1. Médico de família
Presume-se, com esta figurinha legal, que todos os "utentes" do nosso sistema de saúde possuem uma. Ou seja, visto que não é possível um cidadão ter outro médico que não um destes, dito "de família", por inerência não existirá em Portugal ninguém que não tenha ou não pertença, por força, a uma qualquer "família".
Essa é boa. Então, e se realmente eu não tiver família? Não posso? Tenho de ter família para ter médico de família ou para, em suma, ter médico? E se eu não quiser ter família, deixo de ter direito? Se me estiver altamente cagando para todas as pessoas que têm o meu apelido e que, por mera coincidência, constituem a minha família biológica, se não souber nem quiser saber de nenhum deles, há um porradal de anos, como é, nesse caso? Não tenho direito a assistência médica? Ou terei de andar por aí, de chapéu na mão, a pedir pelas alminhas que alguma família caridosa me adopte?
Essa é famosa, como diria o Eça. Um valor da direita política, a família, adoptado por seu turno pelas esquerdas, e administrativamente transformado em facto universal, eis um axioma genial, daqueles que não lembravam nem ao careca.
Não quero "médico de família" nenhum. Quero que a minha família se foda, mas de vez em quando pode ser que precise de assistência médica gratuita, direito de qualquer cidadão, nacional ou não.
E, afinal, para que serve essa merda, além de pretensamente se dar a entender que o país é um paraíso onde todos se dão perfeitamente uns com os outros? Para quê, se a própria instituição família está em acelerado processo de extinção? Um médico conhece melhor os meus podres viscerais se conhecer os dos meus familiares? Terei eu mais e melhor tratamento, quando por fatalidade adoecer, se a terapêutica atender também ao historial clínico dos meus pais, irmãos, primos, tios e sobrinhos?
Mas, no fim de merdas, e se pura e simplesmente não me apetecer? Hem? E se eu for um "sem-abrigo"? E se eu quiser ser um "sem-família", em vez disso? Onde está a minha liberdade individual?
Apetece-me embirrar com toda a gente, a começar por aqueles que me estão mais próximos, precisamente, os parentes, os que andam por aí a circular com o "meu" sangue. Eles que se fodam, repito. Nem admito que eles são da minha família nem que me tentem obrigar, através de um simples cartão de utente, a reconhecer que pertenço à família deles. Que os pariu. Que se lixe o cartão, e o sistema, e o médico. Fodei-vos todos.
Hei-de morrer, assim sendo, só, pária, deserdado, mas totalmente livre. Hei-de morrer portanto cheio de saúde.
2. Assembleia de condóminos
Rosnar os bons-dias, num elevador, por exemplo, é o máximo que me pode ser exigido, salvo seja, na condição de vizinho. Nada mais. Os vizinhos que se fodam, é de resto o meu lema. Deles, apenas quero distância, e que primem pela ausência é o que mais desejo. Nada me obriga a ser simpático, nem sequer a cumprimentar, se não estiver para aí virado, como nada me pode obrigar a aturar o rádio daquela puta do 2º D, sempre em altos berros, ou o cãozinho da velha do rés-do-chão, esse filho-da-puta que não me grama, como a dona, diabos a levem.
Ora, em casos destes, em se tratando de gajo absolutamente anti-social, ou totalmente desprovido de quaisquer ferramentas de convivência - como é o meu caso evidente - gostaria de saber porque cargas d'água hei-de ser forçado a pertencer a uma "comunidade de condóminos". Mas porquê comunidade? Quero lá saber eu bem da comunidade para alguma coisa!
Esta foi mais uma das invenções comunistóides, uma das maquinações socializantes do pós-25 A. Pós de perlimpimpim, é como digo, borrifados por cima de toda a gente, à antiga soviética, no sentido de forçar a constituição de manadas politicamente controláveis. Pretender-se-ia com este tipo de socialização forçada, teoricamente, que o cidadão se "integrasse" na comunidade nacional, estando esta estruturada em células, desde o "grupo de trabalho" ao comité de cidadãos, passando pelas estruturas de poder local, sindicatos, organizações sectoriais, associações desportivas e culturais. O "condomínio" funcionaria então como "estrutura de base", espécie de émulo sub-reptício dos "comités de bairro" comunistas.
Estruturas de base estas que, à semelhança daqueles comités, têm por finalidade a vigilância de costumes e, por conseguinte, o estabelecimento de uma ordem comportamental estabelecida. É para isto mesmo, no fundo, que servem os vizinhos, organizados ou não em "condomínio": para controlar a vida alheia, zelando pelos interesses da chamada "moral e bons costumes". Servem os vizinhos, numa palavra, para bisbilhotar.
Ora, portanto, não sei se já tinha dito, eu quero é que os vizinhos vão meter o bedelho na grandessíssima puta que os há-de parir. Xô. Andor. Não só tenho de pagar as "despesas" de condomínio, pretensamente devido àquilo que o dito "gasta" comigo, como, ainda por cima, tenho de comparecer às respectivas "assembleias", esses horrorosos ajuntamentos de intriguistas, em pleno vão de escada, durante os quais se discute e se vota(!) sobre coisas interessantíssimas, o ordenado da mulher-a-dias que lava as escadas às 4ªs, a pedra que está solta no patamar, as beatas de cigarro no elevador, e outras merdas que tais.
Não vou. Foda-se. Metam o condomínio na peidola, se fazem o favor. A minha casa é o meu castelo, entro e levanto a ponte que, nem de propósito, é levadiça. Vizinhança, nem vê-la. É bom-dia e boa-tarde, quando muito, e a mais ninguém me pode obrigar. Venha de lá o mais zidane, a ver se tem sorte.
3. M!Ctório
Este barbas fundou uma tertúlia de inteligentes (ver significado no dicionário) com a finalidade de perorar sobre a pobreza em geral e sobre os pobrezinhos em particular. Para se poder pertencer ao clube deste barbas que, ainda por cima, se diz poeta e tudo, é necessário, em princípio, possuir o adequado currículo anti-fasssista (com três "s") e recitar convenientemente, isto é, na ponta da língua, o manual de coitadismo militante, além de saber de cor e salteado e de trás para a frente a oração subordinada causal que junta povo, capitalismo, justiça, exploração e direitos.
Sendo eles fundamentalmente comunistas e, portanto, anti-americanos, estes patuscos do barbas, vagamente ressabiados pelo facto de o seu querido povo se estar marimbando para a excelência das suas ideias, todos os frequentadores do M!Ctório me despertam, confesso, a mais profunda repugnância. Ultrapassada a fase do riso, ou seja, agora que já não lhes acho piada nenhuma, nem ao barbas nem aos acólitos, com as suas grandiloquências sobre a "exploração capitalista", parece-me que vai sendo tempo de alguém tecer algumas considerações enérgicas (e higiénicas) a propósito.
A começar pelo facto de o próprio barbas ser um tipo podre de rico, semelhantemente à esmagadora maioria dos seus confrades, que não manifesta nem manifestou nunca (era só o que faltava) a mais leve intenção de partilhar com os outros ao menos uma parte da sua não desprezível fortuna pessoal. O que implica, como se não fosse evidente mas é necessário explicar ao povo, centenas de vezes se preciso for, que tudo aquilo que se diz no M!ICtório não vale nada, é tudo verbo de encher, não passa de cortejo de vaidades, poço de trivialidades, fossa séptica de falsidades.
E isto, se necessário fosse, comprova à saciedade não apenas a minha teoria como, principalmente, a minha prática a respeito de esquerdas e de esquerdistas: não passam de refinados hipócritas. Por mais que arenguem sobre as qualidades genéticas do povo (em geral, e dos pobrezinhos em particular), nada, mas absolutamente nada, me fará mudar uma vírgula (era só o que faltava) no meu discurso de sempre a respeito do mesmo povo: odeio-o. Não tanto como o povo odeia a sua própria condição mas, ainda assim, aquilo que politicamente pretendo do povo é exclusivamente distância, lonjura, que fique lá com os seus robertos (ver significado no dicionário) leais e as suas sardinhas assadas.
Claro que tal não difere em nada do que o próprio barbas pretende também, com a diferença de que eu e outros que tais gostaríamos de que não existisse gente muito pobre, enquanto o barbas e outros que tais gostariam de que não existisse gente rica, à excepção deles próprios e dos seus camaradas. São estes os dois pólos políticos fundamentais, aquilo a que geralmente se chama esquerda e direita, os que tentam acabar com a pobreza (em geral) e os que tentam acabar com a riqueza (em particular).
O que torna o barbas, e aquilo que ele representa, absolutamente insuportável, é tentarem situar-se no meio, numa espécie de terra-de-ninguém política, quando de facto são pessoas de esquerda, e da mais pura e dura. Enchendo o seu espaço político à força de vacuidades, debitando às mijinhas a cartilha marxista, estes tristes tentam, acintosamente, hipocritamente, barbudamente, fazer passar a "mensagem" da sua elevação espiritual, da sua superioridade moral, da inevitabilidade das suas razões - quando, ao mesmo tempo, o porteiro do restaurante de luxo onde se reúnem mantém a uma distância conveniente qualquer desgraçado que se tente aproximar do grupo de eleitos e iluminados; ali, onde se discutem os problemas dos pobres, coitadinhos, pobre não entra, pois claro (era só o que faltava), para não perturbar os discursos de Suas Excelências.
Quem quiser, mesmo tendo tomado banho e estando minimamente apresentável, se quiser conferir aquilo de que falo, pode fazer a experiência: ide ao Clube de Empresários, esse extremamente socialista antro de barbudos bem-pensantes, oh, sim, ide e vereis. Aposto que não chegais nem perto do portão. Enquanto, lá dentro, os comensais esquerdistas trincham mais uma desgraça, e mais um frango à cafreal, servem-se de mais um pobre, e outra trufa marinada, emborcam mais uma manobra capitalista, e enchem de novo a taça com Chablis.
Que nojo, camaradinhas, que nojo. Não vos resta sequer um pingo de vergonha na cara? Ou nas barbas?