Consultório sentimental - XIII
O sudário de Madalena (a propósito de prostituição)
"Não conheço nenhuma mulher que goste de ou queira ser prostituta" - diz a minha amiga Inês Fontinha na entrevista da Renascença Diga lá Excelência transcrito no Público de 2006-01-09.
por Sofia Branco (PÚBLICO) e Paulo Magalhães (Rádio Renascença).
Excerto transcrito do Blog
MemóriasA prostituição, ancestral, prestigiado e indispensável modo de vida, é uma actividade que - não por mero acaso - toda a gente conhece como "a mais velha profissão do mundo". De modo um pouco simplista, podemos considerar que o substantivo significa, abrangentemente, "sexo a troco de dinheiro", pelo que uma prostituta será alguém que oferece um serviço de carácter sexual a qualquer pessoa que o pretenda e que possa pagar a quantia exigida.
Não havendo quaisquer dúvidas, mesmo nos espíritos mais cautelosos, sobre a ancestralidade da prostituição, o mesmo já não sucede quanto a outros factores inerentes, como a sua extrema utilidade social, ou seja, a sua absoluta indispensabilidade, ou como a dificuldade que existe em demarcar as suas fronteiras conceptuais. De facto, se, por um lado, existe prostituição desde que existem sociedades humanas, por outro, e também desde sempre, essa actividade é mentalmente recusada, moralmente condenada e verdadeiramente perseguida por essas mesmas sociedades; paradoxalmente, são os representantes das estruturas de coesão social, o Estado, quem se encarrega da repressão e da perseguição a um fenómeno que - além de indestrutível, como a própria História comprova - contribui de forma decisiva para essa mesma coesão.
E de que maneira, realmente. Aceitando como pacífico o facto de ser o núcleo familiar a estrutura básica de qualquer sociedade (e entendendo esta como sendo um grupo humano organizado), fácil será constatar que é à prostituição, basicamente, que o grupo deve a manutenção e a perenidade dessa estrutura, dessa organização. Em extremo, especulando filosoficamente (curioso pleonasmo), poderíamos mesmo concluir que a coesão social deixaria de existir assim que fosse possível, se isso fosse possível, acabar com a prostituição; todas as tentativas falharam, até hoje, continuam e continuarão a falhar, até porque não existe apenas uma, ou duas, ou mesmo três, mas muitas formas de sexo pago.
Aliás, pegando por este aparente contrário, vejamos: o que será sexo "gratuito"? Não será, em princípio e em si mesmo, qualquer acto sexual algo de gratificante? Além de uma troca directa de "bens", companhia, carinho, prazer, cumplicidade, conhecimento, não existe nenhuma transacção entre os intervenientes? Prazer que se dá e que se recebe, não será isto uma transacção? E não é esta, previamente e durante, negociada entre as partes, verbal, expressiva e posturalmente?
E vendo a coisa de outra, muito mais evidente maneira: por exemplo, a mulher que se "entrega" a um marido que detesta, apenas porque este é rico e lhe possibilita uma vida economicamente desafogada - não será esta muito corriqueira técnica de sobrevivência uma evidente forma de prostituição? Ou, quem diz esposa a marido, por causa da conta bancária, diz namorada a namorado, por causa de outro tanto, ou pouco menos, o automóvel dele, a mota dele, a roupa dele, as noitadas e os jantarinhos pagos por ele. Ou ainda invertendo as situações, o sexo dos envolvidos, tanto faz: o jovem que desposa a velha rica, típico, o engatatão que se interessa exclusivamente por quarentonas "malucas e cheias de papel", típico, o "teso" militante que vive de chular meninas prendadas, típico. As situações de prostituição encapotada, por assim dizer, são inúmeras, muito imaginativas e vagamente nauseantes. Não é líquido, em suma, que uma pessoa tenha tabela de preços, a tanto à hora ou a xis a posição, para que esteja fatalmente incluída na categoria de profissional do sexo; não é líquido, mas o sexo é um bem de consumo, transaccionável, que pode render e rende amiúde grandes dividendos, e por vezes, isso sim, uma boa liquidez.
Não existe, factual e moralmente, diferença alguma entre uma senhora que se prostitui para o resto da vida (ou apenas durante alguns anos) com o seu homem, e uma outra senhora que se prostitui para o resto da vida (ou apenas durante alguns anos) com diversos homens, um por dia, dez por dia, um por hora ou a cada meia hora. Digamos que, ao menos de um ponto de vista moral, é muito mais honesta (porque menos hipócrita) a puta profissional do que a "amadora"; uma finge, disfarça, arma-se em moralista e defensora dos bons costumes, chama diversos nomes aos bois, a outra nem finge nem tenta disfarçar, não se arma em virtuosa nem chama outra coisa que não seja "querido" aos diversos bois que lhe vão passando pelas mãos.
Convencionando que estamos a falar de prostituição feminina, quando falamos de putas, importante será realçar - mais uma vez - o seu papel fundamental na manutenção da coesão social e, por conseguinte, na preservação da sua estrutura básica, a família, e em especial naquilo que diz respeito à instituição "casamento"; implicando este, por definição e por condição, mais tarde ou mais cedo, a deterioração das relações (e não apenas as sexuais) entre o casal, apenas resta uma hipótese para que o casal se não desfaça: é fazer aquilo a que vulgarmente se chama "ir às putas". O homem que "vai às putas", porque já está farto da mulher que tem em casa, sabe perfeitamente que "aquilo" não "significa nada", que é chegar lá, divertir-se um bocado, e regressar a penates... para o conforto do lar, para o aconchego da sua "mulherzinha", que até já acha menos chata, menos implicativa, e um bocadinho mais bonita.
Quantas desavenças, quantos conflitos entre o casal se atenuam, ou mesmo se dissolvem, quando o marido resolve "ir às putas"? Quantos desejos e fantasias sexuais, tidos por moralmente "inaceitáveis", podem ser satisfeitos apenas por prostitutas profissionais, permitindo assim a continuação socialmente útil de uma família sexualmente disfuncional? Quantas taras são despejadas, em sentido literal, nas "casas de meninas", retirando das ruas - aos milhares - potenciais violadores? Quantos homens horrível, desgraçadamente deformados, têm na prostituição o único refúgio, a única hipótese de receberem algum afecto, alguma ao menos ilusão de amor? Quantos paraplégicos, quantos amputados? Quantos loucos? Quantos proscritos, fugitivos, marginais, clandestinos? Ou, mais simplesmente, quantos solitários?
A prostituição funciona como válvula de escape social e, portanto, como válvula reguladora de pressão; por analogia, não custa imaginar o que, metaforicamente, sucederia no caso de essa válvula ser tapada, ou bloqueado o seu movimento rotativo: pum, tremendo estoiro. A panela de pressão em que eternamente apura o caldo social não resistiria por certo durante muito tempo, por melhor e por mais temperado que fosse o aço das suas paredes, ou seja, a sua organização. E aquilo que mais espectacularmente saltaria, de imediato, se tal acontecesse, seria com certeza a tampa: a moral estabelecida, essa cobertura estanque da inteligência.
O acto sexual enquanto elemento ou moeda de troca (ou pagamento) não é, de certa forma, exclusivo da nossa espécie; como muito mais apropriadamente poderia explicar um zoólogo ou, mais concisamente, um primatólogo, o sexo pode ser "oferecido" em troca de protecção, como sinal de submissão (ou de dominação, quando forçado), como tentativa de apaziguamento ou ainda enquanto ferramenta de estabelecimento de relações de poder no interior do grupo, família ou clã (como acontece entre os primatas superiores). Não existindo dinheiro nas sociedades não humanas, e por mais ridículo que pareça referir tal coisa, o sexo, a relação sexual, assumem de diversas formas esse papel simbólico que se pode, sem grande pretensiosismo, transformar em situação análoga ao fenómeno da prostituição entre os humanos. Estes, também primatas superiores ligeiramente (e discutivelmente) mais evoluídos, desenvolveram um método simbólico de troca ou pagamento, o dinheiro, sem o qual - pretensa e teoricamente - o conceito de prostituição não existiria sequer, enquanto significado, logo de facto.
Nesta ordem de ideias, presumir que a prostituição é uma actividade clandestina, criada e gerida por obscuros meliantes (o que é rigorosamente verídico), e que, portanto, as prostitutas são forçadas a prostituir-se, não passa de absurda, ridícula, patética obsessão de alguns profissionais da chamada "luta contra a prostituição". Pagos para exercer tão estranha actividade, estes e estas profissionais "anti-putedo" limitam-se a apresentar alguns "resultados" (números, estatísticas) e a alegremente fingir que é possível extirpar aquilo que dizem ser uma coisa malévola. Faz parte do folclore verbal, do frenesim moralista desta gente, apregoar a figura da puta-vítima, algo entre a virgem incompreendida e a pobre trabalhadora subaproveitada, alarvemente explorada por facínoras (os chulos, esses empresários da noite a pedir fogueira); existem, evidentemente, putas e putas, como existem engenheiros-técnicos e escriturários de contabilidade, por exemplo; nem toda a gente gosta daquilo que faz, mas não lembraria nem à mulher da fava-rica andar por aí a tentar "resgatar" das garras do demónio todos os engenheiros-técnicos e todos os escriturários de contabilidade que detestam a sua profissão, que foram forçados pelas circunstâncias da vida a exercer este ou aquele mister. Poder-se-ão encontrar, certamente, casos terríveis de prostitutas à força, mesmo casos de polícia, contrabando de "carne branca", situações de verdadeira escravatura, tudo isso; o que vale, na mesma medida, para o tráfico humano e a escravatura de todos os tempos, em todos os continentes e para todas as circunstâncias.
Além das chamadas "escravas do sexo", um caso à parte, existem putas de rua, putas de discoteca, putas finas, putas de alterne, putas em
part-time, enfim, uma variedade enorme; o factor comum, aquilo que a distingue de qualquer outra profissão é apenas o facto de esta não ser geralmente reconhecida como tal (com honrosas excepções, como é o caso da Holanda); de resto, é rigorosamente como qualquer outro modo de vida, com boas e más profissionais, umas mais outras menos qualificadas, as que não gostam nada de nada do que fazem e as que adoram fazê-lo, não querem outra coisa, nem querem saber para nada de quem anda a tentar "protegê-las". Algumas acabam mesmo por "assentar", casam, têm filhos e revelam-se excelentes mães-de-família. Algumas outras estão "naquilo", de facto, por estrita necessidade económica, decididíssimas a "deslargar" o meio assim que juntem um pé-de-meia suficiente; apenas, raramente a meia enche que chegue; e muito poucas sequer equacionam a hipótese de mudar de emprego, porque não há por aí muitos assim tão bem pagos.
São proverbiais, e fazem parte do
métier, por assim dizer, as histórias de vida que as putas inventam; por regra, ou foram "abandonadas" por um marido muito malandro que as deixou "com um filho nos braços", ou foram "metidas naquela vida" por um familiar colateral (tio, primo) que era um bandido, etc.; casos mais imaginativos e pungentes (um ou outro, provavelmente verdadeiro) referem uma gravidez inesperada e precoce, os pais que põem a rapariga "no olho da rua", coisas assim. Claro que isto são umas quantas balelas que se contam a um cliente mais dado a conversa, assim como que para quebrar alguma espécie de gelo inicial; é o que as próprias designam por "jogar conversa fora" e está incluído no negócio entre as partes; e é evidente que nenhuma profissional pretende dar de si própria uma imagem negativa, ou que presume seria negativa, neste tipo de conversas, a não ser que o cliente seja suficientemente tarado para apreciar ouvir falar de desgraças e, nesse caso, teria de pagar um suplementozinho em relação à tarifa habitual. Esporadicamente, pode suceder que a conversa seja "jogada fora" não com um cliente mas, pelo contrário, com um elemento dessas seitas de "protectoras" anti-prostituição; nesse caso, as histórias são realmente de fazer chorar as pedras (e, uma ou outra, provavelmente verdadeira) e não será muito de esperar que alguma profissional diga que é puta, gosta de ser puta, não quer deixar de ser, e que se fodam vocês todos, seus hipócritas do caralho, ponham-se mas é na alheta, se não ainda vos fodo os cornos a todos. Não será, sejamos razoáveis, provável escutar coisas destas da boca de uma prostituta, dadas as circunstâncias da entrevista e as credenciais dos entrevistadores.
Aliás, como toda a gente e como é natural, uma puta tenta conservar e projectar de si própria a melhor imagem possível. E, também como toda a gente, se não houver grande coisa a dizer a seu favor, torcerá a realidade o melhor que puder, pintando se possível o negro de cor-de-rosa, o vermelho de dor em alegres tons de azul, o cinzento da humilhação em verde de esperança. No fundo, aquilo que ela pretende, como todos nós, é um pouco de respeito.
Todo o respeito: aquele a que tem direito porque é o que é e faz o que faz, e mais ainda porque ninguém conseguiu jamais retirar-lhe a dignidade de sobreviver onde poucos são capazes.