Odi profanum vulgus et arceo

08/01/07

Não penso higiénico obrigado


Seria possível que alguém, daquele grupo folclórico designado por "feminista", me esclarecesse numa pequena dúvida? Sim? Obrigado. Então, ó meninas, era o seguinte: uma das maçadas mais comuns quando chega a hora de dar uma (ou "fazer amor", como vocês dizem), é o problemazito da, enfim, da, daquela coisa, a "chica" olá uquié, a bandeira do Japão, aquilo, enfim, a "coisa", pois, isso, pronto, o que gostaria de saber é como se pode pará-la, interrompê-la, em havendo necessidade e urgência.

Isto, ele há que perguntar a quem sabe, claro, e ninguém mais indicado para o efeito do que pessoal habilitado, esse mulherio libertário até à quinta casa que é capaz de tudo, como por exemplo interromper uma gravidez com toda a limpeza. Pois então, se são capazes dessa interrupção, que ouvi dizer ser lixada, então também devem ser capazes de interromper uma simples menstruação, digo eu. Para quem diz, assumida e corajosamente, que "na minha barriga mando eu", minha, delas, e eu, elas outra vez, entenda-se, pois que então vá lá, não se acanhem, expliquem aqui ao pessoal como se faz não a mais complicada mas a mais simplezinha, se fizesse o favor. Dava muito jeito, volta e meia, a gente, nós, os porcos machistas, podermos dizer à garota que se nos apresenta pela frente, altamente comível, olha, vai ali e interrompe essa merda, porque assim não dá jeito nenhum a pinocada. Convenhamos, é desconfortável e não muito higiénico, para já não dizer foleiro, um gajo aviar uma franganita em dias de cabidela, pois não é? Pois, pois é.

Atão vá. Dizei. Desvendai o mistério, ó chavalas que mandais em vossos buchos: como se interrompe o fluxo menstrual, hem? Vós, que sabeis tanto, que sabeis tudo sobre os mistérios da vida, quando ela começa e quando ainda não, ou quando está quase mas ainda não é bem, vós, que de chicas-espertas não tendes nada, nadinha, juro, deveis conhecer as técnicas para fechar a torneira da chica, pois não deveis?

De mais a mais, esta interrupção, ao contrário da outra, pode continuar logo após cumprida a função, é só entupir aquilo durante uma horita ou duas, nada mais, e ainda por cima tratando-se de uma coisa igualmente voluntária, sim, que a da gravidez já percebi que é também voluntária, mas ainda não entendi como raio é interrupção se depois não continua, e assim, são perplexidades aborrecidas, coisas de homem que sempre se atrapalha com as coisas de mulher.

Perdoareis, santinhas, por suposto, a articulação um bocadinho complicada da pergunta, de ar vagamente referendário, estas reminiscências de plebiscito, tamanha complicação cheia de vírgulas, e orações intercaladas e considerandos e parêntesis e ideias acessórias. Deve-se tal profusão de construções gramaticais a dois factos, a saber, por um lado o aborrecimento inerente à condição masculina do inquiridor, o qual, por conseguinte, patenteia óbvias dificuldades de expressão e clareza de raciocínio quando em presença de tão melindroso género de dúvidas, e, por outro lado, à curiosidade que para o mesmo inquiridor representa a presunção de que não entendereis vós outras, respondentes, a ponta de um corno daquilo que aqui se questiona.

De resto, e porque me fascina em absoluto o domínio igualmente absoluto que dizeis exercer sobre vosso ventre, o baixo e mesmo o alto, sempre gostaria que me esclarecessem acessoriamente como fazeis para reter, por exemplo, vossas águas e vossos outros despejos; ou seja, como fazeis para que vossa barriga interrompa voluntariamente a produção de fezes e de urina; grandes, imensos, poderosos esfíncteres tereis, moças, sempre vos digo, e mai-la extraordinária capacidade de retenção do mijo. Não, confesso, essa do "na minha barriga mando eu" parte-me todo; é admirável, caralho. Até pondes ovos só quando quereis e tudo, caralhosmafodam.

Mas enfim, não tergiversemos. Vamos lá mas é à vaca fria. Ora então, em resumo, dizia, quando me interrompi a mim próprio, como é então que se interrompe a menstruação? Aquela merda não volta para trás, pois não? Ou volta? Há algum medicamento que me possam aconselhar? Não para mim, evidentemente, mas para a minha parceira, claro, pois que ela também não aprecia lá muito o petisco assim com molho, pois que nós cá é mais a seco. Sem ser a ablação total dos ovários, que essa já é velha, não há nenhuma técnica mais recente e mais jeitosa? Uma rolha, talvez? E caberá no colo do útero? E serão comparticipadas, as rolhas uterinas?

Ui, que grande confusão vai por aqui. Quanta dúvida, quanta questão, quanta ignorância.

Com as melhores saudações libertárias, aguardando resposta com um módico de ansiedade sou,

de vexas
atento, venereador e obrigado

Dodo





(imagem de site de Robert Burns)

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06/01/07

10

Sei que algo não se fez.
9
Sei que és quem não me ouve.
8
Sei que devia ser mais afoito.
7
Sei que o teu céu é mais leve.
6
Sei que não sou como tu és.
5
Sei que já não te sinto.
4
Sei que já não aguento.
3
Sei que perdi a vez.
2
Sei que há depois.
1
Sei o negrume.

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Consultório sentimental - XXIV

Parole

(...) é uma mulher que é capaz de dizer as coisas mais bonitas deste mundo, coisas que me deixavam esmagado e a pensar que sou o maior pirata que existe, porque às vezes a tratava mal e, se calhar, não lhe dava o devido valor. E depois é isto, ou seja, nada. Não resta absolutamente nada dessas belas, lindas, emocionantes, definitivas palavras. Definitivamente nada. Acho que as mulheres falam assim como quem espirra; é um impulso, uma simples força da natureza, uma compulsão. Não significa nada, em suma. Nada, e nunca. Isto confunde-me, sabe?(..)
João M., Porto



Pois sei. Olá se sei. O Grande Gajo Lá De Cima equipou as mulheres não apenas com sexo e restantes adereços característicos e diferenciadores mas também com um aparelho vocal - e principalmente uma língua, salvo seja - daqui até ao Brasil. Não falemos porém da personalidade falatória e conversadeira, porque isso é sabido e conhecido, e atenhamo-nos antes à particularidade mais aborrecida para nós homens, consistindo esta na capacidade inata que a fêmea possui para debitar grandiloquências sem qualquer significado e sem a mínima importância.

Qualquer patego sabe que a "sua" gaja lhe dirá, mais tarde ou mais cedo, tudo aquilo que ele, patego, mais quer ouvir. Não existe mulher alguma que nunca tenha dito - a umas não desprezíveis dezenas ou, quem sabe, em alguns casos , até a largas centenas de gajos - coisas tão belas como "tu és o meu homem", ou "sou tua, quero ser tua, toda tua", ou ainda, um verdadeiro clássico, "nunca houve outro homem para mim, tu és único"; isto como tema, ou dando-lhe outras voltas, ou seja, com as respectivas variações, por certo não seria difícil constituir um acervo de lamechices muito razoável, em dimensão e em alucinação. Qual é o homem que nunca ouviu, pelo menos uma vez na vida, juras descabeladas de "amor eterno"? Quantos de nós não se julgarão ainda os maiores lá do bairro e arredores, pois que por via da insistência, da persistência de quejandos laudatórios encómios femininos? Escutamos até à exaustão coisas tão extraordinárias, a respeito de nós mesmos, que difícil se torna, quando não impossível, para nós ficar indiferente e seguir adiante. Elas sabem perfeitamente, está-lhes na massa do sangue, puxar-nos o lustro ao ego. É com isso, de resto, que ganham direito a uma série de extras, como umas quantas horas suplementares de sexo desenfreado, até porque nada é mais excitante para um homem do que ser reconhecido como tal; e, para esse efeito, nada melhor, evidentemente, do que uma mulher.

Enfim, caro J.M., somos levados à certa que nem uns pategos. Bem, nem sempre, mas geralmente. Quando levamos com a dose de paleio, parole, parole, parole, somos todos verdadeiros parolos. Vamo-nos abaixo das canetas. Gaja que nos ponha nos píncaros, com seu refinadíssimo béu-béu, garante para si umas belas de umas pinocadas e para nós a mais do que adequada dose de anestesia mental; ou seja, o elogio feminino funciona em duas vertentes, a saber, o incremento libidinoso do macho, por um lado, e a constituição de uma reserva de bovinidade no mesmo, para o futuro, por outro.

Todas as belas e "únicas" palavras que determinada mulher diz a um homem determinado são, de resto, determinantes para a táctica de guerrilha feminina, servindo exclusivamente para uma finalidade meramente prática: a conservação do statu quo que, naquele exacto momento, mais lhe interessa. E todas essas belas e "únicas" palavras já foram, são ou serão repetidas até à exaustão com um número proporcional de novos ou velhos destinatários. O mesmo é dizer, nada do que deste jaez uma mulher possa articular, seja em que ocasião ou circunstância for, possui o mais ínfimo significado ou o mais pequeno valor intrínseco. É aquilo que no millieu da prostituição se designa por conversa: "de encher" ou "falta de ar" ou ainda "para jogar fora"; isto é, como dizem as putas em sua genial clarividência, o que uma mulher diz a um homem, no acto de conversação amorosa, no ambiente de alcova e em horas mais hormonais, vale tanto como uma sandes de merda sem pão.

Ao amigo João tais coisinhas ainda vão fazendo confusão porque o amigo João ainda deve ser muito novinho. Mas descanse, porque também muito gajo velho e relho se derrete com esse tipo de patacoadas; há gente para tudo, como sabemos, e o que não falta por aí é gajos que adoram que lhes enfiem caca pelas orelhas abaixo; desde que a sua gajinha lhes sussurre umas palavrinhas melosas, de vez em quando, até não se importam nada de a levar a "sair com os amigos"... dela. Ou seja, a lógica é mais ou menos esta, lá na cabecinha do corno-manso-que-adora-que-lhe-batam-coiros: pois sim, vai lá, diverte-te, manda lá uns pirafos por aí com um gajo qualquer, tudo bem, mas antes, ó coisinha, se fáxabôri, diz-me umas palavrinhas jeitosas, assim, sei lá, meiguinhas e tal.

Por exemplo e amostra: que se chegue à frente a primeira que nunca gabou o tamanho do mangalho de seu momentâneo companheiro de brincadeiras.

Então? Nada? Ninguém se chega à frente? Pois, bem me parecia.

É preciso ser completamente imbecil ou, na melhor das hipóteses, menor de catorze anos, para cair em semelhante número. Todas as mulheres, talvez em resultado da fascinação natural que o órgão sexual masculino origina em suas imaginações delirantes, embasbaca para os ditos e por sistema lhes gaba as qualidades. Isso não tem nada de mais e não vale, como o resto, porra nenhuma. É só naquele momento, dado o entusiasmo que as assalta e que as põe a arfar de emoção. E que nunca viram tal coisa, ou uma coisa assim, e tal, e tal, e também que, pois sim, não é que tenham grandes termos de comparação, mas enfim, lá que é grandalhão, enorme, oh, oh, pois é, ai é, é.

Tretas. Bull shit. Quinze dias depois, quando não quinze minutos depois, a deslumbrada garota estará dizendo rigorosamente a mesma coisa a outro caramelo qualquer. E quem diz mangalho, ou caralho, que é uma coisa por assim dizer palpável, quiçá mensurável, sopesável e avaliável, diz cabelo, ou olhos, ou ombros, ou bíceps, ou outra merda qualquer; ou diz também outro tipo de características já não tão palpáveis, como a personalidade ou a bravura, ou ainda não mensuráveis, como o sorriso ou a dentadura, para já não ir mais longe, àquilo que de todo não se pesa nem se avalia, seja a inteligência seja a cultura livresca. Tudo serve para dar graxa ao cágado, para fazer inchar o sapo, desde que os objectivos primordiais sejam alcançados exclusivamente naquele momento, naquele lugar e com aquela pessoa. Depois, logo se verá quando, onde e com quem o processo se repetirá.

O que é grave e se pode de facto tornar chato, é em calhando a gente escutar tais lamechices e alarvidades da boca de alguém de quem desgraçadamente se gosta. Aí é que é a foda total. Um perigo. Porque, evidentemente, não é lá por a gente gostar dessa pessoa que ela deixa de ser uma mulher como as demais. Falou, fodeu. Depende da experiência ou, melhor dizendo, das experiências que um tipo teve, e da forma como as ditas marcaram o dito. É que há coisas que não se esquecem e, por mais agarrado que um homem esteja, sempre e para sempre transportará consigo, por debaixo da carapaça, todo o seu passado, todas as outras, coisas ditas e mulheres que as disseram. Existe uma espécie de lei universal para a linguagem do amor: o que se diz único e belo é sempre trivial e comum, mas não para quem ouve. Daí, pelo peso da tradição e pela tonelagem do sentido, ser normal no casal a expressão "mas o que é que tu queres dizer com isso?"

Geralmente, um homem utiliza uma espécie de servo-croata para se expressar, enquanto a mulher lhe responde em Mandarim; ou vice-versa, claro. O problema reside nas expressões-chave, precisamente aquelas que o elemento feminino debita por sistema e por desfastio, enquanto que o masculino é muito mais reservado e parcimonioso. É normal que um homem reserve para determinada pessoa uma expressão, um nome, um substantivo por si mesmo inventado, e que nunca mais o utilize com outra mulher; é uma espécie de deferência, de homenagem, de presente secreto e não expresso; ora, tal coisa é praticamente impossível até para a compreensão do mais elaborado cérebro feminino. A mulher utiliza a expressão verbal, e nomeadamente nas suas formas mais carinhosas, exactamente como quem faz palavras-cruzadas: para que encaixem umas nas outras e sirvam para alcançar um resultado final. Enfim, não as medem. É meia-bola e força.

Claro que depois dá nisto. Temos aqui nosso amigo João pior do que estragado (o resto da mensagem demonstra isso, mas não é para aqui chamado), sem saber o que há-de fazer à porca da vida, e tudo por causa de umas simples palavrinhas. Revoltado e amargurado, nosso João. Sejamos compreensivos e complacentes, pois. Qualquer de nós ficaria igualmente fodido, fosse o caso connosco. Por aquela sucessão de pretéritos, apenas na parte transcrita da mensagem, é fácil entender o que se passou. A moça voou, não é, amigo João? E levou com ela as belas palavras que eram só suas e de mais ninguém. E agora já não são só suas, as belas palavras, e... o resto a gente imagina. Não valerá talvez a pena escarafunchar em demasia.

Pois é. Como dizia o outro, o ganzado, o amor é fodido. E o pior de tudo é que a gente fica sempre com aquela sensação de vazio absoluto, aquele sabor terrível na boca que nos deixa mudos. Desaprendemos de falar. Faltam-nos as palavras, as nossas, e não foi o gato que nos comeu a língua; foram elas, as palavras, que fugiram para parte incerta, escondidas no bico de uma avezinha de arribação.

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Às vezes, um benfiquista...



... até fica azul.

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O som do sono

Este é o sítio do silêncio
onde a paz finalmente dorme
e nada mais perturba a eternidade.
Este é o sítio do silêncio
onde se entende sem ouvir
e se cria pela força do pensamento.
Este é o sítio do silêncio
onde a água corre mansamente
para um mar de absoluta calmaria.
Este é o sítio do silêncio
onde as árvores marulham docemente
embaladas pela brisa mais suave.
Este é o sítio do silêncio
onde só as aves podem cantar
e o sol brilhar e a noite cair.
Este é o sítio do silêncio
onde se compreende por fim o paraíso
como vale a pena deixar a vida sem ruído
e que não acordar nunca mais faz todo o sentido.

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05/01/07

Vampiros




Existem cartazes nas ruas, anúncios na televisão e na rádio: dê sangue. As mensagens, seja em que meio for, são bastante claras: dar sangue é um acto de puro altruísmo que pode salvar a vida a alguém; para o dador não existe qualquer risco ou incómodo - o que não é exactamente assim - e o receptor até pode vir a ser, quem sabe, o mesmo dador ou algum dos seus familiares mais próximos - o que também não é exacto.

Naquele que se diz ser o maior hospital da península ibérica, existe uma coisa que se chama Associação Portuguesa de Dadores Benévolos de Sangue, onde não é de todo possível dar... sangue; o serviço de recolha de sangue foi, aliás, desactivado no Hospital de Santa Maria há já um bom par de anos. De resto, também não existem meios para o efeito na maior parte dos Hospitais Centrais e nos Centros de Saúde do país.

Um simples telefonema para qualquer das inúmeras associações de dadores é suficiente para constatar a seguinte, triste, espantosa realidade: é praticamente impossível dar sangue em Portugal; existem, pelos vistos, apenas três locais fixos, um no Norte, outro no Centro e outro no Sul; as recolhas fora destes "centros" são por regra efectuadas por "brigadas" - o que não deixa de ter a sua piada.

Quer dizer: quem vai a um hospital não pode dar sangue, por exemplo enquanto espera pela sua vez para a consulta, ou aproveitando o facto de ali se deslocar para visitar uma pessoa internada ou mesmo, simplesmente, porque ali foi tratar de uma qualquer papelada. Nada disso. Para dar sangue, ou se vai expressamente a um dos três "centros" de recolha permanente (com horário de função pública, ainda por cima), todos eles situados, respectivamente, atrás do sol posto, no cu de Judas e em Coisa Da Mãe Street, ou se espera pela próxima "campanha" de recolha, no emprego, no centro paroquial, no grupo de escuteiros lá da terra ou coisa que o valha. Como são essese assuntos planeados, coordenados, divulgados, pouco se sabe; é o quarto mistério da Santíssima Trindade.

O que é amplamente divulgado, isso sim, é que há necessidade de sangue nos hospitais; fazem-se campanhas publicitárias, certamente caríssimas, convidam-se actores e outras figuras públicas para divulgar os "apelos", mas, mas, mas: quando a ocasião se proporciona, quando o cidadão por fim se resolve, muito bem, vamos a isto, então é neste braço ou é neste, aí é que a coisa corre mal - agora não, aqui não podemos.

Aqui há uns anos, eu, que até recebi uma medalhinha por ser dador benévolo e que tinha a mania de ir dar sangue sempre que via uma carrinha de recolha, fosse onde fosse, caí na asneira de entrar numa espécie de autocaravana, em pleno centro de Braga (por assim dizer), com aquele espírito altruísta e sorridente de quem se vai mais uma vez sujeitar a 15 minutos de seca; primeira surpresa, afinal a "operação" não seria feita ali; aquilo era só um posto médico móvel completo, totalmente equipado para qualquer intervenção de emergência, quanto mais para uma simples recolha de sangue, mas o "posto" propriamente dito tinha sido montado num prédio em frente; que era só subir umas escadinhas; lá subi as escadinhas, achando um pouco estranho que houvesse pó e caliça por todo o lado, e também estranhando o ar de ruína que tudo aquilo exalava; no primeiro andar, uma sala enorme com soalho em ripas, lixo e estuque pelos cantos, o tecto ameaçando desabar a qualquer momento; por detrás de uma secretária, um tipo de bata branca. Mostrei o cartão de dador e acabou por não ser preciso dizer mais nada, felizmente, porque já nesse tempo estava completamente farto de responder sempre da mesma forma sempre às mesmas perguntas. Seguimos então para a sala ao lado, eu e mais o gajo da bata branca; uma cadeira de praia, daquelas a que se chama espreguiçadeira, assim a modos que articulada em três pontos, faz tec-tec-tec e dá para ajeitar melhor a cabeça, aconchegar o tronco, esticar mais ou menos as pernas.

É giro, vá lá, mas achei esquisito. Um sorriso enfiado deve ter dado para disfarçar a coisa, mas esse sorriso apagou-se-me instantaneamente quando o fulano da bata branca me enfiou a agulha no braço e colocou o saco para o sangue... no chão! Naquele chão imundo, nojento, onde não era nada difícil adivinhar, aqui e além, umas quantas caganitas de ratazana, no meio de montes de cal, cimento, bocados de tijolo, pedaços de papéis e restos de plástico. Mas enfim, pensei, que seja pelas alminhas; e lá fiquei, quieta e pacientemente abrindo e fechando a mão, para evitar a dormência e como mandam as regras de boa doação. Porém, sucedia que, tendo a agulha um buraco em bisel, este persistia em encostar à face interior da veia e, portanto, o sangue tinha alguma dificuldade em fluir. A ver se a gente se entende: a agulha é metida numa daquelas veias azuis e salientes que se situam, regra geral, na dobra interior do cotovelo, e é fixada com um adesivo colado à pele, para nem sair nem oscilar grandemente; a agulha está ligada a um tubo plástico, flexível, que vai dar finalmente ao saco de recolha; o furo por onde o sangue entra, na agulha, não é a direito, transversalmente, mas cortado em diagonal, num ângulo de, por hipótese, 25º; estes pormenores servem para que se perceba aquilo que estava a acontecer, e que era o seguinte: o sangue não corria, entupia-se, o saco enchia-se lentamente de espuma sanguinolenta.

Eu sei que vendem o meu sangue. Eu sei que as campanhas são uma treta que não somente gera milhões para quem as produz como não tem - a treta - qualquer efeito prático na população em geral. Há quem dê sangue e há quem o venda; se há quem o venda, é porque há quem o compra; logo, aquele que é dado acabará fatalmente por ser vendido. Tudo isto é nojento, para dizer o mínimo. Mas, mesmo sabendo que estas coisas são assim, custa um bocado passar por episódios que tais, recolhas e dádivas sem um mínimo de condições.

Se as coisas tivessem corrido normalmente, eu estaria dali para fora ao fim de um quarto de hora, vinte minutos ou, vá lá, meia hora. Mas o maldito saco teimava em não encher. O tipo da bata branca veio ver o que se passava, umas duas ou três vezes, mas duvido sinceramente de que fizesse a mais pequena ideia - não apenas disso mesmo como - daquilo que estava ali a fazer. Eu próprio tentei endireitar a agulha, dentro da veia, a ver se aquilo começava a escorrer normalmente. Mas nada. Depois de, sei lá bem, talvez três quartos de hora, o homem desistiu, tirou-me a agulha, pôs um penso e ajudou-me a levantar.

Assim que me pus em pé, caí redondo no chão. E de pouco mais me lembro. Devo ter passado pelas brasas e sonhado. Que aqueles tipos da bata branca vendem o sangue que eu dou a peso de ouro. Que existem redes organizadas de tráfico internacional, com gentes e agentes que fazem fortunas colossais à conta desta espécie de "solidariedade". Que essa gente, e esses agentes, está tudo metido também no tráfico de órgãos para transplante e sabe-se lá em que mais. Que o polvo estende os seus tentáculos ao meio artístico, à grande finança, aos partidos políticos, às instituições estatais. Que ninguém é inocente e que o sangue, fonte essencial de vida, pode ser algo que transporta consigo a mentira, o crime, a morte.

Continuo a dar sangue, quando por mero acaso esbarro com uma "roulotte". Mas nunca hei-de esquecer, por mais anos que viva, aquela bata, aquele labrego da bata, toda aquela imundície abjecta. E além disso, hoje em dia, sei um bocadinho mais sobre o que é "dar sangue" em Portugal.

É uma tristeza. Nada apagada e muito vil.



(Imagem de... não interessa; isto é tão deprimente que, uma vez sem exemplo, vai a fonte incógnita)

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03/01/07

As botas do pescador(*)

Há uns dias, assistimos - horrorizados e quase em directo - a um espectáculo macabro: a morte por afogamento de alguns pescadores, cujo barco encalhou e adernou a cinquenta metros de terra firme. Parece que andavam ao robalo naqueles baixios, quando a distância mínima em relação à costa deveria ser de meia milha; parece também que os meios de socorro tardaram a chegar e por isso morreram os marinheiros, à excepção de um, ucraniano, que resistiu ao frio e à tempestade, sendo depois içado para um helicóptero de socorro. Nenhum daqueles homens, a bordo da traineira, usava colete salva-vidas, faltando apurar se tal coisa existiria na embarcação.

Arrepelam-se agora as consciências porventura mais atentas e prestimosas, umas pelo atraso no auxílio, outras pela genérica e atávica "falta de condições" da "arte" piscatória, outras ainda por simples perplexidade: como é possível aqueles homens terem perdido a vida ali, a poucas dezenas de metros da rebentação?

Se bem que tal coisa possa parecer, por exemplo a um extraterrestre que nos visitasse, um bocadinho estúpida, uma das razões - se não a principal, pelo menos das mais importantes - para mais esta tragédia foi um incrivelmente imbecil complexo, que é simultaneamente característica e idiossincrasia portuguesa: o receio de parecer "bicha". Se toda a tripulação tivesse colocado os coletes de salvação, como é de lei, muito provavelmente todos ou pelo menos alguns não se teriam afogado. Acontece que, é voz corrente e é verdadeira e fundamental vox populi, usar colete é "coisa de maricas"; com todas as variantes, no caso aplicando-se à pesca e aos pescadores, "homem que é homem" não usa aquelas "merdas amaricadas", o "verdadeiro macho", o pai de família honrado, caga de alto e fresco em tais paneleirices. Não é de estranhar por isso que os próprios armadores e mestres das embarcações, eles próprios viris até dizer chega, se estejam igualmente cagando nessas irrelevantes coisinhas, não cuidando de ter a bordo porra nenhuma que possa salvar seja lá quem for; quando muito, compram umas bóias maradas, só a fingir, apenas para evitar multas e outros aborrecimentos. Não custa adivinhar que, mesmo com as ondas já galgando a amurada, qualquer embarcadiço achará preferível morrer afogado do que - se por acaso tiver o azar de se safar - vir a ser apelidado de "panasca", por ter envergado o colete.

O fenómeno está muito mais disseminado no corpus sociológico português do que seria de esperar, mesmo para uma personalidade mais retrógrada ou ignorante. Passar por homossexual, ou sequer ter alguma coisa a ver com aquilo que se imagina ser o maneirismo "gay", constitui um verdadeiro terror para qualquer português, e não apenas nas classes mais operárias, por assim dizer.

Pelo mesmíssimo motivo, as nossas estradas continuam a fabricar defuntos em série: porque é coisa de "gay", para um motociclista, ligar o farolim - mesmo, ou principalmente - de noite; o verdadeiro acelera é aquele que anda às escuras, os outros, os raros que fazem o que a lei determina, são uma cambada de maricas; para o automobilista "macho", isto é, para 90% dos condutores, incluindo mulheres, fazer pisca à direita é "gay"; cumprir o código da estrada, por extenso, por grosso e por atacado, é evidentemente coisa de "roto". Colocar o cinto de segurança, isso então é que é a paneleirice suprema mas enfim, as multas são pesadas, pronto, há que acatar.

Também pelo mesmo motivo, Portugal é recordista europeu de acidentes de trabalho, não apenas no sector das pescas mas em todos os sectores. Mas onde já se viu uma "bichona" a trabalhar nas obras, por exemplo? E então, para que servem essas merdas de barreiras de protecção, capacetes de serviço, e luvas, e capas, e botas? O colete salva-vidas atrapalha tanto a faina do pescador como as luvas a labuta do electricista de alta-tensão; ao fim e ao cabo, vendo bem, toda essa trapalhada da segurança atrapalha toda a gente, em Portugal, e mal se entende porque é que nos outros países as mesmas coisas não fazem a mínima confusão a ninguém. No fundo, no fundo, deve ser porque nós por cá somos todos muito mais homens do que a estrangeirada toda, esses mariconços do piorio. Quando um gajo cai de um andaime abaixo, foi azar, pronto, mas lá que o homem era valente, ai isso era, até montava sempre os andaimes sem resguardos e tudo. Se um tipo morre porque leva com um barrote na cabeça, idem, idem, aspas, aspas, que isso de capacetes é para "panascas". Aquele ali foi electrocutado por falta de material de isolamento, mas não faz mal, era rijo, rijíssimo. E o outro que "lerpou", coitado, andava a passar cabos nos postes, não tinha cinto, despencou de trinta metros.

Os exemplos são inúmeros e saem todos os dias nos jornais. Também toda a gente finge que estas coisas não existem, ou que não são exactamente assim. Mas existem e são. A principal causa de morte em Portugal é a estupidez; mas estupidez é apenas o nome genérico da doença, a sua etiologia; doença esta que é escorada por uma cultura de ignorância pura e suportada pelo embrutecimento sistemático veiculado pelos meios de comunicação; esta maleita que afecta de forma terminal todo um povo manifesta-se através de diversas facetas, ou variantes, das quais a mais perigosa é a obsessão pela virilidade, a mania da testosterona, o tique determinista da brutalidade enquanto valor.

Em Portugal, o terror ao "parece gay" transformou-se no maior assassino em série de que há memória. Trata-se, de facto, de um "sniper" social, sempre emboscado, sempre pronto a atirar e sempre de forma absolutamente certeira e letal, com a agravante de que é um atirador sem rosto, sem corpo, sem carabina, e que sequer precisa de mira telescópica: atinge as suas vítimas no cérebro, nos hábitos, nos costumes. Nunca falha e, geralmente, mata não apenas as suas vítimas como aqueles que as rodeiam.



(*) É botas porque sandálias é gay.



P.S., a 8 de Janeiro: sobre este assunto, fala quem sabe; se bem que não retire uma linha ao que escrevi sobre a paranóia do "parecer gay", admito perfeitamente estar enganado quanto à tragédia dos pescadores; reconheço sem qualquer esforço que posso ter sido enganado pela campanha de desinformação dos (ir)responsáveis governamentais e institucionais. Tenho, de resto, alguma experiência pessoal de como os meios de socorro (não) funcionam no mar português. As minhas sentidas condolências aos familiares das vítimas.

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29/12/06

Algo me diz

Que esta batalha entre a tua sombra e um dos meus fantasmas,
que um deles não ganhará nunca o direito à tua estátua de pedra.
Algo me
diz que não haverá nem vencedor nem vencido ou
seja como for nada poderá derrotar os outros
mesmo que um deles desista e bata no peito
jurando que
por sua culpa, sua máxima culpa,
por pensamentos, palavras e obras,
nada ficará como dantes.
E nada me diz que alguma coisa te fará sorrir
quando souberes o que diz a tua sombra:
um espelho da luz que te ilumina
como se fosse um verso escrito ao contrário.
Que ainda assim saberás onde me encontrar.
Que descobrirás por fim uma maneira simples
de perscrutar o meu horizonte.

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24/12/06

No tal

Destino virado do avesso
Nisto em que me atravesso
Um desatino curto e grosso
Como o estertor de um colosso
É o tempo que sinto finda
A vitória por fim ou ainda
Não é algo de que se prescinda
A imagem de mim por fim a mais linda
Stop enfim stop a partida stop a vinda
Vai-te mal vai-te animal
deixa-me em paz

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23/12/06

Bom Natal para...



... a Manuela, algures no Canadá
... o Edgar, no Recife, Brasil
...

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19/12/06

Consultório sentimental - XXIII

Tu, Carolina

A minha namorada, que se chama Carolina, está sempre a embirrar comigo, por tudo e por nada. Ao princípio eram só qualidades e agora só vê defeitos. Isto é normal? Para que diabo passa ela o tempo todo a chatear-me com merdinhas da treta? Será que ela já não gosta de mim?
José C. S., Leiria

Será, filho. Infelizmente, ou felizmente, quem sabe, será. Essa tal Carolina, desculpe lá a franqueza, ó José, acaba de lhe oferecer um belo de um par de patins. Nada mais natural. O mais provável é que já ande "metida" com outro gajo e agora, das duas uma, ou não sabe como o há-de empontar a si com souplesse ou o outro ainda não lhe dá garantias de cobrir a parada. Deve ser este o caso, moço, já que é o trivial do trivial; raramente uma mulher se preocupa com subtilezas, quando chega a hora de dar o pontapé da ordem; se calhar, é também o mais provável, a nova aquisição está comprometida, por assim dizer, isto é, ou é casado, ou tem namorada, ou não se decide a "assumir" a coisa com a Carolina, ou o caralho mais velho; há-de ser seguramente uma destas. É capaz de ser prudente deixar sempre uma hipótese em aberto para qualquer imponderável, ou, como se costuma dizer, vá lá a gente entender as mulheres, e daí aquela expressão lapidar, a do caralho mais velho, verdadeira porta aberta para qualquer outra possibilidade que não lembraria nem ao careca.

É que, diz-me a experiência de algumas décadas, aquelas que referi são as motivações mais costumeiras para casos semelhantes, mas existem algumas outras, espere aí, não nos precipitemos em juízos falaciosos. Há, de facto, mais umas quantas hipóteses a considerar. Convém não esquecer aquilo que o mulherio designa genericamente por "medo" ou, em alternativa, por "receio": em suma, quer isso dizer que não apenas mulher alguma larga um homem sem estar já devidamente equipada com outro, como, ainda por cima, só largará de vez o primeiro se o segundo for coisa "segura"; quando não, arrisca-se a foder-se em toda a linha e a ficar, supremo terror feminino, a chuchar no dedo por ambos os lados, salvo seja, isto é, a ficar sem um e sem o outro.

Quando uma mulher se "apaixona" e, por conseguinte, necessita de despachar o actual penduricalho, mais a pessoa anexa, existe um terror primordial que tudo condiciona: a primeira cambalhota e outros números circenses, com o novo partenaire, ou candidato a tal parceria. É que muitas coisas podem correr mal como o caralho, chefe, as possibilidades são imensas e a probabilidade é tão elevada que até chateia.

Vamos supor, e isso é muito mais comum do que geralmente se imagina, que o novo objecto da tal "paixão", em chegando a hora da verdade, aquilo por que a chavala tanto ansiava, acaba por se revelar um verdadeiro desastre: apaga-se-lhe o maçarico ou, pior ainda, apresenta um, aceso, sim, mas do tamanho de qualquer isqueiro Bic. Danou-se, pois. É certinho. Quando, por ocasiões da primeira pinocada, uma moçoila desprevenida e inocente depara com uma gaita que se não levanta nem por nada, de imediato valores mais altos se alevantam, é um Deus nos acuda, e pruridos morais e recriminações e cabeçadas na parede e "que estúpida que eu sou" e coisas assim. As situações em que acaba por não haver foda são, por definição, realmente fodidas. Se, porventura, aquilo levanta mas mais valia que estivesse quietinho, de tão mirrado que parece (e é), aí a coisa pode ficar feia, ou seja, não apenas a gaja fica fodidíssima por ver que já o não vai ser, como provavelmente desatará a rir, o que também é natural - são os nervos a dar de si, a tensão acumulada a desacumular-se rapidamente, enfim, uma merda. Poderá ser ainda que, não havendo reclamações no capítulo da rigidez, e também não no do tamanho, o problema resida no factor temporal, chamemos-lhe assim, isto é, se o gajo se vem em menos de um fósforo; tudo que seja inferior a cinco minutos, como já aqui antes foi devidamente esclarecido, é tecnicamente designado como ejaculação precoce, um engulho nada despiciendo para quem dele sofre: o portador da deficiência e, principalmente, a infeliz contemplada. E depois, ainda há um outro terror, um outro "medo" tipicamente feminino, que pode por vezes ser confundido com alguma espécie de rebate de consciência, consistindo este na possibilidade de afinal o caramelo se revelar um pouco rabeta; exacto; bicha, panasca, paneleiro, como se queira designar ou der mais jeito. Em sucedendo tal chatice, no caso muito provável de a moça não apreciar grandemente os maneirismos em geral e as paneleirices em particular, temos o caldo entornado de vez; como todos sabemos perfeitamente, o que mais há por aí é gente com sexualidades alternativas ou, de forma geral, não resolvidas, o que dá origem amiúde a confusões tremendas, para já não falar das consequências psicológicas (e outras) que podem resultar nas extremamente condicionadas cabecinhas das mulheres, das mais balzaquianas às mais escaganifobéticas.

Por fim ou, como se diz em Inglês, láste bat nóte de liste, há ainda a hipótese das hipóteses, o mesmo é dizer o terror dos terrores para as mulheres: que ao gajo ela não agrade. Isso é que é a foda da foda, caralhosmafodam se minto. Não deve haver no mundo uma única chavaleca tão segura de si que nunca tenha sido possuída por tão premente dúvida existencial, antes de ser propriamente possuída: "será que ele vai gostar?" Eis aquilo que supremamente as atormenta: a bem dizer, nós cá o que pretendemos é a pinocada em si, o resto que se foda; se a gaja é podre de boa, e gira, e tal, isso pois com certeza que ajuda, e muito, mas na hora de espetar a farpa - se a hora chega - o pessoal caga positivamente em detalhes; claro que pode suceder não agradar uma qualquer coisinha, um chulézito ou o hálito que fede, excessivo pivete a bacalhau ou odor corporal demasiadamente intenso, mas isso é cheiros; só chateiam depois, durante nem por isso. Mas, para uma mulher, não apenas a primeira pinocada terá de ser por força perfeita, fosse tal coisa possível, como o comensal eleito deverá não manifestar nunca seja que espécie for de desagrado; por exemplo, pode ser que certo chavalo (como é o meu caso, por acaso) não aprecie pêlos, pernas masculinas e sovacos farfalhudos; caso tal aborrecimento suceda, ou por esquecimento ou por falta de vaga na depilação, o mais normal será que o dito cujo se enoje a tal ponto que não consiga sequer - ó desgraça das desgraças, lá voltamos ao princípio - sequer pô-lo em pé. Enfim, há muita merda que pode desagradar, até o nariz (diziam os romanos, esses tontinhos, displiquit nasus tuus), e é isso mesmo que deixa permanente e obsessivamente as mulheres de pé atrás.

E é assim, por conseguinte, recapitulando: se ela hesita ainda, se ainda só vai na fase do implicanço, pode ser que o gajo seja casado, ou tenha namorada, ou seja paneleiro e não sabia, ou seja e sabia, ou seja ligeiramente impotente, ou tenha sido mal dotado pela natureza, ou que seja excessivamente apressadito; em qualquer destes casos, a coisa morre ali mesmo e não há azar; depois, mesmo se ultrapassadas a contento de ambas as partes todas estas barreiras, ainda sobram umas quantas, na perspectiva inversa, ou seja, é a gaja que tem mau hálito, ou cheira mal dos pés, ou é peluda com'ó caralho, ou sofre de flatulência (excessiva), ou tem o hábito de limpar o salão e meter os restos na boca, ou o caralho que o foda que seja e que possa chatear gravemente o moço; seja como for, também do outro lado as possibilidades para que a coisa dê o berro à nascença são enormes.

Mas não nos dispersemos excessivamente, caro J. Claro que tudo isto é possível, é mesmo muito provável, mas não custa nada o amigo - ou qualquer pessoa - armar-se em camelo e fingir que não percebe porra nenhuma daquilo que se está a passar. Vai ver que, dentro de uma semanita ou duas, o mais tardar, tem a "sua" Carolina de volta (esperemos que não recambiada ou devolvida na volta do correio), chorando baba e ranho no ombro do "seu querido Zé". Você até vai ficar comovido com tanta dedicação, afianço-lhe. Às tantas, dará por si a dizer, sem acreditar que é a sua própria boca a proferir tais coisas, que a compreende, que o tal fulano era um grandessíssimo malandro, um vigarista que só a queria comer e...

E aí ela interrompe-o, muito ofendida, e desata a defender o tal fulano, mas com jeitinho, que não é bem assim, que ele até não é vigarista, e que tem se ele a quisesse comer ("fazer amor comigo", dirá ela, em feminês), ora, isso não é natural?

Merdas destas, garanto-lhe, já ouvi eu próprio e assim, ó, à molhada. E de igual calibre e outras semelhantes já me foram contadas por diversas vezes e por diversos gajos tão idiotas, tão crédulos e tão patós como eu fui em tempos. É claro, não espere o amigo que alguma coisa do que a rapariga lhe contar, em tais transes, corresponda minimamente à verdade; mulher alguma admitirá jamais que se enganou de alguma forma; não, não se enganou, foi enganada, o que é bem diferente; e mesmo isso, não é bem, foi tudo mas é um sacana de um equívoco, um mal-entendidozito, porque, bem vistas as coisas, o homem dela é e sempre será aquele que está ali, naquele momento com ela, como em todas as horas, boas e más mas principalmente nas más. Após esta parte da rapsódia, o amigo não se surpreenda quando ela desatar a chorar convulsivamente; tente compreender, já que é tão companheiro, que as carolinas deste mundo choram (ou riem) por dá cá aquela palha, faz parte da encenação que sempre acompanha a mulher fatal, e também as não tão fatais como isso. Ora, desatando-se ela num pranto de partir o coração, e sendo o Zezinho bom rapaz, amigo dedicado e alminha sensível, certamente a tentará consolar, reconfortar, acarinhar, e tal, e tal, e tal; dir-lhe-á umas palavrinhas animadoras e revigorantes, passar-lhe-á romanticamente as mãos pelo cabelo, limpar-lhe-á talvez as lágrimas com o seu próprio lenço; e acabará fatalmente a oferecer-lhe aquilo que a si parecerá ser a maior, a mais fabulosa, a mais homérica pinocada da História. Reconciliados, amansada a fera do ciúme em si e aplacada a do tesão nela, vai ver como as coisas correm no melhor dos mundos.

Enfim, a ser este o caso, cumprindo-se em rigor o cálculo de probabilidades mais optimista, conte com uma seca prévia, coisa para longas e penosas horas, talvez uma noite inteira; mas depois virá a recompensa, que diabo, sempre é uma "vingancinha" nada desprezível, e sempre terá a "sua" namorada de volta, ao menos até ver, ou até à próxima "paixão" que a ela atacar as partes baixas ou que a si mesmo faça já não a poder ver.

Se, pelo contrário, nada disto suceder durante as próximas semanas, e se bem que este tipo de aborrecimentos tenha um prazo de validade bastante dilatado, se ela pura e simplesmente desaparecer da circulação e nunca mais lhe passar cartão, bem, então diga-lhe adeus e parta para outra, como dizem os brasileiros. Se isso realmente suceder, esperemos que não se ponha você com merdas. Gaja que se "apaixona", que se mete debaixo de outro gajo e este corresponde à "paixão", meu amigo, fodeu: você já era ou, melhor dizendo, nunca existiu. Quando muito, na sua qualidade de "ex" - o conjunto de letras mais fodido do mundo - e se porventura a miúda falar de si a alguém, será você o "erro", o "equívoco"; muita sorte se ela não lhe passar a si publicamente um atestado de incompetência, ou se, vá lá, não lhe der roda de paneleiro, cabrão, filho-da-puta, gatuno, chulo, etc. A imaginação da mulher que descarta é infinita... e muitíssimo criativa. Para esse tipo de merdas, diz-se, está-se a gente bem cagando, mas sempre lhe digo que se pode tornar extremamente desagradável o ambiente para o descartado; alguns amiguinhos seus vão deixar de o ser, sem você fazer a mais pequena ideia do motivo ou, pior ainda, fazendo essa pequena ideia e não podendo sequer reagir. Porque, desengane-se o J. se julga outra coisa, gajo que levou c'os pés leva também em cima, imediatamente, com tudo o que há de pior na natureza masculina: não apenas fica a falar sozinho, em sentido literal, como será altamente gozado pelas costas (ou em plenas trombas, por vezes), excluído das noitadas, das cartadas e dos copos, rapidamente se transformando numa espécie de pária lá do bairro, passando a carregar a cruz dos "tristes" - equivalente à condição de alienígena em qualquer grupo de primatas.

Caso se confirme realmente o pior dos cenários - o qual, na minha modesta opinião, é o melhor para si, mas já lá iremos - então não valerá sequer a pena ficar o amigo magicando no assunto. Que se foda, chefinho. Você não quer, de certeza absoluta, saber o que estarão nesse caso aqueles dois a fazer. Bom, não quer o amigo saber mas, como eu também sou muito seu amigo, quanto mais não seja por solidariedade existencial, vou dizer-lhe: tudo o que essa Carolina lhe disse a si, aquelas coisas maravilhosas e únicas, vai dizer ao outro exactamente da mesma forma; todas as meiguices e segredos que lhe soprava ao ouvido, durante aqueles momentos maravilhosos e inesquecíveis que passaram, vão passar para a orelhinha do outro, igualmente, sensualmente sussurradas, e será com ele que ela passará momentos não menos maravilhosos e inesquecíveis, depois de arquivar meticulosamente tudo o que fez consigo; uma história de meses ou anos de momentos sublimes, com aquela pessoa, resultarão fatalmente em sublimes momentos dessa mesma pessoa com outra pessoa; o ninho de amor, que ambos criaram com mimo e dedicação, será transladado para outro local, quem sabe com as mesmíssimas almofadas e os mesmos bibelots; ou então, esse ninho edílico não mudará de local mas simplesmente de inquilino; você, que era o máximo (e todos os outros umas bestas), passará a ser uma das bestas (e o outro o máximo dos máximos). Muito provavelmente, e não vale a pena abusar, a "sua" Carolina experimentará com o novo chavalo de cobrição tudo aquilo que dizia antes serem "porcarias". Enfim. O chamado Amor é, ao contrário do mais manhoso cartão-de-crédito, algo de impessoal e de absolutamente transmissível. Portanto, há que tirar os cavalinhos da chuva quanto antes, não vão eles apanhar alguma constipação, isto é, a gente (neste caso, você mesmo) ensandecer.

Mas não há-de ser nada, amigo Zé. Acredite no que lhe digo, que já cá ando há uns tempos valentes. Ela volta com o rabinho entre as pernas, esteja descansado. Ficou enrabichada lá pelo outro, pronto, e isso que tem? Você, como é, não se atira a tudo quanto é gaja, lá no seu serviço? E mesmo na rua, ou numa discoteca, ou assim, você é gajo para ficar indiferente a uma bela peidola, você resiste a um par de mamas espantoso, ou não fica cheio de entusiasmos com uma simples saia tipo colarinho? Ora, ora, deixe-se de merdas; claro que não fica indiferente, não resiste e entusiasma-se, respectiva e competentemente. Pois às mulheres outro tanto sucede, aí tem. Nada a assinalar. A diferença é que nós não precisamos nem de pretextos nem de explicações para dar uma fodinha numa gaja qualquer, mas elas acham que precisam; absolutamente; são milénios de informação genética, naquelas veias e em todos os interstícios dos seus delicados seres, compelindo-as a transformar qualquer corrimento no mais sublime sentimento, toda a atracção na mais pura, radical e definitiva paixão. É estúpido e irrelevante, bem sabemos, mas é assim e não há nada a fazer.

Repare que, mesmo correndo a coisa pelo melhor, ou aquilo que você neste momento pensará ser o melhor, é tudo uma questão de tempo até ao apodrecimento total. Porque o veneno da desconfiança já foi instilado, já está instalado, e isso é um processo irreversível. Mais tarde ou mais cedo, mesmo que haja uma reconciliação bacana, supimpa, mesmo que você lhe proporcione finalmente não sei quantos orgasmos por dia, e por mais apaixonada que ela então se revele, o facto é que nunca mais as coisas poderão voltar a ser como dantes. O veneno há-de insinuar-se fatalmente no seu espírito, espalhar-se por todas as suas veias, e músculos, por todas as células físicas do seu ser e por todas as partículas do seu espírito. E, um dia, qualquer dia, não restará nada senão matéria putrefacta, não apenas tecidos mas também memórias, ideias, sentimentos, tudo destruído, definitivamente inquinado, irremediavelmente destruído.

Por isto lhe dizia antes, meu amigo, que o melhor ainda seria deixá-la ir. Ela que se foda, amigo, e que lhe faça muito bom proveito. Bem sei que não me conhece de lado nenhum, a não ser daqui, mas deixe-me que lhe diga de coração aberto: puta que pariu a Carolina. Ouviu? Quem me avisa... e tal.

Olhe, faça o seguinte: faça um arrozinho. Vá para a cozinha e prepare um belo de um petisco. Eis a receita para os males de amor: uma receita de cozinha.

Arranje uma galinha do campo, bem gorda, e ponha-a a cozer numa panela de pressão, com sal marinho não tratado. Prepare um refogado bem puxado, em tacho de ferro fundido, com cebolas ácidas; acrescente alho cegado quando a cebola estiver acastanhada; meta-lhe pimento, tomate, salsa e coentros; quando estiver bem apurado, junte três ou quatro copos do melhor vinho branco que tiver; com a galinha bem cozida, trinche à mão e ponha no refogado, regando com a água da cozedura; tempere bem e forte, com flor de sal, pimenta branca e cominhos a gosto; deixe apurar em lume brando; por fim, junte duas mancheias de arroz, tape e espere que fique "al dente", com o cuidado de não deixar secar a arrozada; "malandrinho" sim, mas não muito. Sirva-se generosamente, acompanhando com Grandjó bem fresco, de preferência estupidamente gelado. Retire do congelador o Häagen-Dazs de chocolate belga, para sobremesa. E bom apetite.

Evidentemente, escusado será dizer, o arroz para esta receita apenas poderá ser carolino. Se não, fica uma tremenda bosta.

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18/12/06

O pó é fodido

Como ele é ver para crer, fui ver o que se diz por aí sobre a entrevista do MEC no DN da última 6ª Feira. Diz-se pouca coisa. Assim de repente, encontrei isto:

Miguel Esteves Cardoso é um dos nossos grandes valores e está arredado da TV e da rádio. Temo-lo semanalmente na revista Única do Expresso mas não basta.
Mar Cáustico

"Arredado"? Fónix. E quem é que foi o malandro que o "arredou", a nosso Professor Doutor? Ou terá sido ele mesmo a "arredar-se" a si próprio?

Mas alguém sabia que o homem aviava três garrafas de Vodka por dia, só por desfastio, mais umas quantas litradas de tudo quanto é bebível e mete graduação? Caramba, era só eu, no país inteiro, o único ceguinho que não fazia a mais pequena ideia de tal coisa? E sobre a cocaína? Também toda a gente já sabia? Caralho! Eu cá não fazia a mínima!

E, no fim de contas, mas o que raio terei eu a ver como assunto? Hem, ó caramelo: mas quem te julgas tu para estares agora a debitar lições de moral às pessoas de bem? Quem és tu para recriminar seja quem for, e de mais a mais em se tratando de tão eminente cachola? Hã? Dize.

Pois, 'tá bem, eu digo. É uma traição. Ora aí está. Uma estuporada de uma traição, é o que é. Acho que já por mais de uma vez aqui escrevi coisas como "Miguel Esteves Cardoso é, sem sombra de dúvida, o melhor cronista português vivo"; escrevi e disse-o, repetidamente, em conversas de café e coisas assim, com a maior displicência, convencido até à medula da infalibilidade de tão radical juízo. É claro que, se ao menos a mais leve suspeita alguma vez tivesse aflorado ao meu desgraçadamente ingénuo espírito, nunca, mas nunca por nunca, teria proferido ou despachado tais sentenças. E atão porquê, perguntareis vós, ó espíritos das sombras. Mas, atão, responderei meio abananado, mas não se está mesmo a ver?

Claro que é indecente responder a uma questão com uma pergunta, porém essa contém a resposta quase toda e abre caminho a mais umas quantas: o MEC metido na coca? O MEC, o "nosso" MEC, a snifar por uma nota de 200? Que enfarde umas grades de bebidas espirituosas todos os dias, vá lá, enfim, não sabia mas pronto, seria talvez daí que lhe vinham as tiradas não menos espirituosas; agora andar agarrado ao pó, pelos vistos desde há décadas, e "meter" toda a sorte de drogas ("menos haxixe e heroína", segundo diz), foda-se, tenham lá paciência, santinhos, isso não! Para trás, Satanás! Mas o que caralho vem a ser isso, não me dirão? Afinal aquela verve toda andava a "pitroil" e carburava à base de anfetaminas e opiáceos? Então e é este o gajo todo contentinho com a maravilha que Portugal é, e o nosso clima, ó que grande clima, e que as coisas aqui até funcionam que é um espanto, e tal e tal? Bem, mas não seria esse contentamento, esse orgulho patriótico, essa alegria ufana e vagamente contagiante, um simples subproduto da moca permanente? Não andaria ele todo feliz, radiante, não apenas porque nunca lhe faltou nada (coisa com a qual, esta, de facto ninguém tem nada a ver), mas principalmente derivado ao facto de estar constantemente pedrado?

Mas a traição não reside na etiologia clínica da questão; é mais na enologia; não se trata propriamente do seu carácter claramente ilícito, mas na sua total, absoluta, absurda impunidade: coisas que fariam corar de vergonha qualquer bacano das Marianas ou do Casal Ventoso são escarrapachadas na praça pública, num meio de comunicação nacional, não apenas às claras, pois perfeitamente, mas também - e isso é que é grave - veiculadas por uma figura pública, um privilegiado notório, alguém que representa (de alguma forma, e quer queira quer não) um modelo para franjas significativas da intelectualidade nacional. A imagem que esta figura passa é clara e transparente: eu sou Fulano De Tal, como bem sabeis vós outros, aí em baixo, sou podre de rico, sempre fui, e sou tão feliz que até enerva, e sou assim, numa palavra, o maior, porque fiz durante quase toda a minha vida uma dieta rigorosa de Vodka e de cocaína. As drogas, o álcool, o enfardanço absolutamente alarve e sistemático de tudo e mais alguma coisa, a grande farra como modo de vida aparece agora branqueado (para condizer com as substâncias), promovido a valor existencial e a fim em si. Diz o rapaz que tem muita pena de ter fodido o fígado todo, e que o erro é que devia ter, ao longo de anos e anos, mandado abaixo não três mas apenas uma garrafa de vodka diariamente; ou seja, uma litrada é que deve ser, nada de exageros, por conseguinte; e pressupõe-se, assim sendo, que lá isso da coca é brincadeira, não faz mal nenhum, só uns fiozinhos de sangue a pingar do nariz, e assim.

A traição não consiste, ou não se deve, propriamente, ao facto de o MEC fazer propaganda às substâncias tóxicas enquanto receita para o sucesso. Claro que é isso mesmo que a juventude irá pensar, olha, vês este gajo, emborcou e meteu tudo quanto há e é o maior, o verdadeiro pintas; mas ninguém poderá culpar o ídolo, a referência, por qualquer hipotética imbecilidade que as suas palavras possam provocar em cabecinhas mais empoeiradas. Não é traição, sequer, por o fodidíssimo autor não mostrar nunca o mais leve arrependimento e, pior ainda, apresentar os seus vícios vários como algo de "giro", como sendo "coisas com imensa piada, ahahah, távê-távê-távêre"; isso que se foda, assim com'ássim. Também não é traição o facto de o caramelo ter hoje tudo, como sempre teve, nunca lhe faltou nada e mesmo assim ainda achava que era pouco; que se dane o facto de, mesmo não havendo qualquer diferença técnica entre este janado e um qualquer pobre diabo que anda a arrumar carros, o mesmo janado não ser considerado tão marginal quanto o outro; como não tem qualquer espécie de necessidade para se manter pedrado e, portanto, não é forçado a assaltar casas e pessoas, deixa de ser ladrão e assaltante e meliante, passa à condição de grande cachola, esperto que nem um alho, supra-sumo da intelectualidade. Pois, afinal não assaltava ninguém na via pública, não roubava sequer carteiras, mas atacava por escrito, desancava com extrema violência qualquer figura pública, usava figuras de estilo destiladas com ácido, esgrimia argumentos sacados em plena alucinação; afinal, qual génio nem meio génio, o homem era apenas especialista em psicotrópicos, era um génio alucinogénio. "A Causa das Coisas", pelos vistos, foi por causa das coisas que ele andava a meter. Se "O Amor é Fodido", coisa que já se sabia, o pó é muitíssimo mais estuporado, ficamos agora mesmo a saber.

Findemos, pois. A traição consiste nisto: eu cá não sabia. E, porque não sabia, lia o que o gajo escrevia; gostava do que lia; recomendava aquela merda, caralhosmafodam. Já se sabe que não há nada a perdoar a um imbecil daquele calibre, mas eu cá a mim é que não me perdoo. Foda-se. Eu que me vá encher de moscas. Burro do caralho. E como diabo foi possível nem sequer ter desconfiado? Caramba, agora vejo, vejo tudo, fez-se luz finalmente nesta cabecinha de alho chocho: "em Portugal, as coisas funcionam" significa, em metalinguagem atestada de octanagem, "ena, meu, tou c'uma moca que vejo tudo a andar à roda, isto é tudo lindo, pá, olha só, que bela posta de pescada, esta lata de atum, hmmm, ó maravilha das maravilhas"; frases lapidares, que o recém-adquirido pudor me impede de citar, provinham da bonomia, da calma extrema, da paulada na cabeça sacramental que é, por definição e beatitude, a atitude e a condição de qualquer tipo que se emborrache meticulosamente; para a produção em massa de joguinhos de palavras, e artistices que tais, quaisquer duas ou três snifadelas bastariam, ao menos por umas quantas horas; como preparação para as entrevistas, ou para aparições públicas em geral, aquilo era meter uns quantos speeds e empinar umas dúzias de citações cheias de pinta; juntamente com a bagagem cultural da ordem, além dos canudos académicos, seria então conveniente não esquecer a outra bagagem, os sacos do pó, as caixas de comprimidos, as garrafinhas de pomada e em especial os frasquinhos de lança-perfume.

Tudo nos melhores dos mundos, e com tudo do melhor. Muito contente consigo mesmo, entupido de sucesso editorial, de sucesso existencial e de sucesso em geral, aconteceu um dia ter o MEC esquecido a sua pessoa algures; talvez metida em algum canto escuro, talvez perdida enquanto procurava a própria sombra, ninguém sabe ao certo o que se passou. O que é certo, isso sim, é que essa pessoa não faz já falta alguma a ninguém. Nem sequer ao próprio MEC ou, pelo menos, àquilo em que se transformou.

Joana, querida, chega-me daí os fósforos, please.

Thank you.



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Um blog "que dá pelo nome de" A Invenção de Morel publicou a entrevista na íntegra. Ó prós comentários às bojardas do MEC, ó:

Uma entrevista extraordinária. Parabéns!!!
Posted by: Matilde Rocha | dezembro 21, 2006 01:37 PM

uma entrevista ilucidativa de um estado de espirito sábio. pena, que primeiro tivesse que passar pelos exageros para chegar a esta conclusão!
é interessante este Miguel Esteves Cardoso!
Posted by: ana maria costa | dezembro 21, 2006 02:42 PM

Que máximo, adorei!
Fiquei cheia de esperança de chegar aos cinquenta anos assim, a saber ainda melhor aproveitar o bom que viver nos dá.
E também fiquei cheia de vontade de comer laranjas...
Posted by: Li2 | dezembro 21, 2006 02:44 PM


Algumas perplexidades, porém, contudo, no entanto, e dúvidas a bem dizer.
a) A quem endereçará sua Matilde seus parabéns? Ao autor da transcrição? Terá sido este o "extraordinário" autor de tão "extraordinária" conversinha?
b) Fez muito bem sua Ana Maria em inventar um novo adjectivo para qualificar a entrevista; de facto, "ilucidativa", a julgar pelo prefixo de negação, é o contrário de elucidativa. Admiradora certamente feroz de son mec, pois não terá lido muitas coisas na vida, nem sequer de seu "sábio" estado de "espirito". Mas, vá lá, conseguiu redigir o nome de son mec sem erros, esta Maria.
c) Li2, de sua graça, confessa que ficou de apetites às laranjas; mas não seria antes aos limões? É mais adequado para fazer os caldos, certo? E tem muita vitamina C...

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Conta-me histórias

Tudo serve aos antitabagistas militantes para "justificar" a sanha persecutória e histérica que se transformou no seu modo de vida. Como é de facto indefensável, o tabaco, o acto de fumar, o cigarrinho torna-se alvo facílimo para o tiro ao boneco político; e é por isso que todas as mentiras e alarvidades passam absolutamente nas calmas para a opinião pública, já anestesiada pela persistência do logro, já desistente de qualquer espécie de reacção. Aliás, chegámos a um ponto de anestesia tal, na opinião pública e, principalmente, na "opinião" juvenil, que o fumo (do cigarro), ao contrário das chamadas drogas leves, é considerado um crime real, enquanto o consumo de drogas é não apenas despenalizado como incentivado, apoiado e mesmo financiado.

Tornou-se comum uma espécie de pensamento acéfalo, por paradoxal que pareça, fundamentado em falsidades tão gigantescas quanto evidentes, das quais a mais esgrimida é a respeito dos preços: o Governo português, na sua longa marcha por uma vidinha cheia de saúde, vai aumentando os impostos sobre o tabaco de forma perfeitamente abstrusa, alegando que pretende apenas reduzir o consumo e, portanto, presume-se, diminuir a incidência de cancro do pulmão e aborrecimentos conexos na população em geral e nos "fumadores passivos" em particular.

É comovente, de facto, esta preocupação que o Estado manifesta quanto ao estado de conservação dos alvéolos pulmonares do cidadão comum; pessoalmente, sinto-me tocado sempre que alguma pessoa mais intoxicada pela propaganda me recorda os malefícios do tabaco sobre a saúde; acho um pouco estranho que tanto o Estado como essas pessoas se preocupem em exclusivo com esse meu problema, e que se estejam, em absoluto e como lhes compete, totalmente nas tintas para qualquer outro dos meus problemas, de saúde ou quaisquer que sejam; estranho é dizer pouco, mas enfim, lá que é tocante, repito, é. A minha gratidão não tem limites, e por isso cá vou pagando os sucessivos, caninos, assassinos aumentos de preços, sabendo que se trata de algo altruísta, uma coisa que é feita a pensar em mim, na minha saúde, e que é para meu bem, e tal. Só posso realmente ficar muito agradecido, até porque, se me estão roubando por tão meritórios motivos, o roubo deixa de ser roubo e passa a ser obra de caridade.

Mas, por mais grato que me sinta, o que ainda não consegui entender é como se pode mentir com tamanha desfaçatez sem que praticamente ninguém ouse sequer tugir ou mugir. Quando algum militante mais dedicado, ou quando alguma organização ou responsável governamental vem dizer que os cigarros são muito mais baratos em Portugal do que, por exemplo, em Inglaterra ou na Finlândia, está a mentir descaradamente: o nosso belo país, onde o clima é ameno, etc., está em 2º lugar - a nível europeu - na incidência de impostos sobre os produtos fumáveis (86%), exceptuando-se destes as substâncias teoricamente ilícitas, sobre as quais não há dados concretos. Por outro lado, Portugal é dos países europeus com salários mínimos mais baixos, em termos absolutos.

Logo, e como é curial quando se fala dos preços da gasolina ou de qualquer produto hortícola, ou seja do que for, o custo de um bem ou serviço deve ser comparado de forma ponderada, por unidades (paridades, PPC) de poder de compra; técnica estatística, no entanto, passível de alguma manipulação e que é neste caso muito habilmente utilizada pela própria Comissão Europeia, no sentido de provar não se percebe bem o quê.

Talvez o mais curial (e rigoroso) seja determinar o custo real do "maldito vício" tendo por base o salário mínimo; assim se poderá aferir, com exactidão, quanto custa, proporcionalmente, o mesmo maço de cigarros nos diversos países da UE. Pois, como é lógico, comparar preços e incidência de impostos de forma totalmente cega, sem relativização e enquadramento, é uma evidente manobra de propaganda, tão falaciosa como a contabilidade de qualquer vendedor de "banha da cobra". Se um maço de Marlboro custa, em Inglaterra, por hipótese o equivalente a 8 €, sendo o ordenado mínimo nesse país qualquer coisa como 1.500 €, então aquele custo representará 0,53% do rendimento; se em Portugal a mesma marca custar 2,80 €, para um ordenado mínimo de 380 €, a taxa de esforço (para a compra) correspondente é de 0,74%; isto é, comparando os dois valores temos que o mesmo produto é 40% mais caro em Portugal do que na Inglaterra.

Mesmo com alguns valores presumidos, por analogia, e apenas para comprovar a hipocrisia e as mentiras oficiais, pondo em causa em toda a linha o princípio que preside à falácia governamental, comparemos alhos com alhos e não alhos com bugalhos; para que se possa aferir mais facilmente da enormidade que representa este assalto institucional, estendamos a comparação aos países da Europa a 25.

País
S.M.N.
€/maço
Mês
Encargo
Diferença
Variação
maço/SMN
Portugal4032,80 €84,00 €20,84%0,00%100,00%2,80 €
Reino Unido11037,70 €231,00 €20,94%0,10%100,48%2,81 €
Finlândia18004,00 €120,00 €6,67%-14,18%31,98%0,90 €
Espanha5262,26 €67,80 €12,89%-7,95%61,84%1,73 €
Grécia6051,40 €42,00 €6,94%-13,90%33,31%0,93 €
França11545,00 €150,00 €13,00%-7,85%62,36%1,75 €
Irlanda12938,00 €240,00 €18,56%-2,28%89,05%2,49 €
Luxemburgo15037,00 €210,00 €13,97%-6,87%67,03%1,88 €
Itália12003,10 €93,00 €7,75%-13,09%37,18%1,04 €
Estónia1921,05 €31,50 €16,41%-4,44%78,71%2,20 €
Letónia1290,64 €19,20 €14,88%-5,96%71,41%2,00 €
Lituânia1590,77 €23,10 €14,53%-6,32%69,70%1,95 €
Polónia2340,88 €26,40 €11,28%-9,56%54,13%1,52 €
Bélgica12343,36 €100,80 €8,17%-12,68%39,19%1,10 €
Holanda12734,00 €120,00 €9,43%-11,42%45,23%1,27 €
Rep. Checa2611,32 €39,60 €15,17%-5,67%72,79%2,04 €
Eslovénia5121,49 €44,70 €8,73%-12,11%41,89%1,17 €
Malta5803,03 €90,90 €15,67%-5,17%75,19%2,11 €
Hungria2471,58 €47,40 €19,19%-1,65%92,07%2,58 €
Eslováquia1831,08 €32,40 €17,70%-3,14%84,94%2,38 €
Chipre(*)6002,22 €66,60 €11,10%-9,74%53,25%1,49 €
Áustria(*)12503,00 €90,00 €7,20%-13,64%34,54%0,97 €
Suécia(*)13004,11 €123,30 €9,48%-11,36%45,50%1,27 €
Alemanha(*)14003,37 €101,10 €7,22%-13,62%34,65%0,97 €
Média797,543,048391,45 €11,47%-9,38%55,01%1,54 €
(*) - salário mínimo presumido.
Fontes
http://www.correiodamanha.pt/noticia.asp?id=223426&idselect=11&idCanal=11&p=200
http://www.day-tripper.net/tobaccointheeuother.html
http://news.bbc.co.uk/2/hi/europe/6158762.stm
Não foram encontrados dados sobre a Dinamarca.



Mesmo para o mais limitado dos tecnocratas, não deve ser muito difícil entender os resultados: Portugal tem os cigarros mais caros da Europa, na honrosa companhia da Velha Albion, esse paraíso politicamente correcto; será talvez por causa da tão velha quanto inútil aliança entre os dois países, que tantas alegrias tem dado a ambas as partes. Qualquer espanhol ganha muito mais do que nós, cá no torrão, e o sacana ainda por cima tem o cigarrito ao preço da uva mijona, fora o resto, desde os caramelos ao presunto, passando pela electricidade, a gasolina e outros luxos, como o pão; ir passar um fim-de-semana à Letónia e comprar uns trinta maços (600 cigarros é o limite alfandegário normal), bem, a diferença deve dar para pagar uma alta jantarada num restaurante de cinco estrelas, em Riga; com o nível de vida da Áustria, notavelmente modesto, como sabemos, o equivalente a um SG Gigante custaria cá a módica quantia de 97 cêntimos, quase um terço do que nos custa a nós outros, ricaços. Até na Irlanda, triste recordista europeu, mundial e de todo o sistema solar, nas mais duras modalidades da fantochada contra-fumaica, até mesmo aí o macito é relativamente mais barato do que para os fumadores tugas. Ah, e a Bélgica, a Bélgica: coitadinhos, lá têm de pagar 100 pauzitos dos antigos, a mais do que a gente, e só ganham o triplo, pobrezitos, olha que realmente.

É mentira que seja mais caro fumar "lá fora" do que "cá dentro". Mentira. Redonda. É tudo falso, mais falso do que uma nota de três dólares; os impostos sobre o tabaco servem exclusivamente para tapar buracos orçamentais, não existindo obviamente nenhuma preocupação sanitária envolvida, e muito menos qualquer espécie de altruísmo na questão. É roubo sob pretexto inventado, nada mais. É puro saque à população, ainda por cima a pedido de largas franjas dessa mesma população. É um verdadeiro golpe, não de mas do Estado, escorado por ingénuos descomprometidos e sustentado por fazedores de opinião nada ingénuos e absolutamente nada descomprometidos. O que se pretende não é, de forma alguma, reduzir o consumo, ou proteger os direitos dos "fumadores passivos" ou qualquer dos chavões utilizados para legitimar o desfalque perpretado pelo Estado. Como dizia o outro, é fazer as contas, de mais a mais porque as contas já estão feitas.

Existem inúmeros sites na internet para comprar tabaco, na maior parte dos casos a preços perfeitamente ridículos, quando comparados com o roubo estatal que nos querem impingir como sendo "para nosso bem". O contrabando de cigarros está vivo e recomenda-se; basta conferir com os números oficiais, que demonstram a falência histórica da taxação abusiva; querem fazer-nos crer que a suposta santa luta antitabagista está a resultar, mas o que se passa é que o contrabando (e a contrafacção) estão de novo pujantes, aproveitando a evidente estupidez das entidades e a não menos cretina credulidade dos novos apóstolos da "saúde" à força e a qualquer preço. Vão ter um lindo enterro, vão sim senhor; cá estaremos para ver, placidamente fumando o nosso belo cigarrinho. O futuro das medidas "para combater o fumo" já chegou: ardeu. Arde cada vez mais em cada "pirisca" de um cigarro contrabandeado, de cada Lucky Strike made in China. Esse futuro chega todos os dias, por terra, mar e ar, ameaçando já soterrar em cinzas (e em "beatas") toda a nação não fumadora, aqueles que serão em breve cadáveres extremamente saudáveis.

Quanto aos sádicos, cruzados da proibição, perseguidores de bruxas fumegantes, amadores da causa ar-purista e quejandos, há que desejar-lhes sinceramente os maiores sucessos em suas inestimáveis vidinhas; agora já sabem onde devem meter a sua lógica dos "maços a cinco ou mesmo a 10 euros": where the sun never shines, como soe dizer-se.

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