Consultório sentimental VIII
A violência da doméstica
Sónia Morais Santos,
uma das pessoas que melhor escrevem em jornais, de momento, em Portugal, ou, melhor dizendo,
uma das pessoas que melhor escrevem em Portugal, de momento, refere-se no DNA de hoje (11) à "problemática" da violência doméstica ao contrário, ou seja, aquela que é exercida pela mulher em relação ao homem. A moça, a Sónia, escreve sua belíssima e fundamentadíssima crónica de 5 páginas com as
verve e olho clínico do costume, relatando as experiências - dolorosas, em sentido literal - de dois maridos putativamente "abusados" pelas respectivas esposas.
Com a candura habitual nas mulheres, que não acreditam nunca na própria morbidez atávica, nossa amiga Sónia tece uma teia, vagamente suspeitosa mas nunca realmente assumida, sobre aquilo que se presume ser a violência doméstica encapotada e nunca publicamente revelada; ou seja, trocando em miúdos, aquilo em que consiste a porrada que determinadas mulheres dão nos respectivos - homem, marido, namorado. Relata dois casos que se presume serem paradigmáticos desta subtil, sub-reptícia, subterrânea, sacaníssima coisa. Onde já se viu, uma gaja a dar porrada no marido, é, em suma, a tese da autora. Que não pode ser. Que "um gajo não chora", e coisas assim, dois casos pungentes, de ir realmente às lágrimas, por mais de ferro ou mais macho que seja a gente. Como quem diz: foda-se! Mas que merda é esta? Então ele há gajas que batem em gajos? Há. Mas como assim? Porrada nos cornos e tudo, pimba, tunga, toma lá? Sim, disso. Porra, porra, porra. Mas assim, sem mais nada, o mulherio agora desata a bater nos respectivos? Desata. Cu! Nunca tal houvera visto, ou
ouvisto!
Pois é. Mas é. Tem nossa Sónia carradas de razão. O que há mais é gajas a bater em gajos, por aí. É assim, ó, assim, uma farturinha.
Claro que toda a gente finge o oposto, porque - convenhamos - o mundo às avessas assusta, hoje como ontem, não se pode tolerar a perversão, a inversão, a adulteração total das coisas, a desordenação, a balda geral, esquisitices como um branco de carapinha ou um negro de cabeleira loira.
Pero que las hay, las hay. Hay mesmo, gajas que batem em gajos, gajos que levam na tromba e que se ficam.
Prizemplos. Diz a Sónia em seu artigo, demonstrando ilustrativa e corrosiva lógica feminina, existirem maridos que preferem comer e calar do que ficar privados da sua mais-que-tudo; que gajo que é gajo tem vergonha de dizer que levou no trombil, que aquele sobrolho rebentado, aquele tampão no nariz, é porque sua delicada esposa lhe atirou com um cinzeiro à cara, ou, pior ainda, lhe espetou com valente murraça em plenas fuças. É que ele há disso, realmente. E pior. Upa, upa.
Sou testemunha privilegiada, gajo de tarimba nessa merda. Com a minha primeira mulher, da qual guardo imensas recordações e algumas cicatrizes, tive eu vários e divertidíssimos combates corpo-a-corpo, murraça e pontapé, porrada a valer. Aquilo era um fartote, volta e meia. Quando lhe dava para a histeria, o que era mais ou menos dia sim, dia não, aquela mulher conseguia provocar-me de tal forma e chegava a agredir-me com tais intensidade e violência que não me deixava alternativa senão responder na mesma moeda, mesmo com o desconto devido ao facto de ela ser mulher e eu homem; por regra, só lhe espetava o primeiro murro quando, muito cavalheirescamente, já tinha contabilizado mais de dez dos dela, pumba, pumba, nas minhas trombas; nunca pontapeei muito repetidamente a minha ex, juro, e devo asseverar que nunca o fiz com muita força, antes de ter eu próprio levado diversos pontapés e, nunca por nunca, antes de ela me atingir nas chamadas partes baixas; aí, quando isso acontecia, ou pelo menos quando recuperava o fôlego, ah, bem, era pontapé de três em pipa - mas sempre, lembro-me perfeitamente, tentando encolher a ponta do pé, para não magoar excessivamente. A minha preocupação era tal que, por exemplo, para lhe espetar com um estalo em cheio, tentava sempre esticar a ponta dos dedos e bater preferencialmente com a concha da mão; é que, pressupõe-se, supõe-se, assim dói menos e faz muito mais barulho... que é aquilo que interessa quando um gajo anda à porrada com uma gaja; mano-a-mano é diferente, de homem para homem o que importa é derrubar o adversário, pô-lo "ko" o mais depressa possível, fodê-lo todo no mais curto espaço de tempo possível; com uma mulher (com a nossa mulher, note-se), a coisa é diferente: trata-se de intimidá-la, assustá-la, fazê-la parar. Bater numa mulher pode ser uma medida profilática e ter a finalidade clínica e benemérita de a acalmar. Por vezes, um simples par de estalos é suficiente, mas nem sempre; há fulanas que andam à porrada com o mesmo à-vontade de qualquer homem, e algumas com uma destreza e elegância excepcionais.
De resto, para um homem a coisa não pode dar gozo nenhum. Bem sei que, talvez por instinto ou por trejeito habitual, nessas ocasiões qualquer gajo trinca a língua entre os lábios, enquanto desfere suas mocadas na consorte, talqualmente acontece em qualquer cena de pancadaria a sério, mas ainda assim é diferente, não tem nada a ver. Porrada é porrada, luta física no casal é outra música. E sobre isso, em concreto, nossa Sónia não faz mais pequena ideia daquilo de que está a falar. Abençoada, que é jovem e ingénua.
Apenas como ilustração dessas ingenuidade e juventude, a nossa amiga relata em seu artigo que um tal Daniel Cotrim, da Associação Portuguesa de Apoio à Vítima, atira com uma percentagem curiosa sobre o rácio de violência doméstica distribuído por sexos: por grosso, salvo seja, a coisa vem a dar em 99% de queixas de mulheres e apenas de 1% de homens; 1,5%, no máximo. Ridículo, evidentemente. Claro que não deve ser fácil um homem ir queixar-se de que a mulher lhe vai ao focinho com regularidade; por outro lado, é facílimo, presume-se, toda a gente espera que isso mesmo aconteça, uma mulher queixar-se de que o marido a agride; a APAV existe para que mulheres se queixem, não homens, é claro. A questão, que tem muito a ver com manipulação, é que grande parte dos 99% de queixas se refere a interesses inconfessáveis, politicamente incorrectos: mulheres que pretendem ganhar uma reforma dourada ou uma situação social privilegiada, através do divórcio - e o divórcio litigioso por "alegada" violência (de qualquer tipo) é a coisa mais garantida e rentável que existe, para o efeito. Grande parte das queixas por "agressão" omite o motivo dessa "agressão": nenhuma mulher irá confessar, quando apresenta queixa, que agrediu primeiro, que a outra parte se limitou a responder ou a simplesmente defender-se; por outro lado, a pressão social que as mulheres tanto dizem abominar, obriga a que praticamente nenhum homem se queixe de ter sido agredido, perseguido, aterrorizado pela respectiva. Nesta conformidade, dá imenso jeito às mulheres o seu intrínseco estatuto de menoridade, o seu papel inferior e subjugado. Presume-se, por sistema, que não apenas houve agressão como que o culpado é, óbvia e compulsoriamente, o elemento masculino.
Tretas. Estas coisas são muito mais vulgares, triviais, rotineiras, do que aquilo que geralmente se pretende supor e fazer supor. As cenas de violência doméstica são absolutamente comuns. Se bem que não passem geralmente, de facto, de mera violência verbal, essa barreira é ultrapassada muito mais vezes, muito mais profundamente e muito mais intensamente do que permite a mundanidade e o sentido das conveniências. Não consta, a não ser talvez como anedota, que alguma mulher tenha sido condenada por ofensas físicas na pessoa do seu cônjuge. Mas isso existe, e é muito mais comum do que aquilo que o chamado pudor masculino permite que se declare ou confesse. Quando a um homem toca mulher que gosta de apanhar, como dizem os brasileiros, que se há-de fazer, é satisfazer-lhe os caprichos o melhor que for possível. Mas, e se afinal ela gosta é de malhar, em vez de apanhar? Um gajo fica-se, pura e simplesmente, pianinho, come e não bufa?
Que estatísticas existem quanto a esta não muito subtil variante de violência doméstica? Provavelmente, nenhuma, à excepção da já citada, que atira um número perfeitamente irrealista. Não considerando os casos - ainda assim em larga maioria - de verdadeira violência doméstica, do troglodita que bate na mulher apenas porque não passa de um desequilibrado, boa parte das queixas carece de fundamento real; à mulher, enquanto instituição pós-moderna, convém imensamente o estatuto de ser "mais fraco", de pessoa "indefesa" em relação ao homem - que se presume sempre nunca ter menos de um metro e oitenta de altura, noventa quilos de peso, além de ser congenitamente violento, maldoso, cinturão-negro em karaté e notório meliante. À mulher, faz imenso jeito esse estatuto de menoridade... mas apenas enquanto e na estrita medida em que isso serve os seus interesses. "Feminismo termina no pneu furado", é uma conhecida frase de camião brasileiro que resume bem esta lógica das igualdades e das paridades determinadas por decreto e em função das conveniências de momento.
Estabelecido inamovivelmente um
statu quo de discriminação positiva em relação ao sexo feminino, considera-se geralmente a violência doméstica como um fenómeno social de sentido único, ou seja, sendo a mulher a vítima e o homem o culpado, porque evidentemente é ele e apenas ele o autor dessa violência, e com a agravante de o mesmo ser obrigatoriamente muito mais forte e espadaúdo do que a outra parte, sempre fraquinha e mal nutrida. É assim que a violência doméstica é encarada, e muito dela se fala, mas ninguém fala da violência da doméstica, ou da sua possibilidade, mesmo se ou principalmente se o cônjuge feminino trabalhar fora de casa.
De resto, e isso está claramente expresso no estudo de Sónia Morais Santos, a violência no casal pode manifestar-se de diversas formas, não apenas e necessariamente através da agressão física. A humilhação sistemática, a perseguição, o amesquinhamento, traduzidos em atitudes de menosprezo, desconsideração ou insulto, são armas (estas sim) ambivalentes, utilizadas por ambos os sexos conforme as relações de poder estabelecidas no casal; por seu turno, estas relações de poder dependem regra geral da capacidade económica de cada um deles; para um homem que subitamente se vê no desemprego ou que, pura e simplesmente, aufere um vencimento inferior ao da mulher, aumenta drasticamente a probabilidade de vir a ser agredido por ela, em qualquer das formas, implícita (insultos) ou explícita (bofetadas). Ora, a situação inversa não existe: toda a gente considera como absolutamente natural e aceitável que um marido sustente a esposa; nesse caso, já a esta não interessa para nada o estatuto de "igualdade" que antes provavelmente reivindicava.
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É um mundo obscuro, este. O dos homens que sofrem, na maior parte das vezes em silêncio, agressões por parte das mulheres com quem vivem. São homens que amargam duas vezes: por um lado, são atacados física e/ou verbalmente; por outro, suportam o preconceito cruel de serem ofendidos na sua virilidade. Que tipo de homem se deixa bater e ofender por uma mulher? Esta é a pergunta que fazem a si próprios todos os dias. Esta é a pergunta que lhes fazem, na hipótese remota de partilharem o segredo com alguém. Fomos conhecer homens que contrariam as estatísticas. Homens que se sentem menos homens que os demais. Homens que choram em silêncio."
Neste texto introdutório, a amiga Sónia condensa de facto o essencial do tema, através de algumas palavras e expressões-chave importantes: "preconceito", "hipótese remota", "estatísticas", "menos homens que os demais". Exacto. Mas é apenas uma parte do problema. E aqueles que respondem à violência? E aqueles que não são (grande coisa como) homens mas também não são ratos? E aqueles que não choram? E aqueles que não ficam em silêncio?