Foi
O acaso é talvez a mais difícil das coisas. Por acaso nascemos e assim continuamos, ao acaso e desajeitadamente, tentando entender a raiz e a razão das coisas que, a maior parte das vezes por mero acaso, nos aconteceram e acontecem. Há dias em que, por acaso, nos dói o coração, e não é exactamente por causa imediatamente diagnosticável; por acaso, o coração dói, às vezes. Uma coisa bonita que nos surpreende ou outra horrível que nos esmaga, a surpresa de um dia mais ou de um outro a mais, novo ou inesperado, ou ainda alguém que pensamos não merecer e que, de repente, nos aparece à frente. Por acaso, sempre por acaso. Como a traição ou a tragédia, que nunca acontecem se não por mero acaso. Como a consciência que se esconde em cada uma das curvas de um perfil. Como o frio bom que se sente ao sol de Inverno. Ou o calor da neve mais gélida quando está alguém que amamos na ponta da nossa mão, e não compreendemos porquê, o que fizemos para merecer isso. Ou o que não fizemos para merecer o castigo de isso nos faltar, quando por acaso nos faltar.
Acaso é irmos na rua e já não haver rua, ou nem para onde ir, de repente. Virar à esquerda num cruzamento, quando à direita é que era, ou ao contrário, quando o inverso deveria ter sido. É o azar que bate à porta ou vem já a caminho, pelo ar, como um piano que despenca de um 20º andar, apontado exclusivamente à nossa cabeça, como nos desenhos animados ou em algum estranho filme de terror. Como acordar com uma tremenda ressaca por se ter sido excessivamente, loucamente feliz na noite anterior, no dia anterior, no ano passado ou há mais de dez anos. Maldição, malapata, crucificação pessoal e intransmissível, sempre imprevisível, sempre quando menos se espera.
O acaso é o que resta quando apenas os imprevistos sucedem e todos os planos falham; quando Deus, por fim, vem em nosso auxílio e se senta connosco num passeio, e rimos ambos, como bons amigos, de tudo o que nos aconteceu, e acontece, e não pára de acontecer. É quando esse mesmo Deus se lembra de que está muito ocupado a curar os males da humanidade e não tem tempo para os nossos, nem para nós, e diz como o coelho da Alice, atrasado, muito atrasado, ai, valha-me Eu.
Às vezes, nem sempre, sentimos que é possível, que é hoje, que agora é que é. E, geralmente, não é. Nem hoje, nem agora, nem sequer possível, nunca. Mas acreditamos que é, que vai ser, que sim. E a isso chama-se esperança, a sombra branca do acaso.








