Odi profanum vulgus et arceo

25/06/05

época de exames

excertos do blog Cindycato de Terroristas Blogosféricos (http://cindyterblog.blogspot.com/)

Não estamos aqui para fazer amigos. O nosso objectivo é unica e exclusivamente demonstrar o lado mais ridículo da blogosfera. O lado das amizades. Da proliferada troca de favores, ou seja, o acto de comentar um blog porque o/a autor(a) desse blog comenta o outro blog. Situações como as que ainda agora aconteceram com a Blogotinha de tomar o número de visitas pela qualidade do blog. Não, isso não é qualquer tipo de metonímia, nem nada que se pareça. Simples estupidez. (http://cindyterblog.blogspot.com/2005/06/esclarecimento-populao.html)

Talvez como consequência dessa atitude, a maioria dos posts que se referem à Cindy, não saberão muito bem que posição tomar. Não sabem se concordar connosco ou discordar por completo. Também aqui está presente o mercantilismo. “Será que se eu disser que até concordo com eles perco visitas e comentários?” – deverá ser esta a dúvida. Contudo, as vozes concordantes começam a surgir. Julgo que a consciência para a necessidade de mudança na blogosfera é generalizada, mas nem todos a admitem. Seremos nós uma espécie de referendo sobre o aborto? (http://cindyterblog.blogspot.com/2005/06/vamos-l-ver-se-nos-entendemos.html)


A Blogotinha é tão politicamente correcta que até a responder a insultos o é. Provavelmente, porque todos os dias procura aumentar a sua média de visitas por forma a chegar ao topo. O sonho dela é ser o Pacheco Pereira: escrever coisas que não interessam a ninguém mas que geram polémica. Vá se lá perceber isto... (http://cindyterblog.blogspot.com/2005/06/se-eu-fosse-cirurgio.html)

cumixoso: Caixa de Insultos?? Nao é necessário... ter um blog roxo, com o titulo de "cindy", um contador que começou no milhão e 3 pastilhas que têm como nome "van der.. GAY" não necessita de ter caixa de insultos...; (http://cindyterblog.blogspot.com/2005/06/momento-blogotinha_18.html)

Afufalhada...No mínimo?
Apresenta-se a Blogotinha, Raínha dos Posts inúteis! Calcula-se que, mais de 50% do tempo passado no emprego será feito a postar: "está calor, comentem", "o meu patrão coçou a virilha, abre-se já um poll", "Qual é o teu Legume? Participa já". O mais incrível neste blog porém, é a quantidade de visitas que obtém (640 pessoas em média/dia), o que leva a pensar que afinal não só as moscas são atraídas por merda. (http://cindyterblog.blogspot.com/2005/06/blogotinha.html)



Língua Portuguesa: 15
Introdução à Sociologia: 19
Educação Visual: 11
Técnicas Laboratoriais: 14
Álgebra: 14
Expressão Dramática: 18
Química: 12
Educação Física: 10

Aprovado com a média geral de 14 valores

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os passageiros do vento




O génio tem um preço, de facto. Procurei François Bourgeon na Google e fui dar, surpreendentemente, a uma série de becos sem saída ou, como é tecnicamente mais correcto dizer-se, "dead links".

François Bourgeon é "só" o mais espantoso autor de banda desenhada do século XX. Nada mais, nada menos. Não sou especialista no assunto, mas parece-me que ambas as coisas, pranchetas e diálogos, são de sua autoria. Para além do argumento, é claro. Perfeito. Maravilhoso. Cinco estrelas, vinte valores. A série Os Passageiros do Vento, cinco tomos, é absolutamente imune a qualquer espécie de qualificativo, porque o brilhantismo resplandece por si mesmo, evidentemente, sem palavras a atrapalhar; os livros devem simplesmente ser lidos, vistos, relidos e vistos outra vez, e outra, e outra.

Apenas 237 resultados da pesquisa restrita a páginas em Português ilustram perfeitamente a genialidade do autor. Mesmo sabendo que a tradução até não está nada mal feita (e que, por coincidência, o nome de quem traduziu não aparece em lado algum), não me recordo de alguma vez ter lido a mais ínfima referência a este ícone da literatura contemporânea. De resto, a máfia intelectual portuguesa, que se entretém amiúde a debitar umas coisas sobre aquilo que é e não é literatura (com "éle grande", diriam esses pacóvios), nem considera a chamada "banda desenhada" como algo digno de apreciação(*). Compreende-se. A ignorância resulta da castração intelectual, e esta é consequência da institucionalização da mediocridade. Em Portugal, é naturalíssimo que praticamente ninguém conheça François Bourgeon; e que se tenham editado apenas 4.000 exemplares de cada um dos livros dele. Em Portugal, o génio não vende. Não existe, portanto. O pessoal é mais afeiçoado ao Tio Patinhas, nos bonecos, e ao Avô Cantigas, na indústria porreirista.

Mas isso agora não interessa nada, como diz não sei quem.

A acção(**) passa-se no século XVIII, em França, em Inglaterra e em vários pontos de África. Excerto de um diálogo entre Isa, a figura feminina central, e um padre da Missão francesa na feitoria de Judá, no actual Benim (ex-Daomé).

_ É verdade que os daomeanos fazem às vezes sacrifícos humanos?
_ Infelizmente!... o sangue é o laço sagrado entre os homens e o cosmos. Só ele permite entrar em comunicação com os deuses e os antepassados.
_ Então, onde nós só queremos ver barbárie, existe um acto religioso comparável ao que o leva todos os dias a beber o sangue de Cristo?!...
_ A analogia é audaciosa... Hum! Prefiro não a seguir por essa encosta arenosa.
_ No entanto, é por um caminho de certo modo mais movediço que o senhor segue uma igreja que, ao mesmo tempo que prega o amor do próximo, não hesita em se fazer cúmplice e aliada dos mercadores de escravos!?...



imagem: http://www.lambiek.net/bourgeon.htm
biografia: http://www.bdparadisio.com/scripts/detail.cfm?Id=269
(*) À excepção de Hugo Pratt, essa bandeira (trapalhona) da intelectualidade bacoca. Digo eu, que não aprecio, mas que além disso não passo de tremendo ignorante na matéria.
(**) Os Passageiros do Vento. 3. A Feitoria de Judá, ed. Meribérica/Liber (copyright Éditions Glénat, 1981)

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24/06/05

O Melga


Uns viram costas ostensivamente, fingem-se distraídos, outros rapam do telemóvel e desatam a fingir que estão a fazer imensas chamadas urgentíssimas, outros ainda piram-se de imediato, vou ali num pulo ver se está a chover, deixei uma panela ao lume, vou jantar que tenho fome, adeuzinho.

O Melga é um gajo verdadeiramente assustador: marreco até parecer um ângulo recto com pernas, a quase 90 graus, consegue projectar de forma impossível a cara, o nariz metediço bem à frente, beiçola de ex-mulato deslavado ou, melhor dizendo, assim como que se fosse da raça de Michael Jackson, ou seja, ex-preto. Não é pela malota ou pela tromba deslavada que o Melga é assustador mas, precisamente, por causa daquela maldita penca; aquele nariz é a imagem de marca do fulaninho, o mais cusco e má-língua cá do bairro e arredores; e ver a penca dele é muito mau sinal, porque fica-se logo a saber que o resto vem atrás - o que não indicia nada de bom.

Justiça lhe seja feita, o Melga redefiniu o próprio conceito de "chato com'à potassa"; ele é a própria chateza em pessoa, e faz gala disso, até ao absurdo. Geralmente, o que apetece fazer - a quem tem de levar com ele - é espetar-lhe de imediato um murro nos cornos, derrubá-lo com toda a limpeza e encher-lhe o focinho de pontapés. Pessoalmente, Deus me perdoe e me desvie dos maus pensamentos, já por diversas vezes dei comigo a arquitectar planos para o assassinar, à paulada, ou com um tiro de zagalote em cheio naquelas beiças de um cabrão; o mais agradável, no entanto, confesso, seria atá-lo a um poste de iluminação pública e, depois de devidamente amordaçado, desvendar-lhe a anatomia de um ombro, por exemplo, a golpes de corta-unhas - assim, tic tic tic tic, até ao osso, e deixá-lo depois esvair-se em sangue. Recordo perfeitamente que fiquei muito contente comigo mesmo, quando inventei esta inovadora e maquiavélica forma de liquidar chatarrões; e de facto, convenhamos, é de certa forma gratificante e consolador poder, ao menos, imaginar a sensação, a satisfação que seria dar cabo dele por este método.

Enfim, não se pense que sou só eu quem detesta, odeia, abomina aquele restolho de ser-humano; assim de cabeça, enumero de repente uns dez ou quinze gajos que eram capazes de lhe fazer coisas ainda mais incríveis do que aquela do corta-unhas. Já vi tipos, absolutamente lívidos e cheios de olhares esgazeados, espumando de raiva só por verem o animal à sua frente.

É que é mesmo insuportável, caramba. Conhece de cor e salteado a vida de toda a gente, mesmo ou principalmente a das pessoas que não conhece. Geralmente bêbedo a partir das duas da tarde, todos os dias do ano, há mais de 30 anos, é menino para provocar sistematicamente seja quem for, é capaz de interromper qualquer conversa e de se meter em absolutamente qualquer assunto, quer saiba alguma coisa a respeito quer, em especial, se não souber patavina. Nunca ouve uma única palavra que se lhe diga, mas tem sempre o palpite pronto, artilhada a observação mais cretina possível, a insinuação mais soez e canalha que imaginar se possa. A cada nova sessão de porrada que lhe toca em cima dos lombos, quando algum desconhecido se marimba para a "deficiência" que ele tem nas costas, o Melga acaba sempre por sair impante e sereno, dardejando uma auréola de heroísmo e de quase santidade.

Na tradição contracultural da juventude que anda hoje pelos quarentas, esta grandessíssima besta nunca pronuncia as palavras "sim", "muito" ou "pá", apenas para dar alguns exemplos da novilíngua da geração abrilina; utiliza, no lugar daquelas, respectivamente, "yá", "bué" e "meu" (ou "man"). Uma das características mais irritantes, e que o torna espécime único entre a raça dos chatos, é o vício de tocar sistematicamente no interlocutor, enquanto fala, e note-se que ele fala, evidentemente, o tempo todo; aliás, aquela mania não é bem "tocar", é mais dar umas pancadinhas, umas palmadas ou umas tapinhas com as costas da mão, para chamar a atenção a quem de momento o está a aturar; dá mais uma pancadita num braço, no ombro, na barriga, e acompanha sempre a coisa com um "ouve!" gritado; de maneira que, em cada minuto, a vítima leva dez pancadas e ouve dez vezes "ouve!", mesmo que tente interromper, mesmo que tenha um súbito ataque de caganeira, ou ainda que lhe dê um enfarte do miocárdio ali mesmo.

O epíteto mais carinhoso que lhe é de ordinário dispensado, seja por quem for, é o de filho-da-puta. Também nesse ramo etimológico, imaginação não falta a quem algum dia teve o azar de o conhecer. Evidentemente, é muito raro alguém dizer-lhe em plenas trombas coisinhas deste calibre; regra geral, é pelas costas ou, por outra, é pela marreca - porque ninguém se arrisca a tê-lo por inimigo. Se bem que toda a gente saiba perfeitamente que não é como inimigo que ele é mais perigoso, mas como amigo, precisamente; mais curial seria dizer que é indiferente, afinal, o tipo é mauzinho para com os amigos e diz tantas filha-de-putices de uns como de outros. É indiferente. O cabrão debita continuamente fel e maledicência e é o mais competente dos intriguistas que alguma vez surgiram à superfície da terra.

O Melga é o Melga, não há outro. Na juventude, que nunca largou em absoluto mas que já lá vai em termos cronológicos, algures no passado, desenvolveu um problema de consolidação articular na zona lombar; depois, com o passar do tempo e a acumulação de copos, drogas e má vida em geral, a coisa degenerou em artrose complexa e, uns anos mais tarde, resultou naquilo a que ele hoje dá a pomposa designação de "espondilite anquilosante". Evidentemente, a história que pôs a circular, e que perdura, não tem nada a ver com degenerescência óssea: diz que foi numa cena de pancadaria, em pleno Bairro Alto, que levou uma cacetada nas costas, logo ele que estava ali, qual cavaleiro andante dos injustiçados nocturnos, apenas tentando proteger não sei quem, já não me lembro exactamente porquê; o que aconteceu, como sempre acontece nos sarilhos em que se mete, não teve nada a ver com ele mesmo, ou ia só a passar ou estava a defender alguém. O verdadeiro herói, em suma.

E culto como poucos, vagamente genial. É perfeitamente capaz de comentar um desafio de futebol estando de costas para a televisão e sabe sempre, sem nunca olhar para o écrã, se foi ou não falta, quem substituiu quem, o que está o árbitro a dizer e o que tem o treinador visitante no bolso esquerdo. Nunca manifesta a mais leve dúvida sobre questões tão simples e transparentes como a situação da balança de transacções correntes, a situação política no Daomé ou a História comparada da filosofia segundo Hegel; conhece, de resto, em perfeito detalhe, por exemplo, o funcionamento dos motores da nave Challenger ou o método de fabrico das fraldas descartáveis. Nunca entupiu, absolutamente, perante assunto algum.

Escondido atrás da malota, sentindo-se protegido pelo putativo estatuto de "deficiente" (e nas circunstâncias heróicas em que tal "aconteceu"), e ainda para mais estando permanentemente carregado de gasolina de avião e de outras substâncias químicas, o Melga acabou por conseguir um estatuto de totais inimputabilidade e irresponsabilidade; por fim, resolveu em seu proveito exclusivo um dos mais profundos e antigos problemas da humanidade - é feliz. Ninguém o chateia, porque é ele quem chateia toda a gente. Ninguém o agride, porque ele é aleijadinho. Ninguém o confronta, porque ele não é nem branco nem preto, e nem sequer mulato. Como não é realmente amigo de ninguém, passa por amigo de todos e, portanto, todos são seus amigos. Não tem problemas ditos emocionais, nenhuns, porque tem o sexo na língua e não onde é costume. É o maior e o mais antigo dos cromos, uma pequena figura pública, e anda por isso sempre contente da vida.

Pois, bruxo, eu bem dizia. Falai no mau. Lá vem ele.

Foda-se.

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10/06/05

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http://tombstone.dogcrap.net/tombstone.php

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09/06/05

Luís, seu palerma, enfim, compincha, camarada, irmão de Letras


"No mais, Musa no mais, que a lyra tenho
destemperada e a voz enrouquecida,
e não do canto, mas de ver que venho
cantar a gente surda e endurecida.
O favor com que mais se accende o engenho
não no dá a patria, não que está mettida
no gosto dea cubiça e na rudeza
de huã austera apagada e vil tristeza".

(Canto X estrofe 145)

Dá aí uma palavrinha a Deus; por minha intenção; crente e prestes, bem sabes; obrigado; fico devedor


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08/06/05

My name's Dodo. Dodo Bird.


Without the final "t", please. Godot, with that final "t" is actually something else.

Let me put it once again this way: nothing to do with diapers.

Just Dodo. Loose the fuckin' T. Have some tea. Whatever.

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07/06/05

em menos de um fósforo


Pela terceira vez o digo aqui, em três anos consecutivos: o problema dos incêndios não é a falta de limpeza das matas. A falta de limpeza das matas não tem nada a ver com a ocorrência de incêndios e muito menos com a sua frequência. A "limpeza das matas", na acepção geralmente aceite e difundida, é um perfeito disparate: absolutamente inviável, dada a dimensão e as características dos terrenos; totalmente contraproducente, porque os matos e os restolhos são o alimento da floresta e do bosque; inteiramente falaciosa, já que se trata de puro pretexto para que nada de eficaz seja feito.

Toda a gente sabe perfeitamente quais são as causas dos incêndios que vão destruindo, ano após ano, as nossas manchas florestais: a desertificação do espaço rural, o plantio industrializado de "madeira de crescimento rápido" (em especial o eucalipto) e os interesses das indústrias que dependem daquela matéria-prima, a especulação imobiliária, a facilidade de recrutamento de incendiários, a desorganização das entidades envolvidas, a corrupção generalizada em todos os sectores envolvidos no combate aos incêndios. A repetição sistemática da falaciosa "limpeza das matas", por parte de governantes e responsáveis, com eco acefalamente matraqueado na comunicação social, destina-se exclusivamente a desviar as atenções da opinião pública em relação aos reais motivos da questão.

É um truque velho e relho, em tempos utilizado em exclusivo pelos comunistas mas hoje plenamente adoptado pelos inimigos de antanho, os capitalistas: repetir à exaustão uma patranha, até que ela se transforme em verdade universal; é a conhecida técnica de "uma mentira muitas vezes repetida acaba por ser verdade". O povo gosta de coisas simples e, de facto, "falta de limpeza das matas" é muito mais fácil de decorar do que, por exemplo, termos tão vagos e terminologia tão difícil de pronunciar como "especulação imobiliária" ou "corrupção generalizada"; de resto, assim culpa-se alguma coisa que não se sabe como poderia ser feita e que, em qualquer dos casos, teria sempre de ser feita "por eles", pelos outros, os "maus", e nunca por nós mesmos, os "bons", por conseguinte.

Como se trata de tarefa obviamente hercúlea, presumivelmente impossível, está justificado à cabeça que nada se faça porque, é claro, "não há meios humanos nem materiais". Portanto, é o argumento perfeito: a causa dos incêndios é a "falta de limpeza das matas" mas, como não é possível "limpar as matas", assim de repente, os incêndios continuam e são, por conseguinte, uma fatalidade em relação à qual não há nada a fazer... a não ser, talvez, continuar a pedir mais "limpeza de matas".

É realmente (e evidentemente) necessário o natural, previsível e rotineiro arranjo das áreas junto a edifícios, estradas e outras infra-estruturas dispersas, nas zonas florestais; que sejam efectuados o desbaste e a remoção de vegetação rasteira e de restolhos, em todas as zonas de habitação ou de trânsito que possam vir a ser afectadas pelos incêndios florestais. Mas não é a estas acções, de tão evidentemente necessárias, que se refere a propalada "limpeza das matas"; com esta expressão, pretende-se fazer passar a mensagem de que é necessário "roçar" todo o mato que reveste o solo da floresta; é cortar árvores mortas, arrancar cepos, remover as matérias caídas das árvores, folhas e galhos, raspar à sacholada todo o terreno, ou presumivelmente meter o arado e revolver toda a terra em volta de quaisquer raízes, até deixar apenas as árvores propriamente ditas; o que não estiver na vertical e não tiver mais do que uns quantos centímetros de diâmetro, arranca-se, corta-se, leva-se a aterro. A "limpeza das matas" consistirá, portanto, em rapar literalmente - não deixando absolutamente nada nos solos - todos os milhões de hectares dos terrenos florestais nacionais, públicos e privados.

Ora, além de impossível, esta ciclópica e, ainda para mais, cíclica tarefa seria o mesmo que - pura e simplesmente - matar a floresta. Quebrado assim o ciclo biológico, retirada a matéria cuja decomposição iria constituir a fonte de nutrientes dos espécimes arborícolas, nenhuma árvore sobreviveria mais do que um ou dois anos. Findos os quais, os próprios terrenos, descarnados e despojados de matéria orgânica, iriam começar a desintegrar-se, por pura exaustão, e a transformar-se em granulado de matéria inorgânica: primeiro, terra e pedras, depois areia e pedras e finalmente, também pela acção dos elementos naturais (chuva e vento, que iriam "lavar" o que restasse), os terrenos transformar-se-iam em pó e pedras: deserto. Ou seja, uma bela paisagem marciana.


P.S.: pelo que vou lendo, e a julgar, nomeadamente, pelas reacções aos dois anteriores pregões que aqui deixei, sobre o mesmo assunto, é necessário ser engenheiro agrónomo para dizer umas asneiras sobre a floresta; ou Chefe de Corporação de Bombeiros para mandar umas bocas sobre o fogo; ou, se calhar, Presidente da República para perorar sobre o estado da Nação. Não sendo nem uma, nem outra, nem outra das coisas, respectivamente, julgo-me no direito de dizer as asneiras que entender, mandar as bocas mais imbecis deste mundo e do outro, sempre que me der na telha, ou mesmo perorar e invectivar o meu peixinho vermelho, ainda que por escrito. Oh, well, shoot me.

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06/06/05

Na frente


O Dragoscópio consta da lista de ligações do Portal Nacionalista, na categoria de "Blogues nacionais" (national blogs, se fosse em Inglês). Não sei se lhe dê, caro Drago, ou os parabéns ou os pêsames. Mas enfim, aqui fica devidamente bufado o facto, que suponho não ser ainda, pela modéstia que lhe é unanimemente reconhecida, do seu conhecimento.

E dou graças a Deus, já agora, por duas coisas, uma óbvia e outra subtil: por raramente alguém aqui vir e por ser absolutamente impossível, a seja quem for, carimbar aquilo que escrevo. E fica o lembrete: descascar mais umas quantas vezes no trogloditismo ultra-direitista, na brutalidade de tudo aquilo que é hiper, radical e definitivo - sobas da Madeira e outras sobras assim.

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Portugal Telecumunicassões


Voçê está aqui
http://www.ptcom.pt/vtsolucoesespeciais/noticias.aspx?idtipo=npnc

Serviço temporariamente indísponivel.
http://www.ptcom.pt/error.aspx?aspxerrorpath=/vtsolucoesespeciais/default.aspx

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05/06/05

coração apetitoso

Por mais que vire e revire, não se deixa cozinhar, este coração. Bem rijo ele é, caramba, que rijo mesmo, parece um coirato. Isto nem com as moelinhas, nunca tal vi, carne mais dura não há. Coração empedernido, é o que é, com este garfo o pico e ainda assim, nada, lá deixa sair uma gotita ou outra, de vez em quando, grande avarento, mas ali continua frigindo, indiferente, coriáceo, frrgeee, de um lado e de outro, uma e outra vez. Ponho mais um pouco de manteiga, uma talhada de banha, umas gotinhas de azeite a ver se encorpa ou se se deixa finalmente vencer e amacia, pincelo com molho picante, alho e flor de sal com ervas aromáticas, tudo macerado em almofariz antigo, supremo requinte de culinária, mas nem assim, este coração não deixa, não se comove nem um pouco, nada, nadinha, com a minha fome. Que já vou babando alarvemente, pois, pois vou, antecipando o prazer de o filar a mãos ambas, de o retalhar à dentada, sôfrego, mastigando-lhe os pedaços suculentos, aquelas nervuras misteriosas onde quase tudo o que aconteceu ficou gravado para sempre. Ah, apetece-me roer-lhe aqueles detalhes de complicadíssima designação e as cavernas onde tanta coisa se passou. Desfazer selvaticamente todos aqueles veios e as nervuras pormenorizadas, que mais parecem cicatrizes. Abri-lo à mão e descobrir-lhe por fim os segredos mais profundos, como quem arromba a porta da alma.

Queria cozinhar este belo coração para o meu jantar, e comê-lo assim, simples, sem qualquer espécie de acompanhamento. Mas ele não: não quer. Vai ficar tão duro como sempre foi. Já vi tudo. Não adianta insistir; quando não, queima.

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04/06/05

Nej No Nein Non Nei Ne Ei Oxi Niet Hayir Neen Não Nu Nie


A URSS implodiu, em 1991, e hoje existem mais treze Estados independentes; catorze, se contarmos com a própria Rússia, ela mesma uma federação gigantesca, na qual prosseguem actualmente as mais sangrentas das guerras independentistas, das quais o caso mais conhecido é o da Tchechénia.

Na zona de influência ex-soviética, correspondente ao espaço geográfico do (obviamente) extinto Pacto de Varsóvia, a Checoslováquia partiu-se em dois: República Checa e Eslováquia. A Federação Jugoslava de Tito desfez-se, por entre carnificinas abomináveis, e surgiram de novo as nações que originalmente a constituíram, Bósnia, Croácia, Macedónia, Eslovénia, Sérvia e Montenegro. Outros países reassumiram a independência, como foi o caso da Moldávia, e persistem conflitos de cariz étnico-religioso-cultural em diversas zonas, correspondentes a nações que foram em tempos independentes ou autónomas, como o enclave de Nagorno-Kharabak ou a Arménia.

Na Ásia, arrastam-se desde há longos anos situações de guerrilha independentista, como em Caxemira, região disputada pela União Indiana e pelo Paquistão, ou no Aceh, zona ao Norte da ilha indonésia de Sumatra.

No Médio Oriente, vive-se um clima de instabilidade permanente, à qual não será com certeza alheia a chamada questão judaico-palestiniana; os palestinianos lutam pela criação do seu Estado independente desde, praticamente, a data da fundação do Estado de Israel (Maio 1948). A esta questão interminável não será por certo indiferente o fenómeno global que geralmente se designa por "terrorismo".

Na Europa, o Reino de Espanha aglutina cinco regiões administrativamente autónomas; destas, duas (Catalunha e Galiza) possuem partidos independentistas e uma (Guipzcoa, ou País Basco) está desde há largos anos mergulhada numa infindável luta de guerrilha pela independência.

Ainda na Europa, existem igualmente tendências e mesmo Partidos independentistas na Escócia e na Irlanda do Norte, ambos partes integrantes do Reino Unido. Países tão diversos e tão pequenos como a Bélgica ou a Suíça mantêm um frágil equilíbrio institucional entre as suas comunidades linguísticas, duas no primeiro caso e quatro no segundo. A ilha do Chipre está dividida em duas metades, a grega e a turca, o que implicou o mais confuso dos tratados de adesão à UE, com metade a pertencer e a outra (ainda) não.

Os exemplos de aglutinação artificial de nações, países ou culturas, em todo o Mundo, são inumeráveis; é um fenómeno que não funcionou nunca, a não ser através do uso sistemático da força e, mesmo assim, nunca por muito tempo. Mais tarde ou mais cedo, qualquer império se desfaz e todos os países ocupados acabam por se libertar. Entre o Império Romano e o Império Soviético, a maior diferença é que um durou 503 e o outro 72 anos; muito provavelmente, a longevidade do primeiro ficou a dever-se muito mais à imposição de uma Língua comum, o Latim, do que a qualquer imprescrutável ou subtil bondade do sistema que propugnava.

Com todos os exemplos e ilustrações da História, mesmo assim, os povos europeus parece não terem aprendido nada. Com o argumento, falacioso e propalado em exclusivo por uma mais do que suspeita classe política, de que era necessário "combater" o poderio económico norte-americano, constitui-se em 1992 a chamada União Europeia - como aparente consequência natural da precedente Comunidade Económica Europeia (1951). De simples associação económica transnacional (CECA), passou a espaço económico europeu (CEE) e por fim a união política europeia (UE), e tudo isto em apenas 41 anos; primeiro, eram seis países, mas rapidamente a "comunidade" se alargou a nove (1973), depois doze (1986), quinze mais tarde (1994) e, por fim, a 1 de Maio de 2004, os actuais 25 países; estão na calha mais umas quantas adesões ao "clube europeu", de países tão elegantemente eclécticos e de identidade tão "europeia, democrática e ocidental" como a Turquia, a Croácia, a Roménia e a Bulgária.

Por algum motivo que, pelos vistos, ninguém entende, a Noruega já recusou - por duas vezes - o convite para se tornar membro do clube. A Suíça também vai recusando, como pode, permanecendo cada vez mais nitidamente como uma ilha de terra rodeada de mar europeu que se lhe alastra em redor.

Estamos agora na fase final do processo de construção do colosso europeu; para que se possa iniciar a criação das FAE (Forças Armadas Europeias) e do SSE (Sistema Social Europeu), para que seja possível eleger de imediato o PUE (Presidente da União Europeia) e para que seja possível liquidar de vez todos e quaisquer direitos de soberania ainda na posse dos governos locais, é necessário agora, por conseguinte, legalizar o processo por via administrativa (dita democrática). A este processo administrativo convencionou-se chamar "promulgação da Constituição Europeia" e existem dois processos para o efeito: o referendo ou a votação parlamentar.

A situação actual do processo de promulgação da chamada Constituição Europeia indicia vícios de forma e um incómodo, tremendo, paradoxal deficit democrático, consistindo no seguinte: a coisa põe-se a referendo ou a votação parlamentar, nos 25 países; enquanto todos aprovarem, de uma forma ou de outra, muito bem; mas se (ou quando) começar a haver referendos ou votações negativas, suspenda-se de imediato. É brilhantemente democrático, por assim dizer. Ou os cidadãos europeus aprovam o papel ou, caso contrário, não têm nada nem para aprovar nem para desaprovar. Mais tarde, quando for "politicamente oportuno", o processo de promulgação (aprovação) volta ao princípio. Existem, portanto, duas posições possíveis em relação à Constituição Europeia: ou aprovar ou aprovar.

O que está em causa não é, exactamente, o simples conteúdo daquele documento. Por alguma razão na maioria (15) dos países o processo de aprovação é o da via parlamentar e apenas sete o farão por referendo.

O que está em causa não é, em, rigor, se a população europeia quer ou não quer isto ou aquilo. Como é evidente, as populações votam "sim" ou "não" conforme aquilo que lhes dizem ser o melhor, sem o mais básico dos conhecimentos sobre o assunto, qualquer que ele seja.

O que está em causa não é a substância, o conteúdo e o articulado dessa hipotética Constituição, mas os pressupostos que lhe deram origem. Os Estados Unidos da América são constituídos por 50 Estados com uma Língua comum e uma História, ao menos recente, igualmente comum. Não é aos Portugueses (ou, é legítimo supor, aos Estónios ou aos Checos, por exemplo) que os EUA "fazem sombra", de um ponto de vista económico ou de ameaça militar.

O que está em causa não é, em suma, a aprovação ou a desaprovação de um texto constitucional para a Europa. A Europa é, como sempre foi, não um país num continente mas um Continente com países.

São os próprios conceitos subjacentes, aquilo que está em causa com esta Constituição. Não pode haver maioria a votar "sim" porque, para começar, nem sequer existe "população europeia", mas populações europeias; um Catalão vota, quando muito, como Espanhol, nunca votará enquanto "europeu"; qualquer Francês vota como Francês, não como "europeu"; e quem diz Espanhol ou Francês diz Belga, ou Polaco, ou Holandês ou qualquer dos vinte e cinco; mesmo o Alemão vota, e esse ainda de forma mais evidente, apenas como Alemão, sempre como Alemão e no exclusivo interesse da Alemanha - mas nunca, nunca, nunca como "europeu".

E é, por fim, uma questão de bom-senso, aquilo que está em causa. É atalhar desde já a marcha inexoravelmente repetitiva da História e inviabilizar à nascença a mais do que previsível, a inevitável desagregação que sucederá ao "sonho europeu" - um pesadelo adiado. É ter o poder de evitar agora a fome, a guerra e o sofrimento, a longa noite obscurantista que fatalmente se seguirá à ruína do "projecto" europeu, quando as nações mais fracas se fartarem da opressão das mais fortes. É não deixar que uma ideia condenada à falência se imponha a tudo e a todos, fazendo tábua-rasa de todo e qualquer laivo de personalidade - nacional, regional ou individual. É preservar as gerações futuras, a dos nossos filhos ou, no máximo, a dos nossos netos, ao massacre absoluto da diferença e da diversidade. É impedir agora a destruição total no futuro.

O que está em causa não é o "sim" ou o "não" à Constituição Europeia; é o não à União Europeia; é o sim à paz.

(http://open-dictionary.com/No)

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(rigorosos) Exclusivos aqui do Zé Maria Pincel - II


timpano do juizo final altissimo de autumn

"miss nua" "miss praia"

um jogador Fiódor Dostoiévski resumo 1866

emery fata

" Regulamento de postura municipal" autarquia

"Hino do Canadá" anthem

protecções que se mexam

conas tesas

hostgold opinioes amigaveis

enfermagem "fazer a múmia"

algoritmo de von misses versoes sectoriais

propriedade Islan kontra

por que a extinção da "doninha fedorenta"

contactos opticlinic óptica

LIG9499

"regulamento de postura municipal"

"hino espanhol"+cantado

o que e agravante para cidania plena camaradas

sovkhoz kolkhoz diferença

bandeira presidencial inglesa asteada tradução

anos60*musica*download nazare porto benfica letra

gajas boas grossas de olhão

"os nortenhos" + variantes hollywood

tapete de arraiolos seteais torre

bomba de diafragma norden


(rigorosos exlusivos I)

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31/05/05

Havia, entre os Fariseus, um homem chamado Nicodemos, um dos principais entre os judeus. Foi ter com Jesus, de noite, e disse-lhe: «Rabi, sabemos que vens da parte de Deus como mestre, pois ninguém pode realizar os milagres que Tu fazes se Deus não está com ele.» Jesus respondeu-lhe: «Em verdade te digo: quem não nascer de novo, não pode ver o reino de Deus.» Disse-lhe Nicodemos: «Como pode um homem nascer, sendo já velho? Pode entrar segunda vez no seio materno e renascer?» Jesus retorquiu-lhe: »Em verdade, em verdade te digo: quem não nascer da água e do Espírito, não pode entrar no reino de Deus. O que nasceu da carne, é carne; e o que nasceu do Espírito é espírito.»

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30/05/05

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29/05/05

SMS nunca enviados


Odeio povo e barulho. Há mt povo e mt barulho. Não sei k fazer k tanto ódio.
(27.03.04, 17:15)

Qd souberes o k keres, liga se kiseres. Se n souberes, n ligues. Se n kiseres... tb
(11.06.04, 23:11)

A tds amigos e familiares: GFY
(31.12.04, 00:02)

Impossível dormir. Tás bem? Cumps da Carla
(11.01.05)

Bruto? Pq? Muda de vida a ver s sou bruto. Assim n sei falar ctg nem me apetece + nada!
(14.01.05)

Comunas ganharam eleições maioria absoluta. FDP!
(20.02.05, 22:13)

Helder? K Helder? Jantarinho!? Nova akisição? Parabéns!
(02.05.05, 02:17)

VAI-TE FODER!
(03.05.05, 04:15)

Podes ligar?
(15.05.05, 22:10)

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26/05/05

Ler dá trabalho


26 de Maio, dia feriado. Pode-se legitimamente duvidar de que metade dos portugueses saiba o que diabo se "comemora" neste dia. É apenas mais um para não fazer nenhum. Para isso, para não fazer absolutamente nada, qualquer pretexto é legítimo; o "trabalhador" português típico é, de resto, um dos maiores especialistas mundiais na parte da legislação laboral que diz respeito a este relaxante e pevidelaureante assunto: férias, feriados e faltas. De férias, são 22 dias "úteis", pelo menos; feriados, 14 nacionais e 1 municipal; quanto a faltas, imaginação não falta: por doença (o mínimo legal é de três dias por cada "baixa", menos não pode ser), por "motivos inadiáveis", por "artigo" (dependendo do tamanho da empresa na qual se trabalha, que é proporcional ao tamanho do respectivo "contrato colectivo"). Tudo somado, mais truques diversos, como "pontes" e "tolerâncias de ponto", e contando ainda com a nacional instituição conhecida como Baldar, a maioria dos portugueses permanece no "seu" "posto de trabalho" cerca de 185 dias por ano. Ou seja, em média, cada "trabalhador" nacional "trabalha" anualmente em apenas metade dos 365 dias.

Acolitados pela chusma de parasitas dos sindicatos, cuja verborreia se restringe à perdigotagem de "direitos dos trabalhadores", os funcionários públicos - principalmente - e os do sector privado - também - estão hoje, por conseguinte, mais uma vez exercendo alegremente o seu "direito" ao "descanso". Evidentemente, aqueles profissionais dos "direitos" dos outros, os chamados "sindicalistas", são os primeiros, à semelhança de governantes, autarcas, deputados e outras seitas do Estado, a reservar para si mesmos algumas "regalias" especiais - porque, não menos evidentemente, defender os "direitos" dos "trabalhadores" é uma actividade excruciantemente cansativa.

Esta situação de parasitismo institucional, enformado pela herança genética de inamovível e galopante preguiça, conduz ciclicamente a situações de "crise económica grave"; uma tradição desde os tempos de Sebastião José, já interiorizada atavicamente pela personalidade colectiva nacional, que invariavelmente activa uma reacção típica e esmagadora, sempre a mesma: fingindo-se preocupado, inquieto, o nosso Governo chega-se à frente para "combater" a crise e determina as medidas "de emergência" que se impõem, as quais consistem unicamente, monotonamente, em aumentar os impostos. Por outro lado, a população em geral, e o chamado "povo" em particular, reagem com um muito típico e patriótico pensamento colectivo: isso que se foda, eu quero é praia.

Alguns comentadores da nossa praça demonstram tremenda angústia, nestas ocasiões de atrapalhação nas contas públicas, pelo menos a julgar pelo respectivo arquear de sobrancelhas e outros tiques característiscos da ansiedade que certamente lhes vai na alma. Arrepelam-se por vezes, uns contra os outros, conforme o clube político da sua simpatia, chegam a insultar a progenitura dos adversários, e tentam, de facto, contribuir com as suas achegas para iluminar um pouco o apagão económico geral. No entanto, mesmo estes arroubos da inteligência nacional costumam passar tão depressa quanto a própria "crise", porque invariavelmente o tempo, e apenas o tempo, se encarregará de resolver as coisas; geralmente, o que é atestado por qualquer livro de História de Portugal, as depressões económicas curam-se por si mesmas, de resto como os outros tipos de depressão, porque mais tarde ou mais cedo chegarão do exterior os anti-depressivos mais eficazes: dólares, euros, ienes. São estes, hoje e sempre, os ingredientes para a poção mágica da recuperação, para a salvação da Pátria e para, em suma, a remissão dos pecados. Quando, mais uma vez, a conjuntura internacional for favorável, quando refluir mais este período de recessão global, assim que as cem ou duzentas famílias que detêm 90% da riqueza mundial acharem que está na hora de re-investir, quando, enfim, Washington, Berlim e Tóquio entenderem e se derem à maçada, então a presente crise económica extinguir-se-á, como que por encanto.

A ninguém ocorre, pelos vistos, de novo hoje e sempre, que exista um fundamento genético para que as crises periódicas sejam tão sensíveis, e por vezes violentas, em Portugal ou em países tão diferentes como o Brasil, a Venezuela, a Tailândia ou o Quénia, por exemplo; quanto a estes, não interessará agora tecer considerações ou especulações de índole rácica, até pelas distâncias geográfica e cultural, e mais ainda pela falta de conhecimento específico de cada situação; mas quanto a Portugal, não parece assim tão difícil a conclusão, em jeito de diagnóstico, modesto e de mera opinião, como convém: os efeitos da crise global no nosso país são inversamente proporcionais às nossas capacidades de produção de riqueza.

Irrita supremamente, aos cinco ou seis produtores de pensamento nacional, que se estabeleça a seguinte comparação: antes do 25 de Abril de 1974, Portugal era o país mais atrasado da Europa; hoje, 31 anos depois, Portugal é o país mais atrasado da Europa. Irritará, ainda mais profundamente, os mesmos cinco ou seis e mais uns quantos, que se alvitre, ao menos, estar o fundamento não em motivos conjunturais ou sequer estruturais mas apenas tendo por base uma figura de base genética: o Português odeia o trabalho, em resumo; não produz riqueza e, portanto, não existe riqueza para "distribuir", como se diz em linguagem comunistóide; o Português vive tipicamente de esquemas, de "conhecimentos", de "cunhas" e de golpadas. A maior indústria nacional é o "chico-espertismo", actividade à qual se dedicam freneticamente dois terços da população e que consiste basicamente em fazer o menos possível dentro do prazo mais dilatado possível e roubando sistematicamente o máximo que puder - à entidade que lhe paga por uma prestação que não prestou, àqueles a quem era suposto ter prestado um serviço ou fornecido um produto e, por fim, à entidade abstracta e difusa que é o Estado. E acha, tipicamente ainda, o Português, que é muito bem feito roubar o Estado, porque o Estado é o maior dos ladrões; que marimbar-se para o cliente ou para o utente está muito bem porque, vá-se lá saber, se calhar ele também é um gatuno do piorio; e que fazer pouco, ou nada, e mal, é da mais elementar justiça para castigar o patronato, essa corja de fascistas e cabrões.

Praia, café, ir "passear", ir "à bola", ficar "na palheta", descansar "de papo pró ar", emprego "fixo", uma "ganda bomba" e uma casa com piscina, eis o condensado de aspirações e aquilo em que consiste o ideal de vida do homo lusitanicus. O que, mesmo sem tecer quaisquer juízos de valor, torna ainda mais admirável o simples facto de que Portugal ainda exista. Sustentado por 10% da população, que trabalha dez vezes mais do que a "média", o que seria este país se tivesse apenas um terço dos naturais com deformação genética! Se houvesse três milhões de Portugueses nascidos sem o gene da alergia ao trabalho, este até poderia ser um local agradável para viver.

Digo eu. Porque 26 de Maio é dia feriado. Não é Dia da Árvore, nem Dia da Mãe, nem Dia do Pai. É Dia de Porra Nenhuma.

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24/05/05

terra do nunca


E depois é este espelho que me esconde
E depois este eco subtil que me falta
E depois parece que é este relógio avariado
E depois é este não saber nada, nem onde
E depois este passado que se revolta
E depois este absoluto vazio de sentido
E depois a água que não jorra desta fonte.

Como antes era a falta de sentido
Como antes era o relógio parado
Como antes era a raiva à solta
Neste campo de orquídeas secas
Em talhões de absoluta indiferença
Como depois de se acabar a esperança.

E sempre, sempre, sem nunca nem porquê
Este cálice cristalino, cheio de antes e depois
E de palavras sem qualquer significado.

Ocos ecos de coisa alguma.
Alma cósmica do vazio.

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do heroísmo


Olha, pá. Estou triste. Muito triste. Porque sei que não vou fazer nada daquilo que queria fazer. Se calhar sou um triste, eu mesmo, vá-se lá saber. Triste. Tristérrimo. Bem sei que é coisa de "roto", hoje em dia, estar triste, ou dizer que se está triste. Paneleiragem, coisa horrorosa. Homem que é homem não diz que está triste. Se não, se diz mesmo, se tem essa distinta lata, é panilas, o cabrão, só pode ser. Seja. Que se foda. Estou triste. Como a noite. Não sou panilas por isso. Espero. Acho que não sou. E porque diabo me lembrei desta agora? Isto é que é um trauma social, como se diz, ou lá como se diz, não é? Enfim, não sei. Mas sinto uma grande tristeza, essa é que é essa. Sangram-se-me as mãos com que escrevo, quando escrevo, tremem estupidamente, e esta voz nem sequer é minha, eu não falo assim embargado. Olha. Desculpa. Vejo tudo absolutamente vermelho, obscuro, opaco, turvo. Não é choro, não. Um homem não chora. Um homem pega nos pedaços daquilo que já foi, e cola-os com cuspo, lentamente, pacientemente, como quem faz um curativo no camarada que acabou de pisar uma mina, o gajo estoirado, retalhado, rebentado, desfeito. Um homem não chora. Que diabo, não chores. Palerma. Essa corda que se partiu no teu coração, camarada, volta a remendá-la. Remenda-te. Compõe-te, companheiro. Tem juízo, amigo. Aguenta-te.
Aguenta.
És um homem. Irmão, estou aqui contigo.
Aguenta. Isso amanhã não é nada. Já passou. Foi só uma tempestade. Mau tempo. O mau feitio de Deus. Resolveu por um momento meter-se contigo. Coisa passageira, vais ver. Aguenta.
Bem sei. Mas olha. Não te vais embora sozinho. Descansa. Eu estou aqui. Eu sou teu amigo.
Descansa.
Descansa em paz.

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22/05/05

sou benfiquista



Mas não papoila, ou troglodita, ok? Qualquer semelhança entre mim próprio e o Kadhafi dos Pneus, o Bandido Advogado que Foi Expulso de Sócio, Manelito Damásio, ou qualquer outro mentecapto do género, de entre os "seis milhões" que de tal condição se reclamam, é pura coincidência. Não tenho nem quero ter nada a ver com semelhante escumalha. Não sou sportinguista, ou portista, ou adepto do Salgueiros, por mero acaso ou por simples fatalidade. "Ser de" um clube de futebol, ou "ser de" outra coisa qualquer, não é mais do que uma inevitabilidade sem a mais ínfima validade ou o mais microscópico significado. É como nascer coxo, ou cego, ou cigano, ou preto, ou detestando bacalhau à Brás. Cada um é como cada qual. Não me orgulho absolutamente nada disso e não ganhei porra nenhuma, nem pessoal nem colectivamente.
Mas o Benfica é campeão, nos próximos 365 dias, mais coisa menos coisa. Parabéns.

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17/05/05

(rigorosos) exclusivos aqui do Zé Maria Pincel


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