Ninguém há-de calar a voz da classe burguesa - I
Na sequência do extremamente reaccionário "post"
ali em baixo, esclarecendo e clarificando aquilo que não necessita nem de uma coisa nem de outra, iniciamos aqui um trabalho colectivo sobre as máfias portuguesas - profissões, ou "misteres", como se dizia antigamente, que se constituem em verdadeiros inimigos de classe, da nossa classe, que é a da propriamente dita e nenhuma em especial.
De facto, não são apenas os auxiliares e serventes hospitalares, mais os almeidas e ainda os contínuos quem detém o poder absoluto e pratica os seus crimes em total impunidade. Muitas outras classes, principalmente profissionais mas não só, estão organizadas de forma semelhante à das famílias mafiosas. Infelizmente, ainda não existe uma designação genérica para este fenómeno, em Portugal; não temos uma palavra facilitadora, para que se possa entender a profundidade e os meandros da actividade criminosa no nosso país, à semelhança do que acontece com a Camorra (criada em 1830), as Tríades chinesas, a Yakuza japonesa ou a Mafia (*) siciliana propriamente dita.
Não temos uma designação genérica, mas temos diversas famílias de carácter mafioso, com verdadeiros "padrinhos" e "caporegime" obscuros. Existe, por exemplo, uma perigosíssima "família" de
chauffeurs (
chóferes), ou seja, aqueles mentecaptos a que geralmente se chama "taxistas". Temos também os vendedores ambulantes, nas versões de cigano da feira de Carcavelos, que vende roupa roubada ou contrafeita, e de "homem da fruta", e quem diz fruta diz outra coisa qualquer, aqueles elementos do "bom povo que lavas no rio" para quem um quilograma pesa invariavelmente seiscentos gramas. Outra família exemplar, e que não poderia faltar em qualquer estudo sério, é a dos chamados "porteiros", na qual devemos considerar como quejandos os "seguranças" privados e outro pessoal que se encarrega de entradas e toma conta de portas. A um nível já bastante mais perigoso para a integridade física de cada qual, falaremos ainda do chamado "mecânico", essa cáfila de gatunos, analfabetos e trogloditas, verdadeiros paradigmas, ao fim e ao cabo, daquilo que é a exploração popular organizada.
Analisaremos cada um destes espécimes com algum detalhe (pormenor, para os puristas da língua), e ainda outros que forem surgindo pelo caminho, até porque, é sabido, Portugal é um país de ladrões, bandidos não faltam, etc., e tudo isto é como coçar, vai de começar.
Encetemos, pois, este inovador estudo.
1.
Os auxiliaresDividem-se em duas sub-categorias principais: os auxiliares de acção médica (vulgo serventes, ou também designados genericamente como "pessoal menor") e os auxiliares de acção educativa (aquilo que antigamente se designava por "contínuo"). Os primeiros actuam no sector da saúde e os segundos no da educação.
São, por conseguinte, uns e outros, funcionários públicos (FP), o que lhes garante à partida duas muito gratificantes coisas: emprego vitalício, sem possibilidade de despedimento, e reforma assegurada, esta na presunção de que o sistema não estará falido quando chegar a vez de cada um.
Aos auxiliares de ambos os sistemas, saúde e educação, nada é exigido, a não ser que piquem o ponto a tempo e horas ou que, se o não puderem fazer eles mesmos, que arranjem um colega que lhes faça isso. De resto, como é de uso para qualquer FP que não seja quadro, ao auxiliar compete fazer o mínimo indispensável: queixar-se continuamente das suas "condições de trabalho", ameaçar fazer ou fazer mesmo greve periodicamente, meter baixa sempre que possível e entreter-se, sentado no "posto de trabalho", com a planificação do ano civil seguinte - quantas "pontes" e quantas "tolerâncias de ponto", como transformar um "fim-de-semana prolongado" em 15 dias de balda, meter 22 dias "úteis" de férias de forma a ter dois meses, com uma "baixa por doença" aqui, um "artigo" ali, etc. São tarefas como esta aquilo que efectuam de mais complexo e intelectualmente estimulante, em toda a sua vida profissional.
No resto do tempo em que têm mesmo de estar no "posto de trabalho", e em sistemática e feroz competição inter-pares, qualquer auxiliar tenta produzir e mexer-se menos do que todos os outros; desta competição para ver quem é o mais incompetente, sorna e calaceiro, acabarão fatalmente por sair prémios como diuturnidades - umas quantas lecas por cada ano de sacrifício -, prestígio - quanto mais "esperto" mais admirado pelos "klegas" -, e, quem sabe, mais tarde ou mais cedo, lá virá sua promoçãozinha. Segundo o esplendoroso princípio de Peter, toda a gente é promovida até ao nível máximo de incompetência que for capaz de demonstrar; de facto, isso verifica-se perfeitamente em qualquer organização social, e de forma vertical, mas quanto mais se desce na escala social mais óbvia é a mecânica e mais camuflada ela é também.
Evidentemente, para que se possa analisar o que fazem estes auxiliares nas horas de serviço (o pouquíssimo tempo durante o qual permanecem no seu "posto"), aqui sim, já é necessário separarmos as águas.
O pessoal menor dos hospitais entretém-se a infernizar a vida dos doentes, consistindo a sua principal actividade em produzir ruído. Incapazes de parar de gritar, um minuto que seja, revezam-se na tarefa de manter toda a gente acordada, dia e noite; se bem que não seja raro falarem sozinhos, o mais das vezes socorrem-se de artefactos especializados para manter o nível de decibéis: por exemplo, carrinhos de mão desconjuntados para transportar arrastadeiras, fazendo chocalhar todo o conjunto pelos corredores fora, e batendo com tudo aquilo em todas as portas, eis uma das mais insuspeitas armas-secretas que inventaram. Durante 15 minutos por dia, entre as 07:00 e as 07:15 horas, correm as enfermarias aos gritos, para que os internados engulam, à força se preciso for, uma chávena de café marado com leite baptizado e um papo-seco besuntado com manteiga rançosa. E assim terminam as funções desta subespécie de auxiliar.
Já o pessoal menor das escolas passa o tempo fazendo bordados ou lendo revistas, consoante o sexo. Algumas das senhoras dão uma borrifadela, durante cerca de meia-hora por dia, no chão de uma ou duas salas de aulas; de vez em quando, muito raramente, levam um livro de ponto ou um papel qualquer a dar uma volta pelas instalações. Já os poucos homens deste escalão se ocupam, quando não estão em parte incerta, a contemplar as paredes, filosófica e conscienciosamente. No resto do seu tempo, estes lêem "A Bola" e aquelas folheiam a Holla, entre bocejos.
2.
Os almeidasSão os chamados "homens do lixo", se bem que também nesta honrada profissão já existam mulheres. Porém, se esta democratização sexualmente igualitária se verificou também no
milieu da "higiene pública urbana", não houve grande nivelamento vertical, ou seja, nesta especialidade de andar atrás do camião não se vê uma única mulher. É natural. Como disse Millor Fernandes, o feminismo acaba no pneu furado. Ora, realmente, igualdade sexista, sim, mas em tudo não; só naquilo que é conveniente.
Realmente, bom, vejamos, esta profissão é demasiadamente exigente para uma senhora; é necessário ter boas pernas, mas apenas para correr. E nisto reside a mais espantosa idiossincrasia do almeida. Quer dizer: correr? Um funcionário público a correr? Onde já se viu tal coisa?
Pois, mas é assim mesmo. Os nossos homens do lixo correm que se fartam. Mas não todos, entenda-se; apenas aqueles que fazem "serviço nocturno". Extraordinária conquista destes trabalhadores, o "trabalho nocturno". É só vantagens (para eles próprios, claro, e para mais ninguém): assim, ganham a triplicar... por um lado; por outro, como é lógico, durante aquelas nocturnas e supostamente calmas horas praticamente não existe trânsito; portanto, o percurso faz-se muito mais rapidamente. Foi uma ideia genial, dos sindicatos que zelam pelos interesses desta classe: não apenas ganham triplicando o valor das oito horas de jorna, como despacham o assunto em cinco ou seis. Não é encantador? A ver se entenderam. Repito: ganham a triplicar por ser trabalho nocturno; o seu horário diário é de oito horas, como toda a gente; mas têm de fazer um determinado trajecto, não de cumprir o horário; ora, não havendo trânsito, e mandando à frente batedores (corredores), que vão preparando os caixotes para a coisa ser ainda mais rápida, depois de despachado o trajecto já podem ir para vale de lençóis, com duas ou três horas de avanço.
É brilhante. Claro que, para conseguir sacar oito vezes três (24, não é?) em apenas cinco horas, vale tudo: os batedores desmontam do camião em andamento, como "cowboys" em rodeo, e vão por zonas, despejando os caixotes mais vazios para dentro de um ou, no máximo dois; portanto, quando o camião chega, só tem de abocanhar e despejar um ou dois, não cinco ou seis. A multiplicar pelo número de ruas, num bairro qualquer, resulta desta esperteza uma extraordinária rapidez. Só que isto é feito à custa de muito pontapé e de muito caixote atirado rua fora e contra as paredes das casas, muito grito de incitamento (bora, siga, vai, anda, caralho), tampas que voam, entulho vazando, bip-bip, tunc-tunc-tunc, mais o motor do mastodonte artilhado. Mas os nossos heróicos e inteligentíssimos almeidas não se ralam com essas coisas. Pois claro. Não são eles quem está a dormir.
Aliás, esse é mais um coelho que matam com a mesma cajadada. Como sabemos, as classes populares têm uma tremenda e ancestral raiva a tudo que mexe, e em especial aos "burgueses", fascistas e exploradores que estão dentro das casas que não são as deles; de resto, dentro desta lógica férrea, é muito bem feito que esses pulhas acordem com o barulho do lixo. A prova de que não passam de fascistas é que estão a dormir e eles, pobrezinhos "andam a trabalhar". Nisto consiste a lógica popular para a inimizade de classe: "eu cá ando a trabalhar", dizem; logo, como "andam a trabalhar", podem fazer tudo o que lhes der na real gana: entupir o trânsito ("eles que esperem, nós cá estamos a trabalhar"), acordar o bairro inteiro, rua por rua ("eles que se fodam, nós estamos a trabalhar"), bater com o camião nos veículos estacionados ("não fomos nós, nós estamos a trabalhar"), etc., etc., etc.
Esta é mais uma das novas espécies de intocáveis. Têm por si o complexo de culpa generalizado, moléstia que atinge, qual pandemia, todo o bicho careta que tenha tido o azar de não nascer proleta. A Lei está também do seu lado, isto é, como a Lei não funciona estão eles perfeitamente à vontade para atropelar - em sentido figurado e em sentido literal - quem lhes der na real gana.
Uma maravilha, ser almeida em Portugal. Em cinco horas de trabalho diário, ganha-se por 24 e pode-se fazer o que se entender, começando por chatear, acordar, estremunhar o cabrão do burguês explorador. Com uma pontinha de sorte e alguma persistência, pode ser que se consiga pespegar uma depressãozinha num desses sacanas.
O chamado Poder Local encolhe-se, a Polícia encolhe-se, como de resto se encolhem 99,99% dos portugueses, quanto a este como quanto a qualquer outro atentado ao sossego - ou a qualquer outra coisa que meta o povo ao barulho, coitadinho. No povo ninguém mexe, com o povo ninguém bule, ou tuge ou muge, porque o povo é sagrado. Não é por nada de especial. É só por isso, e acabou-se.
(*) - acrónimo de
morte alla Francia Italia aneliamorte à França é o grito de Itália!Continua: choferes de táxi, vendedores ambulantes, porteiros e seguranças, mecânicos, calceteiros