Mediocridade congénita
Que população! Dois milhões de habitantes numa área de setenta ou oitenta léguas de comprimento por quarenta e cinco de largura.
Tratando-se de ciências e de artes, dos seus médicos, dos seus físicos, naturalistas, geómetras, astrónomos, engenheiros, logo proclamam serem os melhores do universo. Os seus oradores, julgam-nos como sendo os mais eloquentes, os seus poetas os mais engenhosos e os seus historiadores os mais verídicos. Estão convencidos de que as artes foi entre eles que desenvolveram todas as graças e perfeições de que são susceptíveis e que os seus muitos monumentos atestam tal superioridade.
Pobre povo! Como podes tu estar tão enganado? Como podes iludir-te tanto sobre a tua profunda ignorância em todos os géneros, sobre a tua pouca civilização, sobre a mediocridade dos teus monumentos, a mesquinhez das tuas edificações, sobre as imperfeições da cidade que habitas, sobre os perigos a que uma má administração te expõe de contínuo, sobre a simplicidade mesquinha da corte do teu príncipe e do palácio que ele habita? Como podes tu desconhecer a superioridade das outras nações, mesmo da que é inferior a todas as outras e tu desprezas, a da corte de Espanha? Como podes tu ignorar a superioridade do pequeno número de sábios estrangeiros que vieram à tua terra e tu não soubeste atrair, a de alguns artistas apreciáveis que vieram ao teu país e não soubeste retê-los? Como desconheces esses artistas estrangeiros que aqui ficaram e que, embora medíocres, são infinitamente superiores aos teus naturais? Quais são os teus oradores? Os pregadores, tradutores dos Bourdalone, dos Massillon, dos Fléchier, dos Bossuet? Quais são os teus engenheiros, os teus oficiais de artilharia? Se tens alguns, são franceses. Se tens dois ou três bons oficiais de marinha, são ingleses. O único dos teus médicos digno de tal nome é italiano. Onde estão os teus físicos, os teus geómetras, os teus astrónomos, os teus pintores, os teus escultores, os teus gravadores os teus pintores, os teus arquitectos? Não os tens, nem nacionais nem estrangeiros.
Os teus ourives, os teus lapidários, os teus relojoeiros, são franceses, os teus melhores artífices são estrangeiros.
Sai do teu país, corre mundo, percorre a França, a Inglaterra, a Alemanha, a Itália, a Rússia, e até a Espanha; observa, admira, reflecte, humilha-te, e envergonhar-te-ás de teres nascido português, corarás de confessar onde nasceste e concordarás então que o teu país é o mais atrasado, o mais ignorante, o menos civilizado, o mais selvagem e bárbaro de todos os países da Europa.
Panorama de Lisboa no ano de 1796
J.B.F. Carrère
Ed. BN, série Portugal e os Estrangeiros, Lisboa 1989
trecho transcrito: capítulo "Superstição Nacional", página 145












