Ensaio sobre a piroseira
Uma das mais pujantes indústrias nacionais e, de certa forma, nosso bilhete de identidade colectivo, a piroseira distingue-se das restantes actividades humanas pelo facto de poder causar danos mentais e físicos irreversíveis; os primeiros nos consumidores e os segundos nos abstémios. Ou vice-versa, ou ambas as coisas para toda a gente, para o caso tanto vale.
Veja-se, por exemplo, o que sucede com os elementos que apreciam José Cid. Isto para não irmos mais longe porque, se falassemos em casos mais radicais, tipo Village People ou, sem exagero, o próprio Julio Iglesias, teríamos de chamar à colação estudos insuspeitos e estudiosos igualmente, desde o antropólogo Desmond Morris ao songa-monga Richard Attenborough, passando pelo Jefferson Institute, a Yale University ou mesmo a valorosa Universidade da Terceira Idade de Lisboa, ao Rato. Fiquemos, pois, e até ver, por este exemplo mais minudente, por assim dizer, José Cid, e quem diz José Cid diz quejandos, verdadeiros mas medianíssimos "artistas", coisinhas curiosas como Toy, os Anjos, Clemente, etc. Enfim, não nos desviemos, que o parágrafo já vai comprido, era a modos que simples parêntesis e quando não a coisa perde-se em baralhadas e confusões desnecessárias.
Falemos então dos fãs de José Cid, esse enorme ícone piroso, e do que sucede nas respectivas cabecinhas. Note-se que existe até um blog com esta científica designação, o propriamente dito clube de fãs do José Cid, o que indicia, para início de conversa, que o fenómeno é matéria para estudo sério e aprofundado.
Pois o que sucede, em resumo, é um tremendo, visível, esmagador padrão de imbecilidade. Eis o que sucede aos desgraçados da piroseira cidiana. Estiolam. Embrutecem inexoravelmente. Acabam metidos numa espécie de cano-de-esgoto existencial. Numa linguagem um pouco menos técnica, poder-se-ia dizer que o apreciador do género Cid fica apanhadíssimo dos cornos e nunca mais diz ou faz coisa com coisa. O fã da piroseira distingue-se, numa perspectiva zoológica, além do fato-de-treino que invariavelmente enverga, pela mais profunda e rotunda estupidez que imaginar se possa; numa fase mais avançada deste género de dependência, o josécidiano evidencia tremendas agressividade e alheamento da realidade, acabando por fatalmente perder o usufruto da fala, passando a apenas grunhir e rosnar coisas ininteligíveis como "vivóbenfica", deslarguem-me, fóróárbitro, "nãoconcordo", não pagamos não pagamos não pagamos e coisas equivalentes; a sua forma de expressão previlegiada é uma coisa chamada "palminhas", que pratica sistematicamente, em qualquer lugar ou circunstância, batendo as palmas das mãos uma contra a outra com a destreza própria da paralisia cerebral (numa acepção corrente, vulgar, errónea) que, de resto, se vai insidiosamente instalando.
O piroso típico, também conhecido por "popular" ou, sinteticamente, "povo", é hoje uma subespécie humana largamente difundida, com tremendas, terríveis concentrações em certas zonas do globo, mas em especial no Brasil, em certas zonas de Espanha, França, Alemanha, Estados Unidos da América e em todo o nosso Portugal, como é sabido; existem milhões de pirosos, em todos estes países e em mais umas quantas zonas exóticas do planeta, e são eles quem não apenas alimenta a indústria como quem a financia e, por paradigmático que possa parecer, quem a produz. É uma espécie de pescadinha-de-rabo-na-boca social, com o "artista" piroso a debitar piroseiras para milhões e, destes milhões, saírem novas e rebrilhantes estrelas popularuchas que irão, por seu turno, alimentar novas legiões de pirosos, e assim sucessivamente. É um círculo fechado, onde apenas entram os mais incapazes e mentecaptos, sendo isso mesmo, aliás, o requisito único para acesso ao clube; ser absolutamente primitivo, patentemente troglodita, refinado cretino ou perfeito imbecil, são tudo minudências que dão o seu jeito, mas a ninguém é vedado o acesso - a não ser àqueles mais capciosos que, segundo é opinião unânime da seita, se armam em espertos, os que lêm livros sem ser do Corin Tellado ou da Margarida Rebelo Pinto, os chamados "maluquinhos" das óperas e "dessas tretas todas". A essa gente, não será nunca facultada a felicidade suprema de comungar com o génio de uma Mónica Sintra, cantadeira, com o prestígio e a subtileza de um Luís Pereira de Sousa, animador de feiras e arraiais, um gajo com três nomes, caralhosmafodam, e outros que tal, com uma ganda pinta, e que também têm em casa, junto ao tecto, uns quadros da última ceia, ou com uns gatinhos, ou assim.
Pois, de facto, mesmo para aqueles que, ou por pancada ou por outro motivo qualquer, a pimbalhada não agrada, não há como escapar ao fenómeno. É realmente avassalador, em sentido literal. Em especial desde a instauração da ditadura do proletariado, essência do chamado regime democrático, a nenhum cidadão (por mais bem formado ou instruído, e precisamente por causa disso) é permitido subtrair-se à piroseira geral: como previu George Orwell, é hoje obrigatória uma televisão, sempre ligada e em altos berros, em todas as casas, todos os andares, todos os cafés, todos os restaurantes, todos os locais públicos ou privados, em suma, e mesmo em muitos sítios ao ar livre; e, além de ligada e em alta berraria, é obrigatório que esteja sempre sintonizado o órgão central da ditadura pirosa, seja a TVI (ou a SIC, varia de tempos a tempos) ou, se não houver receptores de imagem, que seja ao menos a Rádio Renascença. As massas ignaras, alcançado o Poder, não permitem hoje se não a piroseira... massificada, a estupidificação maciça, o embrutecimento generalizado. Qualquer estrebuchamento ou, como se diz em linguagem oficial, qualquer mijadela fora do penico, dá direito a ostracização imediata, a isolamento sumário e radical, quando não a umas murraças na cornadura, uns quantos tabefes e pontapés no cu.
Gajo que se atreva a não ouvir barulho, ou que sequer ache que é barulho a merdorreia josécidesca, habilita-se ao estatuto de leproso social, irá por certo passar à classe dos proscritos e intocáveis e já vai com sorte se não for despedido do seu emprego, despejado da sua casa, recambiado para o quinto dos infernos, de onde nunca deveria ter saído. Ousadias várias, como achar pindérico um Toyota cheio de cromados, não usar a fitinha do António Sala no pulso ou, desfaçatez suprema, não gostar de sardinhas assadas, está, abreviadamente falando, completamente fodido; há-de ter a sorte que merece, ser trucidado, esmagado, espezinhado, cuspido e insultado. E chiu ou ainda levas mais, vais a ver.
Uma boa ou, pelo menos, razoável forma de aferir esta massificação, esta industrialização total da piroseira, é através da observação disto a que se chama a "blogosfera". Cada vez mais fera e cada vez menos bloguística, trata-se de microcosmos da realidade onde se patenteiam todas as vacuidades, onde se passeiam todas as vaidades, onde se produzem as maiores imbecilidades e onde, por fim, se promovem, se distinguem, se premeiam os mais cretinos, os mais incapazes, os mais burgessos; e também, seguindo o mesmo princípio, se ostracizam os - cada vez mais raros - casos de diferença, dissonância, independência ou simples honestidade.
Estarei a falar de mim próprio, neste particular? Com certeza. Claro que estou. Não só, não apenas, mas também. Bem sei que isso é mau, é péssimo, em especial num texto que se pretende de análise científica, ou coisa que o valha; perde-se a objectividade, quando se passa a primeira pessoa do singular. Mas, porém, contudo, no entanto, só a um completo bócó poderia ocorrer que eu escrevo ou sequer pretendo escrever qualquer coisa com o mais ínfimo vestígio de "análise", de "ciência", de "técnica". É a velha história do sapateiro e da chinela. Sapateiro será. Chinela, não. Como dizia Gabriela dos sapatos, digo eu da chinela: não quero. Nem que morra agarrado ao martelo e às cardas, hei-de resistir sempre a esse símbolo de normalidade, esse ícone da pacatez atabafante e da mediocridade triunfante; hei-de continuar a martelar a esmo, tentando emperrar a máquina trituradora do normalismo bacoco, à força de muitas letras. Hei-de, ao menos, mesmo sabendo que aqui nem os peixes ouvem, porque não há peixes, sussurrar o horror ao ruído, murmurar aversão à indústria piroseira, ao menos tergiversar e tentar confundir o inimigo: a gentinha de pouco ou nenhum tino que se julga algo. Os satisfeitinhos da vida. Sim. Talvez seja consigo, que leu tudo isto - até aqui.
(nota: excepcionalmente, e para que se não perca nenhum eflúvio mental, construção catita ou palavrinha pesporrente, este texto não foi passado a crivo em sede de corrector ortográfico)





