Achtung! Cratilismus...
No diálogo Crátilo, Platão discute a natureza dos nomes, que se assume não ser de ordem convencional, mas de acordo com a existência das coisas em si. No texto platónico, parodia-se o método etimológico de Crátilo, pensador de inspiração heraclitiana, que afirma que "cada coisa tem por natureza um nome apropriado, e que não se trata da denominação que alguns homens convencionaram dar-lhes" (Crátilo., 383a), o que concorda na teoria naturalista dos nomes, segundo a qual as palavras têm um sentido certo e sempre o mesmo.
in Nome de Guerra e Ulysses, por Carlos Ceia
É muito engraçada a expressão que faz qualquer linguista, ou qualquer outro profissional das letras, quando ouve referências a Crátilo ou neologismos conexos, como cratilizar, cratilismo, cratilista. Fica bem, pelos vistos, ao quejando profissional, cavar imediatamente profundas rugas na testa, sentindo-se provocado, dar mostras posturais de indignação ou, pode calhar, debitando uns quantos impropérios pela blasfémia proferida.
Tomei conhecimento, através do Arcabuz, de que existe polémicazita no Abrupto; diz que o inefável Eduardo Prado Coelho se atreveu a dizer que a Língua Alemã é uma coisa militarista, que soa a Panzers e a passo de ganso, e outras diatribes.
De facto, a postura "oficial" e geralmente aceite sobre o assunto é a da total arbitrariedade do signo linguístico - eliminando a priori qualquer relação (de causa e efeito ou outra) entre significante e significado; ou seja, parece que é obrigatório que se considere não existir nexo ou relação entre a palavra e aquilo que ela representa. Portanto, se tomarmos um exemplo ao acaso, seja a ideia daquela coisa que geralmente nasce da terra, tem um tronco e ramos e folhas e frutos (ou não tem frutos), teremos representações como, por exemplo, árvore, tree, arbre, árbol, Baum, àlbero. O linguisticamente correcto manda que se considere todas aquelas representações (em conjunto com as equivalentes nas restantes Línguas) como sendo absolutamente arbitrárias, tanto na forma primordial oral como na subsequente forma escrita - considerando esta como simples representação, ou codificação, da oralidade. Nesta acepção geralmente aceite, a escrita não passa de um código para representar outro código, e este é totalmente casuístico na sua génese: uma palavra surge, em qualquer Língua, de forma arbitrária, evoluindo de formas diferentes a partir de, presume-se, um grunhido indistinto inicial, e transmite-se por interacção social através de mecanismos de imitação.
Ao contrário da opinião, certamente fundada em profundas investigação e reflexão, geralmente aceite como correcta, o tema não é nem superficial nem irrelevante. Pelo contrário, existe tão pouco material de análise e, ao invés, tantas certezas sobre o ridículo da tese, é uma coisa tão evidentemente estúpida (atribuir motivação ao significante, em suma) que se torna um bocado suspeita, por assim dizer. E não será por certo algo sobre que se passe ao de leve, em simples voo de pássaro; talvez um estudo mais aprofundado viesse a revelar algumas surpresas. Se é de aceitar a origem da linguagem, até por falta de termos de comparação, talvez fosse de investigar, comparativamente e a sério, a evolução de cada Língua. A etimologia não será um pouco mais do que a simples análise estática da forma como as palavras evoluíram? Não existe de facto nenhuma motivação, ao menos estética, ou cultural, ou social, nesta evolução, para além da mais elementar "lei do menor esforço"? Se existem factores que modificam e condicionam a evolução fisiológica dos grupos sociais (tipos, altura, sexo, raça), e sendo a Língua o primeiro factor de identidade nesses grupos, não haverá afinal algo de igualmente motivado em cada uma das Línguas?
Como ilustração, tomemos uma hipótese académica: se fosse possível medir a resposta emocional (ritmo cardíaco, sudação, zonas cerebrais irrigadas, etc.) de um ser-humano que nunca tivesse estado em contacto com a chamada "civilização", e se lhe fossem passadas gravações da palavra "árvore" em várias Línguas, será que ele reagiria exactamente da mesma forma a todas elas? Como reagimos nós mesmos, que respostas subtis damos nós em função do "incentivo" linguístico? Não temos todos nós preferências, a esse nível como em qualquer outro?
Será que, por exemplo, associaríamos à expressão "música pimba" o mesmo significado se, em vez de pimba, se dissesse "pomba", ou "rimpa", ou "sabonete" ou outra coisa qualquer? E teve alguma evolução, essa palavra? A sua raiz etimológica, à semelhança de tantos outros casos, em Português, em Inglês ou em Chinês, não é, evidentemente, o Latim ou o Francês ou o Romeno; a palavra "pimba" surgiu como que do nada, mas de forma absolutamente motivada. Como não será por acaso existirem Línguas próprias para determinadas coisas, factos, actos, profissões, actividades: não é possível, sem cair no ridículo, falar de tauromaquia sem utilizar o Castelhano, ou de "grand cuisine" sem o Francês, ou de fado sem o Português.
Existe um óbvio risco de se cair na tentação cabotina de simplificar em extremo um assunto que é tudo menos simples, e que exige (exigiria) um altíssimo grau de especialização. É precisamente por isso que acho graça, voltando ao princípio, à irritação que isto provoca nos puristas, academicistas e censores da linguística. Atenção, é agradável; atención, tem salero; a mesma coisa em Inglês é elegante e em Francês é fino; já achtung faz lembrar o tal passo de ganso, ou algo de igualmente marcial. Um folheto de medicamento, traduzido para Alemão e lido em voz alta, parece uma declaração de guerra ou um chorrilho de insultos. Há diferenças entre as Línguas, sim. E isso que tem? Com as cores (colors, colours, farben, colori) acontece o mesmo e ninguém se rala, com a agravante de que existem apenas sete nuances básicas para preferir.
Por uma vez (sem exemplo), estou de acordo com o maciço EPC. Há Línguas temperadas com sal, outras com açúcar, outras totalmente insípidas, ou azedas, desagradáveis, agressivas. Isso nem diminui nem engrandece nenhuma delas, mas tem absolutamente tudo a ver com o povo que as gerou e criou. Perfume francês, sushi japonês, ou paciência de chinês, alguma coisa de intrínseco e de fundamental existe, no signo mas também - e por causa - na sua forma. Não se me dá nenhum abalo ao pífaro que assim seja.










