National Education Channel
Acabo de ouvir na televisão uma anónima moçoila, envergando luvas amarelas, que proferiu a seguinte sentença, com o Cabo da Roca por fundo: "
O chorão é uma planta doninha que mata as outras espécies em vias de extinção."
Conheci em tempos duas professoras, uma escocesa e a outra inglesa, ambas licenciadas em Francês (!), que nunca tinham ouvido falar em
Passé Simple; sempre tinham utilizado o
Passé Composé, davam-se muito bem com isso e, calculo, punham os seus meninos a fazer exercícios em conformidade. Ainda hoje estou convencido de que elas estavam a gozar comigo.
Conheci também, e não apenas no sentido bíblico do termo, uma coleguinha da área das Geografias que não fazia a mais pequena ideia de coisas tão triviais como a capital da Guiné-Conacri, o maior produtor mundial de café ou a diferença entre um "kolkhoz" e um "sovkhoz". Conhecimentos de algibeira, zero. Nunca lia um jornal ou uma revista, para além da "Holla" e da "Maria". Era, no entanto, altamente considerada, por docentes, discentes e empregados lá da escola.
Há uns anos, em plena reunião de avaliação, já não me lembro exactamente o que poderei ter dito para provocar a frase lapidar de uma colega de Alemão (a única daquela escola): "_ Mas eu ensino Alemão há mais de vinte anos e não sou fluente em Alemão..." Acho até que a senhora disse "não sei nada de Alemão". Claro. Mais uma brincalhona. Onde já se viu, uma pessoa ensinar aquilo de que entende!
A certa colega de informática, engenheira não sei das quantas, foi pedido que determinasse qual o sistema mais adequado para determinadas funções. Uma semana depois, lá apareceram os resultados: tantos registos vezes tantos dados, a tanto por dado, dá X de "memória de massa"; vezes tantos ficheiros, dá Y; logo, os computadores do sistema devem ser os que têm um disco rígido com capacidade igual a Y. Genial. Parece que agora está a dar aulas de Informática de Gestão, algures, com igual brilhantismo.
Nos meus tempos de estudante, onde isso já vai, chumbei em dois anos (3º e 5º) por causa de uma coisa que se chamava Ciências Físico-Químicas; naqueles bons tempos, se bem me lembro, passava-se "cortado" a uma Disciplina, mas não a duas; ora, já se sabe, raramente passei a Matemática, e nunca tive mais do que 10. Portanto, a questão para passar de ano era sempre "safar-me" a CFQ. Lembro-me perfeitamente daquilo que me fez chumbar, num ano e no outro: no 3º, foi por não saber o que é um "bico de Bunsen"; no 5º ano, foi por desconhecer a "natureza do nónio" que estava desenhado no teste. Em ambos os casos, se tivesse acertado naquelas duas perguntas... isso seria suficiente para o 10. Nunca utilizei um bico daqueles e acho que nunca vi um nónio na vida, Nosso Senhor lhes perdoe.
Sendo tecnicamente um perfeito imbecil, por não entender uma palavra de
matematiquês, tive de, posteriormente, disfarçar: acabei por compreender alguma coisa de Matemática, cheguei à conclusão de que, afinal, aquilo não é nada de especial e, finalmente, passei a trabalhar quase exclusivamente com números, cálculos, fórmulas.
A diferença entre Matemática e
matematiquês é a mesma que existe entre a Física e o
fisiquês, a Química e o
quimiquês, a informática e o
informatiquês, a Língua Alemã e o alemanês, o Inglês e o inglamanês, o Francês e o françuguês ou entre qualquer Disciplina relacionada com Geografia e o correspondente "geografês". Existe uma linguagem própria, exclusiva para cada Disciplina curricular, em todos os graus de Ensino, que tem muito pouco ou nada a ver com a matéria à qual diz respeito. Para "passar", e mesmo com excelentes notas, ao estudante português não é exigido que saiba "a matéria", mas apenas que entenda e se desenrasque utilizando a linguagem concreta que se usa nas aulas respectivas. Por isso, é perfeitamente possível, natural, expectável, que um "bom aluno" passe com distinção a qualquer das cadeiras sem o mais ínfimo dos conhecimentos sobre os conteúdos.
Uma coisa é responder correctamente às questões de um teste, ou de um exame, outra bem diferente é compreender problemas, manusear soluções, resolver questões que o imediato e o quotidiano apresentam, em todas ou em qualquer das áreas do saber. Uma coisa é compreender a formulação específica escrita e responder conforme aquilo que "está no manual" ou "foi dito na aula", outra bem diferente é compreender uma situação real e responder conforme as circunstâncias. Em resumo, não existe necessariamente intersecção alguma entre aquilo que se "aprende", dentro do plano curricular e com os métodos pedagógicos aprovados, e aquilo em que de facto consiste o universo de conhecimentos de uma dada "cadeira".
Qualquer semelhança entre uma Disciplina nominal e a respectiva disciplina de conhecimento é mesmo pura coincidência. Um aluno "passa", ano após ano, com excelentes médias, acaba por se licenciar e provavelmente irá dar aulas, refluindo no sistema, sem nunca ter tido o mínimo contacto com a realidade intrínseca daquilo que suposta e teoricamente andou a estudar. E o processo repete-se, refina-se, torna-se cada vez mais paralelo: não é necessário saber falar e escrever correctamente em Português, Inglês ou Francês, para "ensinar" qualquer dessas Disciplinas; não é necessário, e torna-se mesmo um empecilho, saber seja o que for de Matemática para dar aulas de Matemática, ou de Geografia para leccionar I.D.E.S., por exemplo.
No caso da Matemática, o que citei por se ter passado comigo (logo, aquele que melhor conheço), o que acontecia era que o linguajar próprio dessa Disciplina exercia um estranho efeito de bloqueamento no meu cérebro; assim que lia, num teste, o início de qualquer pergunta ("considere a expressão..."), bloqueava imediatamente; já não conseguia raciocinar, pensar, fosse o que fosse ou sequer mexer-me; lembro-me de que desatava a suar; enfim, coisas daquelas ("seja o número..."), eram para mim como violentos pontapés na cabeça. Então quando a coisa envolvia os chamados "problemas", puff!, nada feito; não conseguia entender porque é que um pedreiro havia de construir 17,5 metros por hora e quantos metros por hora seriam construídos, em 45 horas, por dois pedreiros, "sabendo que" um deles era maneta e, portanto, presume-se, trabalhava metade do outro. Estas coisas nunca fizeram, pelo menos para mim, o mais ínfimo dos sentidos. E isso é que é "ser burro". Descobrir uma regra, determinar um padrão, formular matematicamente um processo, tudo isso são coisas que não interessam para nada.
Conceitos "farfalheiros", como burro, imbecil, idiota ou ignorante, decorrem por conseguinte não dos conhecimentos específicos, e da articulação entre eles, mas da capacidade reprodutora (ou reprodutiva) de conhecimentos nominais (gramática, regras, alíneas), se e quando debitados numa linguagem estabelecida.
O Passé Simple não existe, de facto, porque pode passar-se bem sem esse tempo verbal. A lógica informática pode bem ser a da batata, desde que se lhe espete um palito, a ver se está cozida. A capital da Guiné-Conacri é Bissau, como todos sabemos.
Os rios nascem no mar, lá se diz na Ala dos Namorados, que era a estratégia utilizada por D. Nuno Pacheco Pereira na Guerra de Aljubarrota, no século XIX. O chorão é uma planta doninha, esse predador e carnívoro nocturno.
Caramba. O chorão é um mamífero. Está no manual.