Odi profanum vulgus et arceo

12/03/05

Achtung! Cratilismus...


No diálogo Crátilo, Platão discute a natureza dos nomes, que se assume não ser de ordem convencional, mas de acordo com a existência das coisas em si. No texto platónico, parodia-se o método etimológico de Crátilo, pensador de inspiração heraclitiana, que afirma que "cada coisa tem por natureza um nome apropriado, e que não se trata da denominação que alguns homens convencionaram dar-lhes" (Crátilo., 383a), o que concorda na teoria naturalista dos nomes, segundo a qual as palavras têm um sentido certo e sempre o mesmo.

in Nome de Guerra e Ulysses, por Carlos Ceia


É muito engraçada a expressão que faz qualquer linguista, ou qualquer outro profissional das letras, quando ouve referências a Crátilo ou neologismos conexos, como cratilizar, cratilismo, cratilista. Fica bem, pelos vistos, ao quejando profissional, cavar imediatamente profundas rugas na testa, sentindo-se provocado, dar mostras posturais de indignação ou, pode calhar, debitando uns quantos impropérios pela blasfémia proferida.

Tomei conhecimento, através do Arcabuz, de que existe polémicazita no Abrupto; diz que o inefável Eduardo Prado Coelho se atreveu a dizer que a Língua Alemã é uma coisa militarista, que soa a Panzers e a passo de ganso, e outras diatribes.

De facto, a postura "oficial" e geralmente aceite sobre o assunto é a da total arbitrariedade do signo linguístico - eliminando a priori qualquer relação (de causa e efeito ou outra) entre significante e significado; ou seja, parece que é obrigatório que se considere não existir nexo ou relação entre a palavra e aquilo que ela representa. Portanto, se tomarmos um exemplo ao acaso, seja a ideia daquela coisa que geralmente nasce da terra, tem um tronco e ramos e folhas e frutos (ou não tem frutos), teremos representações como, por exemplo, árvore, tree, arbre, árbol, Baum, àlbero. O linguisticamente correcto manda que se considere todas aquelas representações (em conjunto com as equivalentes nas restantes Línguas) como sendo absolutamente arbitrárias, tanto na forma primordial oral como na subsequente forma escrita - considerando esta como simples representação, ou codificação, da oralidade. Nesta acepção geralmente aceite, a escrita não passa de um código para representar outro código, e este é totalmente casuístico na sua génese: uma palavra surge, em qualquer Língua, de forma arbitrária, evoluindo de formas diferentes a partir de, presume-se, um grunhido indistinto inicial, e transmite-se por interacção social através de mecanismos de imitação.

Ao contrário da opinião, certamente fundada em profundas investigação e reflexão, geralmente aceite como correcta, o tema não é nem superficial nem irrelevante. Pelo contrário, existe tão pouco material de análise e, ao invés, tantas certezas sobre o ridículo da tese, é uma coisa tão evidentemente estúpida (atribuir motivação ao significante, em suma) que se torna um bocado suspeita, por assim dizer. E não será por certo algo sobre que se passe ao de leve, em simples voo de pássaro; talvez um estudo mais aprofundado viesse a revelar algumas surpresas. Se é de aceitar a origem da linguagem, até por falta de termos de comparação, talvez fosse de investigar, comparativamente e a sério, a evolução de cada Língua. A etimologia não será um pouco mais do que a simples análise estática da forma como as palavras evoluíram? Não existe de facto nenhuma motivação, ao menos estética, ou cultural, ou social, nesta evolução, para além da mais elementar "lei do menor esforço"? Se existem factores que modificam e condicionam a evolução fisiológica dos grupos sociais (tipos, altura, sexo, raça), e sendo a Língua o primeiro factor de identidade nesses grupos, não haverá afinal algo de igualmente motivado em cada uma das Línguas?

Como ilustração, tomemos uma hipótese académica: se fosse possível medir a resposta emocional (ritmo cardíaco, sudação, zonas cerebrais irrigadas, etc.) de um ser-humano que nunca tivesse estado em contacto com a chamada "civilização", e se lhe fossem passadas gravações da palavra "árvore" em várias Línguas, será que ele reagiria exactamente da mesma forma a todas elas? Como reagimos nós mesmos, que respostas subtis damos nós em função do "incentivo" linguístico? Não temos todos nós preferências, a esse nível como em qualquer outro?

Será que, por exemplo, associaríamos à expressão "música pimba" o mesmo significado se, em vez de pimba, se dissesse "pomba", ou "rimpa", ou "sabonete" ou outra coisa qualquer? E teve alguma evolução, essa palavra? A sua raiz etimológica, à semelhança de tantos outros casos, em Português, em Inglês ou em Chinês, não é, evidentemente, o Latim ou o Francês ou o Romeno; a palavra "pimba" surgiu como que do nada, mas de forma absolutamente motivada. Como não será por acaso existirem Línguas próprias para determinadas coisas, factos, actos, profissões, actividades: não é possível, sem cair no ridículo, falar de tauromaquia sem utilizar o Castelhano, ou de "grand cuisine" sem o Francês, ou de fado sem o Português.

Existe um óbvio risco de se cair na tentação cabotina de simplificar em extremo um assunto que é tudo menos simples, e que exige (exigiria) um altíssimo grau de especialização. É precisamente por isso que acho graça, voltando ao princípio, à irritação que isto provoca nos puristas, academicistas e censores da linguística. Atenção, é agradável; atención, tem salero; a mesma coisa em Inglês é elegante e em Francês é fino; já achtung faz lembrar o tal passo de ganso, ou algo de igualmente marcial. Um folheto de medicamento, traduzido para Alemão e lido em voz alta, parece uma declaração de guerra ou um chorrilho de insultos. Há diferenças entre as Línguas, sim. E isso que tem? Com as cores (colors, colours, farben, colori) acontece o mesmo e ninguém se rala, com a agravante de que existem apenas sete nuances básicas para preferir.

Por uma vez (sem exemplo), estou de acordo com o maciço EPC. Há Línguas temperadas com sal, outras com açúcar, outras totalmente insípidas, ou azedas, desagradáveis, agressivas. Isso nem diminui nem engrandece nenhuma delas, mas tem absolutamente tudo a ver com o povo que as gerou e criou. Perfume francês, sushi japonês, ou paciência de chinês, alguma coisa de intrínseco e de fundamental existe, no signo mas também - e por causa - na sua forma. Não se me dá nenhum abalo ao pífaro que assim seja.

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Planície

O bando debandou
subindo do arvoredo
do vácuo que ficou
no fim do seu degredo
as asas abrem chagas
no acinzar do entardecer
e amansam a agonia
do dia a escurecer

ensombram a ribeira
e o verde da seara
e passam pela eira
em que o sol se pousara
nas gotas do orvalho
luarento e vacilante
refrescam o cansaço
e dormem um instante

Pássaros do sul
bando de asas soltas
trazem melodias
p'ra cantar às moças
em noites de romaria
em noites de romaria

no adejo da alvorada
oscila a minha mágoa
o céu à desgarrada
irrompe azul na água
e a passarada acorda
no sonhar de um camponês
e entrega-se no sul
do frio que à noite fez

é tempo da partida
e a cor no horizonte
adensa a despedida
e o borbotar da fonte
as asas abrem chagas
na poeira o sol acalma
num agitar inquieto
que me refresca a alma

pássaros do sul
bando de asas soltas
trazem melodias
pra cantar às moças
em noites de romaria
em noites de romaria


Mafalda Veiga


Que bonito, caramba! (digo eu...)



esta "letra" em http://paginas.fe.up.pt/~fsilva/mafalda/letras/Planicie.htm
mais coisas na página de Filipe Silva

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10/03/05

Neste cristal que me ofereceste, vejo
hmmm
vejo um raio colorido, não, dois,
não, muitos raios coloridos.
Vejo aquela casa e as outras todas,
mas muitas vezes, olha que bonito,
parece uma cascata, um presépio.
Vejo luzes e cores e muitas outras coisas
hmmm
um rio ao fundo, e estrelas
muitas estrelas, é um caleidoscópio.
Vejo-te a ti dizendo adeus,
vejo até (serei capaz?)
os teus fantasmas
as tuas sombras a preto e branco
vejo a tua angústia
o teu sofrimento
a tua dor
multiplicada.
Vejo
hmmm
que o cristal que me ofereceste
é afinal um diamante.

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nota prévia: este "post" tem bolinha vermelha no canto superior esquerdo; virtualmente, mas está lá. Não é aconselhável a leitura a menores de 45 anos ou às pessoas mais impressionáveis em geral

Piqueno Ensaio sobre a fedúncia

léxico com bolinha

Fedúncia
o m. q. fedúcia; s.f., pessoa pretensiosa, que de tudo desdenha, a quem tudo aborrece; pessoa niquenta a quem tudo incomoda ou que tem nojo de tudo.

Espantoso. Inédito. Pensava que estava farto de escrever sobre fedúncia mas, pelos vistos, ou não foi aqui ou foi só na minha cabeça. E mais curioso ainda é que o assunto aparece muito pouco por aí, na Google (nenhuma referência) ou na Yahoo (294).

Exemplos de fedúncia; o que vem a ser isso, ao certo? Quando se verifica esta coisa (síndroma? estado? hábito? pancada)?
Pois bem, esclareçamos com alguns exemplos: é quando um gajo fica absolutamente possesso sempre que:

- num restaurante ou café, o filho da puta da mesa em frente está a comer de boca escancarada, alarvemente, como o porco nojento que é. Quem fica possesso com a badalhoquice é que é fedúncico, não o badalhoco.
- num café ou restaurante, ou em qualquer outro espaço público, há um cabrão que puxa sistematicamente o ar através dos espaços asquerosos que tem entre os dentes; é o chamado "palito electrónico" à portuguesa, uma actividade abjecta à qual se dedica mais de um terço da população portuguesa. Não há maneira de tentar reproduzir onomatopaicamente o som; é uma espécie asquerosa de chuic, schlack; a reacção típica é a mais avassaladora das vontades de mandar o animal levar no cu, ou para a cona da mãe street.
- em espaços fechados e em espaços abertos (por exemplo, em plena rua), o grandessíssimo animal à nossa frente vai a escarrar para o chão de dois em dois minutos, fazendo preceder essa habilidade com o mais hediondo dos sons tipicamente portugueses, que é "puxar a bisca" lá dos confins viscerais, com um som típico (Lord Byron referiu-se-lhe), graficamente não reproduzível; a onomatopeia mais aproximada será qualquer coisa RRRRUUUACH-PTUMMM!!!, sendo que a parte ruachada é produzida na garganta, enquanto a besta faz subir a massa escárrica pela garganta acima, e representando o ptum final a forma como a dita besta atira com a massa esponjosa de cuspo e secreções nasais para a via pública; nos casos de tipinhos mais virtuosos, nesta modalidade popular, há quem intervale os dois sons com um outro (nham nham nham), enquanto rola a massa com a língua e os beiços, antes de expelir.
- nos toca o perfeito animal que bate desesperadamente, cerca de cinquenta vezes, nos fundilhos do maço de cigarros que acabou de comprar. PAC PAC PAC PAC, lá está ele a bater cinquenta vezes o maço de tabaco, o fundo contra a mão em semi-concha. O filho de uma ganda puta. Mas para que caralho será aquilo? Reparem no arzinho de finório, de "connaisseur", que o gajo faz enquanto bate os cigarritos. Conaisseur mas é o caralho, seu paneleiro de merda, bater os cigarros faz tanto efeito como bater uma ao lado da Cláudia Raia, ouviste, ó panasca do caralho?
- por azar calha o gajo dos tiques nas pernas: bate a perninha, depressinha, pimba pimba pimba, rápida e infindavelmente, de preferência fazendo abanar a mesa mais próxima, a cadeira ao lado, o balcão, tunc tunc tunc tunc tunc, ad infinitum
- sai na rifa o gajo dos tiques na esferográfica: filho de uma ganda puta, morcão da ganda puta que o pariu, tic tic tic tic tic, carrega milhares de vezes no botãozinho, activa e desactiva a esferográfica, babando-se de gozo com aquele irritante, insuportável tic tic de um ganda caralho que o foda.
- calhou ser o dia do gajo dos tiques com moedas ou com outra merda qualquer que estiver à mão: é o paneleirote com problemas de afirmação que fica horas a bater com uma porra qualquer no tampo ou na esquina mais próxima, uma nota no balcão, o jornal na cadeira, ou assim; imaginação não falta a esses cabrões desses viciados em ruído.
- aparece o tipinho da tamborilação, um dos mais comuns matraqueadores: esteja onde estiver, esse tipo de besta-quadrada, julgando-se percussionista do melhorio, passa o tempo todo a tamborilar com os dedos nos sítios mais improváveis, em tudo e mais alguma coisa, no carro, na rua, no caralho que os foda; esses cabrões até devem tamborilar enquanto cumprem o seu dever conjugal, provavelmente na carola da legítima.
- o gajo que tem um Zippo, ou o caralho mais velho: clac clac clac clac, abre e fecha, abre e fecha, sempre a abrir e fechar a tampa do Zippo, a puta da tampa daquela merda do Zippo. Caralhos ma fodam, é mesmo de ficar fodidíssimo, pára lá com essa porra, ó imbecil do caralho, vê lá se te espeto com uma marreta nos cornos, ouviste, ó pintarroxo de um cabrão, pára com isso, caralho, que ainda faço aqui um escarcéu do caralho, fodo-te a pinha com essa merda e depois enfio-te a merda desse Zippo pela boca abaixo, foda-se!

Pronto. Fedúncia é isto, mais coisa menos coisa. Não tem nem cura nem tratamento. O único paliativo, alternativa séria ao assassinato em série, é desopilar o fígado e aliviar o stress através de séries de caralhadas e insultos do mais fino recorte.

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09/03/05

nétchionel giugréfic tchénél


***** 5 estrelas *****
Odisseia
História
TV2

**** 4 estrelas ****
Biography
AXN
RTP1
Sic Notícias
CNN

*** 3 estrelas ***
RTPN
Sic Mulher
RTP Memória
People&Arts
Discovery
Sky News

** 2 estrelas **
National Geographic (a)
Panda
Hollywood
MTV
Cartoon Network
BBC Prime
tele-vendas (b)

* 1 estrela *
TV Galicia
MCM
VHT
Euronews
Sic Radical
Sic Comédia
RTL


pensões manhosas
TVI (c)
Bloomberg
Viver
canal brasileiro (d)
TV5
SMS TV


(a) duas estrelinhas apenas, porque o locutor de continuidade é absolutamente insuportável quando tenta pronunciar o nome do canal em servo-croata e porque só têm primos, sobrinhos e amiguinhos na locução e na tradução
(b) divertido, fascinante; o canal dos verdadeiros Mike&Melga
(c) este canal devia ser proibido fora de qualquer honesto campo de concentração
(d) mas como raio se chama esta porcaria?

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08/03/05

8 de Março

Dia Internacional da Mulher


Posted by Hello
homenagem singela(*) às mulheres em geral, esta fotozinha em particular




(*) ou vice-versa
foto © met-art.com (& tira-art.pt)
imagem de innocentdream
sequência completa (seus gulosos) em http://www.innocentdream.com/galleries_met/fairy/
nota: esta mecinha é maior de 18; se não fosse, seria ilegal

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Cornélia revisitada


Treze entradas a partir de http://www.blogger.com/profile/456591? Mas o que é isto?

Ah, pois. A coisa é séria. Parece que certa vizinha, aqui do blogbairro, se escamou com um dos meus inúmeros atrevimentos. Não gramou que lhe tivesse corrigido o Português, calculo. Vai daí, achou por bem alardear a sua mais fina ironia, fingindo penalizar-se pelas bacoradas cometidas (deixe lá, só duas em 14 palavras, não é grave) e revelando ainda alguma preocupação com a minha irrelevante masculinidade (eis a ironiazinha), ou lá o que ela pretendia dizer.

Mas que se há-de fazer, cara Rititi? Eu cá sou assim, um chato do piorio, uma ave de grande bico e com asas mirradas, incapaz de voar e ademais extinta. Um caso perdido, em suma. Reconheço as minhas limitações; além de voar baixinho, digamos rente ao chão, ou talvez por isso mesmo, sou absolutamente incapaz de continuar a ler seja o que for quando topo com dois pedregulhos linguísticos seguidos. Um, vá lá, é coçar e andar, mas aos dois pára. Muito me penaliza esta dificuldade, até porque essa impossibilidade técnica me inviabiliza, estou certo, muitas vezes, a possibilidade de fruir de conteúdos certamente geniais e suculentos - que estariam para além dos obstáculos, no restante arrazoado. Reconheço do mesmo modo que, de facto, não conseguir continuar a ler a partir do segundo erro na mesma frase é uma cabotinice desgraçada, já tentei por diversas vezes continuar por ali fora, e tal e tal, mas não sou capaz; é uma maçada; as topadas impedem-me de raciocinar ou de sequer apreender um módico do palavreado que se segue.

No fundo, no fundo, a intenção não é nenhuma e a motivação será até um pouco filantrópica. Quem me dera a mim houvesse uma alma caridosa que me revisse os texticulos! Não misturando alhos com bugalhos, evidentemente, que estamos aqui a falar de coisas e dimensões diferentes, em absoluto, nada de comparações parvas entre a minha verbosidade inócua - e anónima - com os seus certamente brilhantes escritos; ao que "me" consta, alguns deles até são publicados na imprensa escrita - coisa admirável, da qual nem me imagino a almejar.

E então já vê, não foi por mal; pelo contrário, nunca me passou pela cabeça que um simples reparo meu (reparo, de reparar, não do outro reparar) a fosse atazanar a si e que, por fim, fizesse saltar os seus amigos da cadeira, movidos de certamente justa indignação, desancando aqui no rapaz, dando-lhe roda de desprezível e outras coisas igualmente do coração . Que bom deve ser ter amigos assim, capazes de imediatamente sair em sua defesa, e em defesa dos seus erros ortográficos, como cavaleiros protegendo a sua dama (em sendo cavalheiros) ou como amazonas acudindo a uma camarada (em sendo damas). Ficou-me esta angustiante sensação de ter gravemente ofendido uma virgem, ou ter dado um chuto numa vaca, em plena Delhi. Ou coisa que o valha.

Deus me livre! Nã nã nã. Eu cá, nunca. Macacos me mordam se encima (forma do verbo encimar) e cocho (porco, logo cochinho é porquinho) não existem na Língua Portuguesa; existem, se-senhor! Assino por baixo, palavra de Dodo, etc.

Fará certamente o favor de, na remota hipótese de alguma vez por aqui passar e ler isto, olimpicamente ignorar ambas as coisas, isto e o resto. Aliás, nem de propósito, este blog é membro fundador do movimento Blogs Olimpicamente Ignorados (BOI), o que comprova à saciedade o preceito axiomático do nosso lema: tratamos de coisas gramaticalmente vis, mas é melhor para toda a gente que a malta ignore. Como deveria ter feito em primeiríssima mão, desculpe que lhe diga, eliminando à cabeça uma coisa sem a mínima importância.

Assim, e por causa dos comentários ao meu comentário, senti-me compelido e obrigado a responder - além de atento e venerador. Mas já passou. Cumprimentos.




imagem da vaca sagrada: http://sepiensa.org.mx/contenidos/s_vacas/vacas1.htm

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07/03/05

111.023.266.761.438.298


Cento e onze mil e vinte e três biliões, duzentos e sessenta e seis mil setecentos e sessenta e um milhões, quatrocentos e trinta e oito mil, duzentos e noventa e oito.

É o número do meu "post" anterior, na Blogger.com.

Impressionante. 111.023 biliões ("milhões de milhões"). A população mundial anda actualmente pelos 6,5 mil milhões (6.500.000.000, não são biliões, como se lê por aí).

Mesmo dando de barato, salvo seja, que há muitos erros no processo, é uma cifra esmagadora, esta dos blogs. E isto apenas na Blogger, claro; com os números dos outros "hospedeiros" de blogs, é espantoso. Confesso que tive de desmontar várias vezes o número para acreditar. Colossozito valente.

Mas enfim, a Matemática não é a minha guerra; deve ser engano meu. Cento e onze mil biliões e uns pozinhos? Pode lá ser. 266 mil milhões é trocos?

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to make a point

The Biology of Love
In this program, Desmond Morris analyzes the biological nature of love, with its attendant patterns of behaviour and signals of health and fertility that have evolved to ensure pair-bonding and genetic survival. The pre- and post-pubescent periods of sexual maturation, the stages of courtship, and the aesthetics of physical beauty are studied, along with the anatomical mechanics of sexual arousal and copulation. In addition, the stresses placed on couples by life in an urbanized, crowded world are explored.
http://www.bbcfactual.co.uk/human_animal.htm

A tese de Desmond Morris, neste particular, talvez se possa condensar numa única frase: o amor é um fenómeno biológico, implicando mecanismos mentais, que tem por objectivo assegurar o prolongamento da ligação futura entre macho e fêmea, por forma a que estes se ocupem ambos de assegurar a viabilidade da prole que irão gerar. Mais concreta e sinteticamente, o amor funciona como preventivo biológico do fenómeno de rejeição (física e mental) que inevitável, pressuposta e fatalmente ocorre numa "ligação" em que este não esteja presente, ou quando este tenha acabado por se diluir.

É, por conseguinte, um simples mecanismo de defesa e prolongamento da espécie; sem subtileza de género algum, na sua base, mas com uma imensa capa (ou camadas) de conceitos integralmente verbalizados e meramente simbólicos. Sendo que estes, integrando todo o acervo da "moral" vigente, são parte integrante do processo, e contribuem mesmo para o tornar mais subtil e, portanto, mais facilmente aceite, já que fornecem uma indispensável protecção mística ao mais básico e primitivo dos instintos, comum a qualquer outra espécie animal(*).

De facto, o fenómeno biológico "amor" funciona em três níveis, patamares ou degraus consecutivos, com outras tantas finalidades objectivas, decorrendo estas de uma só motivação (a preservação da espécie): numa primeira fase, o amor serve para aproximar o macho da fêmea e/ou vice-versa, com o objectivo imediato de propiciar a relação sexual e, consequentemente, a fecundação; na segunda fase, tão importante como a primeira, aquilo que aproximou as duas pessoas funcionará como uma espécie de cola, em sentido figurado mas também em sentido literal, por forma a que o par se não desfaça, e que sejam dois e não apenas um(a) a suportar a gravidez; a fêmea grávida necessita basicamente, hoje como sempre, na nossa como nas outras espécies(*), de auxílio (caça ou outro alimento ou dinheiro, vem a dar no mesmo) e de protecção enquanto dura a gestação; por fim, na terceira fase, aquela que se segue ao parto, é também o amor que possibilita a continuação da ligação entre os pais, não apenas com o objectivo de providenciar meios para que a criança vingue, como ainda, a posteriori, para que o par venha a gerar mais filhos.

Nesta lógica trifaseada, poder-se-ia presumir que o impulso de emparelhamento, a que geralmente se chama amor, deixaria de fazer qualquer sentido assim que a prole estivesse criada ou, em última análise, que fêmea ou macho perdessem as suas capacidades reprodutivas. Bom, realmente, salvo raríssimas e facilmente explicáveis excepções, é o que acontece por regra e por definição; uma grande parte das "separações", se não a grande maioria, ocorre "quando os filhos estão criados" ou, mais concretamente, quando a curva de fertilidade na mulher (e do homem, se bem que em perspectivas diferentes) entra em declínio. É entre os 35 e os 45 anos, nas sociedades modernas, que ocorre por regra a um ou a ambos os elementos do casal a necessidade absoluta da "separação"; de repente, o quarentão (homem ou mulher, ou ambos em sintonia) apercebe-se de que já não existe a tal "cola" no casamento e apanha em cheio com os efeitos perversos do amor, quando este se esvazia. Chamemos "desamor" a este episódio de falecimento da atracção, com tudo o que esta implicou. E, na mesma lógica verbalizante, utilizemos o verbo "desamar" para descrever o processo de destruição do amor.

Essa destruição poderá ocorrer de múltiplas formas, quase tantas como o número de seres-humanos envolvidos, mas os motivos serão sempre os mesmos. Se tomarmos como boa a teoria da mecânica do amor, quais as suas origens e quais as suas finalidades, e se, por fim, analisarmos o que acontece quando essa mecânica emperra (ou quando pára, de vez), verificaremos que existe uma relação diametral entre uma coisa e outra: por exemplo, que a violência do rompimento é directamente proporcional à intensidade que teve o encantamento; ou que a separação é tanto mais penosa quanto mais forte e (por consequência) prolongada tiver sido a ligação. Do que se poderá talvez concluir que existem, de facto, diversos graus de intensidade amorosa. Por definição, esta e aqueles variam na razão inversa das dificuldades postas ao seu desenvolvimento; ou seja, quanto mais, maiores e mais penosos os obstáculos à consumação da atracção, mais forte e duradoira ela será; e vice-versa, bem entendido.

Factores vários e premissas diversas, não tão aleatórios nem arbitrárias quanto isso, fazem variar sensivelmente esta quase equação algébrica; uns de ordem subjectiva, como o tipo de inserção social (níveis de vida, condições sócio-culturais); outros de carácter mais objectivo, ou intrínseco, sejam as determinantes físicas (saúde, idade) ou as ambientais (meio físico, recursos); outros ainda, por fim, dependentes dos dois primeiros, aos quais poderíamos chamar, por exemplo, "pessoais", e que constituem o conjunto de circunstâncias (únicas, do ponto de vista dos intervenientes) que enformam todo o processo para cada um dos elementos do par. É sobre estas últimas circunstâncias, e nunca ou muito raramente sobre as duas primeiras, que geralmente se fala quando se fala de amor.

Daí, porque "pegando" no assunto apenas por uma das pontas e não por todas elas, surge a confusão e a perplexidade: o que é o amor, afinal? Como se define? Porque amo eu aquela pessoa, que "não me convém nada" e detesto aquela outra, que "gosta tanto de mim"? "Mas o que é que tu viste nele" (ou nela)? E da confusão surgem as especulações: que deve ser "química", ou que é do cheiro, ou "dos olhos", coisas assim, terminando geralmente na muito satisfatória conclusão de que "o amor não se explica" ou em frases lapidares como "o amor é louco, não façam pouco". Na realidade, é mesmo louco, o amor, se considerarmos a loucura como a ausência ou incapacidade de pensamento coerente; não é sequer de pensamento que se trata, quando se trata de amor, e para este o pensamento é até aquilo que menos convém; por paradoxal que pareça, uma coisa exclui a outra(**).

E é também química, realmente, como tudo ou quase tudo é química; e em especial através do olfacto, sim. E tem a ver com "os olhos", pois claro (tem tudo a ver com os olhos, de resto, porque ver é a mais subjectiva e criativa das actividades humanas).

Depende da forma como interpretamos, em modulação e em frequência, a voz do outro. Coisas tão complexas como "o feitio" ou "os gostos" de cada um têm as suas formas e fórmulas de combinação. São estas formas e fórmulas de combinação, em números factoriais e em função de tempo e espaço, aquilo que, em conjunto, nos transforma em permanentes sujeito e objecto de amores e de desamores.

A própria repetição do fenómeno, a sua recorrência cíclica e o seu carácter aparentemente imprevisível mas absolutamente perene, indiciam e denunciam uma base fisiológica, sustentam uma explicação biológica e comprovam uma simples variação zoológica.


(*) - primatas e a maior parte dos mamíferos; evidentemente, não se fala aqui de peixes, répteis, etc.
(**) - diz o Povo, que raramente acerta: quem pensa, não casa; quem casa, não pensa

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05/03/05



bons tempos! Posted by Hello

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04/03/05

Pantagruel extinto I


Sopa d'unto, três tijelas*

Ingredientes (pª 4 pessoas):

1 tacho para sopa, em ferro
cerca de 1,5 l de água
1 ovo
1 cebola média
sal grosso
1 caldo de carne
200 gramas de toucinho
salsa
coentros
hortelã
cominhos
meio copo de (bom) vinho branco

Enquanto a água aquece, descascar a cebola e cortar em meias lâminas, muito finas. Quando estiver a ferver, juntar o toucinho (cortado em fatias grosseiras ou inteiro). Deixar cozer cerca de 10 m. Juntar o caldo de carne, sal e cominhos a gosto. Mais 5 minutos de cozedura. Picar grosseiramente salsa, coentros e 1 folha de hortelã, e mexer com o ovo, numa tijela. Juntar à sopa, mexendo com um garfo. Juntar o vinho. Deixar ferver mais 2 minutos. Servir em tijelas.

variantes:
- servido com pequenos cubos de pão torrado
- servido com presunto em fiapos
- com duas gemas em vez do ovo inteiro
- servido com ovo escalfado em fatia de pão torrado (em prato)
- com lastro de lentilhas, arroz, massa de letras ou "estrelinha"
- servido polvilhado com as ervas aromáticas


(se fosse em França, esta sopinha excelente seria conhecida como "Consommé Saindoux")

* - antigo dito popular

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28/02/05

ex machina

Miele, máquina de lavar roupa, lavadeira
Zanussi, máquina de lavar loiça, loiceira
chita, máquina de correr, corredora
cão, máquina de cagar, cagadeira
cadela, máquina de ladrar, ladradeira
gato, máquina de filar, filadeira
gata, máquina de parir, parideira
mulher, máquina de foder, fodilheira
homem, máquina de fingir, fingideira
esfregona, máquina de limpar o chão, limpadeira
La Cimballi, máquina de café, cafeeira
cabra, máquina de pastar, pastadora
leão, máquina de matar, matadora
Maoísta, máquina de exterminar, exterminadora
Fellini, máquina de fazer Cinema, cinemática
Guterres, máquina de arrastar, arrastadeira
Portugal, máquina de falar, cavaqueira
praia, máquina de torrar, torradeira
tempo, máquina de matar, matadeira
espaço, máquina de esquecer, matemática

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23/02/05

* PA *

Ganhámos, claro que ganhámos


Partidos Concelhos Concelhos Freguesias Freguesias Mandatos
11 308 306 4252 4250 226
Inscritos Votantes Abstenção Brancos % Nulos %
8785189 5711981 34.98% 103555 1.81% 63765 1.12%


Resultados oficiais (Hondt)
Listas Votos % Mandatos %
PS 2573302 45,05% 120 53,10%
PPD/PSD 1638940 28,69% 72 31,86%
PCP-PEV 432130 7,57% 14 6,19%
CDS-PP 414856 7,26% 12 5,31%
B.E. 364296 6,38% 8 3,54%
PCTP/MRPP 47744 0,84% 0 0,00%
PND 39986 0,70% 0 0,00%
PH 16866 0,30% 0 0,00%
PNR 9365 0,16% 0 0,00%
POUS 5572 0,10% 0 0,00%
PDA 1604 0,03% 0 0,00%
  5544661 97,07% 226 100,00%


Resultados reais (proporcional)
Listas Votos % Mandatos %
PA 3073208 34,98% 79 35,66%
PS 2573302 29,29% 66 29,86%
PPD/PSD 1638940 18,66% 42 19,02%
PCP-PEV 432130 4,92% 11 5,01%
CDS-PP 414856 4,72% 11 4,81%
B.E. 364296 4,15% 9 4,23%
PCTP/MRPP 47744 0,54% 1 0,55%
PND 39986 0,46% 1 0,46%
PH 16866 0,19% 0 0,20%
PNR 9365 0,11% 0 0,11%
POUS 5572 0,06% 0 0,06%
PDA 1604 0,02% 0 0,02%
  8617869 98,10% 222 100,00%


http://195.245.179.232/legis2005/
Fonte (dados oficiais): RTP

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Inteligência artificial



Bálhamedeus.

Ração para extermínio de pombos?

Isso é lá critério de busca, santinho!

Eu cá gosto de pombos, vou já adiantando. Pombas. Rolas. Passarada em geral. Que raio. Eu próprio sou parente dos palumbus, se bem que extinto. Os pombos são meus primos, para ser exacto. Há um pombo que é meu amigo pessoal, arrulha e rodopia desesperadamente quando me vê, deve achar que lhe faço concorrência com as pombas lá do adro da igreja, que é o território dele.

Mas cadê o quê? Qual cadê, qual carapuça. Maoísta do caraças, esse caramelo que aqui veio parar com tão asinino e assassino critério.

Ração mas é para ti, ó palerma. Tu é que merecias o extermínio, ouviste? Deixa os pombos em paz, animal!

Porra. Já não durmo hoje.

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18/02/05


Partido Abstencionista


Por mais asterisco para todos


Manifesto eleitoral

Portugueses:

No próximo dia 20, Domingo, os Portugueses vão mais uma vez ser chamados às urnas para, através do seu voto, escolherem o novo Governo. Mais do mesmo, como todos sabemos, mas, ainda assim, tratando-se de um ritual absolutamente inócuo e de resultados completamente indiferentes, seria conveniente que, a bem da Nação, o Povo português e demais pessoas conhecessem aquilo que realmente está em causa. Desta como das outras vezes, e como será em futuras ocasiões - não duvidemos - apenas o nosso Partido sairá vencedor. É esse o facto político e a única, grande, transparente verdade que todos os outros Partidos tentam escamotear.

De facto, o Partido Abstencionista (P.A.) ganhou todas as eleições desde o 25 de Abril, por larguíssima e sempre crescente margem; isto, claro, descontando a primeira ida às urnas após a abrilada, para a debutante Assembléia Constituinte, nos idos de 75; naquela altura era novidade, e por isso não houve cão nem gato que não quisesse experimentar a coisa, a ver se funcionava. Não funcionou, escusado será dizer. Durou muito pouco tempo essa bela ilusão de que a Democracia funciona e, rapidamente, o nosso glorioso P.A. se transformou no maior Partido nacional, vencedor antecipado de qualquer sufrágio, não apenas em Portugal mas, de resto, convenhamos, em qualquer país minimamente civilizado.

As propostas do P.A. não mudaram nem mudarão nunca, e por isso sabemos que venceremos de novo. Queremos o mesmo de sempre, de uma forma liminar e simples, acessível a qualquer cidadão, por mais ignorante e mal formado que seja. A linha política do P.A. resume-se ao próprio "jingle" do Partido e consubstancia-se no nosso símbolo: queremos mais asterisco para todos, eis tudo.

O que significa, desenvolvendo um pouco essa linha geral:

- mais asterisco para o Povo e para as pessoas em geral
- asterisco na estrutura do Estado, com asterisco nas relações deste com os cidadãos
- sistemas de Ensino, judicial e de saúde com asterisco e mais asteristicamente articulados
- um Executivo controlado por mecanismos de asterisco eficazes
- redução progressiva de asterisco nas camadas mais asteriscas da população, e vice-versa
- distribuição equitativa do asterisco nacional, através de um sistema mais asterisco e asterístico

Meia-dúzia de linhas orientadoras da acção política, apenas 6, por conseguinte, mas que resumem tudo aquilo a que nós, os abstencionistas, aspiramos com todo o fervor. Quando não vamos às urnas e, assim, contribuímos para tornar o Partido cada vez maior, sabemos bem ao que não vamos. O abstencionista não quer saber para nada dos problemas intestinos dos outros Partidos, e muito pouco ou nada lhe importa que grupo vai mais uma vez fingir que ganhou, ou qual o fabiano que, em concreto, ocupará o mais alto tacho da nação.

Bem sabemos, nós outros, que o lema desta campanha e de todos os candidatos - agora como antes, repetido até à náusea - é o mais evidente fartar vilanagem. As eleições são meros concursos de acesso à função pública, decorrendo ao longo de 15 dias, com uma classificação final atribuída em função do número de mentiras propaladas, do número de quilómetros percorridos, do número de beijinhos em peixeiras, em criancinhas e em "populares", além de outros números.

O verdadeiro abstencionista, militante por inerência e por condição, marimba-se altamente para a fantochada eleitoral, vai à praia, ao cinema, ao café, ou simplesmente fica em casa, de chinelas. Deixa olimpicamente correr o marfim porque, em plena consciência, sabe que já ganhou por antecipação, mesmo quando as eleições são antecipadas - como é agora o caso. Nós não queremos puxar o lustro às cadeiras e às esquinas de S. Bento. Queremos que os mais asteriscos se vão mas é catar, a problemática do asterisco não nos interessa nem isto, o que é tanto como nos importa outra problemática qualquer e que, em suma, se lixe o asterisco mai-los seus problemas.

Conhecida e reconhecida como é a nossa capacidade de desmobilização, activamente inertes como só nós sabemos ser, não fica aqui apelo algum a coisíssima nenhuma. Estamos certos, íntima e explicitamente, de que ganharemos depois de amanhã, outra vez, por cabazada, é mais certo do que dois e dois serem quatro, até chateia, e continuaremos portanto a ser o maior Partido português. Não é por isso necessário apelar a que não votem em nós, porque, evidentemente, vocês não o vão fazer.

Exacto. Obrigado.

Chacun pour soi.



Nota: onde se lê "asteris*****", leia-se aquilo que se quiser

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16/02/05

Some things never change


Sem querer estragar a tua boa disposição, nem a tua noite, nem criar-te pesadelos, lembro-te que estamos apertados, que este mês eu não recebo e não sei se receberei no próximo. Convinha tentarmos apertar o cinto, como quer o bochechas, o mais possível, sem sufocar. E tu sabes tão bem como eu que tudo é fogo, ou somos nós que ganhamos pouco. Convém esticar o pouco que existe até ao fim deste mês, o que não dá azo a grandes cavalgadas. É a crise, a culpa é da crise.
Boa noite.
Beijinhos.
A.

17 de Julho de 1982

glossário:
bochechas: Mário Soares
não sei se: não
apertar o cinto: spaghetti
fogo: caro, caríssimo
grandes cavalgadas: bitoque
crise: 1974 e seguintes


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11/02/05

Fuckin' brilliant

quote


Eu sou mestre de culinária
e sei enfeitar a travessa
vou comprar uma panela de pressão
para ver se eu cozinho mais depressa

Tendo em conta o poema apresentado e o contexto actual de perda de competências do Estado Social, disserte sobre o preço da gasolina sem chumbo 95 na Moldávia. Use cinco vezes a palavra gnomo e sete vezes e meia a palavra hipotálamo.
unquote

http://estupidologia.blogspot.com/

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05/02/05

É Carnaval, alguém leva a mal

O Carnaval é...

Foleiro, pindérico, rasca.
Barulho, confusão, desassossego.
Grosseiro, troglodita, borrachão.
Foliões, cabrões, camiões.
Carros, escarros, cortejos.
Corsos, dorsos, porcos.
Brásil, cerveja de barril, imbecil.
Multidão, maralha, ó-lé-lé ó-lá-lá.
Vomitado, suor, fedor.
Xanga-xanga, samba, tchecadum pum pum.
Gaja boa, broa, sapatão.
Ressaca, porrada, empurrão.
Confetti, travesti, patata-patati
Chinela, novela, favela.
Alegria obrigatória, parvoice compulsória, estupidez repetida e sem memória.



Nunca mais é Quarta-Feira. Há pelo menos uma pessoa que leva a mal a porcaria do Carnaval: eu.



imagem de http://www.regiao-sul.pt/carnaval/

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29/01/05

Da beleza


Diz-me porque te escondes e onde
Porque não entendo o que dizes nem quando
O que sobra da tua sombra ou como sabes
Onde me escondo e disparo sobre os teus passos.

Descobre o meu esconderijo, por favor.
Liberta este meu sentido inerte
Livra-me do mal, ou não, que disparate!
Quando souber o que dizer, exactamente,
Hás-de saber que preciso de ti
Mais do que nunca, perdidamente.

E é isso que faz tanto sentido como alinhavar
Palavras ou linhas com linha fina
O mesmo sentido do absurdo
E a mesma lengalenga elegante
Vazia, tão vazia como o meu reflexo
Neste estúpido espelho onde te vejo.

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13/01/05

Dust to dust


Essa excelente série americana, que nem sei se ainda dura, ensina mais do que dezenas de livros, como diria Mogais Sagmento, em um milésimo do tempo necessário para os ler. Espécie de paradigma do conhecimento, os episódios de Six Feet Under são conhecidos em Portugal, por uma esmagadora minoria (1), pelo título traduzido e adaptado "sete palmos de terra" (deliciosa e subliminar expressão, com seu toque de vernáculo, como convém).
Ora, esta coisa é vagamente intrigante. Seis pés, se bem me lembro e fazendo contas de cabeça, o que, é sabido, não é o meu forte, são cerca de - ou mais de - 180 cm. Os sete palmos portugueses devem rondar, no máximo, a 20 ou 25 cm o palmo, qualquer coisa como 130, 140 centímetros, no máximo. Há-de haver aqui alguma subtileza - cultural e escatológica: os americanos enterram os seus mortos mais fundo do que a gente. Caneco. Bálhamedeus. Porque será?
Num dia, anda a gente gozando de excelente saúde, tostando ao nosso belo sol, curtindo nossas prerrogativas (as quais consistem, em resumo, em não fazer porra nenhuma), e no dia seguinte a coisa acaba-se, pronto, já está, morto e enterrado, finito. Chapeau, como diria Lobo Antunes. Mais perto, ligeiramente, da superfície, do que aquilo que acontece com os americanos, mas ainda assim enterradíssimos, sem apelo nem agravo. A mesma merda, com umas polegadas de diferença.
Pronto. Já está, repito. Num caso e noutro, mais pázada menos pázada, mais centímetro menos centímetro, ou mais pé menos pé, enfim, mais coisa menos coisa, o resultado é o mesmo. Processo limpo, ancestral, higiénico, expedito, a morte. Por regra e por definição, caberá a alguém, pobre vítima acidental, a estopada de distribuir e de despachar os pertences, as tralhas, as recordações e as marcas pessoais de cada falecido, de cada um de nós, a nossa herança e o nosso legado - coisa para uma semanita de trabalho que caberá à infortunada pessoa.
A coisa propriamente dita, as exéquias, ou funeral, ou que se lhe quiser chamar, processa-se em dez minutos, não mais: depois da missinha da praxe ("por alma"), se for o caso, ou com qualquer outro nome de ofício religioso, há um cortejo em marcha lenta, depois um buraco na terra, uns quantos profissionais de pá na mão e ar circunspecto; um padre, ou coisa que o valha, debita umas palavrinhas por desfastio e por fé; o esquife é descido; tchof, tchof, tchof, a terra chove sobre o caixão. Acabou. É assim, como agora se diz até à náusea.
Talvez o mais surpreendente ensinamento desta série seja (ou foi) o detalhe mórbido daquilo que se faz com os cadáveres, industrialmente falando, nas horas que antecedem a cerimónia de despedida. Eu cá não fazia a mais pequena ideia de que é necessário vedar todos os orifícios de um ser-humano, antes de o despachar. Boca, ouvidos, nariz e ânus são devidamente obliterados, tapados, com uma substância apropriada (silicone?, betume?, argila?), não vá suceder que aquela massa inerte desate a gotejar ou a largar fluidos inconvenientemente.
Nos hospitais, quando alguém por acaso se apaga, o pessoal de enfermagem prepara o ex-doente que acaba de se finar, começando por facilitar o trabalho ao colega seguinte - o gato-pingado, e a este processo se chama na gíria "fazer a múmia". Genial expressão. Múmia. Fazer a múmia. Cirúrgica, judiciosa, preciosa expressão. Dali, do hospital, o cadáver passa, em princípio (se não houver necessidade de autópsia), para a agência funerária, onde são feitas as tais preparação e alindamento; passa de múmia a falecido, ou seja, de matéria inerte semi-preparada e processada a produto acabado para as cerimónias fúnebres. Suave transição, excelente sequência.
Nos preparos finais, nas mãos dos competentes manufactores de defuntos, o cadáver será transformado em algo de muito apresentável; ficará composto, arranjado, aprumado. Muito provavelmente, nas mãos de profissionais tão expeditos, ficará muito mais apresentável, escanhoado, bonito, do que alguma vez terá sido em vida. É um serviço que se recomenda. Excelente. Aquilo dos orifícios naturais obliterados é um extra mas é também um "must"; é possí­vel que ao morto seja adicionado um sorriso na boca, ou apenso um crucifixo nas mãos; pode até ser que lhe ponham as maçãs-do-rosto mais rosadas, ou que lhe dêem sombra nos olhos, entre outros truques. No fundo, morrer é um último acto de alguma peça para a qual toda a gente é convidada menos o protagonista.
Não se pode morrer, como se sabe, caso não se esteja absolutamente impecável. Trata-se da nossa única propriedade horizontal. É conveniente não incomodar os que se seguem, em especial se os crepes e os salgadinhos servidos durante a cerimónia não forem grande coisa.
Cremação. Urna fechada. Eis o meu testamento em três palavras.
E deixem os meus buracos em paz, se faz o favor.


(1) expressão idiomática original, criada aqui, copiada no jingle da Sagres Preta e referida também aqui anteriormente - algures

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