Odi profanum vulgus et arceo

14/06/06

Almanaque de Asneiras


_ Um centramento no..., centramento na..., centramento em...

Palavras proferidas por Sua Excelência a Senhora Ministro(*) da Educação de Portugal, no Telejornal da RTP 1, hoje, às 14:05 h. Em triplicado, como transcrito.

centramento
Dicionário Houaiss: não consta
Enciclopédia 1: não consta
Enciclopédia 2: não consta
Dicionário P.E.: não consta
Dicionário T.E.: não consta
Prontuário ortográfico: não consta
Google (pt): 412 referências


"Centramento" não consta, em nenhum dicionário ou enciclopédia, como palavra "derivada" ou composta por sufixação, nem do substantivo "centro", nem do adjectivo "central", nem do verbo "centrar".

Provavelmente, a Senhora Ministro(*) referia-se a um site de meditação transcendental brasileiro, o Centramento.

Confere. Publique-se.



(*) A expressão idiomática "Senhora Ministra" foi pela primeira vez atestada pelo político Salgado Zenha (1923-1993). Primordialmente, o substantivo significava, entre outras coisas, "mulher medianeira, empenho, cunha". Por outro lado, a palavra "Ministro" nunca fez mal a ninguém, ao contrário de muitos assim designados. Digo eu, que não utilizo nem dicionárias nem enciclopédios.

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10/06/06

Os sete pecados mortais

Gula Avareza Ira Orgulho Inveja Preguiça Luxúria

Gula Ira Orgulho
Este miúdo tem nove ou dez anos e uma colecção de cromos para acabar. Merece portanto toda a confiança, e além do mais não passa de um garoto.

_ Levas estes meus quarenta e quatro repetidos, escolhes os que quiseres e depois entregas-me quarenta e quatro cromos, com repetidos dos teus.

Uns dias depois, recebo o mesmo envelope, com 38 cromos, alguns deles repetidos duas, três, quatro vezes.

_ Merecias era um estalo na cara, seu puto reguila - penso eu, de mim para mim, porque se é proibido dizê-lo, muito mais é fazê-lo.

Os pais da criança, com olhares de desafio, gabam em volta a esperteza de seu rebento.

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08/06/06

Consultório sentimental - XIV

A auto-sedução

Tive um namorado que ia ajudar na loja do seu melhor amigo nas férias. Quando vendia alguma coisa, metia algum no bolso e o resto é que ia para a caixa. Na altura do Natal, fazia tanto dinheiro que dava para as prendas e ainda depositar a prazo o resto. Eu DETESTAVA que ele fizesse isso, mas nunca o denunciei.
inconfessáveis


Deitemo-nos a adivinhar. Salvo seja. Esse seu ex-namorado, cara amiga, passeava-se numa bruta máquina, certo? Era menino para descapotável ou, no mínimo, para circular montado em sua espampanante mota de alta cilindrada, pois não era assim?

Era, pois era. Não é difícil adivinhar. Como todos sabemos, este país está cheio de ladrões altamente automobilizados, patifes do género desse seu "amigo", sem tirar nem pôr, gajos que roubam descaradamente, não apenas ao melhor amigo como até à própria mãe, se for preciso, tendo como finalidade primeira tal gatunagem, precisamente, a obtenção de uma ou várias prestigiantes montadas - aquelas coisas com rodas e motor das quais se diz ser cada qual consoante a que possui.

Surgem estas questões prévias como tentativa para localizar a questão, que se poderá por conseguinte resumir da seguinte forma: aquele bandido foi seu namorado e, portanto, a menina foi namorada do meliante, não certamente pelos seus dele dotes de inteligência, ou sensibilidade para a vida artística, por assim dizer; a menina ficou enrabichada pelo catraio não por via do carácter, mas antes, muito simplesmente, pelos bens que o homenzinho arvorava, a começar pela armadura (a farpela, a vestimenta, os trapos) e terminando, ou especialmente, pelo coche, pelos cavalos que o puxavam e respectivos arreios. É. Com efeito, nos tempos que vão correndo, aquilo que de mais sedutor existe num homem, aos olhos de uma mulher, é sem dúvida o seu meio de transporte; seu, dele, repita-se. Nada mais excitante, em sentidos figurado e literal, do que andar de cu tremido, como se costuma dizer e como é sabido.

Como implicação imediata da lei social estabelecida e comummente aceite, " tu és aquilo que conduzes", temos que a força gravitacional da atracção (e, por inerência o poder de sedução) varia na razão directa não da potência do macho mas da potência da máquina que o macho possui. Não é fácil encontrar uma mulher que resista ou fique indiferente a uma "bomba" reluzente, de duas ou de quatro rodas; existe na viatura, como se embutida nos cromados ou algures no porta-luvas, uma quantidade gigantesca de substâncias químicas propiciadoras daquilo a que se chama atracção, da mais trivial tesão, da mais arrebatadora das paixões. Segundo o mesmo princípio químico, a situação inversa também se verifica pela negativa, ou seja, nada pode causar mais repulsa, ou "antipatia", em linguagem feminina, do que o mau estado de conservação de uns estofos, uma pintura toda estalada ou, de forma mais abrangente, o "mau aspecto" de qualquer caranguejola. A sobrevivência, o prolongamento, a manutenção e mesmo o incremento da paixão dependem mais do estado geral da viatura, da sua idade e do seu preço, do que de qualquer estado de espírito ou qualidade própria do respectivo condutor.

Presume-se, assume-se, toda a gente, que o proprietário de qualquer viatura acima dos 10.000 contos, ou digamos, 5.000, não pode ser má pessoa, desonesta, sacana, muito menos estúpida e ainda menos ignorante. Caramelo ao volante de qualquer Ferrari não será por suposto nunca menos do que um perfeito génio, refinado espertalhão, cavalheiro de respeito. É logo de doutor para cima, imediatamente e de chapéuzinho na mão, quando não vossa excelência para cá, vossa excelência para lá, e queira fazer a fineza, oh, por quem sois, senhor engenheiro, mande sempre. Logo, portantosmente, nenhuma lata de valor inferior pode transportar alguém de valia não correspondente, forreta, pé-rapado, indigente, ou seja, refinadíssimo cretino, bandidote, filho-da-puta encartado, chega pra lá essa merda, ó paneleiro, vai levar no cu, ganda pindérico, manda-me essa merda prá sucata.

Em outro registo mas na mesma bitola, realcemos que pouquíssimas coisas existirão mais descorçoantes, geradoras de antipatia e, por via disso, anti-clímax, ou empata-fodas, do que o calhambeque a cair de podre. Não existe um único gajo que desconheça o verdadeiro momento, o único factor realmente importante quando chega a hora de a gaja avaliar a pinta do animal: é quando lhe aparece pela primeira vez à frente com o seu bólide; ao primeiro relance, a chavala, consoante a carripana lhe agrade ou não, toma uma irrevogável e definitiva posição, a qual será uma de duas, ou algo como "ah, que lindo" e fica logo ali apaixonada, ou uma coisa do género "mas que merda vem a ser esta" e isso é sinal de que não fica apaixonada, danou-se, a coisa morre ali mesmo, "ah, afinal não gosto nada dele".

Cabe ao candidato, se calhar a negativa, não ficar ofendido. A lapidar, típica, feminina expressão "ah, afinal não gosto dele" refere-se ao carro, não ao dono, por mais que seja gramatical e prosodicamente indestrinçável tal coisa, a partir de tão parcas palavras, que nem são, de resto, geralmente produzidas, ficando-se apenas pelos mais recônditos interstícios mentais da ex-candidata a objecto de amores; correu mal, pronto, o carro até seria mesmo uma valente cagada, há que reconhecê-lo e seguir em frente, mulher alguma consegue re-apaixonar-se, a não ser que se consiga uma viatura decente num prazo curtíssimo, se não pode, fodeu, há que ter "fair-play" nestas coisas.

Cumprido este périplo através de algumas das circunvoluções cerebrais que entroncam o e no chamado "eu-fêmea", ou "anima femina", podemos então regressar ao início da conversa, agora já detentores da explicação, das motivações que levaram a nossa correspondente a enamorar-se (ser namorada) do primordialmente referido gatuno. Pois é. Tomou-se de amores nossa amiga por semelhante biltre, apenas por, ou tendo em consideração que, o cabrãozito andaria pela certa muitíssimo bem montado. Ora, como poderia ela adivinhar que o carro, aquela bisarma com 200 cavalos, era roubado ou tinha sido comprado com dinheiro proveniente de desfalques? Sejamos sérios. A rapariga estava inocente, de todo. Em não sendo bruxa, realmente, como poderia ela suspeitar de tal coisa?

Ficou embeiçada pelo roncar do motor, pela velocidade estonteante, coitada da rapariga, apaixonou-se violenta e consequentemente pelo rapaz, não a crucifiquemos agora por ter sido tão ingénua, estúpida, galinha entesoada. Bem bastarão certamente os remorsos que andará carpindo desde aí. Não podemos nem devemos atirar pedras, isso não é cristão, de mais a mais sabendo perfeitamente, isto é, presumindo, que tal coisa não voltará a acontecer e que a dita, a pobre infortunada, terá mais cuidado para a próxima, não cairá assim tão facilmente, não ficará logo com as hormonas e a passarinha aos saltos, deverá indagar previamente qual o modo de vida do candidato, a proveniência da viatura, quiçá solicitando os respectivos livrete e registo de propriedade, há que ser de extrema prudência nestes materialistas e conturbados tempos. Haja respeito e compostura, enfim, não há-de agora uma moçoila deixar-se ludibriar por qualquer valdevinos, vigarista, arrivista, lá porque surge montado numa irresistível ("amorosa") moto, num qualquer "Jeep" quatro por quatro, por mais "lindo" que seja, ou, por exemplo, num Mercedes série A de apenas dois lugares, oh, que romântico; coisas que, já se vê, bem podem ser não do próprio mas do alheio, o que, em alguns casos, acaba por foder tudo.

Haja decoro também por parte de nossa rapaziada. Isso de andar por aí a "sacar" gajas, à conta da motorização que se tem debaixo dos pés, está mal; é aproveitar a ingenuidade das moças, a sua natureza amorável, namoradeira, apaixonadeira, a sua fraqueza inata por cavalos-força, a sua delicadíssima constituição sexual, que por vezes as leva inadvertidamente ao orgasmo, apenas por dar uma voltinha a 200 à hora. Bem sabemos como pode ser, para o chamado sexo fraco, estonteante, a velocidade, emocionante, o perigo da estrada, excitante, uma razia a outro automóvel, fascinante, a tremenda potência do motor, alucinante, uma curva a derrapar, de cortar a respiração, um "cavalinho". Aos jovens se pede que se aquietem, até porque chega para todos; não há necessidade nenhuma de enganar as raparigas que se pretende comer com aquilo que não é nosso ou que foi obtido por meios menos legítimos; pode-se comer na mesma, assim às manadas, sem precisar de golpadas e de enrabanços apriorísticos do género.

E também, sejamos claros e concisos, tal honesto procedimento, não usar o furto para impressionar, e tal, acaba por marcar pontos a nosso favor; muito provavelmente, se aparecermos apeados ou com um carrito merdoso, num primeiro encontro com uma candidata a levar com ele, o mais certo é ficarmos imediatamente e daí em diante a chuchar no dedo, mas também pela certa essa candidata levará em linha de conta a nossa atitude honesta e ficará, doravante, nossa amiga; é muito melhor do que nada, a curto prazo, e a longo sempre nos podemos consolar com o facto de que também não teremos que levar com ela para o resto da vida.

Ora, jogos de sedução há muitos. Se não vai lá com o pópó, pode ser que funcione com pastelinhos, bombons ou pão-de-ló. Ou com conversa. Umas rimas e assim. Costuma pegar, à falta de melhor, mesmo nos casos mais desesperados, para quem não tem dinheiro nem para o táxi, para os desgraçados que se deslocam em sucatas como o R4, o R5 e o R16, que horror, não vale a pena exagerar, mas haja esperança. No paleio, por excepção, pode residir a salvação dos auto-excluídos. O problema é que as fábricas não param de produzir, caralhosasfodam.

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07/06/06

Os sete pecados mortais

Gula Avareza Ira Orgulho Inveja Preguiça Luxúria

Preguiça
Por alguma razão, balançou, rodou ligeiramente, um canto bateu na parede, ficou esmilhado, por fim despenhou, partiu a meio de encontro ao lavatório, e numa fracção de segundo o espelho desfez-se em estilhaços no chão de ladrilhos, centenas de espelhinhos minúsculos, e cacos, e poeira de vidro por todo o lado.

A senhora foi buscar a pá, a vassoura. Pela primeira vez em muitos anos varreu, mais ou menos, quase todos os destroços e algum do lixo acumulado. O tapete, que em tempos tinha sido branco, rebrilhava agora estranhamente, como se estivesse coberto de lantejoulas. Pegou nele e foi dependurá-lo no estendal, com duas molas de roupa.

O vento se encarregaria de o sacudir.

_ Graças a Deus, há o vento - disse.

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Direito Laboral Português (DLP)

Subsídios para um tratado consuetudinário do nacional-atavismo


O trabalho em Portugal rege-se e, numa perspectiva histórica, sempre se regeu por três princípios básicos: esperar pela hora de saída, esperar pelo fim do mês e esperar pela idade da reforma; existe ainda um princípio intermédio, espécie de fio do condutor e elemento de ligação coerente dos outros três: esperar pelo fim-de-semana. Funcionando como factor de encorajamento social colectivo, verdadeiro motor da inércia caracteristicamente lusitana, há ainda as revigorantes possibilidades de esperar pelo próximo dia feriado, pela próxima "ponte", pela próxima "baixa", ou, suprema benesse e saborosíssimo delíquio virtual, existe também aquilo que geralmente se designa por "esperar pelas férias".

O verbo "esperar" constitui, na verdade, o étimo que melhor define a identidade nacional; Português que se preze está permanentemente, perpetuamente, pacientemente, sempre "à espera" de uma coisa qualquer: à espera de receber uma carta de chamada, à espera de uma entrevista para um emprego maravilhoso, à espera da consulta com o "especialista", à espera de que seja despachada certa e urgentíssima papelada, à espera de uns resultados importantíssimos, à espera de que acabem as obras lá em casa, à espera do canalizador ou da mulher-a-dias, à espera do autocarro ou da boleia combinada, à espera de que seque a tinta nas paredes ou de que o frango acabe de assar. Esperar é, em Portugal, um verdadeiro estado de alma, é uma coisa em si, uma actividade; nenhum outro povo consegue esperar tão proactiva e freneticamente; são conhecidos, e clinicamente reconhecidos, casos de portugueses absolutamente viciados em tais empreendimentos, e aos milhões são eles, pessoas que adoram e que se ocupam exclusivamente a esperar ou "aguardando" a sua vez na bicha, qualquer bicha, não interessa, a bicha do banco, a bicha da gasolina, a bicha dos táxis, a bicha das Finanças, e assim por diante. Curiosamente, o Português militantemente atarefado com as suas bichas apenas se preocupa com a designação, bicha, bichas, e considera tal coisa um horror, não o facto em si, a bicha ou as bichas, mas o facto de se lhe chamar bicha ou bichas e não aquilo que deveria ser, não é bicha, é fila, e não é bichas, é filas, não façamos confusões.

Aliás, é desta obsessão pelo preciosismo linguístico e pelo vernáculo sociológico, pelo rigor terminológico, em suma, que brota o não menos importante apego pelo direito em geral e pelo direito laboral em particular. Laboriosamente conquistado, ao longo de séculos de História pátria, o inalienável direito a esperar, cumpriu-se mais uma vez Portugal, a três quartos do século passado, com a chamada revolução de Abril; reduzida finalmente a letra de forma e valendo por lei, o direito a esperar arrasta consigo, anexos, apensos, uma série de direitos conexos, genericamente conhecidos como "direitos adquiridos" e que têm por fulcro a defesa intransigente do direito ao lazer. Escorados não apenas pela vontade democrática, expressa pelo voto, da maioria dos preguiçosos, dos laxistas e dos parasitas, mas também pelo próprio código genético lusitano, do qual é já parte activa e significativa, estes "direitos adquiridos" representam a espinha dorsal do Direito português e o mais espantoso contributo identitário do Portugal democrático, no âmbito europeu e, porque não dizê-lo, universal. De facto, reconheçamo-lo sem qualquer rebuço, existe uma lógica absolutamente inatacável subjacente à estatuição dos direitos adquiridos: ao Português comum, o chamado popular, ou homem do povo, ocupado, sobrepujado, ajoujado, atarefadíssimo em seus actos de espera e, por conseguinte, sem mãos a medir nem tempo para fazer seja o que for, são legalmente facultados os direitos fundamentais à existência, a saber, emprego remunerado ou, em não sendo possível arranjar-lhe o emprego, ao menos garante-se-lhe a remuneração, devendo ser o dito emprego o mais possível "estável", isto é, vitalício, e, de preferência, sem grandes ou com nenhumas atribuições ou responsabilidades.

Torna-se assim, por fim, possível que se realize no quotidiano este real paradigma da felicidade: ter uma santa e descansadíssima vida profissional, uma carreira de trinta ou quarenta anos preenchida por tempos de espera, pela manhã de casa para o emprego, em transportes públicos ou em viatura própria, à tardinha do emprego para casa, idem aspas, com de seis a oito horas intermédias, à espera da hora de saída. Assim, dia após dia, esperando com ansiedade a 6ª Feira à tarde, mês após mês, aguardando a chegada do Verão, ano após ano, até à abençoada meta final, o bem supremo, a querida, merecidíssima reforma paga, o trabalhador português, o homem da rua, o povo, consegue algo de inacreditável, para qualquer estrangeiro roído de inveja, ou seja, passar toda a sua vida sem fazer, sem alguma vez ter feito, e todo contente consigo mesmo, absolutamente nada.

Digamos que, se nos fosse perguntado, por absurdo, qual é a coisa que mais nos distingue de todos os outros povos do mundo, a resposta seria ligeiramente diferente da usual, até há uns anos, a qual era "a saudade"; actualmente, aquilo que nos distingue já não é esse folclórico e romântico substantivo, mas antes a muito singela expressão "não fazer nenhum". Exactamente. Apenas em Portugal é possível fazer carreira, construir uma reputação, ter um modo de vida exclusivamente a partir de coisa nenhuma, sem produzir seja o que for. Esperamos uns pelos outros e todos por qualquer coisa, nisso consiste a mais pujante realização, o único verdadeiro sector de actividade nacional. Os mais aptos, em tal mister, rapidamente chegam a lugares de responsabilidade, onde ficam à espera da próxima, inevitável, segundo o princípio de Peter, irresistível promoção. Os ainda mais aptos chegarão aos topos sociais, à nata, irão a ministros, a secretários-de-estado, a adjuntos ou a secretários, na pior das hipóteses. Os excepcionalmente aptos, nestas artes da simpática inépcia, da voluntariosa inércia, os eleitos, enfim, com extrema facilidade chegam a chefes de repartição, a sub-delegados adjuntos, a coordenadores de serviços, a gestores de empresas, a porteiros de discoteca, a presidentes da república, a cabo-de-mar ou a agente da autoridade.

Todos os portugueses, do mais alto magistrado da nação ao mais modesto contabilista, demonstram igual fervor no cumprimento da sua missão no concerto das nações e das humanas espécies. Todos se dedicam, os portugueses, de alma e coração, a esperar que o tempo passe. Precisamente aquilo que o tempo faz sozinho, mas pronto. Não compliquemos.




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Fôdeu

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05/06/06

Dá-se? Não! Da-se!



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Olha!

Alguém como eu
Budismo
Se não te portas bem, na próxima reencarnação, és uma barata. (mote)

Glosas
Se a tua vida corre mal, é porque estás a pagar as patifarias que fizeste na tua vida anterior.

Se a tua vida corre bem, não te excites muito porque na próxima estás lixado.

Se cheiras mal dos pés, é porque andaste por maus caminhos desde que reencarnaste.

Se cheiras mal da boca, é porque não só mas também.

Se partiste uma perna, com fractura exposta, podes estar descansado porque isso daqui a trinta anos não é nada.

Se te achas muito infeliz, atenta na vida que levam as larvas da couve galega.

Se estás feliz, põe-te a pau com aquilo que aí vem.

Se tens saúde, isso não augura nada de bom e vais certamente desencarnar em breve.

Se não tens saúde, toma um chá de cidreira e espera que o problema passe.

Se és uma pessoa bafejada pela sorte, bem podes esperar pela pancada na próxima vida.

Se te julgas o gajo com mais galo à superfície da Terra, acredita que na próxima vida vais ter toda a sorte do mundo.

Se desejas mal a teu vizinho, podes crer que esse mal te vai cair em cima, se não for antes o vizinho.

Se teu vizinho te quer mal, se te mói o juízo, não te rales, paz e amor, caga nisso.

Se tens azar ao jogo e no amor, não te metas mais em jogos amorosos, porque um mal nunca vem só.

Se tens sorte à batota e com as mulheres, eu se fosse a ti largava o baralho e ia já a correr para casa.

Se algum mal te sucede, é porque ainda não pagaste o suficiente pelo mal que fizeste.

Se não fizeste mal nenhum a ninguém, vais pagar na mesma daqui a duas ou três vidas, porque hás-de fatalmente reencarnar em grandessíssimo filho-da-puta.

Se nunca fizeste bem algum a alguém, hás-de ser recompensado com uma reencarnação do piorio.

Se gostas da pesca à linha, na próxima reencarnação és uma minhoca.

Se votaste Cavaco Silva, na próxima reencarnação és o pato Donald.

Se votaste Cavaco Silva e não gostas da pesca à linha, na próxima reencarnação és a minhoca do pato Donald.

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03/06/06

Bem


Um dia morro ao vento. Morro com o meu corpo a cortar o vento. Com a música a rebentar-me em bolas de sabão nos ouvidos e a escorrer pelas paredes do corpo. Um dia morro com um último gosto doce na boca. Um dia vou com o vento.


Mas quem será esta fulana? De sonsa não tem nada, e desconhece-se-lhe inteiramente a cara. Tem aquilo, a julgar pela amostra, que é cada vez mais raro, na vida como na escrita: a sinceridade. Alguns chamam-lhe genuinidade. A mais difícil das formas de expressão.

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02/06/06

6 de Junho: Dia Nacional do Snoopy


VIRTVTIBVS MAIORVM VT SIT OMNIBVS DOCVMENTO.PPD-PSD(*)




(*) tradução do Latim: "Às Virtudes dos Maiores, para que sirva a todos de ensinamento. Dedicado a expensas públicas" - partido social democrata. Esta inscrição está no arco triunfal da Rua Augusta, em Lisboa, e foi esculpida na pedra muito antes de Sá Carneiro ou Magalhães Mota terem idade para fumar, nos tempos de Sua Alteza a Rainha D. Maria Cachucha.
fonte do Latim: zerozero.pt (sacanas, copiaram-me o endereço quase todo)
imagem do símbolo nacional: sarahackerman.blogspot.com (boneco provavelmente gamado de outro sítio qualquer)
imagem do outro símbolo nacional: Encarta

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Cavaco não é integralmente burgesso

Só um bocadinho. Na forma como mastiga, e tal.

Porque, de resto, a minha alma está parva, o actual inquilino de Belém acaba de demonstrar não apenas alguma inteligência como até um módico de faro para as cousas da política. Cousas, não causas, e por via disso mesmo andam aí agora nossas esquerdas aos pinotes, pior que estragados, comunistas e afins. O homem fodeu-lhes a lei da paridade bem fodida. Gaveta com ela. Devolva-se. Arquive-se.

Olha que bem. Aplausos, uma vez sem exemplo, para nosso Presidente. Como se diz nas televisões portuguesas, uma grande salva de palmas para ele.

Evidentemente, e não há nisto mistério algum, ao contrário do que indiciaria o incómodo que sentem os vermelhos, se bem que já desconfiasse, agora tenho a certeza: nosso Cavaco lê aqui o Godot, a "morar" no endereço http://001.blogspot.com. Bem me parecia. Há que tempos andava eu intrigado com um dos raríssimos visitantes aqui chegados sem ser através de pesquisas Google; o endereço de IP não engana, é da zona de Belém, mas, ainda assim, nunca fiando, nunca se sabe, poderia ser um maluco qualquer lá daquelas bandas; agora o próprio Presidente da República! Oh honra, oh maravilha, ó Glória, caralhostafodam!

Mas sim, é verdade. Confirma-se. Desde o dia 23 do mês passado, quando aqui publiquei um avisadíssimo texto sobre a Lei da Paridade, as visitas de Sua Excelência cá ao boteco tornaram-se diárias e, por exemplo ontem, Cavaco veio cá três vezes, três. Não me custa nada imaginar o gajo a queimar os neurónios com aquele modesto, porém certeiro e cirúrgico arrazoado, pedindo opiniões a seus doutos conselheiros, atão mas vocês não acham que este caramelo tem razão, que isto é mesmo uma lei muitíssimo mal parida, hem, que me dizem? Vocências vede aqui esta conversa do povinho, a maneira como o povo fala dessa lei, tá-se mêmo a ver, com certeza, é para vetar, fodei-vos.

E pimba. Lá foi Sua Excelência pespegar o vetozinho na puta da lei, essa é que é essa. Tudo à conta aqui do bacano, como se vê. Escusam os comunistóides de andar por aí, em blogs merdosíssimos, tipo arrastão soviético, a insultar o Presidente por causa do veto; além do mais, haja respeito, Cavaco é uma instituição da República, um símbolo nacional, caralho, é de bom tom não abandalhar as instituições. É escusado que andeis por aí a bater com a cabeça nas paredes, a ver se descobris o que terá originado o veto presidencial, a inventar maquiavélicas teorias da conspiração e tenebrosas manobras da reacção; não foi nada disso. Foi até muito simples, não procureis mais, a causa estava mesmo debaixo de vossas ranhosíssimas pencas.

O homem informa-se, antes de tomar suas altas decisões. Que é? Que foi? Veio aqui, sim, leu a minha opinião, tomou-a como aquilo que ela é na verdade, a verdadeira voz do povo, e pronto, não tem nada que enganar, vetou a lei mal parida. Foda-se. Cambada de invejosos. Será preciso fazer um desenho?

O que é que queriam? Que o PR tomasse as suas decisões completamente sozinho?

Senhor Presidente, Excelência. Não ligue a esses comunas. Veio Vossa Excelência a esta sua casa, a conselho, e veio muito bem. Veio perfeitamente. A verdade é esta, Excelência: foi aviado ou não foi aviado, Excelência? Ora, foi, claro que foi, portanto não há mais nada a dizer.

Às ordens do Senhor Presidente. Cumprimentos, Senhor Presidente. Mande sempre, Senhor Presidente.

A Bem da Nação.

Zero Zero Um

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31/05/06

O blog do poder glúteo

É raríssimo, mas de vez em quando lá aparece um blog interessante, coerente, inteligente. Tropecei agora mesmo numa dessas preciosidades que, além daquelas três coisas acabadas em "ente", ainda por cima está bem escrito e cheio de belíssimas fotografias.

Embora já exista há bastante tempo, aquele blog especializou-se recentemente num tema absolutamente inovador: a peida portuguesa ou, melhor dito, a peida da portuguesa. Espantoso. O autor anda atrás de mulheres, no "metro", no café, no super-mercado, em plena rua, e zás, fotografa-lhes o pandeiro, que publica diariamente sob a sugestiva designação genérica de "Uma Granda Peida Por dia".

É uma ideia brilhante, convenhamos. As imagens dos cus, surpreendentemente diversos, são por regra ilustradas com texto. Como, por exemplo, esta pérola:

Há peidas que não valem um cu.

Isto por excepção, claro, porque de facto ali o que mais abunda é o cuzinho mimoso, o traseiro estonteante, a bela peidola. Vale bem a visita diária, por conseguinte.

Os meus sinceros parabéns ao autor, pela ideia, pelo requinte do tema e pela fascinante análise sociológica que vai elaborando de forma retroactiva, por assim dizer. E não esqueçamos o contributo linguístico da obra, já que o autor acabará certamente por efectuar um exaustivo levantamento da terminologia conexa: nominal, como rabo, padiola, cagueiro, nádegas, nalgas, nalguedo, bunda, etc., verbal, como enrabar ou rabejar, por exemplo, e mesmo expressiva ou idiomática, seja como em "dar ao cu", "vai levar na peida", "cair de cu", "nascer de cu virado para a lua", "no cu de Judas", "fugir com o rabo à seringa", e assim por diante.

Apenas uma desprezível minoria de blogueiros, aqueles mais cagões, se poderão dar ao luxo de achar que A Vida É Uma Festa não vale um peido, como gostam tanto de dizer de todos os blogs menos do seu. Habituados a confundir sistematicamente o cu com as calças, apenas a essa espécie de caguinchas o assunto poderá suscitar algum tipo de caganças, ou reserva mental.

Como nota final de destaque, aprecie-se também a lista de "links" daquela página: um verdadeiro paradigma de coerência.

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30/05/06

Avaliação professoral: variações sobre o tema


_ Olhe, mulherzinha. Fazemos assim: bocemecê dá binte ao meu filho e eu dou-lhe boa nota de abaliação.

_ Mas, ó setora. Carambas. O que é que lhe custa a si escrever "vinte" num papel? Ora essa! Ai é? Então veremos qual vai ser a sua avaliação no fim deste ano.

_ Como? Oferece-me uma chouriça? Ó minha senhora, nem que me oferecesse um porco inteiro. Não dá a nota ao meu filho, amanhe-se, ouvi dizer que a marinha está a admitir pessoal. Leva zero na minha avaliação e já vai com muita sorte. Sua corrupta do caralho, você pensa que me compra com um enchidozito de merda? Ora, ora, meta mas é o chouriço na peidola, sua galdéria.

_ Então está combinado: você passa-me o catraio e eu dou-lhe nota máxima a si.

_ O que é que prefere? Se você dá nega à minha filha, das duas uma, ou eu lhe dou avaliação negativa ou lhe espeto um murro nos cornos. Então? Como é que vai ser?

_ E ela bem se esforça, coitadinha! Passa os dias todos a estudar, acredite. Vá lá... Suba lá isso para o cinco, vá. Eu depois dou-lhe também nota máxima. E olhe. Digo-lhe mais, mas isto fica só aqui entre a gente. Eu conheço os outros encarregados de educação, são meus vizinhos, e tal. Vai ver que eu lhe arranjo uma boa avaliação final, entre todos. Temos que ser uns para os outros, não acha? Hmmm, bezinha?

_ Ai riscou-lhe o carro? E isso que tem? Um riscozito de nada, coitadinho, que não faz mal a uma mosca. E o que tem o risco no carro a ver com a nota dele? Ah, ele é isso? Pois muito bem. Vai ver que nota lhe dou eu, no fim do ano. É outro risco. É 1, um, ouviu? Um, de cima a baixo! Trrj!

_ Meu família diz senhora nom ter dretu. Nós meu pátria assim unido, tudo coisa faz no conselho família. Senhora não pode (como se diz) reprova meu filhinha. Meu filhinha passa, senhora boa (como se diz) avaliação. Senhora não passa meu filhinha, senhora mau avaliação. Eu nom kéfrô, senhora, eu ingutchia.

_ Mais nóiss istamus áqui em Pórrtugáu fais tempo! Quiéisso, gentchi! Dá negatchiva pru meu filho não, sô! Isso dáí, cara, é xênofôbia, viu? Qué québrá a cara, moça? Eu lhi pégu, cara, cê vai vê! Vô tchi tascá zero em sua avaliação, morou? Zero, zerinho mêzmu, ó!

_ Eu tenho estado a falar consigo, cheio de paciência, mas sinceramente tenho mais que fazer. É assim: ou passa o meu filho ou eu chumbo-a a si. Entendido?

_ É que ele ficou traumatizado com as aulas de educação sexual, tá a ver? Aquelas coisas ainda lhe fazem muita confusão, coitadinho, tão pequenino, tá a ver?. Andou-me murchinho durante um mês, nem queira saber, tá a ver?. Mas pró ano, vai ver, o rapaz espevita, tá a ver? Dê lá a notazinha, ande. Olhe a sua avaliação, tá a ver? Quem me avisa meu amigo é, tá a ver?

_ Bom, realmente, quando uma pessoa não cede a argumentos curiais, perdoará a franqueza, isso tem um nome, e esse nome é teimosia. A senhora doutora não passa de uma teimosa, desculpe que lhe diga. Ora, na minha opinião tal coisa constitui uma grave lacuna pedagógica. Por conseguinte, serei forçado a avaliar negativamente o desempenho da senhora doutora. Cumprimentos.

_ Eu disse ao meu paizinho que a setora me ia dar negativa e o meu paizinho disse para eu dizer à setora que o meu paizinho manda dizer que ou a setora me dá positiva em vez de negativa ou o meu paizinho vem cá falar com a setora por causa da avaliação que o meu paizinho vai fazer à setora.

_ Aiiii sinhoraaaa. Ataum ê vô têri negativaaaa? Aiiii. Ku mê páí nã vai gostar nadaaaa. Aiiii ku mê páí tamém lhe vai dari negativa à sinhoraaa. Aiiii.




Adenda
Acabo de ouvir na rádio uma transcrição de certo blog, de um tal Daniel Não Sei Quê, a propósito deste mesmíssimo tema de papás avaliando profes. Pois fui correndo ver o radiodifundido post no tal blog tipo "D. Rosa, chegou a sua filha", a fim de conferir. Pois confere. Aquilo é que é falar, bolas, soberbo paleio. Mas, claro, como não se pode ter tudo, esse identificadíssimo Daniel tresanda a comunistice, ou comunistite, e, portanto, torna-se para mim impossível tecer qualquer espécie de consideração a respeito. O que é chato, porque ficaria aqui a calhar uma referência mediática, cheia de pinta e nem por isso bajuladora. Nada feito. É esta maldita alergia, ó raio de coisa. Não consigo, "derivado a" este meu maldito feitio. Tudo aquilo que diz um comunista não vale um caracol, como estou farto de repetir. Mas fico ciente, mais uma vez, de que ser comunista, além de "corajosamente" assinar com um nome qualquer, dá muito jeito a quem pretende singrar no reino da blogosfera colunável, filmável, entrevistável, publicável e radiodifundível.
Apenas como ilustração do carácter comunistóide, tóxico, perigosíssimo, daquele arrastão soviético, fica uma pequena citação: "Alguém que deixa as televisões filmarem as crianças da sua escola para mostrar como são criminosas em potências não se pode dedicar ao ensino."
O verdadeiro Kuomitat Gozudarstvennoi Bezopanosti em todo o seu esplendor. Complexas "potências". Apenas por mera coincidência um comunista pode debitar a mesma "opinião" de um anti-comunista, ou estarem ambos do mesmo lado; se calhar, quem sabe, é porque o outro lado afinal não deve ser assim tão mau.

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29/05/06

_ Bem, isto é muito estranho. Acho que nunca me senti assim.
_ Pois, eu também. Há que tempos não penso noutra coisa...
_ Será que é isto aquilo a que se chama uma relação tórrida?
_ Não sei, querido. Sinto-me bem contigo. Parece-me que sim.
_ E sentes isto, eu escrevendo em ti, como se fosses uma lousa?
_ Sim. Gosto de que escrevas em mim. Sou feliz, acho-me... sólida.
_ Pateta. Adoro-te, sabias? Amo o teu corpo todo em cima de mim,
o teu cabelo acolhido ao meu peito, aqui, onde a tua cara poisa,
e esta música feita por Deus, e este silêncio, e esta luz pálida.
Olha, lembrei-me: e se a gente parasse o tempo agora mesmo?

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23/05/06

Olho clínico

||| Coisas para nunca fazer.
O regionalismo literário, a escrita engraçadinha, a piada étnica que só os indígenas entendem, a oralidade do bairro ou o sotaque da província passado a letra, a mania de truncar palavras, o vício de transformar sons, o humor de terceira.
A Origem das Espécies

Excelente, certeira, fichérrima definição da merdosíssima escrita que aqui se produz, se bem que não tenha gramado lá munto o adjectivo c'o dimunutibo. Mas bá lá, quem fala assim num é gago, carago, essaéquié essa. (Oops, puto de vício, isto é fodido, perdoai.)
Muito me honra a distinção, sem porém, contudo, no entanto, e nem mas nem meio mas. Obrigado, camaradas, por se darem à maçada ou, melhor, a duas maçadas, a saber, à uma lendo as minhas patacoadas e arejamentos, às duas etiquetando umas e outros com semelhante, lapidar, judiciosa, sintética razia . Acho que não sou merecedor, para mais sendo eu próprio o último exemplar de espécie extinta, o que é precisamente o contrário da vossa especialidade. Pelo que imagino a trabalheira.
Fico devedor.

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20/05/06


Micro-causa estourada


Arrepelam-se, virtuosamente, certos e certas gajos e gajas que se julgam pessoas finas, por causa dos touros e das touradas, e daquilo que, nas respectivas, doutas, esclarecidas opiniões, representam esses espectáculos: sangue, violência, primitivismo. Causas estouradas, por conseguinte e como adiante se comprovará, por mais frívolo que pareça o modestíssimo jogo de palavras. Sucedem-se os fogachos do género, nos últimos dias, e enquanto a "causa" e a coisa estiverem a dar, apenas porque foi anteontem re-inaugurada a praça de toiros do Campo Pequeno, em Lisboa e, como costuma suceder em qualquer recinto do género, ali decorreu uma corrida competentemente inaugural.

A foto lá em cima provém do próprio blog citado, que não refere a fonte (certamente por uma boa causa), e mostra a horrível imagem de um toiro sangrando abundantemente do morrilho - cravejado de bandarilhas, como compete. Acontece que este, por sinal, belíssimo exemplar de toiro bravo, aparece em pontas; o que significa que o animal retratado não foi corrido anteontem, no Campo Pequeno, excelente, tradicional, lindíssimo e renovado local onde decorreu uma corrida dita de "à portuguesa", isto é, com lides a cavalo, apenas, mais as respectivas pegas de caras; não dá muito jeito, como sabemos, como sabem até os mais empedernidos militantes dos direitos dos (outros) animais, por exemplo ao cabo de qualquer grupo de forcados, receber no peito o focinho integral do toiro com os cornos em pontas; o mesmo vale para os cavalos, que são, como também não é difícil entender, aqueles bichos em cima dos quais montam os cavaleiros. Ora, acontece que estes cavalos de toureio, como os cavalos em geral, custam muito dinheiro; um forcado não valerá assim tanto como um cavalo de lide mas, convenhamos, não seria lá muito prático recolher sistematicamente cadáveres de forcados das praças, no fim de cada corrida. Aquilo é um espectáculo como qualquer outro, pelo menos desde que - malogradamente - acabaram os circos romanos.

Mas deixemos estas minudências, pelo menos para já, que não são relevantes os pormenores. O que interessa, aqui a tese, onde o ponto bate, quanto a mais esta indignadíssima manifestação de amor aos (outros) animais, é que a foto que ilustra o referido chorrilho de diatribes é absolutamente falsa; foi ali colocada, pretensamente figurando o arrazoado de indignações, e, para mais, com retoques de malvadez - como filtros de gama, para realçar a fealdade do sangue empastelado - apenas com uma finalidade: tentar convencer os mais ou mais provavelmente ingénuos da putativa "bondade" e das excelentes intenções civilizadoras que movem e impulsionam aquela gente, os tais, os bonzinhos, os defensores dos (outros) animais. Tudo, como sempre acontece com esta espécie, em nome de algo que os ditos consideram ser a sua (deles) superioridade moral. Conseguem, frequentemente, calculo que sustendo o riso, dar uma (ideia) de que são puros e impolutos, perfeitos e acabados, supremos e superiores, eles sim, em suma, a realização do ideal humano: são a bondade personificada, eles, demónios todos os outros. É muito simples.

Poucos destes paladinos sabem aquilo que sucede a um toiro depois de uma corrida "à portuguesa". Aliás, estão-se nas tintas para minudências do género, como sempre, em circunstâncias conexas, quando em plena actividade de "luta", e é gente muito viajada, como se sabe, vão a todas, a Paris, com os "estudantes", a Teerão, com os "estudantes", a Cabul, com os "estudantes". São aparentemente muito estudiosos, ou, pelo menos, muito amigos dos estudantes, mas não sabem - como os estudantes não sabem - porra alguma de coisa nenhuma. Não sabem, por exemplo e em concreto neste assunto, que um toiro lidado, em Portugal, é deixado nos curros até ao dia seguinte, com as bandarilhas espetadas no dorso; que estas bandarilhas têm pontas em ferro e que, portanto, o animal sofre rapidamente uma infecção generalizada; que a baia na qual o toiro é metido não lhe permite quase mexer-se, o que irá certamente agravar o estado de alucinação, a febre provocada pela infecção; que, em alguns casos, quando a praça de toiros não tem espaço para alojar todos os toiros lidados até ao dia seguinte, alguns são amarrados e pendurados pelos artelhos, ficando de cabeça para baixo até à chegada do veterinário; que os animais apenas podem ser abatidos, por fim, finalmente, se e quando este veterinário estiver disponível para assinar a respectiva papelada; que muitos toiros morrem, miseravelmente, de colapso cardíaco ou, pior ainda, simplesmente de stress - ironia das ironias - por não poderem mexer-se, correr, marrar, lutar, como antes faziam na sua charneca natal, nas suas planuras alentejanas, ou algures nos prados da Extremadura espanhola.

A corrida "à portuguesa" surgiu precisamente pelo horror esquizofrénico e delicadíssimo que a oligarquia nacional sentia por ver o toiro a ser estocado em plena arena. O mesmo tipo de nata, ou borra social, pretende agora liquidar não apenas a variante "à portuguesa" da corrida de toiros, como qualquer outro tipo de tourada. Fazem tremenda tourada por causa das touradas. Pretendem, do alto da sua pretensa superioridade moral, acabar com todos os espectáculos taurinos. Bem, menos com um: o do bife do lombo, de preferência de "vitela". Pois essa "vitela" que dá prós bifes, amiguinhos, geralmente, é um pobre bezerro que nunca vê a luz do dia, para que desenvolva uma esplêndida anemia (o que dá o tom rosado e a maciez à carne), que está confinado a uma baia minúscula, desde que nasce até que morre, uns meses, até ser paralisado com pistola eléctrica e, pendurado como os toiros pelos artelhos (os tendões das patas, valha-me Deus), é-lhe vazada a jugular, percorrendo então - enquanto larga vivo todo o sangue que tem para um escoadouro - a sua última e electrónica via-sacra: o primeiro operário da linha de desmontagem corta-lhe a cabeça com uma serra mecânica; o segundo abre-o, de baixo para cima, do pescoço até aos quartos traseiros; o terceiro corta-o ao meio, o rabo para a direita; o quarto, no fim da linha, empurra cada uma das metades em seu guincho, cada qual pendurada em seu chispe, até à câmara frigorífica.

Vocês, os "amigos" dos (outros) animais, não fazem a mais pequena ideia daquilo que é um toiro de lide. Pelo mesmo motivo que não distinguem um bife do lombo de uma posta mirandesa ou mesmo de uma fatia de torresmos: é tudo paparoca, não é? Desde que não vejam o cozinheiro a cuspir-vos na sopa, tudo bem, certo? Não imaginam que algum padeiro, para apenas dar um exemplo, possa ter mijado na massa do pão, fornecendo-vos de madrugada a carcaçazinha ligeiramente mais condimentada. O horror não vos passa pela cabeça, camaradas. Comida é comida e, desde que se não veja como é feita, tudo vai bem. Adorais frango "do campo", devidamente grelhado a carvão, pois não adorais? Leitãozinho assado, hem, à moda de Negrais ou a fingir que é "verdadeiro Mealhada"? E umas almondegazinhas feitas com belíssima carne de burro velho, vale? Não é pitéu admirável? E o belo fiambre, desperdícios orgânicos dos matadouros, macerados primeiro, liquefeitos depois, e solidificados por fim com gelatina? Hmmm? Não é deliciosa, a "sandezinha"? Ah, a gelatina, esse doce admirável, constituído por material triturado proveniente dos chispes (as patas das rezes), liofilizado, misturado com aromatizantes, conservantes, edulcorantes, glutamato monossódico (intensificador de sabor, sal) e, por fim, com essa substância caríssima que é a água da torneira.

Enfim, amiguinhos, fiquemos pelas amostras. Excelentes merdas comeis vós, os bonzinhos, os amiguinhos dos (outros) animaizinhos, como comemos nós outros, os "mauzinhos", os aficionados, aqueles que apelidais de "assassinos" e de "sádicos". Confere. Pelo menos não somos, nós, os outros, masoquistas. Ou estúpidos, tão estúpidos. Ou cegos. E ainda, muito menos, hipócritas.

De facto, é uma tristeza o que sucede ao toiro de lide; mas não durante a corrida, aquilo para que foi criado, antes depois - o que lhes sucede depois, quero dizer - e que é, admitamos sem rebuço, algo de malévolo, e sádico, e criminoso. Realmente, o toiro deveria ser morto em plena arena, logo após a lide, passado a estoque ou por qualquer outra forma digna.

Ora, se isso não acontece, vejamos: de quem é a culpa?




P.S.

Pois. Exactamente. O que eu pretendia dizer era



isto mesmo.

A morte do toiro na arena.

Se for no açougueiro é, de facto, diferente. Concordo. Nesse caso, a referida morte não pode sequer ser aclamada "em uníssono por milhares de pessoas", basicamente porque nos matadouros não existem, geralmente, bancadas. Aliás, não é a morte que é aclamada nas arenas. Pelo contrário. É a vida. Não vejo o que há de incompreensível nisto. Mas deve ser problema meu.

Sai uma costeleta de novilho. Mal passada, sim?

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Adeus. Fez-se noite.
Já não me apetece caminhar,
passear contigo por essas veredas.
Adeus. Está de noite.
Parece-me que já te não vejo
tão bem como dantes. Agora custa mais.
Adeus. Caiu a noite.
É um silêncio, uma escuridão,
uma calma já sem saudade nem desejo.
Adeus. É noite.
O princípio de um novo dia
e o fim de tudo. Tudo. Já não interessa.
Bela, a noite. Adeus.


 

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16/05/06

A Júlia dos pinheiros


Mas esta Júlia que apresenta agora na TVI coisas como o "Circo das Celebridades", e o "Big Brother", e a "Quinta dos Famosos", gente, esta mesma Júlia, não me fodais, é a Júlia Pinheiro que "moderava" a "Noite da má-língua"? Da-se! É a mesma gaja? Sério? Aquela que fazia um arzinho inteligente, perpassando pelos espaços da chuva intelectual de bacanos como o Miguel Esteves Cardoso e o Rui Zink? Aquela que sabia tudo de toda a gente? A que atirava argumentos e ironia ao ar, verdadeira, maravilhosa malabarista do palavreado, caralhosmafodam, que sei eu, enfim, é a mesma? Não me digam. É, não é?

Que horror, bálhamedeus. Que galinha asquerosa. Esta não leva tanto por bico, mamada, broche. É mais upa, upa, pelos vistos, especializou-se em pratos de geraldina, broche colectivo, mamada simultânea a milhões, faz bico a todo um povo, a ganda vaca, é consoante o que mais estiver a dar.

Imagino daqui nosso MEC arrepelando-se todo, "ó, caralho, e dei eu trela a este estafermo". Por isso o gajo anda desaparecido, ora pois, tal deve ser a vergonha, o embaraço esmagador. Mesmo aquele palerminha gordo, aquele do Porto, até esse, que se julga algo, certamente andará por aí carpindo suas mágoas, óilha que canudo, canudo, atoum-e fui eue dar cunfiánça àquela chabala, fuada-se, carago, mas quenhe me maundou-e a minhe bubere assim taunto, tóino, biesta do cacete, cacete. Presumo que, para não ir mais longe, a maluquinha de serviço lá das Noites da Má-língua, (uma que é actriz, ou actora) mesmo essa deve andar agora a rezar trinta avé-marias e dez salvé-rainhas, de penitência, amaldiçoando a hora em que se meteu em tal alhada, com semelhante nojo popularucho. O outro, aquele do PPM, palpita-me que até teve um ataque cardíaco, um fanico, deu-lhe uma coisinha má quando se apercebeu de que, afinal, a apresentadora da NML não passava de uma refinadíssima imbecil, não passa e não passará nunca; fenece-lhe assim a fé em El-Rei, longe vá o agoiro, ao monárquico, por via de semelhante aventesma.

E ninguém diz nada. Ninguém acha estranho. É Portugal, ninguém leva a mal. É natural. Bestial. Normal. Uma idiota, amiguinha do povo, verdadeira operária da estupidificação, fazer-se passar por pessoa, e para mais com alguma coisa na cabeça, ser tu cá-tu lá com pessoal da intelectualite - a versão teoricamente letrada do socialite -, e pronto, é assim, como agora se diz, todo o mundo acha isso bem, perfeitamente, nos conformes.

Pois eu cá não acho. Sinto-me enganado. E quando eu me sinto enganado, devo asseverar, fico fodidíssimo dos cornos. Até espumo de raiva. Puta que a pariu. Então ficava eu até de madrugada,à espera daquela merda, achava graça ao programa e tudo, e agora, afinal, aquela Júlia, nosso Senhor lhe perdoe porque eu não sou capaz, andava ali a fazer de conta? Era tudo postiço, falso, marado?

Da-se. Ganda burro.

O que me vale é que não sou o único.

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13/05/06




(via Blasfémias, que diz, por seu turno, ter descoberto a coisa no... hmmm... varreu-se-me adonde)

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11/05/06

Cromos da bola

Repetidos

Troca-se essa merda que está aí em cima (selecção de Espanha, cromo nº 530) por qualquer outro, da colecção FIFA World Cup - Germany 2006, ed. Panini.
Gracias.

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