Odi profanum vulgus et arceo

11/05/05

Educando o povão

Já repararam que os supermercados têm agora um balcão específico para as coisas gamáveis? Hmmm? Vejam lá. Confiram. Camisas-de-Vénus, artigos de perfumaria, lâminas de barbear, CDs (virgens e desvirgindados), whisky genuíno e whisky marado, está tudo num balcaozinho à saída; a gente não encontra esses artigos nas prateleira do supermercado propriamente dito; onde antes estavam aquelas coisas todas, agora só estão umas placas em plástico, o artigo em fotografia virtual; depois, é necessário pagar na caixa e ir com a placa plástica ao tal balcão especializado, levantar os preservativos, a garrafita de Chivas, o CD de Chill-out (ganda festa, hoje, hem?).

Mas, reparando melhor, há uma coisa intrigante neste balcão dos gamáveis: caldos. Pois. Os cubos de caldos Knorr, ou Maggi, os de carne, de peixe, de frango e assim. Mas que raio, agora os caldos valem tanto como o Chivas ou, vá lá, o Lochnagar? O povão surripia Gillette GII, compreende-se, aquilo custa um balúrdio escandaloso, mas agora caldos? Ó mistério do caraças, porque será?

Certa prestimosa funcionária encarregou-se de, babando inocência, esclarecer este que é mais do que um pai para vós: então não se está mesmo a ver?, os caldos são para "partir" o haxe, o xamon. Não há janado que se não avie de três ou quatro embalagens (a 12 cubos cada, 132 gramas), sempre que faz as suas compras matinais. Muitos, uns milhares, a bem dizer, nem se aviam de outra coisa, é só aquilo mesmo. O pessoal dos supermercados começou a achar a coisa esquisita, que diabo, não há assim tantos "gourmets" por aí, aos pontapés, caramba, tanto gajo sujo e roto a dedicar-se à culinária, não querem lá ver, aqui anda marosca. É. Cada um daqueles cubinhos dá para "cortar" um grama de haxixe em 10 ou 12; é dinheiro em caixa. Os caldos de carne, que são feitos com os desperdícios dos matadouros (peles, penas, ossos, pêlos, vísceras, carne fora de prazo), têm exactamente o mesmo aspecto de qualquer "sabonete", ou da mais trivial "pedra"; o cheiro também é parecidíssimo com o do verdadeiro Xamon. É uma coisa fantásica.

Há-de haver por aí muito janado que já está agarrado ao caldo. Caldo, agora, tem outro significado, muito mais giro do que o batidíssimo "cavalo" com sumo de limão; dar uma na veia com a castanha ou com a branca, vá lá, continua na boa, até já existem salas para o efeito, por essa Europa civilizada adiante, mas nos intervalos, para esmoer e intervalar, o que está a dar é a verdadeira "moca" de Knorr. Há gajos agarrados ao caldo de galinha! E aos cubinhos de peixe! Parece que não se nota nada, a "moca" é a mesma, é fixe, yá, tás a ver, bué, metes aquilo e ficas todo fodido, trrje.

Enfim, depois não digam que não foram avisados, ó povão: comprar caldos Knorr é suspeito na mesma, é merda na mesma, mas só ao balcão - contra o talaozinho de caixa. Fora disso, só em estabelecimentos especializados, como as Marianas, o Bairro do Relógio, a Cova da Moura e outros igualmente interessantes condomínios privados, por esse Portugal profundo afora.

Anónimo de Matos
(grande dirigente e educador da classe operária)

comentários

(...)
No combate ao Comunismo não há, não pode haver mas, nem meio mas. Qualquer mas que se formule é um auxílio ao Comunismo, dêem-lhe as voltas que quiserem.
E desgraçadamente estamos a viver uma atmosfera espessa de mas. Chovem os mas de todos os lados, de todos os sectores, de todos os horizontes.
Contra o Comunismo! — grito a um católico. E quando suponho que ele grita comigo, ouço-o a dizer: «mas... porém... quiçá...».
Contra o Comunismo! — grito a um monárquico. E quando espero que ele grite comigo sai-se-me com «mas... talvez... repare...»
Contra o Comunismo! — grito a um industrial. E quando imagino que ele me diga: «é claro!» ouço-lhe: «mas, mas...».
Contra o Comunismo! — grito a um proprietário. E quando calculo que ele vem comigo, lá me aparece: «mas... você vê...».
Contra o Comunismo! — grito a um soldado. E quando penso que ao menos este virá, também este não se coíbe de: «mas... mas!»; nem o católico, nem o monárquico, nem o industrial, nem o proprietário, nem o soldado são comunistas. Nenhum deles é, mesmo, sofista comunizante.
Então?
É uma questão de prisma.
O católico não vê o Comunismo pelo prisma de católico; o monárquico não o encara pelo prisma de monárquico; o industrial não o olha pelo prisma de industrial; o proprietário e o soldado não o julgam pelos seus respectivos prismas.
Todos eles abdicaram do seu prisma e se servem do prisma alheio. E é este que os leva a enfileirar na confraria do Mas...
(...)
E é por isto, Santo Deus! que estamos divididos.
Eu raciocino desta forma. O Comunismo é inimigo da minha Pátria; depois de Deus, é a minha Pátria que eu amo acima de tudo; estarei, portanto, ao lado de quem combate o inimigo da minha Pátria.
É a Alemanha? Estou ao lado da Alemanha.
É a Inglaterra? Estou ao lado da Inglaterra.
É a China? Estou ao lado da China.
É a Hotentótia? Estou ao lado da Hotentótia.
Mas a Alemanha bate o Comunismo para chegar à Inglaterra.
A Inglaterra bate o Comunismo para chegar à Alemanha.
A China bate o Comunismo para chegar ao Japão.
A Hotentótia bate o Comunismo para chegar aos polinésios.
E eu a ralar-me.
O que eu quero é que me destruam o Comunismo — inimigo primacial da minha Pátria, isto é, da minha religião, da minha civilização, da minha forma de ser e viver.
Estou com quem o combate, não me interessando absolutamente nada a intenção de quem o combate; estou contra quem o favorecer, auxiliar ou proteger, seja lá quem fôr.
De cama, doente, tenho na minha presença dois médicos; um que é muito meu amigo desde a infância, outro com quem não simpatizo nada. Os dois médicos são inimigos um do outro; o primeiro, o meu amigo, não atina com a doença; não crê no diagnóstico que faz o segundo e, para chegar a este, para eliminar este, está a alimentar a doença. O segundo médico, para chegar ao primeiro, para diminuir o primeiro, para ganhar fama, para ganhar dinheiro, para o que quiserem, ataca a minha doença a fundo, e vence-a e salva-me.
Pode ser, se fôr tonto, que eu continue a ser amigo do primeiro. Mas o que é indiscutível é que serei eternamente grato ao segundo, que me livrou do mal.
(...)
Alfredo Pimenta
(In «A Voz», n.º 5160, págs. 1/4, 20.08.1941)
fonte: blog Fascismo Em Rede

Eureka!


comentários

10/05/05

How deep is your love (Bee Gees)

(...)
Assim, com a frontalidade de quem não reconheceria um pseudónimo a não ser que exibisse Bilhete de Identidade, ou usaria um heterónimo que não fosse bem apessoado, de modo a não perder a carruagem da elite blogosférica, que é algo sem o qual não durmo bem, e, sobretudo, para não lesar a boa opinião de pessoas cuja boa opinião não me podia interessar menos, deixo aqui claro que Prima não é um nick. É mesmo o meu nome. Completo.

Essa coisa dos comentários avariou-se-lhe, amigo Guarda-factos (que nome tão bem apessoado para um blog, desculpe que lhe diga). Respondo assim, por conseguinte, ao seu brilhante "post". A propósito, perdoará o corte cirúrgico, mais uma vez não pespego aqui todo o texto mas apenas a parte, o órgão dinâmico, o pedaço mais suculento, ou que assim me parece.

Este é um assunto cíclico e recorrente, volta a estar na moda de seis em seis ou de doze em doze meses, mais ou menos. Até o Abrupto repegou no tema, com as finíssimas verve e ironia que tanto o caracterizam. Isto é, e tal, o crédito, a credibilidade, etc.

Já outros vão rosnando, por esse bairro fora, que esta coisada é mas é tremenda cobardia, e tal e tal, que há quem se esconda por detrás do anonimato, ou da pseudonimia, o que vem a dar no mesmo, pela simples razão de que não passa de um porco, um poltrão execrável, uma doninha fedorenta - o que, agora sabemos, é uma espécie hortifrutícola em extinção, da classe dos chorões.

Ora, isto é demasiadamente muito, quer-me parecer. Doninha, e porco, ainda vá que não vá; agora chorão é que não! Desminto! Nem isso nem derivados, de choramingas a Madalena Arrependida, passando por Maria Vaicasoutras ou Puto Ranhoso. Nada. Népia. Prefiro, de longe, sem qualquer hesitação, passar por animal (o que, absolutamente, confere) do que por planta rastejante, parasitária, infestante e insaciavelmente bebedolas. E óspois, vamos cá a ver: eu assino, eu cá assino, não há um único naco de prosa por mim lavrado que não siga devidamente assinado. Dodo. Ó. Dodo. Ó pra mim a assinar, bistes? Já o 001 é mais cuidadoso, aquilo é "alias" (a.k.a.), topa-se à légua, são lá manias dele, parece que é problemas com a esposa, ou assim, se calhar ela dá-lhe cabo do canastro se sabe que o marido escreve merdas de semelhante calibre.

Mas, dizia, ó que chatice. Puta de mania. Mas agora um gajo tem de puxar do B.I. sempre que lhe apetece escrever umas coisas? Olha que porra! Quero bem que se fodam, vosotros, mai-la vossa obsessão por tudo direitinho e nos trinques, menos os vossos truques, tudo impecável e engomado, menos os vossos podres. Como se, alguma vez, algum de vós tivesse tomates para escrever alguma coisa de jeito, isto é, de inconveniente, politicamente incorrecto ou, na melhor das hipóteses, correctamente redigido! Sabeis o que isso é, ó corujas do cacete, sabeis? É inveja. Invejinha, pura e dura. O que vos fode todos, por dentro e por fora, é a consciência da vossa própria mediocridade. Abruptos do caralho! Ai ficais fodidos, ides positivamente aos arames quando topais com alguma coisa bem escrita? Ora fodei-vos, seus morcões. Faz-vos caraminholas na cabeça que alguém utilize a merdice de um pseudónimo? E isso que tem? Qual é o problema?

Estareis porventura preocupados com a capacidade estrogénea, com a masculinidade, com a virilidade dos que se estão cagando para tudo, incluindo os aplausos ou os apupos? No vosso mundozinho merdoso não cabe qualquer tipo de independência? E eu com isso? Que se foda o vosso mundozinho. Aqui não há chorões.

Digo mais. Até que não é má ideia. Vou deixar de assinar Dodo. Assim comássim. Vou passar a utilizar, se e quando me der na mona, um pseudónimozinho jeitoso. Assim, talvez ninguém saiba que foi o Dodo quem escreveu. Pois. É giro. É prudente. Com apelido e tudo, a partir de agora eu sou, em singela homenagem a meu Padrinho, o

Vosso

Conadamãe Ascostas

comentários


comentários

09/05/05

Biútifule


Regra polémica nos exames do 12º ano britânicos Morte da mascote dá bónus na nota

Um estudante do Reino Unido que veja o seu animal de estimação morrer no dia do exame do 12º ano tem direito a um bónus de 2% na nota final. Se a morte da mascote se der na véspera, a compensação baixa para 1%. Este é o mais polémico dos critérios definidos pelo Conselho de Exames britânico, que fiscaliza os testes de "A Level", equivalentes às provas finais do secundário em Portugal.

As regras estabelecem ainda uma bonificação até aos 5% em caso de morte de familiar próximo, um valor que também baixa para os 4% se o morto pertencer a um segundo nível familiar. Mas os óbitos de parentes e animais domésticos não são o único cenário previsto para a concessão destes bónus.

Assim, um aluno que testemunhe um acontecimento dramático no dia do exame também merece o "estímulo" de 3% de valorização da nota, tal como quem parta uma perna ou sofra um ataque de asma em vésperas de avaliação. Uma alergia ao pólen dá um bónus de 2% e até uma vulgar enxaqueca é pretexto para um incremento de 1%.

Estas regras foram duramente criticadas pela fundação independente "Campanha para um Verdadeira Educação", que as considerou uma política de "desculpa para tudo".

DN de hoje

comentários

08/05/05

"Ma parliamo un pó del Portogallo, questo nostro verde amico"

(...)
Le cittá del Portogallo sono per la maggior parte tristi o bruttine. Nel nostro peregrinare ci siamo imbattutti in diverse cittá (nell'ordine: Coimbra 1, Nazaré 2, Obidon 3, Peniche 4, Vila Noiva de Milfondes 5, Sagres 6, Cabo de st.Vicente 7, Beja 8, Evora 9, Coruche 10) e sono rimasto soddisfatto solo da un paio (Obidon, ralmente sanmarinesca con le mura ed il castello e Evora). Per il resto é la natura a farla da padrona. penso che il Portogallo sará la prossima Romania in termini cineamtografici, ovvero: scenari magnifici e prezzi ancora abbastanza contenuti. Eh, la natura! Siamo ottimisti!
(...)

Erasmuporto

comentários

07/05/05

Jorge Perestrelo



gravação: TSF
notícia: sic.sapo.pt/online/noticias/desporto/Morreu+Jorge+Perestrelo.htm
links: blog Vodka Maracujá

comentários


Fórmer transleitor, rraite? Uáte a laveli ingueliche éccente; iu cepique véri uél inedide! Congratuleichones.
Abáute de láste gueime, léte mi sei disse: it uós a piti, áime sóri fore iór lóce, déte mádafaca rréferi - éveribódi só perfecteli déte da ból didenete pásse de láine!

Uél, éniuei, iu ár a chémpiom, déte nou uane quéne dinai.

Gritingues frome Portugale, diar Rrôsei.

(clique hiare tu ci disse texte transleitede in tu portuguise)

comentários

06/05/05

Brandos costumes


Uma mãe portuguesa matou a filha, presumivelmente com a ajuda de outros familiares; deceparam e retalharam o corpo em pequenos pedaços e por fim atiraram os bocados para uma pocilga. Os porcos devoraram absolutamente tudo e agora não existe corpo de delito. Nem rasto. Apenas conjecturas e truques legais.

Um português emigrado no Brasil mandou executar e colaborou no massacre de um grupo de empresários. Alguns deles foram enterrados ainda vivos. Depois, o bando tapou o chão do local do crime com uma laje em cimento, para esconder os cadáveres. O português e os cúmplices, brasileiros, cumprem agora pesadas penas de prisão.

Numa praia de nome romântico, algures no concelho de Leiria, um homem liquidou, a tiro e à facada, todos os elementos da sua família e mais quem estava por perto. Nunca surgiu a mais pequena explicação para este crime, nem para a brutalidade e a facilidade com que o mesmo foi planeado e perpetrado.

Num bairro degradado da cidade do Porto, o pai e a avó de uma criança torturam-na e acabaram por matá-la, lançando depois o corpo ao rio Douro.

O chamado "estripador de Lisboa" degolou e mutilou inúmeras vítimas, durante os anos oitenta do século passado, não tendo nunca sido descoberto. Ainda hoje é um dos maiores mistérios judiciários da nossa História.


O horror tomou conta dos nossos hábitos. Crimes inconcebíveis são hoje triviais e merecem apenas uma fracção da nossa atenção, um olhar despreocupado, quando muito um esgar de indiferença, por vezes um leve arrepio de inquietação. Algo mudou, realmente, radicalmente, em Portugal.

O horror. Habituámo-nos ao horror. E isso é ainda mais horrível. Não há palavras para descrever, explicar o horror. E o hábito. Principalmente o hábito.

comentários

05/05/05

National Education Channel


Acabo de ouvir na televisão uma anónima moçoila, envergando luvas amarelas, que proferiu a seguinte sentença, com o Cabo da Roca por fundo: "O chorão é uma planta doninha que mata as outras espécies em vias de extinção."

Conheci em tempos duas professoras, uma escocesa e a outra inglesa, ambas licenciadas em Francês (!), que nunca tinham ouvido falar em Passé Simple; sempre tinham utilizado o Passé Composé, davam-se muito bem com isso e, calculo, punham os seus meninos a fazer exercícios em conformidade. Ainda hoje estou convencido de que elas estavam a gozar comigo.

Conheci também, e não apenas no sentido bíblico do termo, uma coleguinha da área das Geografias que não fazia a mais pequena ideia de coisas tão triviais como a capital da Guiné-Conacri, o maior produtor mundial de café ou a diferença entre um "kolkhoz" e um "sovkhoz". Conhecimentos de algibeira, zero. Nunca lia um jornal ou uma revista, para além da "Holla" e da "Maria". Era, no entanto, altamente considerada, por docentes, discentes e empregados lá da escola.

Há uns anos, em plena reunião de avaliação, já não me lembro exactamente o que poderei ter dito para provocar a frase lapidar de uma colega de Alemão (a única daquela escola): "_ Mas eu ensino Alemão há mais de vinte anos e não sou fluente em Alemão..." Acho até que a senhora disse "não sei nada de Alemão". Claro. Mais uma brincalhona. Onde já se viu, uma pessoa ensinar aquilo de que entende!

A certa colega de informática, engenheira não sei das quantas, foi pedido que determinasse qual o sistema mais adequado para determinadas funções. Uma semana depois, lá apareceram os resultados: tantos registos vezes tantos dados, a tanto por dado, dá X de "memória de massa"; vezes tantos ficheiros, dá Y; logo, os computadores do sistema devem ser os que têm um disco rígido com capacidade igual a Y. Genial. Parece que agora está a dar aulas de Informática de Gestão, algures, com igual brilhantismo.

Nos meus tempos de estudante, onde isso já vai, chumbei em dois anos (3º e 5º) por causa de uma coisa que se chamava Ciências Físico-Químicas; naqueles bons tempos, se bem me lembro, passava-se "cortado" a uma Disciplina, mas não a duas; ora, já se sabe, raramente passei a Matemática, e nunca tive mais do que 10. Portanto, a questão para passar de ano era sempre "safar-me" a CFQ. Lembro-me perfeitamente daquilo que me fez chumbar, num ano e no outro: no 3º, foi por não saber o que é um "bico de Bunsen"; no 5º ano, foi por desconhecer a "natureza do nónio" que estava desenhado no teste. Em ambos os casos, se tivesse acertado naquelas duas perguntas... isso seria suficiente para o 10. Nunca utilizei um bico daqueles e acho que nunca vi um nónio na vida, Nosso Senhor lhes perdoe.

Sendo tecnicamente um perfeito imbecil, por não entender uma palavra de matematiquês, tive de, posteriormente, disfarçar: acabei por compreender alguma coisa de Matemática, cheguei à conclusão de que, afinal, aquilo não é nada de especial e, finalmente, passei a trabalhar quase exclusivamente com números, cálculos, fórmulas.

A diferença entre Matemática e matematiquês é a mesma que existe entre a Física e o fisiquês, a Química e o quimiquês, a informática e o informatiquês, a Língua Alemã e o alemanês, o Inglês e o inglamanês, o Francês e o françuguês ou entre qualquer Disciplina relacionada com Geografia e o correspondente "geografês". Existe uma linguagem própria, exclusiva para cada Disciplina curricular, em todos os graus de Ensino, que tem muito pouco ou nada a ver com a matéria à qual diz respeito. Para "passar", e mesmo com excelentes notas, ao estudante português não é exigido que saiba "a matéria", mas apenas que entenda e se desenrasque utilizando a linguagem concreta que se usa nas aulas respectivas. Por isso, é perfeitamente possível, natural, expectável, que um "bom aluno" passe com distinção a qualquer das cadeiras sem o mais ínfimo dos conhecimentos sobre os conteúdos.

Uma coisa é responder correctamente às questões de um teste, ou de um exame, outra bem diferente é compreender problemas, manusear soluções, resolver questões que o imediato e o quotidiano apresentam, em todas ou em qualquer das áreas do saber. Uma coisa é compreender a formulação específica escrita e responder conforme aquilo que "está no manual" ou "foi dito na aula", outra bem diferente é compreender uma situação real e responder conforme as circunstâncias. Em resumo, não existe necessariamente intersecção alguma entre aquilo que se "aprende", dentro do plano curricular e com os métodos pedagógicos aprovados, e aquilo em que de facto consiste o universo de conhecimentos de uma dada "cadeira".

Qualquer semelhança entre uma Disciplina nominal e a respectiva disciplina de conhecimento é mesmo pura coincidência. Um aluno "passa", ano após ano, com excelentes médias, acaba por se licenciar e provavelmente irá dar aulas, refluindo no sistema, sem nunca ter tido o mínimo contacto com a realidade intrínseca daquilo que suposta e teoricamente andou a estudar. E o processo repete-se, refina-se, torna-se cada vez mais paralelo: não é necessário saber falar e escrever correctamente em Português, Inglês ou Francês, para "ensinar" qualquer dessas Disciplinas; não é necessário, e torna-se mesmo um empecilho, saber seja o que for de Matemática para dar aulas de Matemática, ou de Geografia para leccionar I.D.E.S., por exemplo.

No caso da Matemática, o que citei por se ter passado comigo (logo, aquele que melhor conheço), o que acontecia era que o linguajar próprio dessa Disciplina exercia um estranho efeito de bloqueamento no meu cérebro; assim que lia, num teste, o início de qualquer pergunta ("considere a expressão..."), bloqueava imediatamente; já não conseguia raciocinar, pensar, fosse o que fosse ou sequer mexer-me; lembro-me de que desatava a suar; enfim, coisas daquelas ("seja o número..."), eram para mim como violentos pontapés na cabeça. Então quando a coisa envolvia os chamados "problemas", puff!, nada feito; não conseguia entender porque é que um pedreiro havia de construir 17,5 metros por hora e quantos metros por hora seriam construídos, em 45 horas, por dois pedreiros, "sabendo que" um deles era maneta e, portanto, presume-se, trabalhava metade do outro. Estas coisas nunca fizeram, pelo menos para mim, o mais ínfimo dos sentidos. E isso é que é "ser burro". Descobrir uma regra, determinar um padrão, formular matematicamente um processo, tudo isso são coisas que não interessam para nada.

Conceitos "farfalheiros", como burro, imbecil, idiota ou ignorante, decorrem por conseguinte não dos conhecimentos específicos, e da articulação entre eles, mas da capacidade reprodutora (ou reprodutiva) de conhecimentos nominais (gramática, regras, alíneas), se e quando debitados numa linguagem estabelecida.

O Passé Simple não existe, de facto, porque pode passar-se bem sem esse tempo verbal. A lógica informática pode bem ser a da batata, desde que se lhe espete um palito, a ver se está cozida. A capital da Guiné-Conacri é Bissau, como todos sabemos. Os rios nascem no mar, lá se diz na Ala dos Namorados, que era a estratégia utilizada por D. Nuno Pacheco Pereira na Guerra de Aljubarrota, no século XIX. O chorão é uma planta doninha, esse predador e carnívoro nocturno.

Caramba. O chorão é um mamífero. Está no manual.

comentários

04/05/05

Consultório sentimental (2)

o casamento
(...)
Estou casado há quase 17 anos e sinceramente já não sei o que mais fazer para (como se costuma dizer) "manter a chama acesa" com a minha mulher. Isto ameaça derrocada a qualquer momento. Já estamos fartos um do outro, como ela me disse há dias. E acredite que já fizemos de tudo, a ver se resulta e... nada, ou por outra, é cada vez pior. Não consigo ver nela hoje absolutamente nada do que via quando nos casámos (ou até aqui há uns anos atrás); acho-a chata, implicativa, sonsa, gorda e, deus me livre mas tenho de dizer isto, quer-me parecer que ela deu em tarada sexual, ninfomaníaca; invento de tudo para me ver livre de "cumprir o meu dever" conjugal, desde fazer serões lá no escritório, a inventar jantares de serviço, e disto e daquilo, passando por organizar jogatanas lá em casa, com os amigos. Tudo mesmo, a ver se me safo da estopada; é que aquilo agora, como aliás deve acontecer em qualquer casamento, é pumba-pumba-pumba, uma coisa mecânica, sem a mínima emoção; ainda me lembro (velhos tempos), de ir a correr para casa, quando saía do serviço, já a salivar só de pensar do que iria fazer nessa noite. Às vezes, a maior parte das vezes, nem esperava pela noite; pousava a mala e era ali mesmo, na sala, em pé e à ganância. Parecíamos coelhos, acredite!

O que eu queria, e talvez (pela sua experiência) me possa (nos possa) ajudar, era voltar a sentir alguma coisa, algum entusiasmo, no meu casamento. Não digo que tudo volte ao que era, porque bem sei que isso é impossível, mas ao menos um bocadinho de... olhe, amigo, exactamente, isso: gostava de voltar a ter a tesão que tinha com a minha mulher. E acho que ela também gostaria, não me parece que esteja tão farta disto como eu, mas de certeza que havia de lhe agradar que eu voltasse a comê-la regularmente; já não digo todos os dias (muito menos várias vezes ao dia, como nos nossos primeiros meses), mas pelo menos uma ou duas vezes por semana (e não por mês, como a coisa é agora, veja lá).

Enfim, será que me pode ajudar com algum conselho?
(...)

A. P. - Caxias
(recebido por e-mail)


Ó meu caro amigo, veja lá no que me mete, salvo seja. Um dos ditados populares mais conhecidos, e mais excepcionalmente certeiros, é "entre marido e mulher nunca metas a colher". Como o amigo deve saber, de resto, mas, visto que ainda assim escreveu, cá vai o que me parece.

Primeiro, e mantendo o assunto no campo das generalidades, note que aquilo de que fala é o que sucede a quase toda a gente, senão toda, que está casada há um "ror de anos". Dezassete anos é muito tempo. O casamento é o único acordo, ou contrato firmado, para ser mais exacto, através do qual se adquire um produto em processo de fabrico; o produto acabado surgirá fatalmente apenas com o decorrer do tempo. A gente assina o papel, todos contentes, pensando que aquela pessoa que ali está, jovem, bela, engraçada, cheia de vida e de saúde, vai ser assim "para sempre". Talvez por influência de Hollywood ("e viveram felizes para sempre") ou das fórmulas pronunciadas durante a cerimónia ("juro ser-te fiel até que a morte nos separe"), ou talvez porque a produção maciça de hormonas, nos primeiros anos de vida útil, nos impede de pensar, o facto é que a nenhum recém-casado ocorre que tudo aquilo não vale nada: o casamento é um processo de degradação alucinante.

E repare que estas coisas são hoje em dia incomparavelmente mais difíceis do que eram, por exemplo, há 100, 200 ou 300 anos. Ainda mais para trás, na Idade Média, as pessoas casavam em idades que hoje dariam cadeia pela certa, sob a acusação de pedofilia, mas a esperança de vida era de 25 ou 35 anos; logo, não custava muito aguentar a jura (ser fiel) até que um, ou ambos, fossem desta para melhor; "para toda a vida" era coisa de 10, 15, 20 anos no máximo. Hoje não é assim. Se é possível culpar alguém pelo fracasso sistemático e avassalador do casamento, culpe-se a classe médica, os biólogos, os cientistas que prolongaram a esperança média de vida até ao absurdo. Não custava nada jurar fosse o que fosse, e mesmo aguentar o casamento, durante uma ou duas décadas; e aí cumpria-se literalmente e honradamente a jura, porque era esse o espaço de uma vida.

Mas agora a coisa é um disparate. Jura-se na mesma quando, em vez de 15 anitos, aí uns 50 (cinquenta!) ou 60 (sessenta!), ou ainda mais, nos esperam. Como? Aguentar a mesma pessoa durante eternidades? Isso é absolutamente contranatura. O período máximo expectável, para que um casamento perdure, pouco mais ou menos, mantém-se nos quinze, máximo de vinte anos. Findo este prazo de validade, o que é normal é que as pessoas comecem tudo de novo, ou seja, que casem outra vez. A julgar pela evolução das ciências médicas em geral e da geriatria em particular, parece-me não ser exagero prognosticar três casamentos durante o tempo de vida útil: por hipótese, o primeiro aos 18, o segundo aos 36 e o último aos 54 anos de idade. Talvez dentro de um ou dois séculos seja mesmo possível, previsível, normalíssimo, que haja uma média de quatro casamentos por cabeça(*). Isto ele há malucos para tudo, até para casar uma série de vezes.

Agora sobre a questão propriamente dita. A daquilo a que chama, muito apropriadamente, "a tesão". Pois bem, tem tudo a ver. O amigo A. P. refere-se a esta mesma coisa de diversas formas, como "manter a chama acesa", "cumprir o dever conjugal", fala em semelhanças com os coelhos, procede a contabilidade sexual organizada, etc. Tudo espremido, vem a dar no mesmo: é naturalíssimo, e outra coisa não seria de esperar, que lhe falte agora o "entusiasmo"; pois que, perfeitamente, era só o que faltava era agora, ao fim destes anos todos, ainda andar o amigo a "comer" a sua mulher "regularmente". Regularmente, ao fim de 17 anos, é aquilo a que se chama "quando o rei faz anos"... e isso é que está certo, é natural e fica bem; o que não é natural e não fica bem é um branco de carapinha ou um preto de cabeleira loira. Agora lá isso! Deixe. Toda gente faz o mesmo. Ou não faz, a bem dizer. Não se rale. A sua Maria pula a cerca tantas vezes como o caro amigo, ou duvida? Ou pensa que ela não acha que, afinal, você, que era um tipo tão elegante, agora não "amanda" essa pança descomunal? Não é só o A.P. que está farto e já não dá uma prá caixa com a patroa. Podes crer, mano, ela também já vai dando as suas voltinhas.

Quer-se dizer: então julgava o amigo que aquela boazona, giraça, elegantérrima chavala de há 17 anos não ia engordar? Que ia ficar eternamente bela, submissa, e que ia ficar para sempre ali, com aquelas belas e apetitosas pernas abertas, à sua espera? Ah, pois, agora o sinalzinho que ela tem ao pé do queixo, e que antes lhe parecia amoroso, agora mete-lhe nojo, ai agora é uma "verruga horrorosa"? Adorava o cabelo, que ela trazia sempre comprido e limpo, mas agora detesta que ela largue penugem por tudo quanto é canto? Já não suporta que ela lhe mexa? Nem sequer nos trastes?

Pois, repito. É natural. Já todos ouvimos dizer que há umas excepções, algures, eu cá nunca vi nenhuma. Esteja descansado da vida. Trata-se de uma lei da natureza. Os achaques, os traques, os truques, as manias, as taras, os vícios, os tiques, as idiossincrasias, os gostos, os amigos e os inimigos, são tudo coisas que só se aturam se forem nossos e nossas, respectivamente; no outro, e de mais a mais todos os dias, é normal que apenas aguentemos durante uns tempos; uma geração, no máximo.

Não há volta a dar, desculpe que lhe diga. Aguente-se. Não se sinta empalitado, que não vale a pena. E, se lhe apetece continuar assim, também não se preocupe: não pode haver "ameaça de derrocada" naquilo que já está mais do que em ruínas. Quer um conselho? É deixar andar. Assim comássim. Se ela diz que "estão fartos um do outro", é porque ela está completamente farta de si. Tudo bem, as vidas a dois colam-se com cuspo. E só se destroem, só há mesmo derrocada, é quando a coisa se descobre. Desde que ninguém saiba, ou desde que toda a gente finja que não sabe, isso nem estremece; o pior é se houver um azar, se ou um ou o outro descobrem um flagrante; aí, você que era "uma jóia de moço" passa imediatamente à categoria de "paneleiro filho de uma ganda puta cabrão de merda"; e ela, coitadinha, deixa de ser o "meu amorzinho quiducho" e ficará doravante com o cognome de "puta do caralho hei-de foder-te os cornos que vais ver, ganda vaca".

Mas não há-de ser nada. Espero ter ajudado com estas singelas observações. Ao dispor.




(*) não é bem este o argumento, mas já viu o filme "Quatro Casamentos e Um Funeral"?

P.S.: "aqui há uns anos atrás" é Português aramaico; não existe, é possidonismo, é merdoso. Irra!

consultório sentimental (1)

comentários

Presidência toda aberta


Nosso primeiro-cavalheiro anda por aí, parece, a ver como param as modas no trânsito. Diz que se trata de "presidência aberta sobre sinistralidade rodoviária", ou coisa que o valha, o que representa notável inovação em tão prestigiosa actividade do mais alto magistrado da Nação.

O programa decorrerá ao longo de uns quantos dias e inclui umas viagens a bordo de viaturas topo-de-gama da GNR-BT, por essas auto-estradas fora, a 160 quilómetros à hora; o que, convenhamos, demonstra não apenas a temeridade do Presidente mas em especial a inconsciência dos nossos serviços secretos. Bem sabemos que a figura não é propriamente imprescindível, muitos duvidam até de que sirva para alguma coisa, mas ainda assim é arrepiante imaginar nosso PR a 160 à hora, na bisga, em qualquer via pública nacional. E tudo isso para quê? Por acaso não acredita o senhor no que lhe dizem ou no que lê nos jornais? É preciso ir pessoalmente verificar?

Em Portugal, só um idiota arrisca tal conferência. Num país onde é necessário demonstrar permanentemente os níveis de testosterona que produzem as glândulas de cada um, é perfeitamente idiota uma pessoa meter-se à estrada - a não ser em casos de absoluta necessidade.

Toda a gente sabe que "fazer pisca" à direita é gay; que as motorizadas não necessitam de ter o farolim ligado, nem de dia nem de noite (principalmente de noite), porque ligar o farolim é gay; que ceder a passagem é tremenda paneleirice, é gay até dizer chega; e então respeitar a regra da prioridade, isso é que é gay!

O acto de conduzir não é mais do que a extensão da nacional-paranóia que consiste em ter um comportamento o mais possível "macho". Escarrar no chão, comer alarvemente, falar aos berros, são alguns dos tiques rácicos da mesma etiologia que identificam e caracterizam o macho-latino portuga - seja ele homem, ou mulher, ou simplesmente paneleiro, tanto dá: ter comportamentos de macho não é apanágio exclusivo de machos, e para tal se aferir basta observar o comportamento das mulheres ao volante. São machas como tudo, ultrapassam pela direita, à má fila, utilizam uma linguagem cavernosa para insultar toda a gente (vai-te foder, ó cabrão!) e traduzem por gestos a doçura que tipicamente lhes vai na alma (por regra, o dedo médio esticado).

Em Portugal, cada automóvel é um veículo blindado privativo com o qual se pretende, não ir de um ponto para outro, mas simplesmente amachucar, esmagar, trucidar, liquidar todos os outros, os blindados inimigos. Ao automobilista nacional apenas falta, para se sentir inteiramente confortável ao volante, uma carlinga no tejadilho e uma peça de 70 mm no "capot"; se, em vez da porcaria da borracha nos pneus, aquilo tivesse lagartas, tanto melhor. Daí o fascínio pelo "tuning" das carcaças rolantes, o gosto pelos carrinhos "artilhados", a ânsia de ter um "jipe" cheio de cromados e com os pára-choques em aço rutilante.

A viatura de hoje é o conjunto cavalo e armadura da Idade Média. Arma de assalto, primordialmente, mas também - e principalmente - arma de arremesso social; é comum os portugueses reconhecerem-se, não pelos sinais e características de cada um, mas por marca e modelo:

_ Conheces o Artur(*), aquele que tem um BMW Z3(*) azul? Pois, o vizinho dele, não me lembra agora o nome, é o do Peugeot Impresa(*), bom palerma. Bateu no Audi A4(*), que é da mulher do Artur, tásaver, ganda nóia.

Ao fim e ao cabo, verifica-se em Portugal a lei axiomática de Ford(*): you are what you drive. O resto é verbo-de-encher. Por mais que os nossos políticos, intelectuais e "jet-set" em geral se esmifrem, rien ne vas plus, como sói dizer-se. Não será pois de estranhar que, imbuída a população deste espírito, tenhamos a mais elevada concentração de automóveis Ferrari do mundo, e também as mais altas taxas de sinistralidade, de mortalidade e de estropiados rodoviários - do mesmíssimo mundo, porque não há outro. Morrem nas estradas portuguesas, todos os anos, mais pessoas do que todas as vítimas da chamada guerra colonial, que durou mais de uma década.

O código-da-estrada funciona conforme a tipologia das viaturas; as regras não são as mesmas, em circunstância alguma, para todos; depende de factores como a cor, o preço, o aspecto, a marca, o modelo e o ano de fabrico da viatura; para ilustrar com um exemplo, qualquer Mercedes(*) tem absoluta prioridade sobre todos os Fiat(*), Opel(*) ou Subaru(*) que se apresentem pela direita; em caso de dúvida ou de conflito, aplica-se a regra do cacau, ou seja, quanto mais caro for o pópó mais razão tem.

O condutor português indigna-se amiúde, e manifesta a sua revolta, com a simples presença à sua frente (à frente dele) de qualquer Corsa com mais de dez anos. Mas o que anda este gajo aqui a fazer? Manda essa merda prá sucata, ó caramelo! Atão? Isto é assim? Anda lá com isso, porra, e vai-te catar.

Mas cá vamos, fingindo e rindo. Nosso presidente resolveu portanto juntar-se ao pagode e prestar-se a mais uma das fantochadas cíclicas tão do agrado de toda a gente. Honra lhe seja feita, mesmo muito provavelmente borrado de medo, e com a patroa a moer-lhe o juízo em casa, lá vai no banco de trás do Alfa Romeu(*) branco, a palmilhar que nem um herói quilómetros atrás de quilómetros do teatro de operações. Horrorizado, esgazeado, prometeu já mandar fazer umas coisinhas, como campanhas de sensibilização e assim, a ver se consegue, ao menos, disfarçar a vergonha que sente. Isto, claro, enquanto não se sentar ele mesmo ao volante da sua "bruta máquina". Aí, saiam da frente que é melhor.

(*) ou outra coisa qualquer

comentários

30/04/05


Estou maravilhado

Caro jpt : estás no teu direito de achar um perfeito disparate isto de serviços e conteúdos pagos. E de fazer humor com isso ;) Também ri com essa dos brasileiros, LOL!

Ao contrário de ti não acho que o futuro dos blogues passe por aqui. Ao contrário de ti, penso que o serviço de conteúdos e serviços pagos irá dar jeito a alguma gente com genialidade que pode, assim, ter uma forma de obter recompensa directa por algum do seu trabalho. Será uma pequena parcela de um todo imensamente mais vasto.

Espantar-te-ias se eu te contasse quantos bloggers já me perguntaram se não haveria forma de obterem receitas com o seu trabalho; nem todos estão nisto por puro prazer, alguns gostam de, de permeio com a escrita de puro prazer, produzir textos com outro alcance.
(...)


Devo concluir que:
a) textos com "outro alcance" não podem nem devem ser escritos por "puro prazer"
b) há gente "com genialidade" por aqui, algures (e adonde, exactamente?)
c) há quem não esteja "nisto" por "puro prazer", mas por causa da "forma de obterem receitas com o seu trabalho"
d) ao contrário um do outro, os autores da polémica acham e não acham, respectivamente, que "o futuro dos blogues passe por aqui" (onde?, já agora)
e) pode-se fazer humor e achar que é "um perfeito disparate isto de serviços e conteúdos pagos" (fico mais descansado, assim sendo)
f) o serviço de conteúdos e serviços pagos irá dar jeito a alguma gente (yá, fixe)
g) há não sei quantos bloggers que já perguntaram a outros "se não haveria forma de obterem receitas com o seu trabalho"
h) há recompensa directa pelo trabalho de cada um, logo também há-de haver alguma recompensa indirecta
i) ele há qualquer coisa, que não entendi bem o que seja, que será "uma pequena parcela de um todo imensamente mais vasto"
j) ele também há quem escreva tipo toucinho entremeado, uma fatia de "escrita de puro prazer", uma de "textos com outro alcance", e assim por diante
k) LOL é um termo técnico; quer dizer que os brasileiros têm piada
l) é melhor não me meter nestes assados, se tenho amor à pele
m) o tal jpt ficou informado de que possui um certo direito (ia-me passando, em sentido duplo)


(riscar o que não interessa)

comentários

sem comentários


Welcome to the club!

(só por causa das moscas, isto é a cause disto, em geral, daquilo, em particular, e ainda daqueloutro, em especial)

comentários

manahmanah, tu tu tururu


Nunca tinha reparado em que no "blogue" dos Marretas existe um link à música dos... Marretas, propriamente ditos. Pode ouvir-se o célebre "Manahmanah", essa brilhante partitura, AQUI; e vale bem a pena a espera pelo download.

Existe na Internet muita coisa sobre The Muppets. No excelente site oficial, integralmente em Flash, é possível recordar figuras extraordinárias como o cozinheiro sueco, o sapo Kocas (Kermit), o urso Fozzie, Miss Piggy, os dois velhotes do camarote (Statler & Waldorf), o cientista das experiências loucas e o seu assistente minúsculo, o falcão nacionalista, o baterista Animal, etc. Vale bem uma tarde inteira, este site.

Também vale a pena uma visita ao site do autor, Jim Henson.

_ The question is: what is a manahmanah?
_ The question is: who cares?

comentários

28/04/05

chega


Estou cansado. Cansado. Muito cansado.
Cansa-me o vento que não acaba
Cansa-me o sol que não se põe
Cansa-me a noite de descanso.
Estou muito cansado.
Que cansado que estou!
Estar vivo é uma canseira.
Uff, que cansaço!
Estou cansado
cansado
cansado.
Cansado e bom rapaz.
Nunca digas desta água não me cansarei.
Chega. Cansa até a paz.
Cansativa, essa rapariga,
essa luta, cansativa,
e também tu és, descansa.
Isto cansa, cansa, cansa.
Cansativo, isso, não quero mais
nem saber
nem ouvir ao menos.
Isto é isto e tudo o mais.
E já não sei o que seja.
E cansa ainda mais.
Cansa... cansa... cansa...
Estou cansado disto
tudo
principalmente
de dizer
que estou
cansado
cansado
cansado.
Chega de cansaço.
Chega.
Cansei.

comentários

27/04/05

A choldra


A Democracia, aos melhores, desgosta-os; aos mais inteligentes, persegue-os; aos mais honestos, calunia-os; aos mais cuidadosos da coisa pública, afasta-os. É de hoje. É de ontem. É de sempre. Que fica, então? Fica o bando dos malfeitores, dos sem consciência nem vergonha — profissionais da honra, profissionais do Dever, profissionais do patriotismo, profissionais da justiça, profissionais de tudo, fazendo de tudo profissão, até da infâmia!"
Alfredo Pimenta
(excerto copiado do blog Fascismo em Rede)


"Lisboa, Teatro São Luiz, noite de quinta-feira. Um telemóvel toca logo no início do recital do pianista português Artur Pizarro e é sonoramente atendido. O músico pára a execução da peça e retoma-a logo a seguir. Mais adiante, torna a ouvir-se outro toque, mas desta vez Pizarro não pára. A seguir ao intervalo, soa outro telemóvel, longamente, porque o proprietário nem se digna desligá-lo. Artur Pizarro deixa de tocar e diz à criatura "Atenda, que eu paro. Mas saia". E pega nas partituras, levanta-se e vai-se embora. Há burburinho na sala e é anunciado que o pianista não regressará. O dono do telemóvel que estragou a noite a Pizarro e ao público do São Luiz dirige-se à bilheteira para exigir o dinheiro de volta, porque o recital foi interrompido.
O telemóvel já substituiu a tosse cava e o barulhinho do papel de rebuçado como grande elemento perturbador nas salas de espectáculos. Mas o fenómeno não se deve apenas a um punhado de esquecidos crónicos que nunca desligam os telemóveis no teatro, no cinema, na ópera ou no recital, nem à falta de educação e consideração de meia dúzia de grosseiros, os mesmos que antes de haver telemóveis faziam barulho e falavam alto nos espectáculos. Ele é a manifestação de um mal-estar social muito maior.
O adolescente parvinho, o novo-rico cultural, o grunho das novas tecnologias, a cinquentona impertinente que se vão sentar numa plateia ou num auditório sem silenciar o telemóvel e o atendem ostensivamente enquanto os actores interpretam, os músicos tocam, o filme corre ou os cantores vocalizam, já não sabem ser espectadores. Perderam a noção do que é assistir a um espectáculo partilhado colectivamente. A sociedade em que nasceram e foram "educados" é uma sociedade que tem horror ao silêncio e só está bem no meio do barulho, incomode a quem incomodar. A cultura em que vivem é a da comunicação redundante, da palavra vazia, do falar para dizer nada mas até se ficar sem voz, alimentada pelas empresas de telecomunicações e pelas campanhas de publicidade.
No nosso mundo há educação a menos e som a mais. Admiram-se por isso que toquem cada vez mais telemóveis e sejam atendidos nas salas de espectáculos? Habituem-se!
"
Eurico de Barros (artigo publicado no DN)
(transcrito do blog Fascismo em Rede)


Anti-comunista primário de sempre, e para mais inveterado, andava eu buscando um texto de Alfredo Pimenta sobre o assunto ("se o Alemão combate o comunismo, sou pelo Alemão", era uma coisa assim), mas fui tropeçando em outros interessantíssimo textos, no mesmo blog. Acabei por não topar com o texto que procurava, mas o excerto e o artigo transcritos são, no entanto, perfeitamente adequados e ilustram à saciedade o fundo da questão: o ruído enquanto manifestação perceptível da infâmia. Será talvez um pouco forçada, esta associação entre os dois nacos de prosa, ainda por cima tendo eles sido escritos com décadas de intervalo e em registos completamente diferentes, por autores também diferentes. Porém, nem sei bem porquê, afinal, parece-me completarem-se perfeitamente.

Um, porque fala dos profissionais de tudo ("até da infâmia"), o outro porque refere o "horror ao silêncio"; a principal característica daquele género de profissionais é, por coincidência ou não, precisamente a da produção contínua e persistente do maior nível de ruído possível. Para os consumidores de causas, militantes da "igualdade, liberdade e fraternidade", cujas causas e palavras-de-ordem são, só por si, puro ruído, a vida é "uma luta" pelos "direitos cívicos", pelas "amplas liberdades", seja pelo que for de igual calibre - desde que lhes soe bem e desde que se possa gritar. O que os move não é o significado intrínseco daquilo que apregoam, e que serve de santo-e-senha entre os elementos da mesma espécie, mas apenas o som propagado (propagandeado, multiplicado), é o ritual litúrgico da berraria em grupo ou, à falta de melhor, o papagueamento absolutamente acéfalo de "ideias" tidas por correctas, impingidas e matraqueadas sistematicamente até ecoarem nos confins das massas.

Ruído. Barulho. Estridência libertária. Esvaziamento total de sentido (e de sentidos), eis a finalidade última da "verdade a que temos direito", como apregoam comunistas no seu Jornal do Seixal. O objectivo desses consumidores de causas, que são também, simultaneamente, os campeões mundiais da "bondade" e da "solidariedade", dessa gente amiga dos trabalhadores em geral e dos pobrezinhos em particular, é ensurdecer todos os ouvidos, embrutecer toda a inteligência, mergulhar tudo e todos num inferno de barulho palavroso, num pântano de ideias feitas, de fórmulas indesmentíveis, de primado absoluto da estupidez.

São aqueles que "estão em todas"; são os mais activistas, mas que não apreciam lá muito o trabalho; os que se batem pela liberdade, mas se estão nas tintas para a liberdade do seu semelhante; são os que falam muito e fazem pouco ou, de preferência, nada; são os dos "direitos adquiridos"; os que adoram fazer "pontes" no calendário e meter-se à estrada, mas não apreciam particularmente fazer pontes ou construir estradas; os que têm sempre uma opinião para tudo, mas nunca uma opinião própria sobre nada; são os mais "solidários" da rua onde moram, mas que são incapazes de abrir a porta a um vizinho doente; os que dão para todos os peditórios, mas viram as costas a qualquer pedinte; os que levantam o punho com os outros, em público, e o abatem sobre a mulher e os filhos, em privado. Dantes, chamavam-se "comunistas" e identificavam-se como tal. Hoje, tirando uns poucos mais teimosamente agarrados ao cavalo libertário, andam por aí com outras máscaras, democratas de alto coturno, entretidos a respeitar a Constituição e a desrespeitar os demais, a reivindicar mais, e mais, e mais, e dando sempre menos, e menos, e menos.

Produzindo ruído em contínuo, são donos do silêncio, dominam por isso o pensamento e a reflexão. Profissionais da choldra, tomaram por fim conta de tudo, agarrando e segurando com firmeza as cabeças das pessoas e dando-lhes, logo em crianças, uma injecção - não por detrás, mas cirurgicamente dentro dos ouvidos. Afinal, era verdade o que se dizia deles.

comentários

25/04/05

31


O Portugal "orgulhosamente só" desapareceu naquela madrugada. Agora, este país está orgulhosamente acompanhado. Era então o mais atrasado da Europa; hoje, é aquele que apresenta os mais baixos índices económicos e sociais. Entre uma e outra coisas, a diferença é muito mais do que terminológica: estávamos e estamos na chamada "cauda da Europa", mas agora isso diz-se de forma diferente.

Aliás, o saldo é francamente, para não dizer exclusivamente, semântico. Os tempos mudaram, de facto. Agora já não se diz "deficiente", mas "pessoa portadora de deficiência"; o antigo "cego" é agora "pessoa portadora de deficiência visual", ou simplesmente "invisual", num registo mais ligeiro e abreviado; já não existem "pretos" mas "africanos" ou, num registo menos formal, "pessoas de cor" ou ainda "elementos de minoria étnica"; a "disciplina" acabou, e em seu lugar surgiram coisas como "diálogo" e "compromisso"; terá sido finalmente descoberta a cura para o cancro, que agora se designa por "doença prolongada"; a criminalidade praticamente desapareceu, já que não existem criminosos, ladrões ou bandidos, mas apenas, respectivamente "arguidos", "alegados furtos" e "franjas de marginalizados".

Mas nem tudo se perdeu, mesmo a este nível. Resta, intacta, a chamada Liberdade. Com "L" maiúsculo, e másculo, e não por acaso. Vemo-la por aí, por todo o lado.

Qualquer cidadão nacional tem hoje toda a liberdade, e uma esplêndida oferta de serviços, para colocar grades de ferro nas janelas, para comprar circuitos fechados de vídeo (e alarmes, e "sprays" paralisantes, e tacos de basebol) ou arrendar os serviços de seguranças privados e mesmo de agentes da autoridade. Somos livres, somos livres de nos trancarmos nas nossa próprias casas, livres de nos barricarmos contra o mundo lá fora, livres de aprisionar a realidade fora de portas.

Qualquer português é livre de escolher, sem qualquer espécie de restrição e sem que lhe sejam feitas quaisquer perguntas, o local onde irá passar a noite, hoje, amanhã ou nos próximos anos: sendo por exemplo lisboeta, pode optar pela Praça da Figueira, Martim Moniz, Restauradores, Largo de Santos, ou mesmo qualquer átrio de centro comercial ou uma das estações de "metro", ferroviárias, rodoviárias, etc.; pode ainda, é totalmente livre de o fazer, escolher o material com que se irá cobrir, para se proteger da fresca, seja cartão canelado, jornais, serapilheira ou outro material espalhado pela cidade, gratuito e acessível.

Qualquer dos nossos compatriotas pode, hoje, em plena liberdade, emigrar para o país de sua escolha. Nos casos em que tal não é possível, o Estado garante os meios de subsistência suficientes para sobreviver durante 18 meses. De resto, ao cidadão é concedida a liberdade de se despedir, de permanecer com o estatuto de "desempregado de longa duração" pelo número de anos que lhe apetecer e, ainda, de se inscrever no Centro de Emprego da sua área de residência, caso tenha.

À população trabalhadora em geral, tanto aos trabalhadores por conta de outrem como àqueles que passam recibo verde, é garantida a liberdade de se furtarem absolutamente a qualquer espécie de responsabilidade, de competência, de assiduidade ou de lealdade, presumindo-se igualmente o direito inquestionável à fuga aos impostos, na medida das possibilidades e em função dos conhecimentos pessoais de cada qual.

Aos nossos concidadãos seniores é concedida a liberdade de circular em espaços públicos entre as 9 e as 17 horas, de 2ª a 6ª, e entre as 8 e as 20 horas em Sábados, Domingos e Feriados. Têm também a liberdade de apresentar queixa, junto das entidades competentes, no caso de serem assaltados, espancados ou apenas insultados pela juventude "irreverente". A esta, por seu turno, é garantida a liberdade total, absoluta, suprema, para todo e qualquer efeito, já que, em se tratando de presumíveis e legalmente inimputáveis delinquentes, devem ser protegidos por todos os meios contra a má vontade dos gerontes.

Aos frequentadores do sistema de Ensino, é também concedida a mais ampla das liberdades; podem, a seu bel-prazer, destruir património, depauperar o erário público, riscar automóveis, partir vidros e carteiras, agredir funcionários e professores, quando não os próprios pais; podem dar largas à sua criatividade, borrando qualquer parede que lhes dê na mona, ou à sua natural agressividade reprimida, assaltando os colegas mais betinhos, por exemplo.

Mesmo as classes mais "favorecidas", como empresários e outros malvados, mesmo esses possuem hoje uma protecção legal, têm agora direitos e liberdades com as quais nem sonhavam nos tempos "da outra senhora": têm toda a liberdade para abrir falência, fazendo reverter o valor patrimonial em favor dos seus familiares e os prejuízos e dívidas em favor dos seus ex-funcionários e do Estado; têm a liberdade de solicitar empréstimos a fundo perdido para modernizar a empresa e, com essa massa, comprar mais um Ferrari, ou levar a família num cruzeiro, ou pôr casa à Manuela, ou à Adélia, ou à Micas.

Às minorias étnicas, particularmente aos ciganos, é concedida a liberdade de conduzir sem carta-de-condução, de passar com distinção nos exames do Ensino Básico sem nunca terem frequentado as aulas e de poderem ocupar ilegalmente o terreno que lhes aprouver para instalar as suas barraquinhas tradicionais; a seu tempo, o Estado garantir-lhes-á também a liberdade de escolher a habitação, modelo e tipologia, com que serão presenteados por terem tido a bondade de deixar a barraca onde moravam (e que será cedida a outros, para eternizar o ciclo).

Enfim, seria fastidioso enumerar todas as amplas liberdades, ou arrolar toda a Liberdade, em todo o seu esplendor e nas suas diversas facetas, de que se goza hoje em dia neste país, abençoado naquela madrugada de 25 do 4. Dos três "D", então arrolados pelas sumidades madrugadoras, ao menos esta foi plenamente cumprida. A Descolonização foi a tragédia que se sabe, o Desenvolvimento não correu lá muito bem, porque éramos os últimos e os últimos somos agora, mas, ao menos, salvou-se a Democratização: no seu vértice fundamental, o da Liberdade que identifica e distingue, a "revolução" dos cravos triunfou em toda linha. Releiam-se os benefícios listados (mais os não listados por falta de vagar), e reflicta-se, se for o caso. É inegável. É isso e é a companhia.

comentários

Entre quatro Paredes


Crepúsculo (MP3 - 817 kb - Arcum.pt)

Inocência (MP3 - 566 kb - Arcum.pt)

Valsa (MP3 - 474 kb - Minehara.com)

Canção (MP3 - 663 kb - Minehara.com)

comentários

Olha! Gostei

Your Japanese Name Is...


Keiji Yamamoto




(a camisolinha cor-de-rosa e o ar apalermado é que se dispensavam, mas tá bem. Keiji Yamamoto. Banzai.)

comentários

23/04/05

Papamobile



João XXIII

Paulo VI

João Paulo II

Bento XVI

D. José Policarpo





imagens de:
my.net-link.net/
www5a.biglobe.ne.jp/
jamillan.com/
www.hobbytron.net/media
moveisdavovo.vilabol.uol.com.br

comentários

22/04/05

clap clap clap clap


1 - Se me der para opinar seriamente, cobro 2 euros.
2 - Se me der para opinar ironicamente, 2 euros, mais 50 cêntimos, pelo desgaste.
3 - Por cada quadro que descaradamente roubo por aí, e sendo eu, ainda assim honesto o suficiente, pois coloco sempre o link para a fonte original ou nomeio o autor, irei apenas cobrar 50 cêntimos (uma pechincha! - não encontrarão mais barato).
4 - Tendo este blogue algumas rubricas que a espaços aqui aparecem, tenho, digo eu, uma vantagem: é que são coisas totalmente discorridas pela minha cabecinha, originalíssimas!, logo coisa a cobrar um justo valor, pelo esforço e pelo génio: 5 euros.
5 - As baboseiras avulsas, essas, e por enquanto, são de graça, para chamar a clientela.

aqui há rato

E não é que há mesmo? Já "aqui há atrasado" (e, se calhar, há mesmo), tive a suprema lata de opinar sobre o assunto. O vizinho R estará talvez um pouco desactualizado e quiçá ligeiramente distraído, quando refere apenas imaginar "as fortunas que por aí vão nascer"; os casos, não de fortunas por aí além mas de verdadeiros pés-de-meia, já são bastantes, são assim, ó, pimba pimba, dia sim dia não. Desde que escrevi aquelas modestas premonições, com o bruxolítico títalo de "Vê Se Te Avias" (12.11.04), já muito mais coisas e ilustres anónimos saltaram para a pantalha, para as luzes da ribalta, para outros sítios, certamente, e com outros saltos.

Este tipo de apreciações, o metabloguismo em geral e o interbloguismo em particular, quando circulando no mesmo meio que se aparenta criticar, são altamente escorregadias: a coisa pode facilmente ser confundida (e com alto grau de probabilidade) com a mais pura, genuína, portuguesíssima "dor de cotovelo". É a velha e compreensível lógica do "mas o que é que este gajo tem que eu não tenha" e se, na maior parte dos casos, a perplexidade até poderá ser aceitável (ganda merda, ó pra este, eu cá escrevo muito melhor), a ideia que fica - em especial para os blogs visados - é, simplificando, essa coisa terrível chamada inveja. Sob esse labéu, por mais ligeiro que seja o odor, não há argumento, nem razão, nem motivo, nem indignação que resista. "Cambada de invejosos", é a consideração imediata (nunca leu isso, por aí, ó amigo R?), e a mais olímpica das indiferenças é a resposta mais óbvia. Faz parte da tradição do nosso medíocre estrelato blogosférico, é mesmo condição sine qua non para a manutenção desse efémero e ridículo estatuto, a construção de uma identidade intangível, inatingível, indiferente; uma entidade morcona, por assim dizer, que protege as nossas estrelinhas das entrelinhas.

Considera-se geralmente a chamada "blogosfera" como um espaço de liberdade. Nada mais falso. As reais identidades (não confundir com identidades reais) sobressaem não pelo que dizem mas pelo que não dizem; cultiva-se a bajulação, descaradamente, por meios técnicos (os sistemas de comentários são o mais flagrante) e através de circuitos fechados de amizade e influência (almocinhos, jantarinhos, encontrinhos e outros pantagruélicos pretextos). Isto no caso dos bloggers tipo Guterres (sempre de bem com todos, o diálogo, a concertação, etc.), que são os que apenas buscam a edição de um livrito, uma colunazinha de jornal, ou assim. Porque há também o blog tipo Con-Bendit (revolucionário, amigo de lutas e de barricadas) de autor anónimo (segredo de Polichinelo, mas producente), aquele que parece provocar de facto, agitar, inovar, criar algo de novo. Sem equívocos: é a mesma coisa, com duas abordagens ligeiramente diferentes. No fim, o objectivo é sempre o mesmo, como em tudo na vida (lá diria o inefável ex-primeiro-ministro), e também isso não tem nada de ilegítimo. Realmente, não existe mal nenhum em que o talento se faça pagar. O vil metal, a projecção mediática, o reconhecimento público ou a mais simples e efémera das famas, tudo pode ser paga, e pago.

Tenho para mim que o ponto bate apenas num pormenor: àqueles e àquelas a quem vão saindo uns décimos premiados, aqui no blogbairro, deveria (ao menos) ser exigido que soubessem escrever (ao menos) em Português e que tivessem (ao menos) um módico de modéstia. É irritante, concordo, não perceber, não pescar um único gambozino sobre os motivos pelos quais este vizinho ou aquela vizinha são "descobertos" pelos caçadores de talentos do "establishment" editorial, redactorial ou mediático. Chateia não saber quem são esses "caçadores", onde se acoitam e porque se escondem, ou mesmo quem lhes disse que sabem sequer ler. Torna-se maçador, em suma, não ter a mínima pista sobre os putativos méritos discursivos de quem não sabe, obviamente, sequer escrever.

Este "fenómeno", mistério impenetrável da santíssima imbecilidade, poderá talvez ser ilustrado com um episódio passado na pré-história, há muito muito tempo, quando ainda não existiam blogs.

Pablo Picasso estava a jantar com a esposa e uns amigos, num restaurante manhoso, como gostava, algures no México. Na mesa ao lado, embasbacando para o "mestre", uma família típica americana. O "camone" pai acaba por não resistir, abeira-se do pintor e pede-lhe um "souvenir", que lhe desenhasse qualquer coisa.

Picasso pensa um momento, puxa de um guardanapo, traça-lhe um risco, um ponto em cima, um ponto em baixo, e assina: Pablo Picasso.

_ Cinco mil dólares, diz, entregando o guardanapo ao turista atónito.
_ Cinco mil dólares! Ora essa! Você levou no máximo 10 segundos a fazer isto!
_ Não, responde Picasso, eu levei sessenta e sete anos a fazer isso.

Pois, bem sei. Isto não tem nada a ver. Mas é giro.

comentários

Mas bocês não acertam uma, carago?!

You Are 60% Normal(Really Normal)

Otherwise known as the normal amount of normal
You're like most people most of the time
But you've got those quirks that make you endearing
You're unique, yes... but not frighteningly so!

comentários

21/04/05

piercings no âmago


Vai-se tornando um pouco enjoativo o espectáculo. Cada vez circulam mais, e cada vez mais perto, jovens meçoilas impudentes e imprudentes, cravejadas de coisas metálicas em tudo o que é sítio, visível e (presume-se) invisível. Ontem, precisamente, dei comigo a questionar um empregado de café sobre este algo que muito me encanita. E pespeguei-lhe em segredo, longe de ouvidos indiscretos, a seguinte, tremenda, porém subtil dúvida existencial:

_Ó amigo. Se uma mulher já tem, de sua natureza, três buracos úteis, qué-se dezer, cada um com a sua finalidade, para que raio insistem elas em ter mais um ou dois?

O chavalo encavacou, rodou nos calcanhares, foi-se na sua, um sorrisinho monalisiano engatilhado. Acho que não entendeu a pergunta, mas nunca se sabe.

comentários


bálhamedeus

(imagem vislumbrada no blog "quero casar já"; quer casar, santinha? E já, assim de repente? Ora, ora, vá lá. Aguente-se um bocadinho. Vai ver que não demora nada.)

comentários

19/04/05

Teoria geral da mine


A mine é uma invenção portuguesa. Provavelmente, não existirá nada de semelhante em mais parte alguma do mundo. Será talvez a coisa mais genuinamente nacional, ganhando em fama, por exemplo, ao sextante, e de capilota. Uma garrafa de cerveja que difere das outras apenas pelo facto de levar menos uns quantos centilitros, eis a prova do génio criador português. Qualquer estrangeiro que nos visita fica positivamente embasbacado, aí pelas nossas tascas, ao ver a quantidade de mines que vão saindo. É, de facto, espantoso.

A lógica intrínseca da mine reside na hipocondríaca pancada tão nossa, esta quiçá atávica mas ainda assim absolutamente idiossincrática mania da saúde; o português típico, o das tascas e do desenrasca, pensou genesiacamente assim: ora, portantos, se uma cerveja tem álcool e o álcool faz muito mal à saúde, portantos, se uma mine tem menos cerveja, tem menos álcool, logo, portantos, faz menos mal à saúde; ora, portantos, se uma mine faz menos mal à saúde do que uma cerveja normal, então se eu beber vinte mines, faço menos vinte vezes mal à saúde. Portantos, quanto mais mines, mais saúde!

Ora, realmente. Está bem visto e confere. Basta um périplo observatório pelos estabelecimentos de comes-e-bebes, assim pela fresca, ao fim da tarde, e rapidamente se constata que esta teoria da mine é altamente levada à prática. O trabalhador português instala-se à mesa do café, ou em pé, ao balcão, por volta das cinco ou seis da tarde, e bem depressa andam as mines numa roda viva; também há quem despache umas quantas cervejas "médias", e outros vão mais para a Imperial (ou "fino", conforme se esteja acima ou abaixo de Aveiro), mas a maioria do vasilhame aviado é de mines; sem dúvida. Qualquer tipo da mine acha que perfeitamente, que não é nenhum bêbedo, esses gajos da cervejola é que são, eu é que não sou parvo, tenho muito cuidadinho com o fígado, olha lá, isso de cerveja a mais dá cirroses e faz barriga, eu cá não caio nessa, etc., isto é o povo a pensar.

Por volta das sete ou oito da noite, já está tudo com uma tosga homérica, tanto os imprudentes dos 33 cl como os prudentes dos 20 ou 25 cl, mas estes estarão certamente muito mais satisfeitos, porque eles bebem por consciência e os outros por inconsciência. Uns por amor à boa forma geral, outros porque são uma cambada de borrachões.

Beber mines é uma coisa que não tem nada a ver com beber e, aliás, até o termo "mine" é muito menos brutal do que "cervejola", esse veneno que nunca mais acaba. O adepto da mine chega ao ponto de pedir mais uma de forma quase carinhosa, diz "uma minezinha", e acrescenta, profundamente conhecedor, o olho já rebrilhando: "Sagres!"

Parece que a Sagres não faz "tão mal" como a Super Bock, e muito menos do que essas porcarias estrangeiras que há por aí. Então, está-se mesmo a ver que a coisa é por motivos de saúde, beber minezinhas é uma coisa quase medicinal, de certa forma é como cumprir "ordens do médico". É curioso notar que o português típico revela facetas de comportamento absolutamente prototípicas, em diversas situações e particularmente na muito difundida actividade de "ir ao café"; regra geral, o pedido de mais uma minezinha é acompanhado de um gesto característico, a mão amparando a zona do estômago, na cara já corada rasgando-se um esgar de dor, a fim de atestar a condição debilitada da pessoa que, se pede a mine, é porque não se sente lá muito bem, anda com achaques, está bem precisado, em suma.

A propósito desta designação tão genuína, "mine" ou "minezinha", convém notar que nosso povo (acima de Santarém) demonstra uma total incapacidade fonética para a reprodução do "i" em posição final; nosso povo diz "martine" (ou, mais propriamente, "martinezinho"), esparguete em vez de spaghetti (ou espargueti), e assim por diante, Lamborghine, Olivette, Bugatte, sempre com "e" surdo. Mesmo nas zonas mais a Sul do país, onde é costume terminar todas as palavras com "i" (tardi, compadri, gostari), mine fica mine e martine martine, sem oscilação.

Curioso será notar também que outra característica absolutamente, verticalmente portuguesa, e que faz parte integrante deste desporto nacional da ida ao café, é que nunca ninguém entende à primeira quanto tem a pagar. Repare-se com atenção: nove em cada dez portugueses que pedem a conta, ou que perguntam "quanto devo", imediatamente, por vezes mesmo antes de o empregado dizer qualquer coisa, por exemplo, "dois euros e setenta", já vão perguntando: "quanto?" Por vezes, metade das vezes, ainda engonham mais: "dois euros e quanto?" ou "ora, dois euros e...?"

E depois há a questão dos carcanhóis. Ou seja, uma mine (25 cl) custa actualmente cerca de 75 cêntimos (150 paus dos antigos); a velha cervejola (33 cl) fica à volta de 90 (180 merréis); ora, basta uma regra de três simples (25 está para 70 assim como 33 está para X, ou trocando os factores) para verificar esta impenetrável verdade: o raio da mine é cara como o raio, comparativamente. Com o equivalente, em termos de custo, a dez mines (dois litros e meio, sete euros e meio), emborcam-se mais de oito biérres inteirinhas (quase três litros pelo mesmo preço); em qualquer dos casos, é uma cardina jeitosa, mas custa a entender como pode alguém ser tão estúpido e, de qualquer forma, os números figuram aqui a título ilustrativo, já se sabe, ninguém bebe tanto assim.

É muito engraçado, isto das mines e dos trocos. Um dia destes, a ver se conto mais. Agora vou ali à tasca estudar mais um bocado.

comentários

DESENVOLVIMENTO-PORTUGAL

LISBOA, 21 Setembro (IPS)

Os indicadores económicos e sociais, periodicamente divulgados pela União Europeia (UE), colocam Portugal em níveis de pobreza e injustiça social inadmissíveis para um país que integra, desde 1986, o "clube dos ricos" do Velho Continente. Mas o golpe de misericórdia foi agora dado pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económicos (OCDE): nos próximos anos, Portugal ir-se-á distanciar ainda mais dos países avançados. A produtividade mais baixa da UE, escassas inovação e vitalidade do sector empresarial, educação e formação profissional deficientes, má utilização de fundos públicos, com gastos excessivos e resultados magros, são dados realçados pelo relatório anual sobre Portugal da OCDE, que reúne 30 países industrializados.

Ao contrário de Espanha, Grécia e Irlanda (que fizeram também parte do "grupo dos pobres" da UE), Portugal não soube aproveitar para o seu desenvolvimento os avultados fundos comunitários que fluíram continuamente de Bruxelas, durante quase duas décadas; sobre isto coincidem as opiniões de analistas políticos e económicos. Em 1986, Madrid e Lisboa ingressaram na então Comunidade Económica Europeia com índices similares de desenvolvimento relativo e, há apenas uma década, Portugal ocupava um lugar superior à Grécia e à Irlanda no "ranking" da UE. Porém, em 2001, foi facilmente superado por esses dois países, enquanto a Espanha já se aproxima da média comunitária. "A convergência da economia portuguesa com as mais avançadas da OCE parece ter parado nos últimos anos, cavando uma brecha significativa nos rendimentos per capita", afirma a organização. No sector privado, "os bens de capital nem sempre são utilizados ou aplicados com eficácia, e as novas tecnologias não são adoptadas rapidamente", segundo a OCDE. "A força laboral portuguesa conta com menos educação formal que os trabalhadores de outros países da UE, inclusive os dos novos membros, da Europa central e oriental", refere o documento.

Todas as análises sobre as cifras investidas coincidem em que o problema central não está nos montantes, mas nos métodos utilizados para a sua distribuição. Portugal gasta mais do que a grande maioria dos países da UE na remuneração dos funcionários públicos, em função do produto interno bruto, mas não consegue melhorar significativamente a qualidade e a eficiência dos serviços.
Com mais professores por rácio de alunos do que a maior parte dos membros da OCDE, nem assim consegue uma educação e uma formação profissional competitivas face ao resto dos países industrializados. Nos últimos 18 anos, Portugal foi o país que mais benefícios recebeu, em sede de auxílio comunitário. No entanto, depois de nove anos a aproximar-se dos níveis da UE, começou em 1995 a regredir e as perspectivas actuais indicam ainda maior distância.

O que foi feito dos fundos comunitários? Esta é a pergunta mais repetida em debates televisivos e em artigos de opinião dos principais jornais do país. A resposta mais frequente é a de que o dinheiro serviu para engordar as contas de quem já tinha mais.

Os números indicam que Portugal é o país da UE com maior desigualdade social e com os salários mínimos e médios mais baixos da UE, pelo menos até ao dia 1 de Maio de 2004, quando se passou de 15 para 25 nações. Também é o país em que os administradores de empresas públicas têm os vencimentos mais altos. O argumento mais frequente dos executivos indica que "o mercado decide os salários". Consultado pelo IPS, o ex-ministro das Obras Públicas (1995-2002) e actual deputado socialista, João Cravinho, desmentiu esta teoria. "São os próprios administradores que fixam os seus salários, atirando as culpas para cima das leis do mercado", declarou. Nas empresas privadas com participação estatal, ou nas estatais com accionistas minoritários privados, "os executivos fixam os seus vencimentos astronómicos (alguns chegam a 90.000 dólares mensais, incluindo bónus e regalias), com a cumplicidade dos accionistas de referência", explicou Cravinho. Estes mesmos grandes accionistas "são, por sua vez, altos executivos, e todo este sistema, no fundo, funciona em prejuízo do pequeno accionista, que vê uma grossa talhada dos lucros ir parar às contas bancárias dos quadros superiores", lamentou o ex-ministro. A crise económica que estancou o crescimento português nos últimos dois anos "está a ser paga pelas classes menos favorecidas", disse.

Esta situação de desigualdade transparece a cada dia com os exemplos mais variados. O último é a crise do sector automóvel. Os revendedores queixam-se de uma queda de quase 20 por cento nas vendas de automóveis de baixa cilindrada, com preços entre os 15.000 e os 20.000 dólares. Mas os representantes de marcas de luxo, como a Ferrari, a Porsche, a Lamborghini, a Maserati e a Lotus (veículos que valem mais de 200.000 dólares), lamentam não dar vazão a todos os pedidos, perante um aumento de 36 por cento na procura.

Alguns estudos sobre a tradicional indústria têxtil lusa, que foi uma das mais modernas e de maior qualidade do mundo, demonstram que está paralisada, já que os respectivos empresários não efectuaram os ajustamentos necessários para actualizá-la. Porém, a zona Norte, onde se concentra o sector têxtil, tem mais automóveis Ferrari por quilómetro quadrado do que a Itália. Um executivo espanhol de informática, Javier Felipe, disse ao IPS que segundo a sua experiência com empresários portugueses, estes "estão mais interessados na imagem que projectam do que no resultado do seu trabalho". Para muitos, "é mais importante o automóvel que conduzem, o tipo de cartão de crédito que podem exibir ao pagar uma conta, ou o modelo do telemóvel que possuem, do que a eficiência da sua gestão", disse Felipe, esclarecendo que existem excepções. "Tudo isto vai modelando uma mentalidade que, no fim de contas, afecta o desenvolvimento de um país", acrescentou.

A evasão fiscal impune é outro aspecto que inviabilizou a optimização do sector público com efeitos positivos potenciais na superação da crise económica e do desemprego, que este ano chegou a 7,3 por cento da população economicamente activa. Os únicos contribuintes líquidos para os cofres do Estado são os trabalhadores contratados, que descontam com o seu vencimento. Nos dois últimos anos, o Governo decidiu aumentar a carga fiscal sobre esses mesmos, mantendo situações "obscenas" e "escandalosas", segundo o economista e comentarista de televisão António Perez Metello. "Em vez de anunciar progressos na recuperação dos impostos daqueles que continuam a rir-se na cara do fisco, o Governo (conservador) decide sacar uma fatia ainda maior daqueles que já pagam o que é devido, e deixa incólume a nebulosa dos que fogem ao fisco, sem coerência ideológica, sem visão de futuro", criticou Metello. A prova foi exposta numa coluna de opinião de José Vítor Malheiros, na passada terça-feira no jornal "Público", de Lisboa, que fustiga a falta de honestidade na declaração de impostos dos chamados profissionais liberais. Segundo esses documentos entregues ao fisco, médicos e dentistas declaram rendimentos anuais de, em média, 17.680 euros (21.750 dólares), os advogados de 10.864 (13.365 dólares), os arquitectos de 9.277 (11.410 dólares) e os engenheiros de 8.382 (10.310 dólares). Estes números indicam que por cada seis euros que pagam ao fisco, "roubam nove à comunidade", já que estes profissionais não dependentes deveriam contribuir com 15 por cento do total do imposto sobre os rendimentos do trabalho e apenas são tributados seis por cento, disse Malheiros. Com a devolução de impostos no encerramento do ano fiscal, estes "roubam mais do que pagam, como se um talhante nos vendesse 400 gramas de bife e nos obrigasse a pagar um quilo, e existem 180.000 destes profissionais liberais que, em média, nos roubam 600 gramas por quilo", comentou com sarcasmo. Se um país "permite que um profissional liberal com duas casas e dois automóveis de luxo declare rendimentos de 600 euros (738 dólares) por mês, ano após ano, sem ser minimamente questionado pelo fisco e, ainda por cima, recebe um subsídio do Estado para ajudar a pagar o colégio privado dos seus filhos, isto significa que o sistema não tem moralidade alguma", sentenciou.
(FIN/2004)

(tradução do original em Castelhano, publicado no blog "A Menina Dela")


comentários

15/04/05

Água (de coco) na boca

Alguns resolveram ficar. Despediram-se dos amigos, devolveram os cartões de crédito, deitaram fora os papéis lá nos escritórios e mudaram-se para cá. Passam então a ser chamados pelo nome. Vêm apenas com um pequeno saco de viagem onde não há quase nada de roupas, além de vários calções de banho. Compreende-se.

Faccioso

Este homem vive nas Cocos (Keeling) Islands e é de lá que, à sombra dos coqueiros, escreve os seus "posts" com o portátil nos joelhos. Em Português, do outro lado do mundo, ainda tem paciência para falar das coisas que se passam do lado de cá.

Ora, finalmente, um "blog" que faz todo o sentido. Escusado será dizer: take it easy, mate!


(marcar viagem AQUI)

comentários

14/04/05

Poema do alegre desespero

Compreende-se que lá para o ano três mil e tal
ninguém se lembre de certo Fernão barbudo
que plantava couves em Oliveira do Hospital,

ou da minha virtuosa tia-avó Maria das Dores
que tirou um retrato toda vestida de veludo
sentada num canapé junto de um vaso com flores.

Compreende-se.

E até mesmo que já ninguém se lembre que houve três impérios no Egipto
(o Alto Império, o Médio Império e o Baixo Império)
com muitos faraós, todos a caminharem de lado e a fazerem tudo de perfil,
e o Estrabão, o Artaxerpes, e o Xenofonte, e o Heraclito,
e o desfiladeiro das Termópilas, e a mulher do Péricles, e a retirada dos dez mil,
e os reis de barbas encaracoladas que eram senhores de muitas terras,
que conquistavam o Lácio e perdiam o Épiro, e conquistavam o Épiro e perdiam o Lácio,

e passavam a vida inteira a fazer guerras,
e quando batiam com o pé no chão faziam tremer todo o palácio,
e o resto tudo por aí fora,
e a Guerra dos Cem Anos,
e a Invencível Armada,
e as campanhas de Napoleão,
e a bomba de hidrogénio,
e os poemas de António Gedeão.

Compreende-se.

Mais império menos império,
mais faraó menos faraó,
será tudo um vastíssimo cemitério,
cacos, cinzas e pó.

Compreende-se.
Lá para o ano três mil e tal.

E o nosso sofrimento para que serviu afinal?

António Gedeão

(fonte: As Tormentas)

comentários