As gordas
Ler as gordas é uma expressão idiomática do Português, absolutamente intraduzível, como tantas outras. Contrariando as aparências linguísticas, não se trata exactamente de tentar decifrar o significado intrínseco do conjunto de mulheres "cheiinhas" que por aí andam rebolando as carnes;
ler as gordas não tem nada a ver com interpretação de dizeres em "t-shirts" envergadas por senhoras de porte avantajado; qualquer engatatão que saiba de ginjeira aquilo que as gordas pretendem não é grande coisa, ainda assim, no que diz respeito a
ler as gordas.
Enfim, não prolonguemos desnecessariamente o
suspense tergiversado.
Ler as gordas aplica-se a toda a imprensa escrita (jornais, revistas e blogs) e ao público leitor em geral, a imensa maioria, que apenas passa os olhos pelos títulos e espreita de relance fotografias e outros materiais de mais fácil e rápida consulta. Diz-se "empresta-me aí isso, só para ler as gordas" ou "vou só à net ler as gordas", e nisso consiste o grosso da coluna informativa actual.
De acordo, aliás, com a velocidade normal da vida moderna; não são apenas as deslocações e as comunicações que atingiram velocidades alucinantes; outro tanto sucedeu, e na mesma proporção, com a informação - em sentido lato, e englobando esta qualquer produção escrita, da simples notícia "local" à peça literária mais profunda. No conjunto da informação escrita, o processo é horizontal e absolutamente cego, espécie de rolo compressor que amassa e repassa tudo por igual. Velocidade implica pressa, em progressão geométrica, por um lado, e quantidade implica - por paradoxo - não diversidade mas uniformidade; exemplo deste axioma, aplicado às leituras, é o fenómeno da "condensação" literária, ou seja, a técnica iniciada pela americana "Reader's Digest", que se dedica a "condensar" e a "resumir" livros inteiros em poucas páginas ou em apenas alguns parágrafos; isto permite que, por exemplo, qualquer absoluto burgesso possa citar Heidegger, ou Kant, ou mesmo S. Tomás de Aquino, e brilhar em qualquer tertúlia de café sem nunca ter lido uma única das obras que cita. É a cultura de algibeira em toda a sua pujança. O mais conhecido caso mediático desta espécie de vórtice referencial (e reverencial), de voragem livresca e de terraplanagem cultural, é o conhecidíssimo Doutor Cantigas (Marcelo Rebelo de Sousa), recordista europeu e mundial de leituras pela rama. Com exemplos destes, com gente capaz de ler cinco romances e três ensaios por dia, mais quatro enciclopédias e duas ou três colectâneas de poesia em cada noite, é natural que o chamado "homem da rua" se considere, cada vez mais e com toda a propriedade, pessoa de ler e saber, gente de algo na cabeça, pois que até leu a capa do "Código" (Da Vinci), a contracapa do David Crockett (a porcaria do Sousa Tavares filho, não a obra de Abbot), mais as críticas literárias do Expresso, todos os sábados, e ainda uns quantos resumos nas "Selecções", nada mais, ora toma.
Em tempos, conheci o maior vendedor de uma coisa que se chamava "Amigos do Livro" (*), verdadeiro ícone da cultura a metro, pessoa de fino trato e truques excelentes. Tinha por método a maior lábia que imaginar se possa, e por instrumento de trabalho uma corda; uma simples corda, além de gravata, fatinho e muito, muito paleio. Todas as zonas rurais em volta de Lisboa, e mesmo no "Portugal profundo" (Alguidares de Cima e ainda mais longe), eram a sua zona de caça exclusiva; especializou-se em pastores, se bem que não desprezasse qualquer jornaleira desgarrada, por detrás de montes e vales. Lá ia ele, com a sua corda, e conseguia convencer os inocentes de que uma colecçãozinha "é que ficava a matar ali naquela parede". Dava um nó na ponta da corda.
_ Olhe, segure aqui nesta ponta.
Esticava a corda até ao canto oposto. Dava outro nó na medida.
_ Pronto, amigo. Daqui a uns dias já cá tem os livros. A estante ofereço-lhe eu.
Infalível. A gente babava-se com as comissões que o fulano recebia. E ele ria-se das nossas batidas em bairros periféricos, durante as quais tentávamos convencer os moradores (geralmente, através de ralos ou de portas fechadas) das virtualidades artísticas e da enorme categoria das nossas colecções de grandes "clássicos".
_ Camaradinhas, dizia ele, o que interessa nos livros não é o que lá está dentro; é a lombada. Eu vendo livros a quem não sabe ler nem escrever, como objecto de decoração.
Esta figura e este episódio ilustram algo que está para além de simplesmente
ler as gordas, mas o espírito é rigorosamente o mesmo. Mudaram os tempos e os meios, mas a lógica é idêntica. O que interessa continua a ser a lombada, o título e o autor. La Palisse nunca escreveu uma única palavra e toda a gente continua a citar argumentos "lapalissianos", apenas para dar um exemplo. A citação é hoje a mais letal das armas de arremesso intelectual; cita-se para esmagar "adversários", correligionários, amigos e "inimigos"; a "pinta" (literária, cultural, ou apenas pinta) mede-se pela quantidade de referências, pelo número de citações, pela opacidade e pela concentração de autores muito "lá de casa". Quanto mais esotérico o arrazoado citacional, mais escorado está o escrevinhador, a salvo de qualquer objecção - porque, se ele mesmo não leu nunca aquilo de que fala, quem se atrever a criticar vai ter de provar que ele não leu ou, pior ainda, vai ter de ler (ele próprio e não outro) aquela merda toda, que bem se lixa.
Flagrante demonstração desta nova (e também velha) e triste realidade é o que se passa por aqui, no blogbairro. Toda a gente lê "as gordas" e apenas estas. Aqui, lê-se as gordas à força toda. A pressa em ler é directamente proporcional à quantidade de leitura disponível, e isso verifica-se cada vez mais nos blogs. Todos os dias surgem e desaparecem dezenas de endereços. Nenhum de nós é o Marcelo, temos o péssimo hábito de dormir, de vez em quando, ou de comer, por exemplo, e uma ínfima minoria vai fazendo alguma coisinha pela vida. Ninguém tem tempo para ler tudo, quanto mais muito, quanto mais bem. No máximo, procura-se algo que nos diga respeito, ligações aos nossos próprios escritos. Citações, comentários, respostas a comentários. Procuram-se reflexos.
Esperamos que o lago nos devolva uma imagem perfeita de nós mesmos. Afinal, nós é que somos as gordas.
(*) Sim, já vendi livros de porta a porta, cheguei a ser corrido por um talhante de machadinha em punho; suponho até que este episódio e aquela actividade me confiram a qualidade de mártir da literatura ou de herói das lides culturais. Pelo menos.