Odi profanum vulgus et arceo

10/07/05

Consultório sentimental (3)

A intimidade intimida
(...)
Verdadeiramente, devo confessar que tenho perfeito horror à instituição casamento. Não me imagino a ter de partilhar com a mesma pessoa, com uma só pessoa, todos os dias, para o resto da minha vida, absolutamente tudo, desde as tarefas domésticas até à escova-de-dentes, passando pelos lençóis e cobertores, ou seja, a cama. Acho hoje, como sempre achei, que a simples ideia de "casar" é só por si suficientemente repugnante para sequer ser tomada como hipótese. (...) Em suma, parece-me que o casamento deveria ser encarado como um sacrifício extremo e não como motivo para qualquer espécie de regozijo e muito menos de festejo; parece-me aliás já ter lido qualquer coisa mais ou menos deste teor, no seu blog; se bem me lembro, dizia o D que o casamento apenas se justifica se e quando surge o primeiro filho; não poderia estar mais de acordo, e mesmo assim, como dizem os brasileiros, olhe lá! Se fosse possível cada um ter a sua casa, adoraria ter esse filho (e depois outro e outro, quem sabe), mas eu no meu canto e ele no dele, eu com a minha escova-de-dentes e com o meu sossego, e ele com a dele e o dele, respectivamente.
(...)
Talvez seja, de facto, aquilo que toda a gente me diz de há uns anos para cá: "isso é alguma trauma que tu tens". Já se sabe, não há nada como uma explicação fácil e transparente destas, sempre a mesma; quando não há uma explicação óbvia para determinado comportamento, lá vem a rapsódia do "trauma". Não sou eu quem tem um "trauma contra" o casamento, é o casamento que é traumático por definição. Aliás, não entendo o conceito de "trauma contra". Ou é trauma ou não é trauma. Se é trauma, é "contra" alguma coisa. Mas enfim. Os mesmos e as mesmas que me "dão" tão excelentes conselhos, as mesmas pessoas que se acham no direito de debitar uns palpites sobre o "meu" trauma são as mesmas que já se casaram e separaram uma, duas, três vezes. Quer dizer: não têm nenhum "trauma contra" o casamento, mas quem se divorcia são eles e elas, não eu. E depois, os motivos são sempre os mesmos, e são precisamente aqueles que enformam, pelos vistos o tal trauma que é apenas meu: estão "fartos", eles, "decepcionadas", elas; que já não suportam os hábitos do outro, as manias e as idiossincrasias; que não aguentam nem mais bebedeiras (elas deles) nem mais birrinhas (eles delas); e que chega de peúgas pelo chão e garrafas vazias por todo o lado; e que ele é um brutamontes, javardo, cabrão e outras coisas piores, cujo maior divertimento é largar uns traques em vale-de-lençóis ou fazer concursos de arrotos com os amigos, enquanto jogam com as malditas setinhas e se enfrascam até de madrugada.
(...)
A pressão social é esmagadora, em razão diametral: quanto mais uma mulher avança na idade, mais se sente pressionada a casar e ter filhos ou, pelo menos, casar; quanto mais velha, mais esquisito se torna que esteja ainda "solteira e boa rapariga", até porque já não é rapariga nenhuma. O rolo compressor da chamada normalidade passa, cada vez mais, para trás e para diante, uma e outra vez, quanto mais arisca (enrugada) ou avessa uma pessoa demonstra ser em relação aos padrões comportamentais considerados como "normais".
(...)
Desisto. Rendo-me. O meu casamento está marcado para o próximo dia 3 de Setembro. "Ando" como o meu futuro marido há quase dez anos. Tirando um ou outro, muito esporádico, "amigo colorido" (e só duas ou três amigas), sempre lhe fui fiel. Mas eram os pais dele e os meus, a mais tios, avós e sobrinhos, e os amigos e conhecidos de ambos, toda a gente, e casem e casem e casem lá, caramba. Ok, pronto, tá bem, não me chateiem mais. Passei dez anos com este, e não sei quantos com não sei quantos antes dele, e mesmo o estatuto de "namorado" eu recusei sistematicamente. Não gosto de estatutos. Estatutos têm os clubes recreativos. Não gosto da mania que todos os homens têm de não baixar o tampo da sanita. Não gosto de acordar com gente ao meu lado. Não gosto da maneira como este se ri, geralmente a despropósito. Detesto os ruídos que ele faz com a barriga. Mas tem qualidades. Mal por mal, antes este, que já conheço, do que outro qualquer - sem saber o que lá viria.
(...)



Cara amiga,

Em primeiro lugar deixe-me que lhe diga o seguinte: é um verdadeiro prazer ter a oportunidade de trocar algumas frases com alguém cujo Português é tão agradável, escorreito, impecável. Uma das minhas maiores dificuldades, quando respondo aqui no consultório, é precisamente fintar a azia que atavicamente me provoca a leitura de qualquer coisa com erros. No caso da sua mensagem, foi uma agradabilíssima surpresa, li-a e reli-a com grande prazer. Nota-se que se trata de pessoa com formação, e não apenas académica. Desde já peço me perdoe se, porventura, escolhi mal aquilo que me pareceu ser o assunto central mas, porque me pede absoluto anonimato, apenas transcrevi os excertos mais significativos e que menos a identificam, ou que menos expõem determinados aspectos da sua intimidade.

É que esse assunto central, ao que me parece, repito, foca algo que muito raramente aparece referido em qualquer literatura atinente - entendendo-se aqui por "literatura" todo o acervo scripto, audio e video versando o tema, desde a chamada imprensa cor-de-rosa até ao mais eminente sexólogo, sociólogo ou psicólogo da nossa e de outras praças. A designação técnica desse assunto é, por conseguinte, borborigmo.

O borborigmo pode até funcionar como símbolo de todas as pequenas, microscópicas, aparentemente insignificantes coisas que podem liquidar um casamento, um namoro ou, como hoje é fino dizer-se, "uma relação": mais conhecido como borborismo, este fenómeno estritamente fisiológico não consta nunca de qualquer romance, novela ou simples história, sejam estes na forma escrita ou na forma vivida. Se, por exemplo, Romeu (ou Julieta, assim como assim) sofresse de borborismo, ou se o próprio Shakespeare o tivesse ao menos referido, nunca teria sequer sido publicado aquele paradigma do romance amoroso. Mas Romeu e Julieta será até um mau exemplo, porque nunca os protagonistas chegaram a passar umas horitas juntos, quanto mais uns anos ou uma vida inteira.

Mas é fácil imaginar aquilo que acontece, entre qualquer par de apaixonados, quando o fenómeno irrompe... em sentido literal. Uma das finalidades práticas da chamada "paixão" ou do chamado "amor", ao menos entre homem e mulher e pelo menos segundo Desmond Morris, é precisamente - entre outras coisas - a obstaculização da repugnância física; ou seja, em suma, as pessoas apaixonam-se para que, inevitavelmente e mais tarde, seja possível evitar o nojo que a um provocam as manifestações fisiológicas do outro (urinar, defecar, suar, vomitar, eructar e mesmo, noutra acepção, falar, rir, comer, andar, etc.); quanto maior for a "paixão" inicial, maior a tolerância futura à exibição da fisiologia primordial do ser "amado", sendo que esta exibição é profundamente rejeitada em todos os outros seres.

Ora, é realmente difícil que uma mulher (ou um homem, já agora) se não "desapaixone" quando se apercebe, pela primeira vez, dos resultados e das consequências audíveis (e odoríferas) do borborismo. Fatalmente, este fenómeno descamba num outro (igualmente referido na sua mensagem), que se designa por meteorismo e que pode ter diversos graus de intensidade: há o gajo (ou gaja) que se bufa, suave e quase imperceptivelmente, e há quem atroe verdadeiramente os ares com farpolas terríveis, peidos esmagadores, de três em pipa, que até as paredes tremem: tchrraaac ou brrrruuuummm. Este tipo de actividade lúdica é conhecido, entre os mais dotados, por "rasgadela" (aproveitando a primeira onomatopeia) ou por "estrondar" (a partir da segunda). E depois, por regra, vem o pivete. Existem verdadeiros especialistas no assunto, capazes de largar terríveis, insuportáveis bufas, mal cheirosas até ao absurdo, verdadeiras armas secretas de desmoralização maciça. Basta entrar num qualquer transporte público para aquilatar da violência da coisa. Existe mesmo a correr um abaixo-assinado, em Lisboa, iniciativa de um grupo de cidadãos mais conscientes e amigos do ambiente, solicitando se acabe com as janelas seladas nos autocarros e nos comboios da capital; é que, alegam, dantes era mais fácil, abriam-se as janelas e já se podia respirar mais ou menos; agora, com estas modernices do ar-condicionado, os passageiros levam com as bufas e com os traques uns dos outros e não há como escapar, porque nenhuma janela abre. Talvez por isso, alguns dos acidentes (em especial no Metro de Lisboa) devem-se ao facto de alguém se ter peidado dentro da carruagem e, tendo-se espalhado o pânico, uma pessoa mais atrapalhada acaba por puxar o freio automático.

É, como vê, assunto sério. Demasiadamente sério para tamanho e sistemático escamoteamento, não apenas na imprensa, TV e Rádio, como na mais simples conversa de café ou em simples roda de amigos. Parece tratar-se de exclusivo, de tema reservado apenas aos elementos do casal. E por isso mesmo lhe reafirmo a minha compreensão e simpatia para com o seu caso.

Cara amiga, se realmente o seu futuro marido tem esse problema (como o refere por duas vezes, parece-me tratar-se de meteorismo grave), talvez fosse boa ideia reflectir mais umas cinquenta vezes antes de dar tão drástico passo. Que se lixe a pressão social, neste caso. Mande mas é foder os seus amigos e familiares, mai-los seus palpites. Em última análise, não são eles quem vai ter de aguentar o cheirete. Pense bem. Pense mais cinquenta vezes. O que fará quando uma bela noite acordar, estremunhada, pensando que está a haver um terramoto e, afinal, constatar que era apenas o seu mais-que-tudo a peidar-se alarve e energicamente? Meteorismo, cara amiga, não é brincadeira nenhuma e não tem absolutamente nada a ver com romantismo; nem sequer tem a ver com meteoros ou outros corpos celestes, como estrelas-cadentes ou coisa que o valha. Borborismo é barulheira intestinal, meteorismo é traques. Tem aí uma boa chatice para se entreter.

Enfim, não há-de ser nada. Já pensou cinquenta vezes? E depois outras cinquenta? Então pense mais cinquenta.

Mande sempre (salvo seja).




consultório sentimental (1) - sexo anal
consultório sentimental (2) - manter a chama

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A passeadeira

A variante humana conhecida no estrangeiro e arredores como "portuguesito" distingue-se das restantes espécies pela relação de amizade que mantém com as passadeiras para peões. A passadeira é, para o portuguesito, um terreno sagrado e exclusivo; pode não ter mais nada, e geralmente não tem, mas a passadeira é dele e só dele, do portuguesito.

Se vai a correr para apanhar um autocarro, pára assim que vê aquela entremeada de rectângulos pretos e rectângulos brancos; e atravessa devagarinho, pé-ante-pé, quando não ao pé-coxinho ou mesmo jogando "à macaca" com os rectângulos; volta-se para trás quando está a meio, observa a paisagem de prédios e semáforos, mete conversa com o passeador do lado, conheça-o ou não o conheça de lado nenhum, coça o queixo, pensativo, desfaz-se calmamente de sua patriótica escarretazinha; posto o primeiro pezinho na primeira risca, pronto, acabou-se, os cabrões dos automóveis que parem, agora já cá estou, desenrasquem-se, trava aí, ó.

Curioso espécime de proprietário virtual, o peão-na-passadeira é um animal dotado de todos os poderes, terráqueos e divinos, baseados numa premissa extremamente sólida, tão sólida como o chão listado que pisa e que é inexoravelmente seu: "se ele bater, lixa-se, porque eu cá estou na passadeira". Para o peão-na-passadeira, o facto muito provável de "ele", o outro, o condutor, o automóvel, bater e mandá-lo de pernas para o ar, para o hospital ou mesmo para o inferno, bem, isso logo se vê e não interessa para nada: o que interessa é que o peão está na (sua) passadeira e se o outro bater a culpa é dele, ora, ora, tá-se mesmo a ver.

Não está ainda estudado, este fenómeno. Em Portugal, as passadeiras para peões não se destinam a facilitar o atravessamento pedonal das rodovias; são antes a coutada individual do peão, essa raça de existência transitória que vigora apenas quando o automobilista deixa, por momentos, de o ser. Em Portugal, um país onde absolutamente nada se respeita, a passadeira detém o exclusivo da intocabilidade; a passadeira é a nossa vaca-sagrada, tendo como ela umas manchas brancas e pretas, mas sendo também bastante mais achatada do que uma vaca propriamente dita; tirando isso, é igual.

Há aquele fulano que acaba de estacionar o popó em cima do passeio. Apressa-se a tomar posse da passadeira mais próxima. Assim que lhe põe um pé em cima, endireita os ombros e inicia a travessia, a impar e imponente, e assim vai, calma e sossegadamente, passeando entre dois passeios, senhor do seu destino de 10 metros ou menos. Se antes vinha apressado, agora estaca, vê a passadeira e dá-lhe uma coisa: sente-se em casa, dardeja sorrisos de superioridade, desdenha dos sacanas dos automóveis que obrigou a fazer parar; se algum destes se atrever a buzinar, será imediatamente fulminado com tremendo olhar de reprovação e, vá, um manguito, um insulto, qualquer coisa vale. Ao gajo em cima da passadeira tudo é permitido, aos outros nada.

Há aquela senhora que se lembra de repente, a meio da travessia, de limpar o cocó do sapato; os automóveis respeitosamente parados, em ambos os sentidos de trânsito, aguardam pacientemente que a senhora conclua a tarefa e que, satisfeita com os resultados, se digne completar a caminhada até ao passeio oposto. É que, obviamente, esse tipo de actividades higiénicas, limpar a merda dos sapatos e assim, é muito mais agradável quando efectuado a meio de uma avenida, por exemplo.

Há o jovem, cuja profissão é e será sempre isso mesmo, que resolve medir a distância total da passadeira, mas em pés, ou seja, colocando o calcanhar do esquerdo em contacto com a biqueira do direito (e vai um), depois o calcanhar do direito com a biqueira do esquerdo (e vão dois), e assim por diante, até chegar ao lancil do outro lado; vinte e três, são 23 pés, contei-os eu, mas depende do tamanho do pé de cada um e da largura da estrada, olha que interessante.

Há o "jovem menos jovem" que atravessa com ar de desafio, com ar de "aqui quem manda sou eu", com ar de quem sente falta de ar, tal é o nojo que sente e o desprezo a que vota os desgraçados que pararam para ele passar. Empina sua barriguita de sete meses, cofia o bigodinho sensacional, pára e solta seus gases, diz que sim com a cabeça, ameaçando sabe-se lá bem o quê. E diz "bem, bem, bem, bem", como se soubesse de fonte segura o que está certo e o que está errado. Enquanto passeia na passadeira, o homenzinho está nas suas sete quintas, que nunca teve, e é senhor de algo, coisa que só ali mesmo.

Há o grupo de tias, acabadinhas de ir à missa, todas pimponas; chega a primeira à beirinha da zebra e reserva logo lugar para as outras - assim que põe o pé, vira costas ao trânsito (já se sabe, se baterem, a culpa é "deles") e espera que passe a última; e lá atravessam, muito devagarinho, tagarelando alegremente sobre as incidências da liturgia e sobre outros assuntos. Uma delas acaba invariavelmente por entalar o salto afiado na calçada, de modo que todas vêm ajudar à libertação, por entre risinhos excitados. Entretanto, o engarrafamento já chega às portas da vila.

Há o grupinho de pessoas de cor (não se pode dizer pretos) que, habituadíssimos à tradição africana do respeitinho nas passadeiras, atravessam lentamente seus andrajos típicos, bamboleando os respectivos flancos direitos, a mão direita em sinal esotérico; na tradição oliveiriana, passam em câmera lenta e a preto e branco mostram a dentuça aos brancos enfiados em suas latas. Muito gostam eles destas coisas de branco, mano, a gente chega lá e eles param, até derrapam, hriiiii, yá, podes crer, é uma cena fixe.

E há também que não confundir os tipos de passadeira: as mais antigas, como se dizia nos meus tempos de escola, apenas serviam para indivíduos do sexo masculino e que usassem chapéu; além disso, era obrigatório atravessar na posição que a figura indicava, pernas e braços flectidos a 90 graus; caso contrário, podia-se atropelar à vontade. Mais recentemente, apareceram uns sinais mais de acordo com os novos tempos, estilizados, uma sombra que não se sabe se é de gajo se de gaja, europeu ou asiático; sinal dos tempos, passe a redundância, coisa da globalização. Nos anos 70 (ou 80?), os Monty Python descreveram o que se passava no então "apartheid" da África-do-Sul: os pretos atravessavam nas passadeiras utilizando exclusivamente as riscas pretas, e os brancos saltitavam apenas nas riscas brancas. Bons tempos.

Agora é tudo ao molho e fé em Deus. Já ninguém contabiliza os mortos e feridos causados pelas passadeiras, porque isso não interessa; cada imbecil que passeia numa passadeira (portanto, que passeia na passeadeira) provoca muito mais acidentes, choques em cadeia, chapa amolgada, até mais mortos e feridos, do que alguma vez se imaginou pudesse acontecer nas próprias passadeiras. A veneração à passadeira é mais uma forma de esconder o essencial; é fingir que se faz alguma coisa quando evidentemente não se faz coisa alguma. Por alguma razão ninguém utiliza as passagens aéreas para peões, havendo nas proximidades uma passadeira de nível; não é por acaso que estas passagens aéreas teimam em cair de podres. Isso acontece porque, lá em cima, não se obriga ninguém a parar; não existe poder para arrogar nem ninguém para esmagar com esse poder. E principalmente, numa passagem elevada "eles" não podem bater e, por conseguinte, a culpa nunca poderá ser "deles". É uma chatice.

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07/07/05

Alô, Embratel!




O que diz na linha 6 é: quero morrer cianeto.




Alguém procurou isto na Google, hoje, às 19:55 e, é claro, encontrou. E logo aqui, no Godot, em primeiríssimo lugar. Dispensava bem a "honra". Mas isso agora não interessa.




Cara amiga (ou caro amigo),

Parece-me que já nos conhecemos há muito tempo, e sinceramente espero que volte a esta página, um destes dias. Teria muito gosto nisso. Aliás, nem pode imaginar como ficaria satisfeito se recebesse uma mensagem sua! Basta um "olá", ou coisa do género. Mas também, se quiser, escreva mais, escreva o que quiser, escreva páginas e páginas, o e-mail mais comprido da História, pode até ser um chorrilho de insultos, caso lhe dê na gana; se não gostou do que leu aqui, ficaria muito contente se se desse ao trabalho de alinhavar umas coisas, por mais violentas que sejam, não me importaria nada que me desse uma valente cabazada, de palermóide ou mentecapto para baixo. Faço por merecer, e isso é bom, de vez em quando, lava a alma, faz-nos ver o que realmente é importante e aquilo que não vale nada. A sério. Esta é uma daquelas ocasiões em que vale; dou-lhe a minha palavra de honra de que lhe responderei de imediato. Se não lhe apetecer escrever, podemos conversar através de qualquer "chatroom". Enfim, o que é importante é que me contacte seja como for, ok? Fico à espera, hem?

Um grande abraço deste lado do Atlântico, do seu amigo

Dodo

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06/07/05

Deixem jogar os Mantorras!

Deputada Ana Drago citou relatório policial
Bloco de Esquerda diz que "arrastão" foi "fuga de jovens de carga policial"

24.06.2005 - 11h52 Nuno Sá Lourenço

O Bloco de Esquerda (BE) fez ontem a Assembleia da República regressar ao tema do "arrastão" da praia de Carcavelos para criticar a "manipulação, inexactidão no tratamento" noticioso do acontecimento.

Baseando-se no relatório do Comando da Polícia de Segurança Pública de Lisboa e no testemunho de um filho de um membro da Assembleia Municipal de Lisboa, que obrigavam a uma "análise à luz de novas informações", a deputada Ana Drago afirmou que "não houve "arrastão", houve talvez furtos, mas o que aconteceu foi uma fuga de jovens de uma carga policial indiscriminada".

Antes disso tinha já citado o relatório policial para sublinhar que o número de assaltantes era bem mais escasso: "De um grande grupo de 400 ou 500 pessoas só 30 ou 40 praticaram ilícitos. Muitos jovens que apareceram nas imagens televisivas e fotográficas a correr na praia naquele dia não eram assaltantes, mas tão-só jovens que fugiam com os seus próprios haveres."
A deputada responsabilizou os media por "ter dificuldade em acertar agulhas com o dito mundo real", acusando-os de recriar esse mesmo mundo. "A análise da fabricação do alarmismo é sempre importante. Muitos jornalistas, comentadores e cidadãos estão hoje a fazê-la", afirmou.

Os ataques não se limitaram à cobertura noticiosa do acontecimento. Ana Drago apontou ainda o dedo ao à "solução CDS", acusando aquele partido de ter relacionado criminalidade e imigração. "Correr os jovens dos guetos à bastonada para que fiquem quietos nos seus bairros e não desçam à cidade não resulta", sustentou.

A alternativa são "políticas de integração social e integração urbana ambiciosa" para combater o "Rio de Janeiro que vai crescendo em torno de Lisboa". Admitiu ainda que "deixar perdurar o sentimento de insegurança é insustentável", até porque quem o sofre são principalmente "os pobres e os remediados".

A reacção do líder parlamentar do CDS, Nuno Melo, foi a de acusar Ana Drago de mentiras. "Não houve um único momento em que tivesse ligado o crime à imigração", afirmou antes de rematar: "Continue a senhora deputada com os criminosos."

Ana Drago respondeu acusando o CDS de jogar com o "pânico social" e de se encontrar desfasado da realidade, chegando ao ponto de nem sequer ter o respeito dos agentes policiais. Usou como exemplo a manifestação de polícias dois dias antes onde os deputados do BE tinham sido aplaudidos e "o senhor deputado Nuno Magalhães [ex-secretário de Estado da Administração Interna] foi assobiado."

Público





Queixa na procuradoria

O Alto Comissário para a Imigração e Minorias Étnicas apresentou ontem uma queixa na Procuradoria-Geral da República. O objectivo é, segundo o padre Vaz Pinto, “saber como é possível passar na televisão filmagens que são secretas e não pertencem à Comunicação Social, mas à CP e à Polícia" (aparelhos de vigilância dos comboios).

Foram também pedidos ao Comando-Geral da PSP, para que sejam prestados esclarecimentos sobre o ‘arrastão’, e à Alta Autoridade para a Comunicação Social. Vaz Pinto considera que é preciso assegurar “a definição de um código de conduta para o tratamento da informação sobre a imigração e minorias étnicas em notícias que possam ser altamente lesivas da honra e da tranquilidade das pessoas”. Ao que o CM apurou, José Falcão, do SOS Racismo, votou contra o comunicado aprovado.

Vaz Pinto abandona o cargo em Julho, por “razões pessoais”.

António Sérgio Azenha
(foto DN)


Correio da Manhã



amplas liberdades

Uma matilha de 500 "excluídos" de raça negra "libertou" anteontem a sua "revolta" sob as cabeças dos incautos banhistas, obviamente notórios racistas, que por acaso se encontravam na praia de Carcavelos; a dita "revolta", ao que parece, foi espoletada pelo facto de não serem aqueles indivíduos, regra geral, possuidores de telemóveis Nokia e de "ténes" Nike, pelo menos em quantidade suficiente, entre outros imprescindíveis bens, como dinheiro em contado, relógios, bolas de futebol, óculos de sol, etc. Fontes geralmente bem informadas e que, ao contrário da maioria dos comentadores e jornalistas da nossa praça, estiveram de facto no local, à altura dos acontecimentos, relatam que aqueles "jovens" não apenas roubavam e agrediam quem se lhes atravessava no caminho, como se entretinham a provocar todas as pessoas de tez clara, insultando-as, cuspindo nelas e atirando-lhes com baldes de lixo para cima.

A comunicação social portuguesa, dominada por comunistóides e esquerdistas indiferenciados, laureou sua pevide informativa com imagens obviamente truncadas e evidentemente censuradas, tentando - como é da praxe - fazer passar a ideia de que se tratou de mero incidente, coisa de somenos importância, perpretada por "jovens", apenas "jovens", coitados, e o que é que isso tem, é a "irreverência" própria da juventude, que se há-de fazer, eles são mesmo assim, deixá-los lá, e tal e tal. E, de caminho, lá foram os mesmo profissionais dos "media" tentando farejar o mais leve indício de "violência policial" exercida sobre os "pobres" elementos do imenso gang de bandalhos. Parece que certa senhora terá levado uma bordoada inadvertida de um agente, e foi sobre isso, precisamente e principalmente, que incidiram as "investigações" jornalísticas, com diversos "directos" e "entrevistas de rua", em todos os canais.

Em Portugal, onde perdura ainda o terrorismo politicamente correcto, não é "possível" pronunciar palavras como preto, negro, bandido, marginal ou, mais prosaicamente, canalha. Mas no estrangeiro, pelo menos em alguns sítios, ainda há quem chame as coisas pela respectiva, compreensível, exacta designação. A BBC, por exemplo, chamou todos os bois pelo nome, quanto a este caso. Em texto e em imagens; estas passaram, nada curiosamente, "cortadas" nos "serviços informativos" cá do torrão; ou seja, não passaram.

Como refere a própria BBC, e como é óbvio para toda a gente, menos para o "Governo" português e sua avençada comunicação social, este "piqueno" incidente (e respectivos subsequentes anexos e recidivas) irá fatalmente afectar o sector turístico nacional. Depois de destruídas a agricultura, a pastorícia, os têxteis, as pescas, as indústrias mineira e de construção e reparação navais, entre muitos outros sectores de actividade, resta a Portugal apenas uma indústria com alguma viabilidade: o turismo. Não por acaso, a "europa" subornou este país governado por mentecaptos com umas auto-estradas, umas pontes e coisas assim; a finalidade evidente era que Portugal passasse a servir apenas como colónia balnear da Europa; transformar os portugueses, de uma vez por todas, em meros empregados de café - ainda por cima veneradores, atentos e obrigados. A "europa" vai-nos pagando para que nos destruamos metódica e alegremente, sem dar grandes maçadas a alemães, ingleses e franceses... mas parece que nem disso somos "capazes"; a incompetência lusitana é de tal ordem que nem a porcaria do turismo a gente consegue preservar; bem arrependidos devem estar, por estas horas, os pagantes europeístas germanófilos e francófilos, e mais ainda os castelhanos; por este andar, lá se vai o mesito de férias cá na colónia, para toda aquela massa de capitalistas e de trabalhadores europeus; com chatices destas, pretalhada a varrer areais à paulada, nem Herr Fritz nem Mr. Dupond nem M. Smith cá tornarão a pôr os pés, e Señor Paco "tampoco".

13 de Junho 2005

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OS DEZ MANDAMENTOS DO VERDADEIRO BLOGGER

1. Não terás outros interesses além do teu próprio blog.

2. Não farás para ti imagem esculpida nem terás mais pequena ideia de nada que se assemelhe ao que existe no blogbairro, nos céus, ou em baixo, na terra, ou nas águas que estão debaixo da terra.

3. Não pronunciarás o nome do Abrupto em vão.

4. Lembra-te do dia de sábado, para corrigir os posts que escreveste durante a semana.

5. Honrarás Blogger.com e Blogspot.com e cagar-te-ás altamente para os outros hosts merdosos.

6. Não insultarás gratuitamente; apenas se te pagarem.

7. Não cometerás plágio.

8. Não terás sistema de comentários, nem que a vaca tussa.

9. Não apresentarás falso testemunho contra quase ninguém.

10. Não cobiçarás o blog do teu próximo, não cobiçarás excessivamente a sua mulher, nem o seu escravo, nem a sua escrava, nem o seu boi (principalmente o seu boi), nem o seu jumento (principalmente o seu jumento), nem coisa alguma que pertença a teu vizinho, esse bloguista da treta .

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04/07/05

Citando Caius Julius Caesar (100-44 AC) "Há nos confins da Ibéria um povo que nem se governa nem se deixa governar."

Retirado de "http://pt.wikipedia.org/wiki/Lusitanos"

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03/07/05

A bicha solidária(*)

Jean-Christophe Rufin escreveu As Causas Perdidas (Edições Asa), espécie de autobiografia curta, numa forma híbrida de ensaio e de novela, em que relata a sua experiência de ligações perigosas com ONG e diversas instituições supranacionais ligadas à fluorescente indústria da chamada "ajuda internacional".

Ontem, 2 de Julho de 2005, decorreu em vários palcos espalhados pelo mundo o segundo evento designado por Live Aid, uma coisa cuja designação foi desta vez transformada em "Live 8" - ao que parece, com a filantrópica e humanitaríssima intenção de influenciar o grupo dos 8 países mais ricos do planeta (G8), que reúnem volta e meia para tratar dos seus negócios. Note-se que, por regra, e para a coisa ficar bem no comunicado final, os chefes das oito tribos (EUA, Rússia, Alemanha, França, Reino Unido, Canadá, Japão e Itália) acordam em "perdoar" algumas dívidas de alguns Estados mais "pobres", nomeadamente os mais paupérrimos países africanos.

O que existe de factor comum entre as duas coisas é um bocadinho assustador quando traduzido em palavras: ambos, reunião e festival, perdão da dívida e peditório global, são absolutamente sinistros. Sinistros, precisamente, porque nem uma coisa nem outra são aquilo que parecem. Sinistros porque ambos, governantes dos países "ricos" e intérpretes "solidários", se recusam sistematicamente a dizer a verdade - chamando subtis e simpáticos nomes a coisas que não têm nada de subtil ou de agradável: a morte pela fome, a violência gratuita, o primitivismo troglodita, a corrupção institucionalizada nas diversas repúblicas das bananas e, por fim mas não menos grave, a inevitabilidade da exaustão de recursos.

Jean-Christophe Rufin apresenta n'As Causa Perdidas, demonstrando-a com factos, uma tese esmagadora, terrível, e que se pode tentar sintetizar em alguns axiomas simples: em todas as épocas e em qualquer local, a viabilidade da existência de vida - qualquer que ela seja, não apenas a dos seres-humanos - é regulada por factores naturais que se traduzem numa equação elementar, ou seja, a quantidade de recursos (alimento) a dividir pelo número de elementos (bocas a alimentar); portanto, e como é evidente, quanto maior for a quantidade de recursos ou, digamos, quanto mais abastecida estiver a despensa, mais pessoas podem sobreviver abastecendo-se nela; logo, o contrário também é verdade, isto é, quando há menos pão (ou manteiga para, como dizia Eça de Queirós, barrar por cima) menos haverá para comer e, por consequência, é necessário que o número de bocas diminua em conformidade, até que o equilíbrio se restabeleça. A Natureza encarrega-se, desde que existe vida à superfície da Terra, de zelar para que este equilíbrio se mantenha: os períodos de seca prolongada, por exemplo, fazem ciclicamente razias sistemáticas em espécies inteiras, de mamíferos a insectos, passando por répteis e por aves; ultrapassado esse período de crise, quando volta a chover, segue-se uma época de pujança natural, os poucos sobreviventes da tragédia multiplicar-se-ão a uma velocidade estonteante e o ciclo recomeça.

Em concreto, o que As Causas Perdidas diz é que os efeitos da chamada "ajuda internacional" são devastadores, a muito mais curto prazo do que se imagina ou do que é tido por "conveniente": alimentar populações famintas pode, no imediato, impedir que milhares de pessoas morram à fome; no entanto, estas pessoas, cujo número excede largamente o das possibilidades que oferecem os recursos localmente disponíveis, sendo alimentadas através de bens essenciais importados "gratuitamente", irão (natural e fatalmente) gerar mais filhos... que terão fome dentro de pouco tempo, porque os recursos locais se mantêm os mesmos - ou menos ainda do que antes da "ajuda". O que diz Rufin, mesmo dando de barato que a indústria solidária consome a maior parte daquilo que deveria distribuir, é esta enormidade: quanto mais alimentos forem externa e artificialmente fornecidos às populações de regiões economicamente deprimidas, mais depressa essas populações se reproduzirão - e mais depressa o problema refluirá mas, a cada nova operação caritativa, exponencialmente agravado... até à insustentabilidade final, quando o problema alastrar de tal forma que já não haja de onde importar alimentos.

Algumas alminhas mais caridosas e militantemente boazinhas ficarão por certo, perante esta teoria, literalmente de boca aberta e de indignação aperrada. Mas afinal, o que diz esta besta-quadrada? Que se deixe morrer milhões de sudaneses à fome? Quererá ele que não se faça nada, quando morrem de subnutrição quatro crianças por hora (ou serão quarenta?***), apenas na África negra? Mas quem é esse gajo? Quem se julga ele para condenar assim à morte milhões e milhões de seres-humanos?

Calma. A coisa explica-se. O que diz Rufin, que não é propriamente um frequentador de concertos de caridade e que bateu durante décadas com os costados no pó da Eritreia (por exemplo), é que a ajuda internacional deveria focar a resolução e não o adiamento dos problemas: distribuir preservativos, juntamente com os sacos de farinha; formar localmente, de forma séria e metódica, eliminando a gigantesca máquina da indústria solidária, técnicos de saúde e professores que ensinassem métodos contraceptivos às populações; esterilizar gratuitamente quem o solicitar; criar mecanismos de controlo político e económico (ou pôr a fazer alguma coisa aqueles que já existem para o efeito), para que os donativos sejam canalizados para quem deles necessita e não para os bolsos dos caciques locais; desmontar o monstro burocrático cuja função consiste em parasitar as necessidades básicas de povos e nações, fazendo reverter essa poupança para os locais afectados, transformando os "Jeeps", os aviões e as mordomias do pessoal das ONG em simples alfaias agrícolas, em cursos de formação profissional, em fertilizantes e em medicamentos. Enfim, há mais de onde estas vieram, mas estamos conversados quanto a sugestões curiais; o objectivo seria então o da racionalização sustentada de recursos locais, através da desaceleração progressiva da taxa de natalidade, por um lado, e a criação de mecanismos de compensação, planeamento e actuação também locais. Em resumo, a ideia até não é assim tão disparatada e nem sequer é nova: "se alguém te diz que tem fome e te pede um peixe, não lho dês, mas ensina-o a pescar ou simplesmente dá-lhe a tua cana". Pronto. As alminhas caridosas já podem fechar a boca.

Incomparavelmente melhor, de facto, do que assobiar para o lado, porque "isto não é comigo" ou porque "já dei para esse peditório", e muitíssimo mais eficaz do que fingir que se está "muito preocupado" e ir ali adiante comprar o bilhete para a gala ou para o concerto de "solidariedade". Uma pessoa pôr-se na bicha solidária para ir ver o Sting ou a Mariza, entrar em gigantescos espectáculos circenses "solidários", parece que não garante um lugarzinho no céu; a participação em rituais e liturgias "solidárias", acender milhares de isqueiros ou cantar de braço dado o "We Are The World", não despertará provavelmente grande simpatia no Grande Irmão que está lá em cima. Mas também Ele, que tudo perdoa, já deve estar um pouco farto de tanto fingimento, enjoado de tanta hipocrisia e, mesmo sabendo que todos são Seus filhos, lá estará agora pensativo, cofiando as longas e veneráveis barbas, triste e um pouco revoltado por ver tanta incompetência.

Este deprimente circus maximus do eminente freak Bob Geldof foi o segundo no espaço de vinte anos. Nestas duas décadas, apesar de todos os esforços dos "artistas", a situação mudou, e de que maneira, mas para pior. Jean-Christophe Bruxo Rufin, por conseguinte. Ninguém sabe, hoje como ontem, o que acontece aos cinco por cento de muitos milhões que estes espectáculos "gratuitos" geram. Por mais industrializada que esteja a solidariedade e por mais que se tente lucrar com as acções que se detenham nessa indústria, mais uma vez a História se encarregará de demonstrar que a vaidade vende apenas desgraça. E a hipocrisia rende dividendos só durante algum tempo. Nunca durante o tempo todo.



(cf. Dicionário Houaiss: ténia, s.f. 1. design. comum aos vermes cestóides do género Taenia da ordem dos ciclofilídios, que reúne importantes parasitas cerebrais do homem, vulgarmente denominados solidárias. 2. m.q. SOLIDÁRIA (desinação comum); Etim lat. cien. gén. Taenia, as 'fita, tir, ténia')

*** são 20, uma a cada 3 segundos

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01/07/05

SOS Raquitismo


É algo de antropologicamente interessante e de espeleologicamente relevante. Neste blog (não neste aqui, mas naquele ali, onde diz "neste blog", ..., enfim, desenrasquem-se), reflecte-se sobre a problemática do raquitismo, suas implicâncias e relações intrínsecas, formais e informais, com a sociedade em geral e com os baixinhos em particular. Trata-se de inovadora e subtil localização virtual dedicada à denúncia dos abusos perpretados sobre a minoria minorca, passe a redundância, e sobre o pessoal pequenino de forma abrangente, para já não falar da miudagem empedernida, as massas heterogéneas bloqueadas algures numa qualquer fase imberbe. Ao que parece, esta gente embirra solenemente com tudo aquilo que cheire a Lilliput ou que seja swift, pura e simplesmente, ou ainda quaisquer outras diminutas, desfazadas ou simplesmente mirradas coisinhas. Feitios lá deles. Vale a pena a visita, de tão cómico. São muito engraçados, estes milicens: não gramam gajos altos e espadaúdos, e é que não gramam mesmo.
À disposição, uma linha telefónica para qualquer marquesmendesiano cidadão poder denunciar situações de abuso, tipo "ó tio ó tio, este gigantone batê-me": 217552700.
Dispõem também de capangas para serviço ao domicílio, ou seja, uns tipos não muito acima do metro e oitenta que, nas horas vagas do serviço de gorilagem na Soeiro Pereira Gomes, se voluntarizam para competentemente desancar um qualquer atrevido que chame "baixinho" a um baixinho ou "minorca" a um minorca. Excelente, limpo, lindo serviço. Digo eu, de baixo dos meus 173 cm que é, modestamente, uma altura suficientemente correcta.

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Salmo de David
Bendito seja o Senhor, minha rocha, que adestra as minhas mãos para a peleja e os meus dedos para a guerra.
Benignidade minha e fortaleza minha; alto retiro meu e meu libertador és tu; escudo meu, em quem eu confio, e que me sujeita ao meu povo.
Senhor, que é o homem, para que o conheças, e o filho do homem, para que o estimes?
O homem é semelhante à vaidade; os seus dias são como uma sombra que passa.
Abaixa, ó Senhor, os teus céus, e desce; toca os montes e fumegarão.
Vibra os teus raios, e dissipa-os; envia as tuas flechas, e desbarata-os.
Estende as tuas mãos desde o alto; livra-me, e arrebata-me das muitas águas e das mãos dos filhos estranhos, cuja boca fala vaidade, e cuja mão direita é a dextra da falsidade.
A ti, ó Deus, cantarei um cântico novo; com o salterio e com o instrumento de dez cordas te cantarei louvores.
É ele que dá a vitória aos reis, e que livra a David, seu servo, da espada maligna.
Livra-me, e tira-me das mãos dos filhos estranhos, cuja boca fala vaidade, e cuja mão direita é a dextra da iniquidade.
Para que os nossos filhos sejam, como plantas, bem desenvolvidos na sua mocidade; para que as nossas filhas sejam como pedras de esquina lavradas, como colunas de um palácio.
Para que as nossas despensas se encham de todo o provimento; para que os nossos gados produzam a milhares e a dezenas de milhares em nossas ruas.
Para que os nossos bois sejam fortes para o trabalho; para que não haja nem assaltos, nem surtidas, nem clamores em nossas ruas.
Bem aventurado o povo a quem assim sucede! Bem aventurado é o povo cujo Deus é o Senhor.

A Bíblia Sagrada, Salmos, 144

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29/06/05

O Evangelho segundo Cunhal


Génesis
Ao princípio era o capital; não havia nem sol, nem prosperidade, nem existia coisa alguma que o capital não mergulhasse em total escuridão. Era a idade das trevas, a chamada longa noite fasssista. E Marx disse: «Faça-se luz» e fez-se luz. E Marx gerou a Engels, e Engels gerou a Lenine, e Lenine gerou a Mao-Tse-Tung, que teve três filhos, Ho-Chi-Min, o primogénito, e Pol Pot, o meão, e Arnaldo Matos, o caçula. E a todos Marx pôs no Paraíso Socialista, que fica a Leste de Lot, na Terra do Nunca.
No segundo dia da Criação, Marx criou os quatro elementos naturais: a água, o ar, a terra e o fogo. E pôs na terra os animais, e no ar as avezinhas, e na água os peixinhos de todas as espécies; não pôs nada no fogo, por falta de tempo, mas achou Marx que tinha feito obra bem feita e sentiu-se satisfeito.
E ao terceiro dia Marx fabricou por suas mãos uma estranha criatura, com um inovador mecanismo reprodutivo, e chamou-lhe Mulher, e deu-lhe o nome de Passionaria, e ofereceu-a ao triunvirato, para que a tomasse quem quisesse. E Marx disse: «Ide e multiplicai-vos» e assim se fez, milhares de marxistas floresceram e tudo rolava perfeitamente no Paraíso Socialista, e Marx sorria embevecido, por ver tanta felicidade, do alto da Sua imponente figura, as longas e protectoras barbas dardejando bondade em todas as direcções.
Ao quarto dia, criou Marx a economia planificada, esplêndida invenção que permite a justa distribuição da pobreza, e assim nasceu a sociedade sem classes e sem exploradores e explorados e sem capitalistas e sem tesos. Marx proveu a todas as necessidades do rebanho, e o mundo vivia na santa paz daquele Senhor.
E ao quinto dia, inventou Marx o demónio em pessoa, o ser mais odioso que alguma vez pisou e pisará a terra, com focinho de porco e cartola com as cores da bandeira americana e chispes a condizer, e ao criá-lo foi dizendo: «Este é o porco capitalista, o explorador da classe operária e das massas oprimidas; tomai e comei, este é o meu cordeiro que deveis correr sistematicamente a pontapé, e depois deveis caçá-lo e amarrá-lo e temperá-lo com sal e assá-lo em forno a lenha; fazei isso em memória de Mim.»
E ao sexto dia, Marx, achando-se já vagamente cansado, endrominou o pão e o circo, e nisso ficou desde então consistindo a parte lúdica reservada aos felizes contemplados com a Sua benção, os sortudos a quem era dado o beneplácito socialista e a felicidade suprema de ser chamado de "camarada".
E ao sétimo dia, que era um 1º de Maio, Marx descansou. E dali em diante ficou para sempre sendo esse o dia daquele Senhor, o dia Socialista em todo o Seu esplendor, durante o qual é proibido produzir seja o que for de útil, quanto mais trabalhar, e em que apenas devem os camaradas demonstrar a sua imensa gratidão ao Luminoso e às Suas luminosas ideias. E ficou então determinado que seria de toda a prudência aplaudir, durante as 24 horas de cada 1º de Maio, o camarada presidente, doravante conhecido como "o paizinho dos povos", e dar vivas aos camaradas do comité central, e agitar flores e cartazes de incentivo aos camaradas trabalhadores, empunhando letreiros com pichagens alusivas, e as camaradas mulheres arranjaditas para o desfile, e as camaradas crianças de lenço vermelho ao pescoço, saudando o futuro radioso desde já assegurado, e tudo, mas absolutamente tudo, na mais perfeita ordem, as tropas alinhadas ao milímetro, os tanques e os carros de assalto garbosamente rebrilhantes, e os camaradas securitários perfilados, as metralhadoras aperradas, as matracas impecavelmente limpas.
E assim nasceu o conceito de felicidade absoluta, assim despontou um sol igual para todos, assim desabrochou a verdade a que temos direito, etc., na terra prometida, uma terra sem desfavorecidos nem favorecidos, e para todo o sempre, e amén.

Números
E estando certo dia Lenine, filho de Engels, pregando no monte de Barabinks, dele se aproximou um social-democrata, da tribo dos Liberais, e lhe perguntou: «Mas como sabes tu, irmão, aquilo que é melhor para o Povo? Acaso não será este suficientemente inteligente para decidir o que mais lhe convém?» E respondeu Lenine: «Em verdade te digo, mas verdade verdadinha: o Povo é muito infantil, é assim a modos que uma criança a quem é necessário repetir as coisas infindavelmente, até que a entendam, e mesmo que a entendam por fim não é seguro; não há, pois, tempo a perder; a revolução deve avançar a todo o vapor, quer o Povo queira quer não queira; no fundo, no fundo, nós, os camaradas ascetas, puros e imaculados de pensamento, é que sabemos aquilo que interessa ao Povo, porque estamos inspirados pela graça socialista e mandatados por Marx, criador de todas as coisas, devidas e indevidas.» E, em dizendo isto, lá foi Lenine pregar para outra freguesia. E ficou toda aquela gente que o estivera ouvindo meditando gravemente, uns cabisbaixos outros nem tanto, e havia quem dissesse «pois, o camarada tem toda a razão» e outros que, certamente possuídos pelo demo e pela cobiça, rosnavam coisas, diziam «mas que grandessíssimo filho-da-puta», ou «vai trabalhar, malandro» e aleivosias que tais. Mas Lenine e os outros doze camaradas do comité central nunca por nunca ouviam estas coisas, porque os anjos do Socialismo não têm ouvidos e porque, em última análise, vozes de burro não chegam ao céu, como todos sabemos, e o que interessa é a Fé, que move montanhas, como sabemos outrossim.
E houve uma vez em que se acercou do apóstolo Beria, que era um dos Doze, certa mulher com seu filhinho nos braços e lhe falou deste modo: «Camarada Beria, estou enferma, o meu filhinho está à morte, meu marido foi requisitado para obras na Sibéria; eu sou do Povo e em verdade te digo: o socialismo apenas nos trouxe fome e miséria; no tempo do Czar, mesmo que não tivessemos a santa liberdade, tínhamos pão; que pretendeis fazer, camarada, vós outros do Partido, para acabar com a fome aqui, nesta terra a que vós chamais paraíso?» E disse Beria para o lado, ao ouvido do camarada Secretário Geral: «Ó Lenine, foda-se, desenrasca lá esta merda, diz qualquer coisa à gaja, eu cá não sou de paleio, o meu negócio é dar porrada, se quiseres espeto-lhe já um tiro nos cornos, mas não me ponhas a falar com as massas, pela tua rica saudinha!» E o camarada supremo não foi de modas e respondeu à mulher deste jaez: «Mas como pretendes tu, mulher de pouca fé, que a gente resolva um problema que não existe? Fome? Qual fome, qual cacete, mulherzinha! Isso não é fome. No paraíso não existe fome, raios! Isso é mas é cólicas, ou o caralho. Não estarás tu mas é grávida, ó chavala, hem? Ora, ora, desampara-me a loja e vai-te curar. Andor. Xô.» E com um gesto seco a despediu, não sem antes brandir o chicote que trazia, exibindo assim a sua justa indignação pelo atrevimento daquela serigaita reaccionária.

Deuteronómio
E estando Honecker em peregrinação à terra santa, que ficava em certa ilha a uma quantas milhas náuticas de Miami, topou a certa altura com Fidel, alcunhado de "O Pregador", pelas belas e intermináveis pregações que usava fazer amiúde, e disse-lhe Honecker: «Atão, ó Castro, tás fixe?», ao que o insigne mestre de obras socialistas retorquiu: «Hombre, siempre, siempre hasta la victoria, el pueblo unido jamás será vencido, arriba la revolución» e seguiu dizendo outras coisas assim, as quais eram retiradas de uma gravação muito bem sucedida ao longo de quase todo o século I da nossa Era (séc. XX da era do galileu que não se pode dizer), e que era conhecida pelo título de "a cassette", e que pretendiam alguns invejosos tratar-se da mais pura propaganda soviética, um método sonoro e ruidoso de lavagem ao cérebro para utilização sistemática nas mentes simples e nos cérebros diminutos dos povos e das populações de todo o mundo. E irritava isto profundamente a todos os inspirados pela graça marxista, em todo o mundo, pois que de mui grande mentira se tratava, e tal se comprova facilmente pela quantidade de bulas e outros despachos das entidades de todas as Internacionais, da I à V, de ideólogos tão insuspeitos como Trotsky ou Krushev, desde Moscovo até Lisboa, passando por Phnom Phen e Pequim.
Nunca por nunca, em todo o lado e principalmente nos locais de implantação do socialismo real, se utilizou semelhante método de eliminação do pensamento pela repetição acéfala de lugares-comuns e de palavras-de-ordem. Está escrito nas verdadeiras tábuas do Kremlin: «Todo aquele que propalar qualquer verdade não oficial está condenado às chamas do inferno capitalista; tremei, agitadores reaccionários e outros exploradores das massas trabalhadoras! Este é o poder da verdade inteira, aquela que foi dita pelo Senhor Lenine, que está sentado à direita de nosso Pai Marx, única e verdadeira fonte de todo o conhecimento; a nossa verdade é aquela que permanecerá como a única, a inteira e a fundamental da existência, para todo o sempre ou apenas enquanto não deixar de ser conveniente.»
E foi por isso, convencido pela convicção absolutamente cega do camarada cubano, que mandou Honecker erguer um muro que protegesse o paraíso socialista da poluição capitalista, uma barreira contra as más influências e a dissolução dos costumes; e chamou-lhe "muro anti-fasssista" e mandou decorá-lo com arame farpado de belo efeito, em duplas e triplas fieiras, e com engenhocas diversas de disparo automático, e com torres de vigia muito elegantes, e nestas colocou uns guardas armados de Kalashnikov, esse expoente do intrínseco pacifismo socialista, e deu toda a liberdade para que dezenas de mastins famintos atacassem quem porventura se atrevesse a tentar entrar em território daquela república democrática. Tudo de boa fé e imbuído do mais profundo espírito democrático, de acordo aliás com a designação oficial do país, e foi também com a mesma motivação pacifista e não agressiva que foram instalados mísseis, convencionais e atómicos, ao longo de toda a linha que, nas terras demoníacas ocidentais, era conhecida como "cortina de ferro", ou "muro da vergonha". Óbvias manobras de desestabilização da felicidade instituída em todos os territórios que ficavam a Leste do Inferno; a intenção mais do que evidente, não apenas para a construção do muro mas para a instalação dos mísseis, era a do mais férreo pacifismo; manobra profundamente amistosa e pacífica, destinada a persuadir os pobres trabalhadores, aprisionados do lado de fora do muro, das excelentes e filantrópicas intenções do chamado socialismo real. O muro continha, em cada pedra e em cada tonelada de cimento, uma mensagem subliminar: "camaradas do ocidente e trabalhadores em geral, vocês desculpem lá, pá, mas isto aqui no socialismo é tão bom, a gente sente-se aqui tão bem e isto já está tão cheio que não podemos aceitar mais gente"; o que o muro queria dizer, em suma, era que os pretendentes a entrar no paraíso eram muitos, mas os recursos do paraíso não chegavam para acolher todos; e quanto aos mísseis, tratava-se evidentemente de artefactos pirotécnicos, sofisticados, é certo, mas unicamente destinados a servir para o foguetório comemorativo que inevitavelmente se seguiria à (futura, próxima, inevitável) libertação do "ocidente".
E um dia sucedeu que certo fariseu, Gorbatchov de seu nome e "careca malhado" de alcunha, decidiu reduzir tudo aquilo a patacos, o muro, as armas e os mísseis; para grande surpresa de qualquer democrata que se preze, não houve, como seria de calcular, uma invasão maciça de trabalhadores desejosos de entrar no paraíso socialista mas, pelo contrário, uma imediata e gigantesca correria de trabalhadores a fugir do paraíso e deprimentemente ávidos de aderir ao decadente modo de vida capitalista. E bem depressa todos os países que beneficiavam da bem-aventurança socialista trataram de se passar para o campo adversário. Traidores, obviamente.
A revolução triunfará, inexoravelmente. Se está nas escrituras que triunfará, não há que duvidar de que triunfará. A revolução vencerá. Triunfará. Vencerá. Triunfará. Vencerá. Triunfará. Vencerá. Triunfará. Vencerá. Triunfará. Vencerá. Triunfará. Vencerá. Triunfará. Vencerá. Triunfará. Vencerá.

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28/06/05

Colecção de cromos


Em catraio, havia um jogo tramado, apenas para especialistas, uma coisa que se chamava "o vira" ( juôgo do bira, mais propriamente): consistia em bater com a mão em concha num cromo "deitado de costas", de forma a fazê-lo virar de lado; para ganhar o cromo do adversário era necessário apenas ser o primeiro a virá-lo. De facto, um jogo tão estúpido como parece, mas lembro-me perfeitamente de que passávamos horas naquilo e havia os campeões, rapazes que manuseavam grandes maços de cromos, colecções enormes de jogadores da bola. Havia os "mais ruins" (os mái rôins), aqueles cromos que, ninguém sabia porquê, eram editados em menor quantidade: o Tomé, da União de Tomar, o famoso Caiçara, avançado do Vitória de Guimarães, o Jacinto João do Vitória de Setúbal, o guarda-redes Benje, do Varzim. Naqueles épicos tempos de jogos tão estranhos como o "espeta", o "trincolé" e o "chincalhão", a colecção de cromos era o expoente máximo da riqueza pessoal; os maços de cromos ficavam tão ensebados e passavam tantas vezes de mão como as notas de banco dos adultos, e serviam realmente, para nós, os putos, como moeda de troca e como factor de prestígio. Uma beata podia valer um cromo "fácel", um cigarro inteiro cotava-se em quatro "fáceles" ou um "rôin"; já uma "chicla", por exemplo, podia valer entre seis e oito fáceis ou um ruim e três "repetidos".

Desenterraram-se-me, assim de repente, estas longínquas recordações, quando por mero acaso abri uma engraçadíssima página da net: Os Maiores Cromos Portugueses, nem de propósito. Tem pouco a ver com aqueles tempos de escola primária, são apenas cromos virtuais, mas valeu a visita. Não tem (ainda?) nem o Alberto João Jardim nem o Jerónimo de Sousa, nem sequer um Júlio Isidro, dois Eládios Clímacos ou três Marias Vieiras, e a alguns da colecção ainda faltam os dizeres, mas lá está, assim comássim, folhear aquilo é um bocado bem passado - de ambos os lados. Bem escrito e melhor pensado, eis uma excelente ideia escondida nos recessos cibernéticos.

O visitante até pode votar no maior cromo nacional, de Zé Cabra a João Baião, passando por ícones tão destacados da patarequice lusa como Jorge Sampaio, Joel Branco, Linda Reis, Graça Lobo, etc. Só vendo e lendo. Uma iniciativa benemérita e patriótica. Parabéns ao autor.

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26/06/05

(rigorosos) exclusivos aqui do Zé Maria Pincel - III


"O amor é louco, não façam pouco" desta loucura e ausência

lyrics monica sintra - pensa bem cantadeira

etimologia "vaca fria" Delhi

manahmanah os marretas

censura cartoon "José Vilhena" ícone

letras pritty para chatear

alugar filmes porno de fatinho e gravata

"moscas, melgas e mosquitos" utilidade

resumo "floresta portuguesa" depauperada

"marca portuguesa" de roupa pinko

legalizar jantes e suspensões torcidas

xamon permanece cheiro sabonete

Fluxograma de reinício de actividade de aparelho bonecos

"contentores de lixo" nas ruas cheios de lixo aluguer

Luis Miguel ��chame A M�� La Culpa lyrics

texto manueu bandeira

quim barreiros "bacalhau à portuguesa" lyrics

o que faz um draive e qual a sua função? segredo de iniciado

"editor adjunto" "euro 2004" db

"faqueiro da sua vida" revista lux


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25/06/05

São os caracóis, são os caracolitos

Uma dose de caracoletas, esplêndida, mesmo assim, em travessa rasca de zinco. Bem passaditas, com bastante sal e aquele molhinho delicioso, misterioso, avermelhado e com uns grãos de qualquer coisa estranha no fundo da taça. Ganchos apropriados, de cabo branco e ponta curva. Cervejola preta a acompanhar. O empregado cortou a pedido o som da televisão. Lá fora, a minha hora de fim de tarde - o mundo suspenso, ganhando balanço para mais uma noite escura.

A perfeição em novo e insuspeitado formato. A vida é bela, por instantes.

Ao meu lado, o compadre comenta que "as caracoletas têm um bocado de ranho".

Fim

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época de exames

excertos do blog Cindycato de Terroristas Blogosféricos (http://cindyterblog.blogspot.com/)

Não estamos aqui para fazer amigos. O nosso objectivo é unica e exclusivamente demonstrar o lado mais ridículo da blogosfera. O lado das amizades. Da proliferada troca de favores, ou seja, o acto de comentar um blog porque o/a autor(a) desse blog comenta o outro blog. Situações como as que ainda agora aconteceram com a Blogotinha de tomar o número de visitas pela qualidade do blog. Não, isso não é qualquer tipo de metonímia, nem nada que se pareça. Simples estupidez. (http://cindyterblog.blogspot.com/2005/06/esclarecimento-populao.html)

Talvez como consequência dessa atitude, a maioria dos posts que se referem à Cindy, não saberão muito bem que posição tomar. Não sabem se concordar connosco ou discordar por completo. Também aqui está presente o mercantilismo. “Será que se eu disser que até concordo com eles perco visitas e comentários?” – deverá ser esta a dúvida. Contudo, as vozes concordantes começam a surgir. Julgo que a consciência para a necessidade de mudança na blogosfera é generalizada, mas nem todos a admitem. Seremos nós uma espécie de referendo sobre o aborto? (http://cindyterblog.blogspot.com/2005/06/vamos-l-ver-se-nos-entendemos.html)


A Blogotinha é tão politicamente correcta que até a responder a insultos o é. Provavelmente, porque todos os dias procura aumentar a sua média de visitas por forma a chegar ao topo. O sonho dela é ser o Pacheco Pereira: escrever coisas que não interessam a ninguém mas que geram polémica. Vá se lá perceber isto... (http://cindyterblog.blogspot.com/2005/06/se-eu-fosse-cirurgio.html)

cumixoso: Caixa de Insultos?? Nao é necessário... ter um blog roxo, com o titulo de "cindy", um contador que começou no milhão e 3 pastilhas que têm como nome "van der.. GAY" não necessita de ter caixa de insultos...; (http://cindyterblog.blogspot.com/2005/06/momento-blogotinha_18.html)

Afufalhada...No mínimo?
Apresenta-se a Blogotinha, Raínha dos Posts inúteis! Calcula-se que, mais de 50% do tempo passado no emprego será feito a postar: "está calor, comentem", "o meu patrão coçou a virilha, abre-se já um poll", "Qual é o teu Legume? Participa já". O mais incrível neste blog porém, é a quantidade de visitas que obtém (640 pessoas em média/dia), o que leva a pensar que afinal não só as moscas são atraídas por merda. (http://cindyterblog.blogspot.com/2005/06/blogotinha.html)



Língua Portuguesa: 15
Introdução à Sociologia: 19
Educação Visual: 11
Técnicas Laboratoriais: 14
Álgebra: 14
Expressão Dramática: 18
Química: 12
Educação Física: 10

Aprovado com a média geral de 14 valores

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os passageiros do vento




O génio tem um preço, de facto. Procurei François Bourgeon na Google e fui dar, surpreendentemente, a uma série de becos sem saída ou, como é tecnicamente mais correcto dizer-se, "dead links".

François Bourgeon é "só" o mais espantoso autor de banda desenhada do século XX. Nada mais, nada menos. Não sou especialista no assunto, mas parece-me que ambas as coisas, pranchetas e diálogos, são de sua autoria. Para além do argumento, é claro. Perfeito. Maravilhoso. Cinco estrelas, vinte valores. A série Os Passageiros do Vento, cinco tomos, é absolutamente imune a qualquer espécie de qualificativo, porque o brilhantismo resplandece por si mesmo, evidentemente, sem palavras a atrapalhar; os livros devem simplesmente ser lidos, vistos, relidos e vistos outra vez, e outra, e outra.

Apenas 237 resultados da pesquisa restrita a páginas em Português ilustram perfeitamente a genialidade do autor. Mesmo sabendo que a tradução até não está nada mal feita (e que, por coincidência, o nome de quem traduziu não aparece em lado algum), não me recordo de alguma vez ter lido a mais ínfima referência a este ícone da literatura contemporânea. De resto, a máfia intelectual portuguesa, que se entretém amiúde a debitar umas coisas sobre aquilo que é e não é literatura (com "éle grande", diriam esses pacóvios), nem considera a chamada "banda desenhada" como algo digno de apreciação(*). Compreende-se. A ignorância resulta da castração intelectual, e esta é consequência da institucionalização da mediocridade. Em Portugal, é naturalíssimo que praticamente ninguém conheça François Bourgeon; e que se tenham editado apenas 4.000 exemplares de cada um dos livros dele. Em Portugal, o génio não vende. Não existe, portanto. O pessoal é mais afeiçoado ao Tio Patinhas, nos bonecos, e ao Avô Cantigas, na indústria porreirista.

Mas isso agora não interessa nada, como diz não sei quem.

A acção(**) passa-se no século XVIII, em França, em Inglaterra e em vários pontos de África. Excerto de um diálogo entre Isa, a figura feminina central, e um padre da Missão francesa na feitoria de Judá, no actual Benim (ex-Daomé).

_ É verdade que os daomeanos fazem às vezes sacrifícos humanos?
_ Infelizmente!... o sangue é o laço sagrado entre os homens e o cosmos. Só ele permite entrar em comunicação com os deuses e os antepassados.
_ Então, onde nós só queremos ver barbárie, existe um acto religioso comparável ao que o leva todos os dias a beber o sangue de Cristo?!...
_ A analogia é audaciosa... Hum! Prefiro não a seguir por essa encosta arenosa.
_ No entanto, é por um caminho de certo modo mais movediço que o senhor segue uma igreja que, ao mesmo tempo que prega o amor do próximo, não hesita em se fazer cúmplice e aliada dos mercadores de escravos!?...



imagem: http://www.lambiek.net/bourgeon.htm
biografia: http://www.bdparadisio.com/scripts/detail.cfm?Id=269
(*) À excepção de Hugo Pratt, essa bandeira (trapalhona) da intelectualidade bacoca. Digo eu, que não aprecio, mas que além disso não passo de tremendo ignorante na matéria.
(**) Os Passageiros do Vento. 3. A Feitoria de Judá, ed. Meribérica/Liber (copyright Éditions Glénat, 1981)

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24/06/05

O Melga


Uns viram costas ostensivamente, fingem-se distraídos, outros rapam do telemóvel e desatam a fingir que estão a fazer imensas chamadas urgentíssimas, outros ainda piram-se de imediato, vou ali num pulo ver se está a chover, deixei uma panela ao lume, vou jantar que tenho fome, adeuzinho.

O Melga é um gajo verdadeiramente assustador: marreco até parecer um ângulo recto com pernas, a quase 90 graus, consegue projectar de forma impossível a cara, o nariz metediço bem à frente, beiçola de ex-mulato deslavado ou, melhor dizendo, assim como que se fosse da raça de Michael Jackson, ou seja, ex-preto. Não é pela malota ou pela tromba deslavada que o Melga é assustador mas, precisamente, por causa daquela maldita penca; aquele nariz é a imagem de marca do fulaninho, o mais cusco e má-língua cá do bairro e arredores; e ver a penca dele é muito mau sinal, porque fica-se logo a saber que o resto vem atrás - o que não indicia nada de bom.

Justiça lhe seja feita, o Melga redefiniu o próprio conceito de "chato com'à potassa"; ele é a própria chateza em pessoa, e faz gala disso, até ao absurdo. Geralmente, o que apetece fazer - a quem tem de levar com ele - é espetar-lhe de imediato um murro nos cornos, derrubá-lo com toda a limpeza e encher-lhe o focinho de pontapés. Pessoalmente, Deus me perdoe e me desvie dos maus pensamentos, já por diversas vezes dei comigo a arquitectar planos para o assassinar, à paulada, ou com um tiro de zagalote em cheio naquelas beiças de um cabrão; o mais agradável, no entanto, confesso, seria atá-lo a um poste de iluminação pública e, depois de devidamente amordaçado, desvendar-lhe a anatomia de um ombro, por exemplo, a golpes de corta-unhas - assim, tic tic tic tic, até ao osso, e deixá-lo depois esvair-se em sangue. Recordo perfeitamente que fiquei muito contente comigo mesmo, quando inventei esta inovadora e maquiavélica forma de liquidar chatarrões; e de facto, convenhamos, é de certa forma gratificante e consolador poder, ao menos, imaginar a sensação, a satisfação que seria dar cabo dele por este método.

Enfim, não se pense que sou só eu quem detesta, odeia, abomina aquele restolho de ser-humano; assim de cabeça, enumero de repente uns dez ou quinze gajos que eram capazes de lhe fazer coisas ainda mais incríveis do que aquela do corta-unhas. Já vi tipos, absolutamente lívidos e cheios de olhares esgazeados, espumando de raiva só por verem o animal à sua frente.

É que é mesmo insuportável, caramba. Conhece de cor e salteado a vida de toda a gente, mesmo ou principalmente a das pessoas que não conhece. Geralmente bêbedo a partir das duas da tarde, todos os dias do ano, há mais de 30 anos, é menino para provocar sistematicamente seja quem for, é capaz de interromper qualquer conversa e de se meter em absolutamente qualquer assunto, quer saiba alguma coisa a respeito quer, em especial, se não souber patavina. Nunca ouve uma única palavra que se lhe diga, mas tem sempre o palpite pronto, artilhada a observação mais cretina possível, a insinuação mais soez e canalha que imaginar se possa. A cada nova sessão de porrada que lhe toca em cima dos lombos, quando algum desconhecido se marimba para a "deficiência" que ele tem nas costas, o Melga acaba sempre por sair impante e sereno, dardejando uma auréola de heroísmo e de quase santidade.

Na tradição contracultural da juventude que anda hoje pelos quarentas, esta grandessíssima besta nunca pronuncia as palavras "sim", "muito" ou "pá", apenas para dar alguns exemplos da novilíngua da geração abrilina; utiliza, no lugar daquelas, respectivamente, "yá", "bué" e "meu" (ou "man"). Uma das características mais irritantes, e que o torna espécime único entre a raça dos chatos, é o vício de tocar sistematicamente no interlocutor, enquanto fala, e note-se que ele fala, evidentemente, o tempo todo; aliás, aquela mania não é bem "tocar", é mais dar umas pancadinhas, umas palmadas ou umas tapinhas com as costas da mão, para chamar a atenção a quem de momento o está a aturar; dá mais uma pancadita num braço, no ombro, na barriga, e acompanha sempre a coisa com um "ouve!" gritado; de maneira que, em cada minuto, a vítima leva dez pancadas e ouve dez vezes "ouve!", mesmo que tente interromper, mesmo que tenha um súbito ataque de caganeira, ou ainda que lhe dê um enfarte do miocárdio ali mesmo.

O epíteto mais carinhoso que lhe é de ordinário dispensado, seja por quem for, é o de filho-da-puta. Também nesse ramo etimológico, imaginação não falta a quem algum dia teve o azar de o conhecer. Evidentemente, é muito raro alguém dizer-lhe em plenas trombas coisinhas deste calibre; regra geral, é pelas costas ou, por outra, é pela marreca - porque ninguém se arrisca a tê-lo por inimigo. Se bem que toda a gente saiba perfeitamente que não é como inimigo que ele é mais perigoso, mas como amigo, precisamente; mais curial seria dizer que é indiferente, afinal, o tipo é mauzinho para com os amigos e diz tantas filha-de-putices de uns como de outros. É indiferente. O cabrão debita continuamente fel e maledicência e é o mais competente dos intriguistas que alguma vez surgiram à superfície da terra.

O Melga é o Melga, não há outro. Na juventude, que nunca largou em absoluto mas que já lá vai em termos cronológicos, algures no passado, desenvolveu um problema de consolidação articular na zona lombar; depois, com o passar do tempo e a acumulação de copos, drogas e má vida em geral, a coisa degenerou em artrose complexa e, uns anos mais tarde, resultou naquilo a que ele hoje dá a pomposa designação de "espondilite anquilosante". Evidentemente, a história que pôs a circular, e que perdura, não tem nada a ver com degenerescência óssea: diz que foi numa cena de pancadaria, em pleno Bairro Alto, que levou uma cacetada nas costas, logo ele que estava ali, qual cavaleiro andante dos injustiçados nocturnos, apenas tentando proteger não sei quem, já não me lembro exactamente porquê; o que aconteceu, como sempre acontece nos sarilhos em que se mete, não teve nada a ver com ele mesmo, ou ia só a passar ou estava a defender alguém. O verdadeiro herói, em suma.

E culto como poucos, vagamente genial. É perfeitamente capaz de comentar um desafio de futebol estando de costas para a televisão e sabe sempre, sem nunca olhar para o écrã, se foi ou não falta, quem substituiu quem, o que está o árbitro a dizer e o que tem o treinador visitante no bolso esquerdo. Nunca manifesta a mais leve dúvida sobre questões tão simples e transparentes como a situação da balança de transacções correntes, a situação política no Daomé ou a História comparada da filosofia segundo Hegel; conhece, de resto, em perfeito detalhe, por exemplo, o funcionamento dos motores da nave Challenger ou o método de fabrico das fraldas descartáveis. Nunca entupiu, absolutamente, perante assunto algum.

Escondido atrás da malota, sentindo-se protegido pelo putativo estatuto de "deficiente" (e nas circunstâncias heróicas em que tal "aconteceu"), e ainda para mais estando permanentemente carregado de gasolina de avião e de outras substâncias químicas, o Melga acabou por conseguir um estatuto de totais inimputabilidade e irresponsabilidade; por fim, resolveu em seu proveito exclusivo um dos mais profundos e antigos problemas da humanidade - é feliz. Ninguém o chateia, porque é ele quem chateia toda a gente. Ninguém o agride, porque ele é aleijadinho. Ninguém o confronta, porque ele não é nem branco nem preto, e nem sequer mulato. Como não é realmente amigo de ninguém, passa por amigo de todos e, portanto, todos são seus amigos. Não tem problemas ditos emocionais, nenhuns, porque tem o sexo na língua e não onde é costume. É o maior e o mais antigo dos cromos, uma pequena figura pública, e anda por isso sempre contente da vida.

Pois, bruxo, eu bem dizia. Falai no mau. Lá vem ele.

Foda-se.

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10/06/05

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http://tombstone.dogcrap.net/tombstone.php

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09/06/05

Luís, seu palerma, enfim, compincha, camarada, irmão de Letras


"No mais, Musa no mais, que a lyra tenho
destemperada e a voz enrouquecida,
e não do canto, mas de ver que venho
cantar a gente surda e endurecida.
O favor com que mais se accende o engenho
não no dá a patria, não que está mettida
no gosto dea cubiça e na rudeza
de huã austera apagada e vil tristeza".

(Canto X estrofe 145)

Dá aí uma palavrinha a Deus; por minha intenção; crente e prestes, bem sabes; obrigado; fico devedor


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08/06/05

My name's Dodo. Dodo Bird.


Without the final "t", please. Godot, with that final "t" is actually something else.

Let me put it once again this way: nothing to do with diapers.

Just Dodo. Loose the fuckin' T. Have some tea. Whatever.

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07/06/05

em menos de um fósforo


Pela terceira vez o digo aqui, em três anos consecutivos: o problema dos incêndios não é a falta de limpeza das matas. A falta de limpeza das matas não tem nada a ver com a ocorrência de incêndios e muito menos com a sua frequência. A "limpeza das matas", na acepção geralmente aceite e difundida, é um perfeito disparate: absolutamente inviável, dada a dimensão e as características dos terrenos; totalmente contraproducente, porque os matos e os restolhos são o alimento da floresta e do bosque; inteiramente falaciosa, já que se trata de puro pretexto para que nada de eficaz seja feito.

Toda a gente sabe perfeitamente quais são as causas dos incêndios que vão destruindo, ano após ano, as nossas manchas florestais: a desertificação do espaço rural, o plantio industrializado de "madeira de crescimento rápido" (em especial o eucalipto) e os interesses das indústrias que dependem daquela matéria-prima, a especulação imobiliária, a facilidade de recrutamento de incendiários, a desorganização das entidades envolvidas, a corrupção generalizada em todos os sectores envolvidos no combate aos incêndios. A repetição sistemática da falaciosa "limpeza das matas", por parte de governantes e responsáveis, com eco acefalamente matraqueado na comunicação social, destina-se exclusivamente a desviar as atenções da opinião pública em relação aos reais motivos da questão.

É um truque velho e relho, em tempos utilizado em exclusivo pelos comunistas mas hoje plenamente adoptado pelos inimigos de antanho, os capitalistas: repetir à exaustão uma patranha, até que ela se transforme em verdade universal; é a conhecida técnica de "uma mentira muitas vezes repetida acaba por ser verdade". O povo gosta de coisas simples e, de facto, "falta de limpeza das matas" é muito mais fácil de decorar do que, por exemplo, termos tão vagos e terminologia tão difícil de pronunciar como "especulação imobiliária" ou "corrupção generalizada"; de resto, assim culpa-se alguma coisa que não se sabe como poderia ser feita e que, em qualquer dos casos, teria sempre de ser feita "por eles", pelos outros, os "maus", e nunca por nós mesmos, os "bons", por conseguinte.

Como se trata de tarefa obviamente hercúlea, presumivelmente impossível, está justificado à cabeça que nada se faça porque, é claro, "não há meios humanos nem materiais". Portanto, é o argumento perfeito: a causa dos incêndios é a "falta de limpeza das matas" mas, como não é possível "limpar as matas", assim de repente, os incêndios continuam e são, por conseguinte, uma fatalidade em relação à qual não há nada a fazer... a não ser, talvez, continuar a pedir mais "limpeza de matas".

É realmente (e evidentemente) necessário o natural, previsível e rotineiro arranjo das áreas junto a edifícios, estradas e outras infra-estruturas dispersas, nas zonas florestais; que sejam efectuados o desbaste e a remoção de vegetação rasteira e de restolhos, em todas as zonas de habitação ou de trânsito que possam vir a ser afectadas pelos incêndios florestais. Mas não é a estas acções, de tão evidentemente necessárias, que se refere a propalada "limpeza das matas"; com esta expressão, pretende-se fazer passar a mensagem de que é necessário "roçar" todo o mato que reveste o solo da floresta; é cortar árvores mortas, arrancar cepos, remover as matérias caídas das árvores, folhas e galhos, raspar à sacholada todo o terreno, ou presumivelmente meter o arado e revolver toda a terra em volta de quaisquer raízes, até deixar apenas as árvores propriamente ditas; o que não estiver na vertical e não tiver mais do que uns quantos centímetros de diâmetro, arranca-se, corta-se, leva-se a aterro. A "limpeza das matas" consistirá, portanto, em rapar literalmente - não deixando absolutamente nada nos solos - todos os milhões de hectares dos terrenos florestais nacionais, públicos e privados.

Ora, além de impossível, esta ciclópica e, ainda para mais, cíclica tarefa seria o mesmo que - pura e simplesmente - matar a floresta. Quebrado assim o ciclo biológico, retirada a matéria cuja decomposição iria constituir a fonte de nutrientes dos espécimes arborícolas, nenhuma árvore sobreviveria mais do que um ou dois anos. Findos os quais, os próprios terrenos, descarnados e despojados de matéria orgânica, iriam começar a desintegrar-se, por pura exaustão, e a transformar-se em granulado de matéria inorgânica: primeiro, terra e pedras, depois areia e pedras e finalmente, também pela acção dos elementos naturais (chuva e vento, que iriam "lavar" o que restasse), os terrenos transformar-se-iam em pó e pedras: deserto. Ou seja, uma bela paisagem marciana.


P.S.: pelo que vou lendo, e a julgar, nomeadamente, pelas reacções aos dois anteriores pregões que aqui deixei, sobre o mesmo assunto, é necessário ser engenheiro agrónomo para dizer umas asneiras sobre a floresta; ou Chefe de Corporação de Bombeiros para mandar umas bocas sobre o fogo; ou, se calhar, Presidente da República para perorar sobre o estado da Nação. Não sendo nem uma, nem outra, nem outra das coisas, respectivamente, julgo-me no direito de dizer as asneiras que entender, mandar as bocas mais imbecis deste mundo e do outro, sempre que me der na telha, ou mesmo perorar e invectivar o meu peixinho vermelho, ainda que por escrito. Oh, well, shoot me.

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06/06/05

Na frente


O Dragoscópio consta da lista de ligações do Portal Nacionalista, na categoria de "Blogues nacionais" (national blogs, se fosse em Inglês). Não sei se lhe dê, caro Drago, ou os parabéns ou os pêsames. Mas enfim, aqui fica devidamente bufado o facto, que suponho não ser ainda, pela modéstia que lhe é unanimemente reconhecida, do seu conhecimento.

E dou graças a Deus, já agora, por duas coisas, uma óbvia e outra subtil: por raramente alguém aqui vir e por ser absolutamente impossível, a seja quem for, carimbar aquilo que escrevo. E fica o lembrete: descascar mais umas quantas vezes no trogloditismo ultra-direitista, na brutalidade de tudo aquilo que é hiper, radical e definitivo - sobas da Madeira e outras sobras assim.

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Portugal Telecumunicassões


Voçê está aqui
http://www.ptcom.pt/vtsolucoesespeciais/noticias.aspx?idtipo=npnc

Serviço temporariamente indísponivel.
http://www.ptcom.pt/error.aspx?aspxerrorpath=/vtsolucoesespeciais/default.aspx

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05/06/05

coração apetitoso

Por mais que vire e revire, não se deixa cozinhar, este coração. Bem rijo ele é, caramba, que rijo mesmo, parece um coirato. Isto nem com as moelinhas, nunca tal vi, carne mais dura não há. Coração empedernido, é o que é, com este garfo o pico e ainda assim, nada, lá deixa sair uma gotita ou outra, de vez em quando, grande avarento, mas ali continua frigindo, indiferente, coriáceo, frrgeee, de um lado e de outro, uma e outra vez. Ponho mais um pouco de manteiga, uma talhada de banha, umas gotinhas de azeite a ver se encorpa ou se se deixa finalmente vencer e amacia, pincelo com molho picante, alho e flor de sal com ervas aromáticas, tudo macerado em almofariz antigo, supremo requinte de culinária, mas nem assim, este coração não deixa, não se comove nem um pouco, nada, nadinha, com a minha fome. Que já vou babando alarvemente, pois, pois vou, antecipando o prazer de o filar a mãos ambas, de o retalhar à dentada, sôfrego, mastigando-lhe os pedaços suculentos, aquelas nervuras misteriosas onde quase tudo o que aconteceu ficou gravado para sempre. Ah, apetece-me roer-lhe aqueles detalhes de complicadíssima designação e as cavernas onde tanta coisa se passou. Desfazer selvaticamente todos aqueles veios e as nervuras pormenorizadas, que mais parecem cicatrizes. Abri-lo à mão e descobrir-lhe por fim os segredos mais profundos, como quem arromba a porta da alma.

Queria cozinhar este belo coração para o meu jantar, e comê-lo assim, simples, sem qualquer espécie de acompanhamento. Mas ele não: não quer. Vai ficar tão duro como sempre foi. Já vi tudo. Não adianta insistir; quando não, queima.

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