Consultório sentimental - XVI
Good vibrations
Uma amiga minha pediu-me que lhe oferecesse um vibrador no Natal; já antes do último aniversário dela, aqui há uns meses, me tinha dito a mesma coisa. Não tenho problema nenhum em oferecer-lhe um brinquedo desses, mas acho um bocado esquisito, fico assim meio encabulado...
Mário C.R., por e-mail.
Caro Mário, caramba, essa é fácil! Homem, qual encabulado nem meio encabulado, é dar-lhe o vibrador de presente e mais nada!
Ou, melhor dizendo, e mais tudo! Claro que nem é preciso explicar, essa sua amizade há-de ser com toda a certeza bastante colorida, de modo que uma oferta assim, tão original, e ainda por cima a pedido da própria, bem, parece que lhe saiu a sorte grande; pois claro, seu sortudo, vê-se logo com quem é que a sua amiga vai inaugurar o aparelho! Mas qual é a dúvida, afinal?
Enfim, a ver se contribuo para desmontar quaisquer pruridos morais, que acaso subsistam na sua cabeça, digo, mente, com os meus cumprimentos à senhora, e endereçando-lhe a si, desde já, os mais calorosos parabéns, passo a tentar explicar alguma coisinha sobre o tema, que é, por um lado, muito mais frequente do que geralmente se pensa, e, por outro lado, ainda muito sonegado, escondido, uma espécie de ilustre desconhecido das artes cambalhotais; e nem toda a gente sabe, de resto, por mais estranho que isso possa parecer, por qual dos lados é que deve ser usado.
Os vibradores, como os chapéus, são uma coisa que há muito e há muitos. Não cabe aqui, salvo seja, proceder a exaustivo levantamento histórico, já que se sabe perfeitamente meterem as pessoas toda a sorte de objectos em qualquer dos orifícios humanos, desde o princípio dos tempos, mas poderemos perfeitamente proceder a uma operação conexa, pois não propriamente um levantamento histórico, está visto, mas um levantamento histérico da coisa; histérico, na medida em que o termo remete para útero, que é um órgão situado (até ver, nas mulheres) um pouco acima e por detrás daquilo que realmente interessa; ou seja, espiolhar ligeiramente as relações directas dos objectos com o sexo e do sexo com objectos.
Questão pertinente, esta, até porque - vendo bem, de perto mas não muito - o vibrador é o expoente máximo das frutas e legumes oblongos, como a insuspeita cenoura, o saudável pepino, ou a conhecidíssima e muito rica em ferro banana, a preferida dos nossos primos macacos; o vibrador, a pilhas ou sem pilhas, é o verdadeiro "state of the art" da vetusta moca troglodita ou, mais modernamente falando, de coisas tão diversas como o cabo do desentupidor ou o pau de vassoura, para já não falar em objectos um bocadinho mais insólitos ainda, como escovas-de-dentes, cabides em madeira, garrafas de vidro, etc.; tudo coisas, e muitas outras se poderiam enumerar para o efeito, que sabem perfeitamente os profissionais de saúde costumarem aparecer nas urgências dos hospitais, enfiadas nos anteriormente mencionados orifícios naturais, mas que agora se arrolam, principalmente em ânus e em vaginas, mas também, certamente por motivos menos libidinosos, em fossas nasais e em pavilhões auriculares. Parece, de facto, que a espécie humana possui a estranha mania de introduzir seja o que for em todo e qualquer buraco do corpo, o próprio ou o alheio. Digamos que é uma pulsão natural, provavelmente de cariz exploratório mas que poderá decorrer de "n" motivações diferentes.
O que é facto é que toda a gente, de uma forma ou de outra, explora as potencialidades dos objectos como ferramentas sexuais e, portanto, podemos dizer com segurança que ninguém deverá, neste particular, entreter-se a cuspir para o ar: desde o célebre ar esgazeado que as donzelas irradiam quando montam a cavalo, às sessões de puro e fogoso sexo com almofadas (mais modernamente, bonecas insufláveis), passando pela utilização de penas de pato e de escovas (ou chicotes e correias de couro), como artefactos e variantes da relação sexual. Distendendo um pouco o conceito, ninguém se poderá "gabar" de jamais ter utilizado, em pleno acto sexual, antes, durante ou depois, não propriamente objectos, coisas sólidas, mas outras coisas, por exemplo líquidas, como os óleos, ou mesmo partes do corpo, como os dedos, das mãos e dos pés, ou as próprias mãos e os próprios pés. Não sendo de forma alguma exaustiva, a enumeração de sucedâneos do vibrador demonstra que, ao fim e ao cabo, não há quem o não use, para os mesmos fins, apenas com outra designação: vibrador é no fundo, salvo seja outra vez, a designação genérica e prototípica de tudo aquilo que pode ser utilizado como estimulante sexual. É possível mesmo utilizar estimuladores directamente no maior órgão sexual do corpo humano, o cérebro, através de filmes, imagens, sons, verbalizações, cheiros. Há ainda a considerar, alegam alguns, mas esses são munta porcalhões, que existe uma variante zoófila no tema, quem utilize cachorros e outros animais de estimação para o efeito, isto é, como animais de estimulação, sendo que algumas raças caninas foram mesmo apuradas com essa específica finalidade, "caniches" e "lulus" em geral, sabe-se lá, não será muito de fiar esta última alegação.
De certa forma, até os trapos com os quais a gente se cobre, mais ou menos, cumprem uma função de vibrador mental, estimulando (mais ou menos) o animal assanhado que trazemos de ordinário por debaixo da segunda camada protectora, a pele. E quem diz trapos, diz adereços, como brincos e carrocerias, consoante o sexo de cada qual; nomeadamente, o automóvel é o maior vibrador ambulante do mundo, e não foi portanto por mero acaso que surgiu a expressão "andar de cu tremido"; paradoxalmente, geralmente para uma mulher, as vibrações que sente são tanto mais intensas quanto menos o carro vibrar, ou seja, é uma excepção que confirma a regra, mas que se explica pelo facto de uma viatura vibrar (tremer) tanto menos quanto maior tiver sido o seu preço. E este factor, o custo, a guita, o xito, esse então é que é o mais poderoso dos estimulantes sexuais, vibra, vibra, vibra, vibra até dizer chega; convenhamos que o papel, como sabemos já, é não apenas uma garantia antecipada de muitos e variados vibradores, como ele próprio um, enorme, gigantesco, tremendo, vibrátil excitante sexual ou, como se costuma dizer, amoroso.
Para concluir o périplo da vibração genérica, refira-se ainda um elemento raramente associado a matéria de leito: a comida. Pois, meu caro amigo, minha cara amiga, a comidinha também pode ser um vibradorzito disfarçado; veja-se o caso do chocolate, ou das guloseimas em geral, que simbolizam, por regra e muito foleiramente, uma determinada fase de aproximação à qual se convencionou chamar "namoro". E não nos esqueçamos da forma como o empanzinanço pode substituir, quantas vezes com vantagens, a mais trivial das rapidinhas. Muita moça e, presume-se, muito moço, anda por aí em busca de orgasmos, simplesmente introduzindo pipocas, batatas fritas e outras comidas de plástico (cá está o plástico) pela boca abaixo, como forma de fazer vibrar alguma coisa, quanto mais não seja as papilas gustativas; pelo que não será meramente retórico inscrever o empanturramento na classe dos vibradores, neste caso orais.
No entanto, se a utilização genérica de vibradores é um facto ancestral, já o seu reconhecimento enquanto tal é bastante mais difícil, devido à sopa moralista em que somos mergulhados à nascença; o que significa, por conseguinte, que toda a gente usa vibradores mas, se formos a ver, ninguém usa vibradores. Porém, estes, agora na sua forma comercial e tecnicamente evoluída, vendem-se cada vez mais, de todos os tamanhos e feitios, em lojas reais e em lojas virtuais. Desde a chamada "revolução sexual", iniciada com o fim da II Guerra Mundial, tanto os cabos de vassoura como o recato caíram absolutamente em desuso, de maneira que as coisas se vão agora compondo, e em especial desde que o surgimento da SIDA e o renascimento das DST em geral, fenómenos bem mais recentes, potenciam a utilização - altamente profiláctica - de tão maneirinhos instrumentos; concomitantemente, a miniaturização e a robotização, em paralelo com a imergência do sexo virtual (através da Internet), tornam o assunto cada vez mais incontornável e iniludível, e até já vão surgindo uns característicos especialistas, como é o caso de nossa inefável referência, Dr.ª Marta Crawford; habilíssima manipuladora e demonstradora de vibradores, além de analista de posições e de outras coisas "agradáveis" e "gratificantes", esta profissional conhece em profundidade os modelos com e sem protuberâncias, o que é "plástico" e o que é "látex", em que botãozinho se carrega para ligar, onde se deve e não deve colocar o aparelhinho, etc., sabe tudo sobre "dildos", a malandra.
Os vibradores ("dildos" é designação técnica, muito mais fina, iningueliche), como qualquer outro electrodoméstico, e este em particular pela sua importância sociológica, pela sua contribuição para a harmonia do lar e, em última análise, consequentemente para a paz mundial, deveriam ser vendidos nas grandes superfícies e não apenas em locais acanhados e manhosos; não seria de desprezar a ideia de montar uma indústria nacional de vibradores, (INV, EP), para que a respectiva produção em grande escala conduzisse a uma baixa generalizada de preços, por um lado, e a uma democratização da sua utilização, por outro, se bem que mais uma vez importe não confundir os lados.
Além disso, e considerando o factor de saúde pública inerente, já pelo seu contributo indesmentível para a contenção das doenças venéreas em particular, e para a contenção em geral, estes simpáticos aparelhos bem mereceriam a atenção do próprio Estado, por exemplo a nível de impostos; que diabo, um vibrador é muito mais importante, em todos os aspectos, do que um frigorífico ou uma torradeira; logo, deveria ser taxado bonificadamente, se possível com uma classe equivalente à dos medicamentos (5%), ou mesmo isento, à semelhança de alguns actos médicos. Isto porque, estejamos certos, tratando-se da mais elementar justiça contributiva, não há comparação possível entre os benefícios pessoais e sociais que se retiram de uma colonoscopia, por exemplo, com aqueles que o mais modesto vibrador pode proporcionar na mesma área. Claro que é mais fácil, para os governantes e a classe dominante, a quem nada falta e muito menos vibradores, tudo à borla e à fartazana, porem-se com conversas de merda, não exactamente deste género mas parecidas, fingindo-se distraídos em relação ao fenómeno, e cagando positivamente no assunto, como aliás é costume.
Ao fim e ao cabo, tanta coisa se vê por aí, na "blogosfera" e tudo, ele é campanhas para isto e para aquilo, grandes causas, pequenas causas e até micro-causas, muito rebéubéu pardais ao ninho, mas vai-se a ver e aos vibradores dizem nada, népia, toda a gente se agacha, ai, Jesus, quiórrore, eu cá não uso dessas coisas, e nhó-nhó-nhó. Pois sem eles, amiguinhos, nem sequer a História teria sido igual, quanto mais a "blogosfera"; pff, cais "blogosfera" cais quê, isto é tudo mas é uma grandessíssima paneleiragem, toda a gente aqui a engraxar o parceiro, a masturbar a sua pequenez, a tentar desesperadamente fazer vibrar qualquer coisa de jeito. A gente pega e vai, bzzzzz-bzzzzz-bzzzzz, e cá vai disto, um jorro, uns segundos, já passou, pronto, acabou-se.
(Imagem de Correio da Manhã)
(ex)Citação demonstrativa:
(Ahhhhhhh)
(Ah my my what elation)
I don't know where but she sends me there
(Ah my my what a sensation)
(Ah my my what elations)
(Ah my my what)
"Good Vibrations", The Beach Boys









