como os outros, feito de dor e de orgulho. Agora, preciso dizer-te quanto me sinto responsável por ti, muito mais do que se o fosse perante teu senhorio, tua Société Anonyme du Gaz, tua Casa da Banha, teu algum argent-de-poche. Mas perante mim mesmo, que te sei a mais indefensável das pessoas. E que isto, em todas as horas, me traz inquietação e cuidados, numa sufocante angústia paternal.

Que saber disto te faça companhia, quando todos e tudo te cercarem. Que ao menos isto te afague a fronte, quando todos e tudo te humilharem. Que ao menos isto te agasalhe o corpo, quando tudo e todos te ultrajarem. Que ao menos isto seja poesia, quando a dor te fizer chorar de noite, porque de te ferir já se fartaram, todos e tudo, e te deixaram só.

Muito mais que te pudesse amar, eu te sofro. Muito mais do que te queria perto, eu te quero feliz. Se isto te parecer um arremedo de poesia é porque isto é verdade, e em toda a verdade há muito de poesia, e só há poesia na verdade, de todos e de tudo.

In Benditas sejam as moças,
Civilização Brasileira

António Maria (1921-1964), publicação Diário de Notícias






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09/10/03

Deixar de fumar
reduz os riscos
de doenças
cardiovasculares
e pulmonares
mortais.


Então e a circulação periférica? Lev Yashin morreu sem os quatro membros, por ser um grande fumador. Ah, pois, isso é uma doença cardiovascular. O povão entende logo a mensagem. Está-se mesmo a ver Ti Manéli chegando-se à venda lá do povo:
_ 'Tard, compadr'. Vinh? Nã, 'gradecid, tênh um problem' cardiovascular, óbrigadinh.


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Fumar
provoca o
envelhecimento
da pele.


Ah, é? E o resto, e o resto? Fica novinho em folha, como se nada fosse?
Que giro. Julgava que era a praia que fazia isso à pele, a malvada. É a primeira vez que oiço falar disto e estou maravilhado.

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Fumar bloqueia as
artérias e provoca
ataques cardíacos
e enfartes.


Não djiga. É mêzmo?
E quantos? Quantos de cada?
O enfarte não é um tipo de ataque cardíaco?
Perguntar não ofende, cetor, desculpe a ignorância.
E atão a bela trombosezinha, não vale? Ah, pois, se não está lá escrito é porque não vale. Ai, esta minha cabeça.

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Nova técnica


De engate.
É a chamada blogosfera. Crie-se o blog. Pespeguem-se-lhe umas patacoadas a metro, com muito sentimento, se for menino, ou com muita arrogância, se for menina. O menino finge que chora, baba e ranho, coitado, chuif-chuif, a menina que é das tesas, pimba-catrapimba, efectivellllmente, eu cá penso "de que", etc. e tal. É garantido. Grandes paixões vão por aí. Uns fazem-se de crias da capoeira, outros armam em poetas de meia-tijela, outros ainda fazem-se passar por tiranos de pacotilha, terrores da gramática e do belo pensamento, da frasezinha catita, da meditação profunda e à pressão, senhores - durante fracções de segundo - de toda a verdade, de todas as certezas, de tudo e mais alguma coisa (não é por mero acaso, o mote do Dodo).
Esperem pela pancada, meninos e meninas. Esperem até se encontrarem cara a cara. Esperem até que o tempo passe e vos amarrote. Ou então, quem sou eu para vos passar ditames, não esperem coisa alguma. Avancem. Avancem já, resolvam lá isso. Declarem-se. Estrafeguem-se. Abominem-se ao fim de umas horas, uns dias, umas semanas ou uns meses, que seja. E que a coisa valha a pena, ao menos no intervalo. Não tarda nada, depois da troca de fotografias (as melhores que se arranjarem, com dez ou doze anos de atraso), depois do primeiro telefonema (ah, a voz, a voz), finalmente o menino encontra a menina, e vice-versa, e aí a coisa ou vai ou racha; geralmente racha, se bem que nem sempre. O que fazer? A realidade é sempre bem mais triste do que a "respectiva" virtualidade.
Mas sejam decentes. Admitam. Isto não passa de engate, não é? Temos aqui o velho piscar de olho dos tímidos, o assobio dos magalas, em versão ligeiramente sotisficada. Isto é uma variante do antigo baile na sociedade recreativa, das "festas" na cave, não é? Esta profusão de palavras escritas é o velho e relho jogo de olhares, da janela para a rua, certo?
É só isso, não é? Aboliram-se os medos; qualquer camafeu pode passar pela mais bela das mulheres; o mais retinto dos imbecis pelo mais brilhante dos intelectuais, ao menos lá do bairro e arredores; qualquer tarado pode agora passar por "mente que brilha"; qualquer destrambelhada por "génio das letras"; qualquer ser deformado tem agora terreno livre para se alcandorar aos píncaros da fama, virtual e fugaz, ainda que à custa de simples caralhadas, de neologismos bacocos, das mais óbvias operações de cosmética psiquiátrica.
Esperem pela realidade, que não falha nunca.
Ou não esperem.
Please proceed. It's funny, you know?

Este era um dos posts arquivados; tinha algumas dúvidas sobre o conteúdo, e pássaro honesto, ainda que extinto, deve conservar alguma reserva naquilo que diz, escreve, ou pia.
Mas todas dúvidas se dissiparam depois de ler isto, e respectivo comentário. Bruxo.

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08/10/03





estudante universitário manifestando o seu des-contentamento




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