Consultório sentimental - XIV
A auto-sedução
Tive um namorado que ia ajudar na loja do seu melhor amigo nas férias. Quando vendia alguma coisa, metia algum no bolso e o resto é que ia para a caixa. Na altura do Natal, fazia tanto dinheiro que dava para as prendas e ainda depositar a prazo o resto. Eu DETESTAVA que ele fizesse isso, mas nunca o denunciei.
inconfessáveisDeitemo-nos a adivinhar. Salvo seja. Esse seu ex-namorado,
cara amiga, passeava-se numa bruta máquina, certo? Era menino para descapotável ou, no mínimo, para circular montado em sua espampanante mota de alta cilindrada, pois não era assim?
Era, pois era. Não é difícil adivinhar. Como todos sabemos, este país está cheio de ladrões altamente automobilizados, patifes do género desse seu "amigo", sem tirar nem pôr, gajos que roubam descaradamente, não apenas ao melhor amigo como até à própria mãe, se for preciso, tendo como finalidade primeira tal gatunagem, precisamente, a obtenção de uma ou várias prestigiantes montadas - aquelas coisas com rodas e motor das quais se diz ser cada qual consoante a que possui.
Surgem estas questões prévias como tentativa para localizar a questão, que se poderá por conseguinte resumir da seguinte forma: aquele bandido foi seu namorado e, portanto, a menina foi namorada do meliante, não certamente pelos seus dele dotes de inteligência, ou sensibilidade para a vida artística, por assim dizer; a menina ficou enrabichada pelo catraio não por via do carácter, mas antes, muito simplesmente, pelos bens que o homenzinho arvorava, a começar pela armadura (a farpela, a vestimenta, os trapos) e terminando, ou especialmente, pelo coche, pelos cavalos que o puxavam e respectivos arreios. É. Com efeito, nos tempos que vão correndo, aquilo que de mais sedutor existe num homem, aos olhos de uma mulher, é sem dúvida o seu meio de transporte; seu, dele, repita-se. Nada mais excitante, em sentidos figurado e literal, do que andar de cu tremido, como se costuma dizer e como é sabido.
Como implicação imediata da lei social estabelecida e comummente aceite, " tu és aquilo que conduzes", temos que a força gravitacional da atracção (e, por inerência o poder de sedução) varia na razão directa não da potência do macho mas da potência da máquina que o macho possui. Não é fácil encontrar uma mulher que resista ou fique indiferente a uma "bomba" reluzente, de duas ou de quatro rodas; existe na viatura, como se embutida nos cromados ou algures no porta-luvas, uma quantidade gigantesca de substâncias químicas propiciadoras daquilo a que se chama atracção, da mais trivial tesão, da mais arrebatadora das paixões. Segundo o mesmo princípio químico, a situação inversa também se verifica pela negativa, ou seja, nada pode causar mais repulsa, ou "antipatia", em linguagem feminina, do que o mau estado de conservação de uns estofos, uma pintura toda estalada ou, de forma mais abrangente, o "mau aspecto" de qualquer caranguejola. A sobrevivência, o prolongamento, a manutenção e mesmo o incremento da paixão dependem mais do estado geral da viatura, da sua idade e do seu preço, do que de qualquer estado de espírito ou qualidade própria do respectivo condutor.
Presume-se, assume-se, toda a gente, que o proprietário de qualquer viatura acima dos 10.000 contos, ou digamos, 5.000, não pode ser má pessoa, desonesta, sacana, muito menos estúpida e ainda menos ignorante. Caramelo ao volante de qualquer Ferrari não será por suposto nunca menos do que um perfeito génio, refinado espertalhão, cavalheiro de respeito. É logo de doutor para cima, imediatamente e de chapéuzinho na mão, quando não vossa excelência para cá, vossa excelência para lá, e queira fazer a fineza, oh, por quem sois, senhor engenheiro, mande sempre. Logo, portantosmente, nenhuma lata de valor inferior pode transportar alguém de valia não correspondente, forreta, pé-rapado, indigente, ou seja, refinadíssimo cretino, bandidote, filho-da-puta encartado, chega pra lá essa merda, ó paneleiro, vai levar no cu, ganda pindérico, manda-me essa merda prá sucata.
Em outro registo mas na mesma bitola, realcemos que pouquíssimas coisas existirão mais descorçoantes, geradoras de antipatia e, por via disso, anti-clímax, ou empata-fodas, do que o calhambeque a cair de podre. Não existe um único gajo que desconheça o verdadeiro momento, o único factor realmente importante quando chega a hora de a gaja avaliar a pinta do animal: é quando lhe aparece pela primeira vez à frente com o seu bólide; ao primeiro relance, a chavala, consoante a carripana lhe agrade ou não, toma uma irrevogável e definitiva posição, a qual será uma de duas, ou algo como "ah, que lindo" e fica logo ali apaixonada, ou uma coisa do género "mas que merda vem a ser esta" e isso é sinal de que não fica apaixonada, danou-se, a coisa morre ali mesmo, "ah, afinal não gosto nada dele".
Cabe ao candidato, se calhar a negativa, não ficar ofendido. A lapidar, típica, feminina expressão "ah, afinal não gosto dele" refere-se ao carro, não ao dono, por mais que seja gramatical e prosodicamente indestrinçável tal coisa, a partir de tão parcas palavras, que nem são, de resto, geralmente produzidas, ficando-se apenas pelos mais recônditos interstícios mentais da ex-candidata a objecto de amores; correu mal, pronto, o carro até seria mesmo uma valente cagada, há que reconhecê-lo e seguir em frente, mulher alguma consegue re-apaixonar-se, a não ser que se consiga uma viatura decente num prazo curtíssimo, se não pode, fodeu, há que ter "fair-play" nestas coisas.
Cumprido este périplo através de algumas das circunvoluções cerebrais que entroncam o e no chamado "eu-fêmea", ou "anima femina", podemos então regressar ao início da conversa, agora já detentores da explicação, das motivações que levaram a
nossa correspondente a enamorar-se (ser namorada) do primordialmente referido gatuno. Pois é. Tomou-se de amores nossa amiga por semelhante biltre, apenas por, ou tendo em consideração que, o cabrãozito andaria pela certa muitíssimo bem montado. Ora, como poderia ela adivinhar que o carro, aquela bisarma com 200 cavalos, era roubado ou tinha sido comprado com dinheiro proveniente de desfalques? Sejamos sérios. A rapariga estava inocente, de todo. Em não sendo bruxa, realmente, como poderia ela suspeitar de tal coisa?
Ficou embeiçada pelo roncar do motor, pela velocidade estonteante, coitada da rapariga, apaixonou-se violenta e consequentemente pelo rapaz, não a crucifiquemos agora por ter sido tão ingénua, estúpida, galinha entesoada. Bem bastarão certamente os remorsos que andará carpindo desde aí. Não podemos nem devemos atirar pedras, isso não é cristão, de mais a mais sabendo perfeitamente, isto é, presumindo, que tal coisa não voltará a acontecer e que a dita, a pobre infortunada, terá mais cuidado para a próxima, não cairá assim tão facilmente, não ficará logo com as hormonas e a passarinha aos saltos, deverá indagar previamente qual o modo de vida do candidato, a proveniência da viatura, quiçá solicitando os respectivos livrete e registo de propriedade, há que ser de extrema prudência nestes materialistas e conturbados tempos. Haja respeito e compostura, enfim, não há-de agora uma moçoila deixar-se ludibriar por qualquer valdevinos, vigarista, arrivista, lá porque surge montado numa irresistível ("amorosa") moto, num qualquer "Jeep" quatro por quatro, por mais "lindo" que seja, ou, por exemplo, num Mercedes série A de apenas dois lugares, oh, que romântico; coisas que, já se vê, bem podem ser não do próprio mas do alheio, o que, em alguns casos, acaba por foder tudo.
Haja decoro também por parte de nossa rapaziada. Isso de andar por aí a "sacar" gajas, à conta da motorização que se tem debaixo dos pés, está mal; é aproveitar a ingenuidade das moças, a sua natureza amorável, namoradeira, apaixonadeira, a sua fraqueza inata por cavalos-força, a sua delicadíssima constituição sexual, que por vezes as leva inadvertidamente ao orgasmo, apenas por dar uma voltinha a 200 à hora. Bem sabemos como pode ser, para o chamado sexo fraco, estonteante, a velocidade, emocionante, o perigo da estrada, excitante, uma razia a outro automóvel, fascinante, a tremenda potência do motor, alucinante, uma curva a derrapar, de cortar a respiração, um "cavalinho". Aos jovens se pede que se aquietem, até porque chega para todos; não há necessidade nenhuma de enganar as raparigas que se pretende comer com aquilo que não é nosso ou que foi obtido por meios menos legítimos; pode-se comer na mesma, assim às manadas, sem precisar de golpadas e de enrabanços apriorísticos do género.
E também, sejamos claros e concisos, tal honesto procedimento, não usar o furto para impressionar, e tal, acaba por marcar pontos a nosso favor; muito provavelmente, se aparecermos apeados ou com um carrito merdoso, num primeiro encontro com uma candidata a levar com ele, o mais certo é ficarmos imediatamente e daí em diante a chuchar no dedo, mas também pela certa essa candidata levará em linha de conta a nossa atitude honesta e ficará, doravante, nossa amiga; é muito melhor do que nada, a curto prazo, e a longo sempre nos podemos consolar com o facto de que também não teremos que levar com ela para o resto da vida.
Ora, jogos de sedução há muitos. Se não vai lá com o pópó, pode ser que funcione com pastelinhos, bombons ou pão-de-ló. Ou com conversa. Umas rimas e assim. Costuma pegar, à falta de melhor, mesmo nos casos mais desesperados, para quem não tem dinheiro nem para o táxi, para os desgraçados que se deslocam em sucatas como o R4, o R5 e o R16, que horror, não vale a pena exagerar, mas haja esperança. No paleio, por excepção, pode residir a salvação dos auto-excluídos. O problema é que as fábricas não param de produzir, caralhosasfodam.