Direito ao silêncio
As áreas de serviço são instalações confinantes com as auto-estradas, destinadas a prestar aos seus clientes um leque variado de serviços. Em regra, dispõem de postos de abastecimento de combustível, lavagem de veículos (nalguns casos), áreas de restauração, zonas de descanso e, por vezes incluem também hotéis. Actualmente, a BRISA conta com 23 Áreas de Serviço ao longo da rede concessionada, com uma distância máxima de 50 km entre si.
São todas iguais; não é nada fácil a gente saber onde está, ao certo; Aveiras, Oeiras, Estremoz ou Seixal, é tudo igual; com "uma distância máxima de 50 km entre si", todas as áreas de serviço têm colunas de som com uma distância máxima de 3 metros entre si.
Não há como escapar. Atestar o depósito, pumba-pumba-pumba; esperar na bicha para pagar, tchunga-tchunga-tchunga; mijinha antes de seguir viagem, ptum-ptum-ptum por cima da cabeça. Três áreas de serviço à frente, 150 km, portanto, é conveniente parar, sair, desentorpecer as pernas, comer qualquer coisa. Tremendo erro. No "restaurã", é necessário gritar o pedido, a empregada da caixa tem de explicar por gestos quanto é a conta, ou mostrar o visor da registadora. Todas as mesas estão bafejadas pela mesmíssima e rigorosamente seleccionada barulheira, com uma distância máxima de 3 metros entre si. Na esplanada, não há colunas mas altifalantes, metálicos, pumba-pumba-pum, tchunga-tchunga-tchunga, ptum-ptum-ptum; não, aqui também não; mas afinal, onde são as tais zonas de descanso? Ah, pois, é ali, onde tem umas mesas em cimento que nunca foram utilizadas, cadeiras em cimento nas quais nunca ninguém se sentou, chão em cimento que nunca ninguém pisou, é então isto a zona de descanso; de facto, aqui não há colunas nem altifalantes, mas há vento, ou sol em cheio, ou chuva, e pó, e lixo. Não, também não. Então onde, raios, onde?
A estupidez é também de cimento; tem a mesma solidez e é igualmente inamovível, inestética, cinzenta, obrigatória. A brutalidade sonora está tão firmemente implantada no tronco cerebral dos trogloditas lusitanos como o mais denso dos blocos de argamassa. Nestas eras politicamente correctas, de "fumadores passivos" que sofrem de cancros algures, existe uma lei implícita, a do ruído obrigatório: nos autocarros, nos combóios, nos eléctricos, nos barcos, nos restaurantes, nas tascas, nos cafés, em qualquer loja, fina ou grossa, em todos os centros comerciais e em todas as grandes superfícies, e nas pequenas também; até em plena rua, dependendo apenas da zona, quanto mais "nobre" pior, como fez o brilhante Santana à Baixa lisboeta.
Existe até uma lei formal, dita "do ruído" (292/200, de 14 de Novembro) que, muito portuguesmente, é pura letra morta; serviu para ocupar meia-dúzia de amiguinhos juristas, durante uns meses, à conta do erário público. Esta lei não vale o papel em que está impressa. O que vale é a lei da bandalheira, a da changa-changa, compulsiva, obrigatória, insuportável. Portugal é um país de duros de ouvido, entre outras coisas igualmente pouco simpáticas. A cultura tuga é a do mais puro cagaçal, a do horror ao silêncio, a da alergia à simplicidade. Barulho, aqui é "progresso" e "modernidade". Enfim, para não maçar, não repisemos o que toda a gente sabe mas toda a gente faz na mesma.
Um pouco de silêncio, por amor de Deus, é pedir muito? Posso? Almoçar, tomar café, ler o jornal? Pensar, talvez?
Como diz? Sim, sim, com certeza, mas, mesmo assim, não se importa de falar mais baixo?
Obrigado.
(na citação inicial, o Português, evidentemente, é da Brisa)









