Orgasmo Feminino
Matéria publicada num jornal de Sergipe, assinada pelo jornalista Ricardo Nunes
Orgasmo feminino é coisa da qual as mulheres entendem muito pouco e os homens muito menos. Pelo fato de ser uma reação endócrina que se dá sem expelir nada, não apresenta nenhuma prova evidente de que aconteceu ou se foi simulado. Orgasmo masculino não, é aquela coisa que todo mundo vê. Deixa o maior flagrante por onde passa.
Diante desse mistério, as investigações continuam e muitas pesquisas são feitas e centenas de livros escritos para esclarecer este gostoso e excitante assunto. Acompanho de perto, aliás, juntinho, este latejante tema.
Vi outro dia, no programa do Jô Soares, uma sexóloga sergipana dando uma entrevista sobre orgasmo feminino. A mulher, que mais parecia a gerente comercial da Wallita, falava do corpo como quem apresenta o desempenho de uma nova cafeteira doméstica. Apresentou uma pesquisa que foi feita nos Estados Unidos para medir a descarga elétrica emitida pela piriquita na hora do orgasmo e chegou à incrível conclusão de que, na hora H, a piriquita dispara uma descarga de 250.000 microvolts. Ou seja, cinco pererecas juntas ligadas na hora do "aimeudeus" seriam suficientes para acender uma lâmpada. Uma dúzia, então, é capaz de dar partida num fusca com a bateria arriada. Uma amiga me contou que está treinando para carregar a bateria do telefone celular. Disse que gozou e, tcham, carregou.
É preciso ter cuidado porque isso não é mais xibiu, é torradeira elétrica ! E se der um curto circuito na hora de "virar o zoinho" além de vesgo, a gente sai com mal de Parkinson e com a linguicinha torrada. Pensei: Camisinha agora é pouco, tem de mandar encapar na Pirelli ou enrolar com fita isolante. E na hora H não tire o tenis nem pise no chão molhado... pode ser pior ! É recomendável, meu amigo, na hora que você for molhar o seu biscoito lá na canequinha de sua namorada, perguntar: é 110 ou 220 volts ??
Se não, meu xará, depois do que essa moça falou lá no Jô, pode dar "ovo frito no café da manhã".
Humor numa boa
Consultório sentimental VII
Ejaculação feminina?
Desmond Morris interpreta o fenómeno designado por "orgasmo feminino" como algo de exclusivamente humano, sociológica e culturalmente determinado, com fundamentação zoológica mas de forma totalmente desligada de qualquer condicionante evolutiva. Desenvolvendo, o orgasmo feminino é algo que ocorre apenas na espécie humana - não ocorre em nenhuma outra espécie de primatas ou sequer de mamíferos - e resulta não de qualquer necessidade evolutiva primária mas da interacção entre grupos sociais e, dentro destes, entre os dois sexos. Será, por conseguinte, uma manifestação de inteligência e não um fenómeno estritamente natural.
De facto, não será necessário espremer muitos neurónios, nem fazer alarde de grande sageza observativa para se constatar que, por exemplo, a gata ou a cadela domésticas não experimentam qualquer espécie de "orgasmo", por mais que tentem e por mais prestáveis que sejam os respectivos donos; do mesmo modo, não consta que alguma macaca, ou leoa, ou vaca, ou girafa, ou baleia, ou qualquer fêmea de qualquer outra espécie, possa ter alguma vez experimentado tal coisa. Evidentemente, pelo menos quanto aos mamíferos, todas as fêmeas têm os seus períodos de fertilidade máxima, o chamado "cio", durante os quais demonstram interesse acrescido pela actividade sexual; poder-se-á deduzir, por conseguinte, que as fêmeas terão alguma espécie de "gratificação" - durante o cio - por forma a procurarem a relação sexual; não tendo (presumivelmente) consciência de que estará contribuindo para a propagação da espécie, à fêmea animal comum é oferecida pela natureza uma compensação pelos bons serviços prestados à causa da conservação, e esse prémio será a produção de substâncias que induzem prazer ou apenas, mais prosaicamente, sensação de bem estar.
O "orgasmo feminino" existe exclusivamente na espécie humana, o que se pode facilmente comprovar pelo facto de que tal "desiderato" apenas se poderá atingir com recurso a "técnicas", antes e durante o acto sexual, e
preferencialmente por parte não de um mas de ambos os elementos do casal; o recurso a estas "técnicas" implica, evidentemente e no mínimo, ter delas conhecimento, e implica também que exista alguma espécie de afinidade ou de cumplicidade entre os elementos envolvidos. Ora, nas outras espécies animais, presume-se que não existam nem essas cumplicidade ou afinidades nem, muito menos, qualquer tipo de conhecimento - em toda a extensão do termo.
Por conseguinte, sendo um exclusivo da espécie humana, será perfeitamente aceitável que o "fenómeno" tenha resultado de uma evolução idiossincrática, de base evolutiva mas de cariz cultural. A ejaculação masculina cumpre uma função biológica inalterada, a inseminação da fêmea, mas desde há muito perdeu essa finalidade unicamente reprodutora; se bem que se conheçam algumas similitudes, esporádicas e localizadas, em algumas espécies de golfinhos e de (outros) primatas, a actividade sexual de cariz lúdico, por assim dizer, surgiu com a criação de grupos humanos e evoluiu em paralelo com a
complexificação desses grupos, das relações entre os seus membros, e das estruturas que regulam o seu funcionamento e a sua interacção; ou seja, reitere-se, o sexo deixou de ser, nas sociedades humanas, um fenómeno natural, e passou a ser um fenómeno cultural.
O papel determinante da imaginação, na actividade sexual humana, é o factor decisivo para que se possa aferir definitivamente que esta se desligou completamente da sua base animal, zoológica; isto, evidentemente, se assumirmos que nenhum outro animal possui capacidades imaginativas, e que é isso mesmo que nos distingue dos outros seres vivos.
Ora, e retomando a tese de Desmond Morris, é precisamente com base na imaginação que se desenvolve um tipo de sexualidade totalmente novo, o qual tem a máxima expressão na sexualidade feminina e, fundamental nesta, o tema central, esse misterioso "orgasmo feminino". Da mesma forma que o conceito de "sensualidade", por exemplo, existe apenas na nossa espécie, e é também um fenómeno de expressão cultural, os conceitos de "beleza" física, ou de "aparência", ou mesmo de "moda", todos evoluindo em paralelo e em concomitância, contribuem para que o sexo seja hoje o centro de gravidade das relações entre as pessoas; passamos, em apenas alguns milénios, de sociedade
geneticocêntrica para uma outra simplesmente egocêntrica, na qual as prioridades deixaram de ser a propagação da espécie e a satisfação de necessidades básicas e passaram a ser a satisfação e o prazer pessoais. De facto, à falta de sustentação zoológica, as fêmeas humanas produziram uma emulação do "orgasmo" masculino, cuja sustentabilidade do ponto de vista sociológico é interpretável (e interpretada, por vários autores) de diversas formas; Morris é de opinião que esta emulação orgástica surgiu pela necessidade (biológica, zoológica) de a mulher se conservar deitada, após a ejaculação do macho, por forma a evitar que, levantando-se, o esperma escorresse da vagina. Enfim, é uma teoria, como existem outras sobre o assunto, mas nenhuma delas exclui nada nem é decisiva em coisa alguma.
O que é facto é que não existem, por exemplo, "passagens de modelos" para vacas charolesas, nem esteticistas para ornitorrincos fêmea, nem cabeleireiros especializados em hienas, ou sequer existe uma única loja Christian Dior em todas as reservas naturais do mundo. Quer dizer: o argumento, posto assim, é bem provável que não colha; mas, que diabo, não será possível que a explicação para tão gigantesco enigma esteja mesmo debaixo dos nossos olhos, sem ser preciso ir escavar mais longe?
O "orgasmo feminino" será igualmente avassalador e extenuante, numa camponesa analfabeta e numa secretária executiva? Para uma fêmea de qualquer tribo perdida na savana as "técnicas" utilizadas para atingir o orgasmo serão as mesmas de qualquer dona-de-casa europeia? E será que o homem da savana se desvelará tanto, com cada uma das suas vinte mulheres, como o burguês das nossas cidades com sua Maria das Dores?
Se tentarmos analisar a coisa, salvo seja, através da simples observação, o "orgasmo feminino" ainda mais evidentemente fingido parecerá: o "orgasmo masculino" (a ejaculação) resulta na expulsão de sémen; e no feminino, o que acontece? Qual é a substância "expelida"? Urina? Ou são óleos naturais de lubrificação vaginal que "se vêm" por ali fora, em quantidades industriais? Se a ejaculação (masculina) serve para a expulsão de espermatozóides que, sem ela, não poderiam servir para nada, o correspondente feminino serve para o quê, exactamente?
As sociedades humanas modernas desenvolveram mecanismos de interacção complexos, sem paralelo. A fêmea humana e, de certa forma, o macho também, não tem hoje em dia absolutamente nada a ver com o que era há seis ou sete mil anos: perdeu quase completamente a pelagem, modelou os seios e as formas de acordo com padrões estéticos, adquiriu comportamentos totalmente novos e, por fim, assumiu um estatuto de total parceria - na acepção de igualdade - em relação ao sexo "oposto". Ora, entre outras coisas, o que tinha este de fundamental, radical, de certa forma irritantemente diferente? O orgasmo.
Tinha, disse bem.
Claro que isto é, de certa forma, grave. Novos problemas e desafios se colocam ao homem moderno e, principalmente, ao pós-moderno, esse patarata. Até já existe um ramo colateral, na medicina, dedicado exclusivamente ao "orgasmo feminino"; na variante não consumada, à boa maneira medicinal, é uma chatice tecnicamente designada por
Anorgasmia; certamente por exorbitância preciosista, o nome completo da coisa é "anorgasmia feminina", pelo que se pode deduzir que a chamada "impotência" já não existe, finou-se, agora deve ser "anorgasmia masculina". Ora bem. Estamos todos bem fodidos, é o que é. Com uma coisa destas, que tem nome científico e tudo, já cá se sabia, agora é que vão ser elas: gaja que é gaja está assim superiormente autorizada, ordens do médico, a pedir - melhor, a exigir - a qualquer gajo com o qual se digne dar uma trepada, coisas assim:
_ Chavalo, isso assim não me dá gozo. Foda-se. É aqui. Olha. Aqui, tás a ver? Clítoris. Isto chama-se cli-to-ris. Pronto. Pões aqui dois dedos e esfregas, para cima e para baixo. Assim. Não. Assim. Ah. Aaaaahhhh. Aaaahhhh. Ai! Merda! Magoaste-me! Mas ca ganda besta me saíste, tu, ó palhaço. Da-se!
Acabou-se a velha e elegante rapidinha, por exemplo. Agora ele é só "técnicas" e mais "técnicas", não vá dar-se o caso de a fulana ficar "insatisfeita" e, sabe-se lá, apresentar queixa na polícia. Já não basta andar com preservativos, boletim de sanidade em dia e cartão de dador benévolo de sangue, não tarda nada gajo que é gajo terá de se munir também de registo criminal e de uma certidão médica, declarando que não é impotente, nem sofre de ejaculação precoce, nem pega de empurrão, nem é portador de grandes taras e manias. Conveniente e jeitoso será também meter na carteira uma quantas cartas de recomendação, passadas por senhoras satisfeitas que declaram, por sua honra, que o portador é pessoa de dar três seguidas sem tirar fora, especialista nas posições tais e tais, e tal, merece nota x em orgasmos, e tal, tantos de tal, segue assinatura reconhecida notarialmente. Qualquer dia, o direito da mulher ao orgasmo terá um artigo próprio na Constituição da República, recomendando mesmo que se puxe pelo canastro o suficiente para que a dita tenha direito a orgasmos "múltiplos", dia sim dia sim ou dia sim dia não, pelo menos. A velha pergunta "como te chamas" será em breve substituída por "aguentas quanto tempo".
Dodo. Geralmente, o que quiser. Mas depende.