Terror menor
Esta rapariguinha de seus sete ou oito anos grita pela mãe, consecutivamente, infindavelmente. Grita. Guincha. Usa todos os músculos e articulações da garganta, e gesticula, e bate o pé. Ó mãeiiiiiiii!!! Mãeiiiiiiiii!!! Mãeiiiiiiiiiiiiii!!!
Uma gritadeira insuportável. A senhora sua mãe está a apenas dez passos, amenamente conversando, os cotovelos apoiados na janela, com alguém que se acha em sua viatura. Acha normal, a senhora, que o rebento grite a plenos pulmões; imaginará certamente que se trata de puro exercício vocal e peitoral, coisa de somenos importância, nada de mais, até é giro, desentopem-se-lhe as vias respiratórias, à criancinha, coitadinha. A criança não é malcriada, é "assim", é "hiperactiva".
Este rapazinho, quatro ou cinco anos, utiliza o chão de seu apartamento como pista de corridas. Não numa perspectiva automobilística mas apenas como "lane" de atletismo: corre da janela da sala até à janela do quarto do lado oposto, volta para trás até à janela da sala, toca-lhe e corre outra vez até à janela do quarto do lado oposto, e volta para trás, e uma, e duas, e três, e trinta, e trezentas vezes assim. É a chamada criança "hiperactiva", ou seja, esta nova subespécie humana que vai medrando em larga escala à qual tudo se permite, tudo se autoriza, e nada se proibe porque "é proibido proibir".
Aquele rapazinho, com o invejável curriculum de seis anos de experiência em infernizar a vida a toda a gente, não pára um segundo quieto com a sua preciosíssima bola de futebol. Tem jeito, o miúdo. Dá toques de cabeça, larga no pé e vai até três toques sem deixar cair. Mais tarde ou mais cedo, a bola lá vai parar a uma das mesas em redor; o puto chega-se e diz a um senhor de alguma idade: »Dá cá essa merda, caralho" - e regressa à sessão de toques virtuosos. Isto, é claro, em pleno restaurante. O senhor de idade, enfiado, arvora certo sorriso compreensivo, o mais adequado para a ocasião, o chamado sorriso número 423.
Os exemplos de terrorismo infantil, o menos citado dos terrorismos, são inúmeros e fastidiosos. Não é mais possível espetar com um valente bofardo em ganapo algum, hoje em dia. Acabou-se. Considera-se actualmente que um tabefe, uma chapada, um estalo, todas essas coisas que são meros sinónimos, constituem um pecado sem remissão, uma coisa execrável a merecer cadeia, de imediato. Às criancinhas confere-se um estatuto de absoluta e total impunidade, isto por cima da qualidade divina que lhes é inerente. A Criancinha (com letra maiúscula, note-se) é algo a que toda a gente deve prestar vassalagem, sem rebuço ou hesitação, sem pestanejar e sem sequer se pôr com ideias esquisitas - ou malévolas, o que vem a dar no mesmo - sobre o que fazer; não há nada a fazer com elas, com as criancinhas, a não ser vergar a mola e seguir obedecendo aos seus mais insignificantes caprichos.
Foi esta nova classe de monstros que a minha geração criou. A minha geração, a verdadeira geração rasca. A gentinha das amplas liberdades, do haxixe e das anfetaminas, das certezas para tudo menos para alguma coisa em concreto. Os paizinhos babosos de garotos nojentos, que foram transformados em garotos nojentos, paizinhos esses que transformam o puro terror que sentem dos filhos em coisas tão elevadas como "pedagogia" e "compreensão". Nunca por nunca, a nenhuma destas bestas de trintas e quarentas, ocorre a mais leve alternativa ao laxismo e à cobardia; apenas conhecem um regime educacional, e este é o da mais profunda e total bandalheira. No fundo, o papá típico actual possui uma única aspiração na vida: que os seus filhos cresçam e desapareçam. É por isso que, nas mais altas instâncias educativas, fervilham planos para aumentar o tempo de permanência das crianças nas escolas: é para os pais se verem livres deles, dos filhos; para terem algum sossego. É por isso que nenhum pai reage minimamente, mesmo que o seu filhinho querido torture um gato até à morte, que o meta no micro-ondas e ligue o botão: ele é lá capaz de uma coisa dessas! É por isso também que as crianças buscam tão desesperadamente o mais leve vestígio de autoridade, que procuram afincadamente alguém que lhes transmita um módico de conforto, alguma sensação de tranquilidade, um pouco de segurança.
O culto da juventude está de tal forma normalizado que já ninguém estranha que se abandonem dezenas de velhos, nos hospitais, todos os anos antes das férias. Vão a Santa Maria e vejam com os vossos próprios olhos. Os cães, conhecidos por "melhor amigo do homem" e brinquedo preferencial da raça infantil, são muito melhor alimentados, vestidos e tratados, do que o mais relevante (ou insignificante, pouco importa) septuagenário. Se não há um lugar sentado disponível, em qualquer transporte público, reparem em quem tem a primazia, a prioridade, o direito absoluto; se alguém oferece assento a uma grávida, logo virá um rapazola tomar posse, sem que ninguém se atreva a dizer seja o que for.
E talvez seja por isto estar a acontecer, talvez seja por o terrorismo infantil estar já tão entranhado nos nossos hábitos, que se presume ser a infância, esse curtíssimo período de vida pelo qual todos fatalmente passamos, não uma fase transitória mas algo de perene e definitivo: a criança é uma entidade secular autónoma, paralisada no tempo, permanente e absoluta. A criança é objecto de culto, embevecido e beato, sem qualquer espécie de medida ou de relativização, exactamente na medida da sua crescente raridade - como o ouro ou as pedras preciosas - e sem que sequer seja possível duvidar da sua intrínseca marca sagrada.
No entanto, as próprias crianças, cuja fragilidade obriga à construção de maiores e mais eficazes defesas, são as primeiras a desconfiar de que algo está podre, algures. Sabem que alguma coisa não bate certo. E conhecem perfeitamente quem lhes quer bem apenas porque sim, e aqueles outros que apenas fingem querer-lhes bem apenas porque lhes têm medo: a tal geração rasca atulhada de substâncias químicas, a maralha dos Woodstock e dos Live Aid.
Será necessário esperar pela próxima geração, por conseguinte. Os putos de hoje, na tradição milenar de "contestação" geracional, serão os primeiros a reinstituir a terapia da chapada na cara, nos seus próprios filhos. Afinal, serão eles os primeiros a concluir que não é um estalo que pode ser traumático; o que pode causar trauma é a falta de um estalo na altura certa.
E talvez, quem sabe, mesmo com todo o desprezo que nutrem pelos seus pais, pode ser que um dia os não abandonem em qualquer Santa Maria.








