Portugal é o país mais atrasado da Europa. Ri de quê?
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Aos fins-de-semana, o blogbairro fica em silêncio; aos sábados e domingos, o bloguista acorda tarde, espreguiça-se em frente à televisão e vai chinelando pela casa, enfastiado, ansiando vagamente pela semana de "trabalho", pelos "dias úteis", pelo "horário de expediente".
Segundo um estudo da Smog&Sons, 83% dos bloggers portugueses utilizam a internet no local de trabalho; o que explica a quebra acentuada em todas as estatísticas de visitantes, em qualquer blog ou site nacional, durante os fins-de-semana, feriados, períodos de férias e também durante as chamadas "pontes".
Os números da
weblogs.com indicam uma elevadíssima percentagem de blogs portugueses, em relação a países de semelhantes dimensão e população, como a Suécia ou a Irlanda, por exemplo. A capitação bloguística portuguesa é o dobro da espanhola; apenas os brasileiros nos ultrapassam, em total de blogs a dividir pelo número de residentes.
É surpreendente a capacidade de trabalho e a imaginação que revelam não apenas o conjunto mas os conteúdos, esse já imenso acervo literário e documental que é hoje - e com tendência para aumentar
ad infinitum - a chamada blogosfera. Para qualquer estrangeiro que abra uns quantos dos 3000 blogs portugueses, a surpresa não poderia ser maior; vai ver e ler de tudo um pouco, vai abrir a boca de espanto com a profusão de talentos, escritores, poetas, fotógrafos e artistas gráficos, músicos, críticos, analistas políticos, sexólogos, historiadores, páginas e páginas de imensa e variada produção. Com tal quantidade e, em alguns casos, qualidade, certamente acabará por surgir, no espírito desse estrangeiro turista ocasional, uma terrível dúvida sobre a veracidade de todos os indicadores internacionais: como é possível que, num país que tantos e tão bons textos produz, o número de jornais e de livros
per capita seja o menor da Europa? Se temos cá blogs actualizados quatro, cinco, dez vezes por dia, porque será que a nossa taxa de analfabetismo é a mais elevada do velho Continente? Ou que temos o mais baixo nível de vida dos Quinze? Ou o menor PIB? Ou a maior taxa de mortalidade nas estradas? Ou o mais gigantesco exército de funcionários públicos?
No fim de contas, uma coisa não tem muito a ver com a outra, mas é um indício dos que podem contribuir para explicar o nosso ancestral atavismo. Se o português típico navega na internet durante o "horário de expediente", utilizando o aparelho, a rede e a ligação da sua Empresa, o português médio bloguista está, pura e simplesmente, a roubar o patrão, o Estado e, em última análise, o seu país; está a produzir bens imateriais e inconsequentes, sem qualquer retorno, à custa de quem lhe paga para estar ali, durante aquele tempo, supostamente produzindo aquilo para que foi contratado; e era suposto igualmente utilizar o material que lhe é distribuído para os fins a que se destinaria, e as ferramentas e equipamentos idem aspas.
Ainda mais surpreendentemente, todos os recursos e tempo, respectivamente usados e gasto, na hiperprodução de textos catitas e artigos diversos, são-no muitas vezes como expressão de descontentamento, exactamente, nem de propósito, sobre a situação do país, seu atraso estrutural e sua idiossincrática aversão ao talento. Os bloggers portugueses lá se entretêm, comodamente sentados no "posto de trabalho", atacando o Governo com extrema lucidez, e com verborreica indignação apontando o dedo ao "sistema", o amiguismo e o nepotismo, o tachismo e o laxismo, dos outros, claro, sempre dos outros.
Neste "país ingovernável, esta choldra infecta", como dizia Eça, a inteligência sempre se travestiu de esperteza saloia. Roubar o próximo, seja por que motivo for, como, por exemplo, por simples ou congénita alergia ao trabalho, é criminoso; usar o tempo e o produto desse assalto subtil, ainda para mais, para atacar e "denunciar" a "injustiça" das "coisas" e dos "outros", é de um cinismo a toda a prova.
E isso não nos há-de a Europa tirar nunca, nem a Quinze, nem a Vinte e Sete, nem a Cinquenta : Portugal há-de ser sempre a pátria dos incompreendidos, honestíssimos gatunos bem falantes e elegantérrimos escreventes, que se cumprimentam e se dão palmadas nas costas, satisfeitos de todo consigo mesmos.
Portanto, caro estrangeiro anteriormente citado, já pode fechar a boca. Não tem nada que espantar. Somos assim: gostamos muito de trabalhar, desde que isso não sirva para coisa alguma e que, de preferência, esse labor seja ilegal. Somos formatados, desde o berço, para roubar fruta ("a que sabe melhor"), para copiar nos exames (e em tudo o mais, desde os gestos às ideias), para descalibrar balanças, marar bebidas, vender gato por lebre, mentir por compaixão, adulterar contadores, meter cunhas, promover incompetentes, bater palminhas a compasso até na ópera. Somos os maiores, é o que é. O blogbairro é mesmo à nossa medida.