Consultório sentimental (3)
A intimidade intimida(...)
Verdadeiramente, devo confessar que tenho perfeito horror à instituição casamento. Não me imagino a ter de partilhar com a mesma pessoa, com uma só pessoa, todos os dias, para o resto da minha vida, absolutamente tudo, desde as tarefas domésticas até à escova-de-dentes, passando pelos lençóis e cobertores, ou seja, a cama. Acho hoje, como sempre achei, que a simples ideia de "casar" é só por si suficientemente repugnante para sequer ser tomada como hipótese. (...) Em suma, parece-me que o casamento deveria ser encarado como um sacrifício extremo e não como motivo para qualquer espécie de regozijo e muito menos de festejo; parece-me aliás já ter lido qualquer coisa mais ou menos deste teor, no seu blog; se bem me lembro, dizia o D que o casamento apenas se justifica se e quando surge o primeiro filho; não poderia estar mais de acordo, e mesmo assim, como dizem os brasileiros, olhe lá! Se fosse possível cada um ter a sua casa, adoraria ter esse filho (e depois outro e outro, quem sabe), mas eu no meu canto e ele no dele, eu com a minha escova-de-dentes e com o meu sossego, e ele com a dele e o dele, respectivamente.
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Talvez seja, de facto, aquilo que toda a gente me diz de há uns anos para cá: "isso é alguma trauma que tu tens". Já se sabe, não há nada como uma explicação fácil e transparente destas, sempre a mesma; quando não há uma explicação óbvia para determinado comportamento, lá vem a rapsódia do "trauma". Não sou eu quem tem um "trauma contra" o casamento, é o casamento que é traumático por definição. Aliás, não entendo o conceito de "trauma contra". Ou é trauma ou não é trauma. Se é trauma, é "contra" alguma coisa. Mas enfim. Os mesmos e as mesmas que me "dão" tão excelentes conselhos, as mesmas pessoas que se acham no direito de debitar uns palpites sobre o "meu" trauma são as mesmas que já se casaram e separaram uma, duas, três vezes. Quer dizer: não têm nenhum "trauma contra" o casamento, mas quem se divorcia são eles e elas, não eu. E depois, os motivos são sempre os mesmos, e são precisamente aqueles que enformam, pelos vistos o tal trauma que é apenas meu: estão "fartos", eles, "decepcionadas", elas; que já não suportam os hábitos do outro, as manias e as idiossincrasias; que não aguentam nem mais bebedeiras (elas deles) nem mais birrinhas (eles delas); e que chega de peúgas pelo chão e garrafas vazias por todo o lado; e que ele é um brutamontes, javardo, cabrão e outras coisas piores, cujo maior divertimento é largar uns traques em vale-de-lençóis ou fazer concursos de arrotos com os amigos, enquanto jogam com as malditas setinhas e se enfrascam até de madrugada.
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A pressão social é esmagadora, em razão diametral: quanto mais uma mulher avança na idade, mais se sente pressionada a casar e ter filhos ou, pelo menos, casar; quanto mais velha, mais esquisito se torna que esteja ainda "solteira e boa rapariga", até porque já não é rapariga nenhuma. O rolo compressor da chamada normalidade passa, cada vez mais, para trás e para diante, uma e outra vez, quanto mais arisca (enrugada) ou avessa uma pessoa demonstra ser em relação aos padrões comportamentais considerados como "normais".
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Desisto. Rendo-me. O meu casamento está marcado para o próximo dia 3 de Setembro. "Ando" como o meu futuro marido há quase dez anos. Tirando um ou outro, muito esporádico, "amigo colorido" (e só duas ou três amigas), sempre lhe fui fiel. Mas eram os pais dele e os meus, a mais tios, avós e sobrinhos, e os amigos e conhecidos de ambos, toda a gente, e casem e casem e casem lá, caramba. Ok, pronto, tá bem, não me chateiem mais. Passei dez anos com este, e não sei quantos com não sei quantos antes dele, e mesmo o estatuto de "namorado" eu recusei sistematicamente. Não gosto de estatutos. Estatutos têm os clubes recreativos. Não gosto da mania que todos os homens têm de não baixar o tampo da sanita. Não gosto de acordar com gente ao meu lado. Não gosto da maneira como este se ri, geralmente a despropósito. Detesto os ruídos que ele faz com a barriga. Mas tem qualidades. Mal por mal, antes este, que já conheço, do que outro qualquer - sem saber o que lá viria.
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Cara amiga,
Em primeiro lugar deixe-me que lhe diga o seguinte: é um verdadeiro prazer ter a oportunidade de trocar algumas frases com alguém cujo Português é tão agradável, escorreito, impecável. Uma das minhas maiores dificuldades, quando respondo aqui no consultório, é precisamente fintar a azia que atavicamente me provoca a leitura de qualquer coisa com erros. No caso da sua mensagem, foi uma agradabilíssima surpresa, li-a e reli-a com grande prazer. Nota-se que se trata de pessoa com formação, e não apenas académica. Desde já peço me perdoe se, porventura, escolhi mal aquilo que me pareceu ser o assunto central mas, porque me pede absoluto anonimato, apenas transcrevi os excertos mais significativos e que menos a identificam, ou que menos expõem determinados aspectos da sua intimidade.
É que esse assunto central, ao que me parece, repito, foca algo que muito raramente aparece referido em qualquer literatura atinente - entendendo-se aqui por "literatura" todo o acervo scripto, audio e video versando o tema, desde a chamada imprensa cor-de-rosa até ao mais eminente sexólogo, sociólogo ou psicólogo da nossa e de outras praças. A designação técnica desse assunto é, por conseguinte, borborigmo.
O borborigmo pode até funcionar como símbolo de todas as pequenas, microscópicas, aparentemente insignificantes coisas que podem liquidar um casamento, um namoro ou, como hoje é fino dizer-se, "uma relação": mais conhecido como borborismo, este fenómeno estritamente fisiológico não consta nunca de qualquer romance, novela ou simples história, sejam estes na forma escrita ou na forma vivida. Se, por exemplo, Romeu (ou Julieta, assim como assim) sofresse de borborismo, ou se o próprio Shakespeare o tivesse ao menos referido, nunca teria sequer sido publicado aquele paradigma do romance amoroso. Mas Romeu e Julieta será até um mau exemplo, porque nunca os protagonistas chegaram a passar umas horitas juntos, quanto mais uns anos ou uma vida inteira.
Mas é fácil imaginar aquilo que acontece, entre qualquer par de apaixonados, quando o fenómeno irrompe... em sentido literal. Uma das finalidades práticas da chamada "paixão" ou do chamado "amor", ao menos entre homem e mulher e pelo menos segundo Desmond Morris, é precisamente - entre outras coisas - a obstaculização da repugnância física; ou seja, em suma, as pessoas apaixonam-se para que, inevitavelmente e mais tarde, seja possível evitar o nojo que a um provocam as manifestações fisiológicas do outro (urinar, defecar, suar, vomitar, eructar e mesmo, noutra acepção, falar, rir, comer, andar, etc.); quanto maior for a "paixão" inicial, maior a tolerância futura à exibição da fisiologia primordial do ser "amado", sendo que esta exibição é profundamente rejeitada em todos os outros seres.
Ora, é realmente difícil que uma mulher (ou um homem, já agora) se não "desapaixone" quando se apercebe, pela primeira vez, dos resultados e das consequências audíveis (e odoríferas) do borborismo. Fatalmente, este fenómeno descamba num outro (igualmente referido na sua mensagem), que se designa por meteorismo e que pode ter diversos graus de intensidade: há o gajo (ou gaja) que se bufa, suave e quase imperceptivelmente, e há quem atroe verdadeiramente os ares com farpolas terríveis, peidos esmagadores, de três em pipa, que até as paredes tremem: tchrraaac ou brrrruuuummm. Este tipo de actividade lúdica é conhecido, entre os mais dotados, por "rasgadela" (aproveitando a primeira onomatopeia) ou por "estrondar" (a partir da segunda). E depois, por regra, vem o pivete. Existem verdadeiros especialistas no assunto, capazes de largar terríveis, insuportáveis bufas, mal cheirosas até ao absurdo, verdadeiras armas secretas de desmoralização maciça. Basta entrar num qualquer transporte público para aquilatar da violência da coisa. Existe mesmo a correr um abaixo-assinado, em Lisboa, iniciativa de um grupo de cidadãos mais conscientes e amigos do ambiente, solicitando se acabe com as janelas seladas nos autocarros e nos comboios da capital; é que, alegam, dantes era mais fácil, abriam-se as janelas e já se podia respirar mais ou menos; agora, com estas modernices do ar-condicionado, os passageiros levam com as bufas e com os traques uns dos outros e não há como escapar, porque nenhuma janela abre. Talvez por isso, alguns dos acidentes (em especial no Metro de Lisboa) devem-se ao facto de alguém se ter peidado dentro da carruagem e, tendo-se espalhado o pânico, uma pessoa mais atrapalhada acaba por puxar o freio automático.
É, como vê, assunto sério. Demasiadamente sério para tamanho e sistemático escamoteamento, não apenas na imprensa, TV e Rádio, como na mais simples conversa de café ou em simples roda de amigos. Parece tratar-se de exclusivo, de tema reservado apenas aos elementos do casal. E por isso mesmo lhe reafirmo a minha compreensão e simpatia para com o seu caso.
Cara amiga, se realmente o seu futuro marido tem esse problema (como o refere por duas vezes, parece-me tratar-se de meteorismo grave), talvez fosse boa ideia reflectir mais umas cinquenta vezes antes de dar tão drástico passo. Que se lixe a pressão social, neste caso. Mande mas é foder os seus amigos e familiares, mai-los seus palpites. Em última análise, não são eles quem vai ter de aguentar o cheirete. Pense bem. Pense mais cinquenta vezes. O que fará quando uma bela noite acordar, estremunhada, pensando que está a haver um terramoto e, afinal, constatar que era apenas o seu mais-que-tudo a peidar-se alarve e energicamente? Meteorismo, cara amiga, não é brincadeira nenhuma e não tem absolutamente nada a ver com romantismo; nem sequer tem a ver com meteoros ou outros corpos celestes, como estrelas-cadentes ou coisa que o valha. Borborismo é barulheira intestinal, meteorismo é traques. Tem aí uma boa chatice para se entreter.
Enfim, não há-de ser nada. Já pensou cinquenta vezes? E depois outras cinquenta? Então pense mais cinquenta.
Mande sempre (salvo seja).
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